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Gabriel Cohn e Paulo Arantes: elogio do “lattes” e “intelectuais precarizados” – breve debate sobre a relação dos estudantes com a universidade

(Publicado a 22 de março de 2010)

Daniel Alfonso e Leandro Souza

Na semana da calourada da USP, dois debates em específico deram mostras de como pólos opostos na academia encaram a questão do conhecimento na universidade, assim como a maneira de se relacionar “intelectualmente” com a “instituição”. Ao mesmo tempo, na Ciências Sociais, na calourada organizada pelo CA junto com a burocracia acadêmica, Gabriel Cohn (especialista em Weber, professor aposentado, e ex-diretor da unidade, responsável por um dos mais importantes ataques ao espaço estudantil dos últimos anos) iniciava sua aula inaugural divulgada como Ciência de que?. Seu projeto era, assim como no ano passado, percorrer sobre as formas de se relacionar ao objeto de pesquisa, o que acabou, em 2009, por transformar sua aula inaugural na defesa de Weber e seu tipo ideal. Já em 2010 começou afirmando que não falaria nada sobre o tema com o qual a aula foi divulgada, e que se atentaria para o desenvolvimento das Ciências Sociais nos últimos 50-60 anos. No anfiteatro da História, Paulo Arantes, dos principais intelectuais de esquerda da USP, adepto, em linhas gerais, da análise nacional embutida no que pode ser chamado de “escola da formação” – termo cunhado por Roberto Schwarz como uma referência aos primeiros intérpretes nacionais; Caio Prado Júnior, Sergio Buarque de Hollanda, seguido de Antônio Candido, entre outros – participava da atividade “Formação para além da sala de aula”. Não será possível traçar aqui uma visão completa das duas atividades, mas tentaremos elencar algumas questões que apontam para duas posturas distintas em relação ao posicionamento dos professores frente ao conhecimento. De início, importante dizer que enquanto Cohn foi o responsável por uma gestão de ataques diretos aos estudantes das Ciências Sociais, assim como pelo aumento da terceirização na faculdade, Paulo Arantes foi um dos poucos intelectuais de peso, que junto com Luiz Renato Martins, Rodrigo Ricupero, Henrique Carneiro, Francisco de Oliveira etc, se colocaram contra a demissão de Brandão e tomaram parte ativa na campanha por sua readmissão.

Duas visões distintas

Cohn traçou, de maneira geral, dois grandes momentos das Ciências Sociais. O primeiro seria de caráter “enciclopédico”, dos anos de estabelecimento da matéria no Brasil, em que se formava um aluno mais “multidisciplinar”, preparado para atuar em diversas áreas, ao passo que não encontrava um nicho propriamente seu no mercado. Enfim, tratava-se de formar um profissional capaz de oferecer uma visão diferenciada para um conjunto de matérias já existentes. Nesse sentido, um dos exemplos frisados por Cohn foi referente à atenção dada à filosofia (e à matemática em segundo plano), muito maior do que é hoje. Por volta dos anos 70, junto com a luta pela regularização da carreira de sociólogo, iniciou-se um processo de especialização disciplinar, onde ao invés da disciplina oferecer um amplo quadro teórico sem necessariamente aprofundar-se em nenhum, o aluno é direcionado a uma máxima especialização de determinado tema. Cohn em momento algum relacionou a mudança de eixo das ciências sociais com a situação política nacional. Os anos 70 foram decisivos para a disciplina, que deixava de ser coadjuvante para adquirir fisionomia própria, alicerçada em interesses estreitamente ligados, do ponto de vista institucional, (o que não quer dizer que não houve professores que se distanciaram e se rebelaram contra essa tendência) aos objetivos do grande capital, representado politicamente pela ditadura militar. A entrada de capital internacional na área é representada (quase que de maneira tipificada) pelo papel da Fundação Ford no financiamento de pesquisas (não só na USP, como no Cebrap e outros institutos), que obviamente exigiam resultados mais específicos e profundos; um incentivo à especialização temática em busca de financiamento. A Fundação Ford exerceu papel de destaque na transição dos 70 para os 80 e seu legado se faz sentir ainda hoje. Em certo sentido, a Fundação Ford foi uma das primeiras expressões das Fundações privadas, fenômeno agora generalizado no ensino superior do Brasil.

