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Revita Iskra: uma revista de idéias e cultura para os novos tempos

(Publicado a 3 de abril de 2009)
Imagem de El Lissitzky

 

Gilson Dantas*

Nas décadas mais recentes, de ofensiva do grande capital conta os salários e as conquistas dos trabalhadores, nenhuma rebelião popular e operária chegou a tomar a forma de revolução. O impacto desse refluxo revolucionário na esfera intelectual, da cultura e do pensamento crítico, traduziu-se em uma verdadeira regressão, com o marxismo vivendo uma duríssima estiagem.
A ofensiva ficou por conta do pensamento “único” neoliberal em todas as suas facetas reacionárias, toscas e anti-revolucionárias e, segundo seu discurso, o marxismo se tornara pouco mais que uma “relíquia pré-histórica”, uma teoria vencida pelo tempo, pela história, entretenimento de militantes políticos e/ou acadêmicos viciados em sessão-nostalgia, em recordações de Lenin, Trotski e do velho e simpático Karl Marx. A reação neoliberal, rápida e sistematicamente, tratou de emplacar no granito velhos clichês como o do fim do sonho socialista e, em especial teses como a de amalgamar Stalin com Lenin, Trotski com o sectarismo incurável e, quanto a Marx foi deixado num canto empoeirado, como objeto de pesquisas.

O pensamento da classe dominante (fim do comunismo, triunfo do liberalismo e do mais cru individualismo) penetrou, viscoso, por todos os poros da sociedade ao mesmo tempo em que os seus aparelhos ideológicos – escola, igreja, mídia etodas as instituições da ordem – destilavam asneiras pós-modernas, pós-industriais e liberais com status de respeitabilidade acadêmica, ao mesmo tempo em que a revolução socialista, o proletariado e o partido revolucionário, quando mencionados, eram com deboche ou delírio. Em suma: o marxismo estava na berlinda, no estio, tinha que tornar-se uma miragem.

No entanto, o pior de tudo, para o pensamento inconformado e inquieto da juventude e de todo aquele que teimou em manter acesa a chama, foi o seguinte: o marxismo, obviamente continuou existindo e resistindo – no mundo do capital não há como cravar a estaca no peito do marxismo – só que o marxismo desses tempos e propagado no nosso país (inclusive o que vinha de antes) contribuía para agravar esse estado de coisas.

Vigorava um marxismo com tais características que, mesmo quando brilhava, mesmo quando se empenhava em aprofundar aspectos e avançar intelectualmente, terminava por estabelecer acordos, pactos e amálgamas que, como regra, limitavam ou castravam sua possibilidade de instaurar uma tradição efetivamente revolucionário-marxista, de ruptura estratégica e programática com o pensamento burguês-reformista e com o ultra-esquerdismo. Isso a despeito da coragem e abnegação de seus autores ou até de suas intenções.

Em partidos, universidades, no movimento sindical, na intelectualidade combativa, a regra foi esta: o marxismo estabelecido vinha amalgamado com o possibilismo (só se luta pelo que “é possível” conquistar), pelo excessivo respeito e até subserviência a tudo que parecesse marxista, aos ícones estabelecidos na academia, em suma, prevalecia a veneração à fraseologia marxista mesmo que ela viesse – e esta era a regra – desacompanhada de preocupações práticas (estratégicas, programáticas), mesmo que ela não rompesse com o horizonte burguês-democrático e passasse ao largo da preocupação com o proletariado para além do horizonte “pestista” (incapaz de primar pela organização independente da classe trabalhadora).

Este foi o caso, para citar apenas um exemplo, do marxismo luckacsiano em nossa terra, onde ganhou grande visibilidade na esquerda (ao contrário de países como a Argentina onde o peso de Luckács é inexpressivo). E foi também o caso de verdadeiros ícones e tradições intocáveis do marxismo brasileiro, como Caio Prado Júnior, na verdade o fundador de uma das variantes do nacional-reformismo marxista.

