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Na atividade do “socialismo em geral”, ficamos com Lênin

(Publicado a 18 de maio de 2010)

André Augusto e Tatiana Gonçalves

No último dia 27 de abril, no auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) realizou uma atividade de lançamento da pré-candidatura de José Maria de Almeida. A mesa foi composta pelo professor aposentado do IFCH, Edmundo Dias; pelo professor do CEFET, Valério Arcary; pelo professor do IFCH Álvaro Bianchi, e Zé Maria.

Ressaltamos a importância da realização de atividades da esquerda que se reivindica classista e revolucionária, não apenas no que tange aos momentos de eleição, mas principalmente com intuito de expressar as lutas operárias, em espaços tão elitizados como as universidades públicas de São Paulo, auxiliando a soldagem da aliança operário-estudantil. O auditório estava lotado, em que se expressaram os setores trabalhadores como petroleiros, metalúrgicos, professores; além de um amplo setor de estudantes do instituto que se interessam pelo debate que as alas da esquerda se propõem para combater a direita nas eleições.

Edmundo Dias limitou-se a traçar um panorama emotivo da trajetória sindical de Zé Maria, reivindicando sua própria luta e encorajando os presentes – se bem que mais através de desejos piedosos do que da aplicação de uma vontade política consciente e organizada, o que amortiza à metade o efeito de sua intervenção – a lutar pela mudança radical da universidade pública e também contra a burocracia.

Álvaro Bianchi, com o papel de mediador na discussão, citando sua amizade cordial e sua confiança no candidato socialista Zé Maria – quase não pôde fazer algo mais que isso. Porém, teve a iniciativa de contribuir com a dúvida geral da audiência que se debatia em incerteza, durante toda a comunicação, sobre o significado da palavra “socialista”, tão vastamente evocada. Bianchi elucidou: “O socialismo não é um nome próprio, mas um nome coletivo”.

Depois dessa síntese poderosamente esclarecedora, foi a vez de Valério Arcary, que não teve pudores em alugar os ares por mais de trinta minutos (falando inclusive mais tempo que o pré-candidadto), sobre temas tão diversos como a revolução portuguesa de 1974, o emprego de garçonete na Carolina do Sul, o horário eleitoral na televisão dedicado à esquerda e o queijo e o azeite gregos, demonstrando a habilidade incomum e a sagacidade de ligá-los todos, com a firmeza que essa variedade de termos permitia, à crise econômica que estoura em seu segundo capítulo na Grécia. O tom irônico e pedante que pautou toda a sua intervenção destoou do importante esforço feito pelos militantes do PSTU de Campinas em expressar seus setores operários no seu debate (manifesto no nariz torcido de Zé Maria enquanto Arcary intervinha). Fica claro, portanto, que sua fala foi o ponto baixo da atividade.

Depois vieram as perguntas do plenário. Distinguiram-se dois tipos de intervenção: em primeiro lugar, as “dúvidas” de militantes e dúvidas de contatos operários, estes sim dúvidas reais, do PSTU, sobre a dificuldade de fazer campanha num movimento operário tão influenciado pelo lulismo; em segundo lugar, as intervenções das demais organizações políticas ali presentes, compostas pela LER-QI, pelo PSOL/Enlace e pelo PCB. O PSOL ligou ao PSTU uma posição rupturista com a antiga frente de esquerda; questionavam porque agora que conseguiram emplacar a candidatura de Plínio o PSTU não teve acordo em travar a aliança; o PCB interveio dizendo que não havia acordos programáticos entre eles e o PSTU, e por isso não estavam juntos. Nós da LER-QI encaminhamos nossas intervenções levantando a questão da Frente de Esquerda de 2006 e 2008 e as contradições com aquela frente, e perguntando qual o balanço do PSTU sobre esta frente e se, ao não dar a batalha no passado contra o PSOL e em favor da mais irrestrita independência de classe, contribuiu para que a esquerda estivesse hoje mais debilitada frente ao lulismo.

Além disso, pautamos a questão de Cuba, ressaltando a sua importância hoje (inserindo a polêmica que o PCB fez com a LIT) e defendendo as conquistas sociais da revolução cubana frente ao bloqueio imperialista e à tentativa de reorganização da direita política na ilha no intuito de rematar com chave íntegra a restauração capitalista, já iniciada pela burocracia castrista incrustada nesse Estado operário deformado, mas que só se manifesta dentro das conseqüências sociais favoráveis ao povo pobre e à classe trabalhadora que impregnam a memória dos cubanos. O retorno do capitalismo a Cuba só se pode dar através de um golpe contra-revolucionário claro e irrefutável.