Arantes, por sua vez, abordou o tema de uma ótica inversa. Para ele houve as duas “revoluções culturais”, que se desenvolveram como fruto de uma situação contraditória que se abriu em dois momentos diferentes dentro da universidade. Em 1934, quando a USP foi fundada, foram trazidos para o Brasil importantes intelectuais da França, da Alemanha, e da Itália, todos esses permeados por uma ideologia de esquerda. Combinado à ideologia dominante recém-formada na USP ser de esquerda, apareceu também a questão não menos importante da ampliação ao acesso, ao passo que na fundação da universidade os principais beneficiários desta eram os burgueses paulistas. A situação começou a mudar quando os professores do ensino fundamental começaram a ingressar nas universidades com financiamento do governo. A longo prazo este processo gerou, entre as décadas de 40 e 60, um início de revolução cultural, abortado pela ditadura militar. A segunda “revolução cultural” se deu já na década de 70, com a expansão de vagas na universidade, permeada também pela ideologia de esquerda presente dentro desta. E esta, por sua vez, foi abortada pela ofensiva neoliberal e os planos de precarização da universidade. Em nossa opinião, esses processos refletiram dois momentos políticos de magnitude revolucionária ou pré-revolucionpária no Brasil, que passaram longe de estarem ligados à análise de Paulo Arantes. O primeiro refletia a efervescência política do primeiro grande ascenso de massas (derrotado devido à inércia e à cumplicidade do PCB com a burguesia nacional); o segundo, no final dos anos 70, expressando a luta contra a ditadura (no segundo ascenso de massas, palavras nossas, desta vez, com maior protagonismo operário). Passado a enorme potencialidade do final dos 70, para Arantes, a universidade atrelou-se profundamente ao capital. Especialização temática para Cohn, atrelamento ao capital para Arantes[1].

A submissão à academia (e o “isso aqui tá muito bom”), o caminho de “intelectuais precarizados” ou ligar-se aos trabalhadores e ao povo pobre e oprimido em perspectiva revolucionária?

Para Gabriel Cohn, a síntese da pesquisa estaria no meio termo entre o enciclopedismo e a especialização, que resultaria numa espécie de especialização qualificada, que somente pode ser fruto de uma sólida base de conhecimento amplo. Desenvolver a relação entre o “conhecimento amplo” e a especialização temática é o caminho da excelência e… da FAPESP e demais agências de fomento. Para o ex-diretor da FFLCH, esse é o caminho a ser trilhado pelos alunos da “melhor escola de Ciências Sociais do Brasil”. Paulo Arantes, por outro lado, enfatizava que ao contrário de limitar o horizonte à busca incessante por migalhas das agências de fomento, no que cunhou o interessante termo “ditadura do lattes”, no sentido de os pesquisadores trabalharem para seus próprios currículos, os estudantes deveriam abandonar essa perspectiva, literalmente “virar as costas para o lattes” e se localizarem como intelectuais “precarizados”, a partir de “levarem para fora”, para os movimentos sociais, o conhecimento produzido na universidade, fermentando, dessa forma, outra “revolução cultural”. Para Arantes, essa é a via de atuar de forma contrária à “ditadura do lattes” , e está ancorada, além do fato da universidade estar atrelada ao capital. Paulo Arantes, expressando parte da influência pós-moderna, afirma que a época atual é de superação histórica desses partidos, dos partidos que visam a transformação social, sendo os movimentos sociais os que respondem pelo que existe de conflitante no Brasil. Uma vez que os partidos políticos de esquerda já não podem cumprir mais nenhum papel transformador, a relação que existia entre partidos e intelectuais (relação que se estreita entre a academia e partidos no segundo Pós-guerra), e que se expressou com força renovada no final dos anos 70 entre universidade e o Partido dos Trabalhadores, está definitivamente liquidado. Em outras palavras, o tempo histórico dos intelectuais orgânicos acabou[2]. São os movimentos sociais os únicos que podem trazer qualquer mudança social. Nesse marco, Arantes aponta duas perspectivas: ou seguir os ditames da “ditadura do lattes” ou localizar-se como intelectual precarizado e ir para o movimento social.

