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Domenico Losurdo no Brasil: uma crítica ao imperialismo que desarma os trabalhadores

Edison Salles

 

Domenico Losurdo é um nome bastante conhecido na esquerda acadêmica brasileira. Muitos pesquisadores e docentes progressistas acostumaram-se a consultar suas obras em busca de apoio na crítica ao pensamento burguês, liberal e conservador. Suas últimas publicações no Brasil, uma denunciando a nova forma da bonapartização da democracia nos países capitalistas ocidentais; outra propondo uma biografia intelectual de Nietzsche que revela o aristocrata e reacionário por trás da figura do “rebelde incompreendido”, dão uma boa mostra do interesse que o pensamento de Losurdo pode exercer nos que buscam trincheiras para “resistir” no mundo da academia hegemonizada pelas ideologia dominante.

Até por isso, não deixa de ser chocante vê-lo desvelar suas próprias misérias, ao falar para um público mais restrito sobre como vê as perspectivas do novo século, a partir de uma visão de nenhum modo original acerca da história do que findou. Cumprindo um calendário de atividades em diversas universidades no estado de SP, entre outras, Losurdo parece ter até sido obrigado a fazer um ajuste de rota para evitar maiores polêmicas. Pelo menos é o que transpareceu para os que acompanharam seus primeiros debates, na USP e no campus de Marília da UNESP, e os seguintes, na UNICAMP e na PUC-SP. Se nos dois primeiros Losurdo buscou discutir as perspectivas para o socialismo no século XXI, nos dois últimos, de maneira bastante mais modesta, limitou-se praticamente à exposição do livro que estava sendo lançado durante sua turnê (A Linguagem do Império, Ed. Boitempo). Vários dos jovens envolvidos no projeto da Iskra pudemos participar desses debates, buscando questionar a visão oferecida pelo autor e levantar discussões essenciais para a estratégia marxista hoje.

Nos debates em que mais expôs suas perspectivas políticas, Losurdo começou com uma crítica aos fazedores de analogias históricas, “demonstrando” que estas sempre levaram a catástrofes. Para tanto, procurou igualar os exemplos de Stalin, de Lin Biao (o burocrata que desafiou Mao e foi assassinado pouco antes da famigerada “Revolução Cultural” maoísta) e de… Trotsky (!).

Por mais desagradável que possa ser ter que entrar num atoleiro desses, vale a pena citar os exemplos de analogia que Losurdo queria ridicularizar, suficientes para mostrar que dessa comparação o único que sai “caindo no ridículo” é o próprio Losurdo: de Stalin, comentou sua “previsão”, de 1952, de que Alemanha e Japão teriam de vingar-se da derrota sofrida e lançariam contra os EUA uma nova guerra imperialista; de Lin Biao, comentou a “previsão” de que a estratégia de Mao na China, de cercar as cidades a partir do campo, seria seguida vitoriosamente em todos os países oprimidos. E de Trotsky, comentou sua previsão, feita em 1938, de que a segunda guerra mundial daria origem a situações revolucionárias como as advindas da primeira guerra. Losurdo buscava igualar o prognóstico correto do revolucionário russo, que de nenhuma maneira significava ignorar as particularidades da nova guerra – em particular no tocante à necessidade de defesa da URSS contra os ataques imperialistas –, com as bobagens burocráticas dos chefes stalinistas que ele mesmo, Losurdo, descarta… apenas para tentar redimir Mao como continuador de Lênin.

Seguindo e, para não cansar o leitor, sintetizando a exposição de Losurdo:

O pensador italiano buscou explicar por que existia o “terceiro mundo”, e descreveu como as situações de subdesenvolvimento se deviam centralmente a dois fatores: de um lado, a “construção do subdesenvolvimento” pelo imperialismo, cujos exemplos maiores seriam os da China e da Índia, que tiveram uma enorme queda em sua participação no PIB mundial entre o início dos anos 1800 e a metade do século passado. De outro lado, a falência dos movimentos revolucionários no mundo colonial de completarem as tarefas de libertação nacional com as de desenvolvimento econômico; aqui deu o exemplo do líder revolucionário haitiano Toussant-Louverture que, após triunfar na luta militar contra o exército francês de Napoleão, foi acusado de traidor e derrotado por seus pares, justamente por propor um plano de desenvolvimento que entre outras coisas aproveitasse os saberes técnicos e científicos dos quadros brancos formados pela antiga metrópole.