Em uma frase: a ofensiva da miséria da teoria liberal é pós-tudo somou-se, de alguma forma, com a reprodução ampliada de um marxismo “nativo” com forte tendência à conformação e adaptação ao entorno reformista, conciliador. Neste ambiente intelectual prevalecia um certo pacto de não-agressão mútua no qual, por exemplo, a crítica principista frontal – honesta, argumentada, referenciada – não era bem vista. O ecletismo, o amálgama de determinadas idéias, que na prática revolucionária se revelam antagônicas, o respeito à tradição (leia-se, muitas vezes: visibilidade acadêmica) se impunha como o fenômeno intelectual mais natural do mundo.

A grande conseqüência negativa desse processo veio sendo o seu impacto na formação marxista das novas gerações de revolucionários, quadabsolutamente necessários nos combates que se anunciam nesta grande crise do capitalismo que se constrói aos olhos de todos nós. Não tivemos revistas de combate político, revistas de partido, não se desmistificou abertamente o “marxismo” de colaboração de classes, não se combateu com todas as armas da crítica (e da prática) ao modo petista de militar e de pensar (de pensar as lutas sociais e o papel de sujeito do proletariado). Perdemos em formação marxista revolucionária, por mais que o marxismo tenha ocupado espaço acadêmico, espaço literário e presença nos movimentos sociais sindicais nessa época de vacas magras, e por mais que seja um fato inegável a existência e o ativismo de autores marxistas importantes e úteis em vários cantos do Brasil.

A revista ISKRA surge com a mais apaixonada intenção de contribuir para mudar esse quadro. De somar, na luta contra um relógio que passará a correr mais rápido nesses novos tempos históricos, no sentido de construção de um marxismo irredutivelmente vinculado às lutas operárias, à estratégia soviética e anti-capitalista. E ISKRA pretende postar-se, pelo que se desprende da leitura do seu número 1, na esfera intelectual, em aberto e sincero combate contra a tradição marxista que mesmo quando critica à burguesia e ao stalinismo, deixa a porta aberta à conciliação com a burguesia e com o stalinismo (através do ecletismo, da crítica das aparências ou até do reiterado escorregão teórico de confundir bolchevismo com stalinismo, Lenin com Stalin, socialismo com ausência de democracia soviética, ou de regularmente renunciar à estratégia em nome da “tática” e assim por diante).

Em seu primeiro número é evidente o esforço da revista ISKRA – e a meu ver bem sucedido – em romper com essa tradição, a mesma que em nome de Marx e da luta pelo socialismo, termina – inadvertidamente ou não –, por desarmar a luta do marxismo revolucionário em determinado sentido. Ou seja, desarmá-la contra todo pensamento que dificulte à classe trabalhadora, enxergar – através da neblina do palavreado intelectualizado -, quem é seu aliado e quem não é, quem é apenas companheiro de viagem e quem pode ir até o fim na luta, com quem e com o quê pode haver acordo político, onde está o debate estratégico e qual a coerência da tática cm ele, com o programa.

Um breve olhar sobre a recente tradição acadêmica de esquerda irá perceber o quanto essa confusão é reinante: autores com o Lukács (e seu discípulo Mészàros), Caio Prado Júnior, Chico de Oliveira, Rui Mauro Marini, Mandel, Zizek e outros são inalcançáveis pela crítica aberta e desmistificadora – mesmo que se leve em conta o legítimo respeito que cada um deles mereça – ao mesmo tempo em que impera, na outra ponta, o “diálogo” sistemático e permanente com autores como Celso Furtado, Habermas Max Weber e outras celebridades do pensamento acadêmico-burguês, sem situá-los no seu papel e seu lugar de classe ou seu papel na luta revolucionária ou contra-revolucionária (caso de Weber). Nem é preciso mencionar autores da moda – que entram e saem da moda, como Negri ou Mészàros – mas cuja crítica a seu pensamento costuma limitar-se a aspectos menores. Em suma, esta tradição do marxismo no Brasil – que na verdade vem de longa data – deixou de construir uma crítica que ponha de pé, como primeiro critério, a necessidade de ir construindo politicamente, teoricamente, estrategicamente e intelectualmente, a independência política do proletariado, as idéias da revolução proletária, socialista. Nada disso se fará sem a polêmica fraterna porém comprometida com a defesa irredutível de princípios.