Essas duas perspectivas são opostas e representam, de certa maneira, como a maioria dos docentes se posta em sua relação com a universidade (Cohn) e uma minoria mais sensível à realidade (Arantes). Paulo Arantes é um intelectual consagrado, porém há uma importante camada de novos professores, sem os privilégios dos mais abastados, que se vem frustrando com a dinâmica de privilegiamento quase que exclusivo da pesquisa em detrimento de duas partes-chave do famoso e controverso tripé, ensino e extensão. O caminho traçado por Arantes, de virar as costas para a universidade e atirar-se sobre os movimentos sociais, ainda que embutido de espírito de transformação, tem seus limites. O primeiro é a postura de que “ir para” os movimentos sociais seria, em si, um fermento para uma nova “revolução cultural”. As obras de Arantes dos últimos anos tem expresso importante dose de concessão à academia conservadora no que se refere à importância da classe trabalhadora. Fazendo eco com o pós-modernismo, Arantes desconsidera que o papel na produção seja relevante para uma profunda transformação social. Logo, o movimento operário é visto muitas vezes como “mais um movimento social”, dentre tantos outros. Nesse marco, parte considerável do conteúdo da visão de Arantes está embutida de um gosto pelo pós-modernismo que se deixou levar pela falta de reação do movimento operário frente aos anos de neoliberalismo que, em sua visão, seguem até hoje. A única saída para os estudantes é, portanto, “ir para os movimentos sociais”, de maneira resignada….

Em nossa opinião, “ir para os movimentos sociais” deve acontecer através de uma combinação, dentre outras questões, da luta pelo marxismo como ferramenta de interpretação científica da realidade (algo que não esperamos que seja reivindicado por Cohn, mas que sequer foi mencionado por Arantes), a ciência da revolução social, contra a academia (que exerce enorme influência ideológica sobre a nação e, claro, sobre a grande massa dos estudantes), aliado com seu potencial revolucionário, e ligar-se às lutas da classe trabalhadora e do povo pobre e oprimido desde uma perspectiva de radical transformação social, desde uma perspectiva portanto revolucionária. Arantes deixou claro que o movimento social, por excelência, é o MST. Ligar-se ao MST[3], por fora de uma compreensão do que significa seu atrelamento ao governo Lula, sua política de respeito à terra produtiva (ainda que na mão de grandes empresas nacionais e internacionais) não pode ser suficiente para fermentar mudanças mais profundas. Estas ocorrerão com a atuação daqueles que exercem papel central na produção em aliança com o povo pobre e oprimido; não com a direção do MST, mas com as milhares de famílias que buscam um pedaço de terra neste país do latifúndio. Portanto, não basta somente ir aos movimentos sociais: é necessário combater teoricamente a burguesia, aportar para que a classe trabalhadora exerça papel decisivo na definição dos rumos do país[4], lado a lado com aqueles que buscam terra e com o povo pobre e oprimido[5].

Cohn terminou sua aula dizendo que “isso aqui (a universidade) tá muito bom”, tem alguns problemas de infra-estrutura, mas “vocês tem sorte que isso aqui tá muito bom”. Nada mais típico de um ex-diretor de gestão recente da faculdade… Arantes, importante intelectual de esquerda, finalizou com o termo de intelectuais precarizados, na busca de virarem as costas para a “ditadura do lattes”. Cremos que a realidade exige mais ousadia dos estudantes, que entraram para a vida adulta no momento da pior crise econômica desde os anos 30. Não podemos nos contentar em sermos “resignados”… A luta pelo marxismo, brutalmente atacado desde a ascensão da burocracia stalinista ao poder da URSS – mas que dá um salto no segundo pós-guerra – exige outra localização, que saiba se aproveitar do momento histórico atual e busque se fusionar de forma revolucionária com o movimento operário, apoiando ativamente as lutas e demandas do povo pobre e oprimido[6].