Ainda relacionamos uma fala centrada na questão da terceirização (como é importante um candidato responder a isso) e ferozmente contra o PSOL, aludindo ao fato de que Heloísa Helena havia votado a favor da Reforma da Previdência, corrigido no sentido de que os deputados do PSOL foram os que o fizeram.

A ausência, na generalidade, de um debate convictamente internacionalista foi tão gritante a ponto de um militante do PSTU, desde o plenário, ter de apontar a inexistência do importante debate sobre o Haiti em todas as intervenções da mesa; aliás, não fosse a seção de perguntas a Zé Maria, em que nós da LER-QI o interpelamos no sentido do posicionamento internacionalista para a resolução de questões internacionais, este ou qualquer outro não se teria dignado em sequer citar a questão da revolução cubana, que Zé Maria, ao cabo, se mostrou incapaz de responder a não ser declarando que as posições do PSTU eram de que o capitalismo já estava restaurado na ilha, mas que “era importante aprofundar o debate”. O PCB asseverou ainda uma vez, quanto a Cuba, o seu legado stalinista e burocrático, defendendo que não podemos criticar tçao severamente a burocracia castrista, a política reacionária de partido único e toda a fonte histórica da qual derivamos (referindo-se à cristalização das seções da burocracia stalinista em diversos países do mundo, no que erra contundentemente: os trotskistas somos herdeiros diretos e vivos de mais de 150 anos de teoria e práxis revolucionárias na linha do marxismo em luta inveterada contra as posições mortas e criminosas do stalinismo).

Sobre a Frente de Esquerda do PSTU com o PSOL em 2006, Zé Maria confessou que fazem “um balanço positivo sobre ela”. Aqui, devemos relevar que, em que pese a medida importante do PSTU de chamar uma candidatura independente do PSOL, isso só se deu como resultado de um longo período de negociações frustradas com o último, negociações que foram sempre prioritárias. Zé Maria disse que não se concluiu uma nova Frente por diferenças programáticas importantes, que tornaram impossível a Frente. Devemos perguntar, a partir disso, qual a diferença substantiva entre uma Frente com Heloísa Helena (que o PSTU apoiou por ocasião do “capital eleitoral” disponível) e uma Frente com Plínio de Arruda Sampaio, do ponto de vista do programa de conjunto do PSOL, sendo que ambos aceitam patrocínio privado, com a ressalva de ser através de pessoas jurídicas ou pessoas físicas, respectivamente.

Uma idéia, conquanto estrategicamente correta, torna-se uma falsidade, e até uma falácia, se não for traduzida na linguagem da tática; da mesma maneira e combinadamente, todas as operações táticas isoladas devem convergir para uma perspectiva estratégica correspondente que conduza os esforços dos trabalhadores à vitória. No caso do PSTU, a tática da eleição não foi entremeada com a dinâmica da luta de classes, servindo às lutas operárias e aportando com peso dirigente nelas, mas sim vinculada a uma propaganda abstrata e estéril de um socialismo em geral, incapaz de capturar o interesse da classe trabalhadora no sentido de nutrir uma postura política independente. O discurso do socialismo em geral se vincula inevitavelmente a demandas alheias à classe trabalhadora, como se expressa no recente programa de governo divulgado pelo PSTU no qual constam reivindicações, defendidos até pela Fiesp, como a redução da taxa de juros.

Em conclusão, apesar das faltas cometidas acima, enxergamos positivamente a apresentação de uma candidatura operária pelo PSTU, ao contrário do que expressava a candidatura de Heloísa Helena em 2006. Este tipo de candidatura, entretanto, deve estar em consonância real com o papel tático que os revolucionários enxergam nas eleições, utilizando esse momento como força motora adicional no incremento das mobilizações concretas que conduzem à compreensão comum, por parte da classe trabalhadora, de que as tarefas democráticas mais elementares que concernem a melhoria de suas condições de vida só podem ser conquistadas por uma só e mesma via: pela tomada do poder pelo proletariado mundial.

De tudo o que ficou exposto acima (e até o que se perdeu nos excursos incontáveis dos oradores) – entre o socialismo abstrato de Bianchi e os trinta minutos de queijo grego de Arcary, rejeitamos ambos; ficamos com o camarada Lênin:

Não à “introdução” do socialismo como nossa tarefa imediata, mas apenas passar imediatamente ao controle da produção social e da distribuição dos produtos por parte dos soviets de deputados operários (“Teses de Abril”, 1917).

Essa fina ironia resume em um rasgo do espírito revolucionário coerente o que se tentou encontrar a duras penas em três horas de atividade.

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