O número 1 da revista ISKRA é um exemplo neste sentido. Pelo limite de espaço tomo o exemplo de apenas um de seus artigos de fôlego. A revista traz cinco textos: o primeiro sobre a crise do atual movimento estudantil e a aliança estudantes-trabalhadores; uma crítica ao pensamento de Caio Prado Júnior e o marxismo reformista; um comentário ao uso ideológico, nas faculdades de ciência política, da revolução norte-americana; um texto sobre o surrealista Benjamin Péret que esteve no Brasil antes da II Guerra e, finalmente, o artigo sobre Lukács e o stalinismo que passo a comentar.

Este texto reflete bem (assim como o texto sobre Caio Prado Júnior e demais) o novo patamar de debate marxista ao qual a revista quer contribuir para construir. Tomando um marxista de grande influência intelectual sobre gerações que se formaram durante e depois da Guerra Fria e, sem deixar de reconhecer seus méritos, por exemplo, em estudos exegéticos de Marx, Edison Salles (ISKRA) vai desvelando um a um – de forma muito bem fundamentada – os limites do pensamento lukacsiano. Não se trata de um balanço do positivo e do negativo de Lukács, o que não faria qualquer sentido.

O que fica evidente, no trabalho de pesquisa e de ourives de Salles, é que o fio condutor presente por trás do mito luckacsiano é o de um pensamento que, política e estrategicamente não se põe dentro da perspectiva revolucionária do proletariado. Inteligente, incansável, refinado em suas análises literárias, sincero defensor do realismo clássico na literatura, profundo conhecedor de idéias de Marx e Engels, grande professor de filosofia (em obras como O assalto à razão), crítico a Stalin no fim de sua vida e tido como um autor marxista não-dogmático, no entanto, o eixo teórico-político do nosso pensador, Lukács, é o de adesão (e jamais oposição de esquerda) ao pensamento burocrático dentro movimento comunista internacional (leia-se aqui: stalinista).

Lukács esforçou-se permanentemente em legitimar, amparar e justificar teoricamente o pensamento contra-revolucionário de Stalin, confundi-lo com Lenin e, no fim da vida – crítico a Stalin – aderiu ao neo-stalinista Togliatti e aos grandes PCs eurocomunistas (praticantes da colaboração e traição de classe frente à sua classe operária). Jamais foi conseqüente na crítica a Stalin e defendia a reforma da burocracia, e, em momento algum, a revolução política para repor os conselhos operários no comando da URSS. Inimigo visceral de Trotski até a morte, foi sempre amigo e respeituoso em sua relação com autores da estirpe de Max Weber e os quadros stalinistas cúmplices dos processos de Moscou da década de 1930.

O artigo de Salles, além de escrito de forma elegante, reflete (assim como os demais, da revista de autoria de Daniel Angyalossy, Ricardo Festi e Marcelo Torres, Ciro Tappeste, Leandro Ventura) o sentido e a novidade da revista ISKRA para o marxismo revolucionário brasileiro. Em seus vários textos, argumentadamente, a revista ISKRA procura mostrar, na prática, que a tradição marxista revolucionária só poderá ser construída através da desconstrução do velho edifício do marxismo reformista, do marxismo que não faz a crítica essencial ao stalinismo (como “teoria” do socialismo num só país, da conciliação de classe, do socialismo sem sovietes etc), ao marxismo autonomista, ao marxismo sem partido e sem proletariado e assim por diante.

Com toda certeza ISKRA concretiza um tempo de revistas de partido, que tomam posição (tomam partido) polemicamente em torno dos temas mais candentes para a construção política, teórica, estratégia, cultural de uma nova geração que pretenda, sem ser sectária, alinhar-se intransigentemente nos princípios, assumir-se como irredutível naquilo que o marxismo tem de irredutível, somando na construção de ferramenta crítica que, ao ser utilizada na prática, em vez de oxidada ou travada, esteja desembaraçada para seu uso pelos trabalhadores e seus representantes intelectuais e políticos.

*Gilson Dantas é médico e doutor em sociologia pela Universidade de Brasília.

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