Indo além do exemplo haitiano, Losurdo apontou como os EUA tiveram política para levar as revoluções à derrota pela fome (caso da ex-URSS, de Cuba e da China).

 Para ele, o novo século estaria mostrando um novo movimento de ascenso das revoluções “anti-imperialistas e anticoloniais”, cujos protagonistas seriam a China, alguns países africanos e, sobretudo, latino-americanos. Não sem algum pasmo do público, Losurdo listou entre estes: Venezuela, Bolívia, Brasil (!), Nicarágua (!) e Paraguai (!!).

Enfim, voltando à fala de Losurdo, para ele estaríamos diante de um fortalecimento de uma frente anti-imperialista que está crescendo no mundo, e a questão principal é que a esquerda ocidental não apoia isso porque está muito influenciada pelo discurso dos Direitos Humanos propagado pelos porta-vozes do próprio imperialismo – quando na verdade é este o principal violador dos DDHH e o veículo da barbárie (exemplos: Abu Ghraib, Guantánamo, Palestina).

A sua conclusão é então: que a China está quebrando o monopólio imperialista sobre a tecnologia, e que ela dá um novo impulso ao pensamento socialista, ao mesmo tempo em que encabeça o grande movimento anti-imperialista. E, finalmente que, para entender essa nova situação seria necessário “fazer a análise concreta da situação concreta”, sem recorrer a analogias (ou seja, buscou usar uma frase solta de Lênin para enfeitar um raciocínio fundamentalmente oposto ao espírito de toda a obra leninista).

Trocando em miúdos, e sintetizando aqui as intervenções de crítica que realizamos: Losurdo propunha que abandonássemos a defesa dos DDHH para poder abraçar a ditadura totalitária do PC chinês – engolindo por tabela sua propaganda de que o que existe na China hoje é apenas o “socialismo com características chinesas”, e não o mais selvagem capitalismo – assim como governos burgueses de traços bonapartistas (como o de Chávez na Venezuela), e ainda propunha que confundíssemos a existência de algumas disputas parciais geopolíticas e econômicas (como as que podem existir hoje entre Brasil e EUA) com a existência de um “combate anti-imperialista”.

A erudição de Losurdo – e inclusive sua eloqüência na denúncia dos crimes imperialistas – padeceu durante todo o tempo do mais elementar critério de classe. Não fosse assim, seria claro que o lugar dos marxistas é defendendo a luta e a organização independente dos trabalhadores em todos os países – da China ao Brasil, do Irã à Venezuela. Negando essa questão fundamental, Losurdo repisou velhos argumentos (semelhantes ao sempre usados pelos stalinistas) sobre a questão das lutas de libertação nacional. Que tais lutas tinham que se dar sem uma distinção entre “opressores e oprimidos”, devendo ser “heterogêneas” e “amplas”, abarcando “amplos setores” da população do país. Que a luta anti-imperialista também inclui a burguesia, e que é preciso resolver a “libertação econômica” – o “desenvolvimento” –dos países colonizados antes de fazer a “libertação política” – a revolução proletária. Ou seja, ignorando o caráter objetivo de dependência das burguesias dos países coloniais para com as burguesias imperialistas, e que o processo de emancipação nacional é uma tarefa que só pode ser realizada pela classe trabalhadora e que necessariamente desemboca em outras tarefas da transição socialista, e tudo o mais que o marxismo revolucionário já estabeleceu há muito tempo.

Por fim, impossível deixar de dizer que a falta de requinte subitamente mostrada por Losurdo só não surpreendeu quem já estivesse “preparado”, conhecendo as raízes políticas de sua perspectiva atual (seu peculiar terceiro-mundismo de inspiração maoísta).

Fica como mais um exemplo de que os “professores marxistas” – e muitas vezes também os “professores de professores” – são em geral um mau guia na hora de encontrar uma orientação revolucionária independente em meio à realidade viva. E que também a falta de uma orientação revolucionária independente conduz, frequentemente, às maiores deselegâncias em matéria de teoria.

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