 


[1] Nesse marco, a fragmentação das Ciências Sociais à qual nos referimos é um primeiro passo em direção à pesquisa, nas Humanidades, atrelada direta ou indiretamente aos interesses do capital. Basta sair da FFLCH, cruzar a avenida e entrar na FEA, a rainha das fundações privadas, para perceber que Arantes está coberto de razão. O que dizer então das pesquisas na área de biologia, como o projeto Genoma? Um de seus primeiros resultados, vários anos atrás, aclamado pela academia nacional e internacional, objeto de diversas matérias na imprensa, foi a descoberta de uma maneira de prevenir, via modificação genética, o efeito de um parasita no cultivo de laranja. Desnecessário dizer que o grande objetivo era ajudar os grandes plantadores de laranjas, principalmente no estado de São Paulo, que frequentemente se enfrentam e assassinam membros do MST no Pontal do Paranapanema, uma das regiões de maior índice de violência agrária no País.

[2] Aqui discutimos não entrarmos no que Arantes considera como relação orgânica. Aprofundar a compreensão entre a intelectualidade e o Partido dos Trabalhadores, tanto no bojo de sua formação quanto ao longo dos últimos 30 anos, e obter uma visão profunda sobre o tema, é fundamental. No momento, basta dizer que Arantes considerava, por exemplo, Marilena Chauí como um exemplo dessa relação entre partido e academia: mesmo que jovem no trânsito acadêmico, possuía, para Arantes, uma força de diálogo com os trabalhadores e o povo que nenhum outro intelectual possuía. Essa opinião, vulgarmente expressa aqui se encontra em Zero à Esquerda. Já Marilena Chauí, sob o impacto do “novo sindicalismo” dedica importantes estudos sobre a situação do movimento operário e social no final dos anos 70, e incapaz de responder às consequências da burocratização da URSS sob o regime de partido, acabou por ecoar o vulgar senso-comum de que partido leninista, assim como a tomada violenta do poder, são elementos que carregam em si o gérmen da burocratização. Fê-lo, porém, através da enérgica defesa da forma organizativa e da diretriz política do nascente PT. 25 anos depois, o mensalão e o silêncio.

[3] Além do MST, Arantes faz referência ao MTST. Nos limitamos a discutir com o MST pois foi predominante na fala de Arantes.

[4] Não através do Orçamento Participativo como Arantes fez, ao tirar da cartola essa política do PT que o próprio partido retirou dos holofotes, dada a farsa que é.

[5] Arantes enxerga no “pobretariado” papel decisivo na transformação social. É fundamental que o movimento operário responda à suas demandas, mas vemos aqui um Arantes resignado frente à realidade e, ao separar o papel na produção da política a ser exercida (ecos pós-modernos, quem poderia negar?), confere, em certo ar desiludido, importância que esse setor social, por si só, não pode alcançar.

[6] Fazendo parte da luta com os trabalhadores de dentro da universidade –efetivos e terceirizados! – e com os que se encontram fora da universidade. Para mencionar somente uma das últimas ações do Movimento A Plenos Pulmões – que acreditamos devem ser seguidos pelo conjunto do movimento estudantil combativo –, durante as últimas semanas, a APP e a Iskra estiveram ao lado dos trabalhadores da Philips de Mauá, em sua luta contra o fechamento da fábrica, discutindo diariamente sobre a resposta à situação e aportando, na medida de nossas forças, para desmascarar o sindicato da Força Sindical, que só se interessava em negociar sua fatia do bolo com a patronal.

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