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UNICAMP: um pólo da superexploração dos trabalhadores terceirizados

(Publicado a 22 de março de 2010)

Mário Martins, trabalhador do Arquivo Edgar Leuenroth – Unicamp

A biblioteca do IFCH foi inundada, em Março de 2009. A ironia é que a biblioteca foi salva por estudantes que estavam numa festa. Festas que são proibidas na Unicamp. Inclusive, constantemente há estudantes sendo molestados por vigilantes, ameaçados por diretores e pela reitoria por causa de festa. A nossa insubstituível biblioteca foi inundada por descaso e incompetência de uma empresa terceirizada. Empresa, que semanas antes, cometera o mesmo erro, deixando sem cobertura a pós-graduação e a livraria. Até hoje ninguém foi responsabilizado. E a firmeca, provavelmente, está livre para cometer o mesmo descalabro em qualquer outro lugar. Na época, conseguimos um lamento quase agônico do nosso vice-diretor: “Mais uma vez, uma licitação na universidade resulta em prejuízo ao Instituto”. Mas como diria Aldir Blanc: “Só quem tentou sabe como dói vencer Satã só com orações”. Eram e são necessárias ações, mobilização política, senso de responsabilidade histórica.
Há uma ampliação que há tempos começou na biblioteca. Inclusive, esta parte inacabada está cheia de livros, salvos da inundação de Março do ano passado, em 2009. Há pelo menos um ano está rolando esta tal ampliação. Há prédios aqui, como do Arquivo Edgar Leuenroth que abriga um dos maiores acervos da história do movimento operário e social do mundo que ficou quase oito anos sendo construído, tendo que sobreviver a falências e desistências destas empresas terceirizadas. E teve parte do seu acervo correndo risco de destruição por incompetência de empresa terceirizada. Mas isso é generalizado em todas as construções da Unicamp depois que acabaram com o setor de obras, formado por funcionários públicos, guiados por um estatuto de servidor público.
Hoje, dia 9 de Março de 2010, os operários da terceirizada estavam fazendo um protesto, fechando os portões, para impedir a saída de um caminhão, exigindo que fossem pagos, pois com a falência da firma não receberam o salário. Como sempre, os operários mobilizados ali, poucos, 9 ou 10 deles, representavam a cultura, o progresso. Do outro lado, a polícia, a burocracia universitária, representando o atraso, o imobilismo, a perplexidade. Além desta crueldade com os operários, precisamos dizer: A Unicamp é dominada pelas empresas terceirizadas. Nossos diretores são reféns destas nefastas empresas. Em todos os setores da vida na Unicamp, hoje, avançam e imperam os contratos capitalistas, enterrando um projeto histórico de gestão pública. Nosso patrimônio está sendo vigiado por empresas de vigilância, terceirizadas, que abusam da precarização, demitindo por qualquer motivo, com número muito aquém do necessário, praticando uma super-exploração do trabalho. Claro que com a anuência da Reitoria e da alta burocracia, além de muitos funcionários corrompidos pela selvageria da ideologia capitalista. No momento em que os operários fechavam os portões da obra de ampliação da biblioteca e protestavam para receber seu pagamento, o chefe da segurança da Unicamp cinicamente defendia as terceirizadas, dizendo assim: “os terceirizados trabalham sem interrupção, não ficam indo ao banheiro ou querendo café e lanche, não reclamam ou faltam e, se fossem funcionários públicos, ficariam apelando para seus direitos”. Este chefe da segurança da Unicamp, este crápula é um funcionário público com estabilidade e direitos. Sentado no trono de seus régios salários de chefete e capataz, parecia um capitão do mato, cheio de si para humilhar trabalhadores totalmente lesados no seu direito mais elementar, dentro do capitalismo, que é receber seu salário.
Mas estes empresas terceirizadas põem em risco o patrimônio que é do público. Não podemos deixar patrimônios históricos e humanos em mãos de firmas que não têm qualquer responsabilidade histórica. No máximo responderiam por danos materiais, de forma monetária. Nossos arquivos e bibliotecas têm valores que são patrimônios únicos da humanidade. Não há reposição possível.
A Universidade exige de seus funcionários, por estatuto, zelo com a coisa pública, vigilância pelo que é patrimônio público, e a lei e o estatuto cominam sobre os desleixos de funcionários públicos. Com a empresa privada há uma relação de contrato e não de estatuto. São aparatos culturais diferentes. O primeiro baseado no dinheiro, o segundo, o do estatuto, é regido pelo compromisso, pela vocação, enfim, por responsabilidade política. Por outro lado, seríamos as principais vítimas do incêndio no Arquivo Edgard Leuenroth, vítimas da biblioteca inundada, vítimas dos atrasos e má qualidade das obras. Como calar vendo um caríssimo ar-condicionado [R$ 575.299,00, dinheiro FINEP] com uma dimensão desnecessária e que não funciona até hoje, ou melhor: se ligado, inunda o Arquivo Edgard Leuenroth, como já inundou ou, no mínimo, umedece o local. Ou de janelas que, desde sua instalação, não podem ser abertas senão caem. Tudo pago com dinheiro da PETROBRÁS, muito bem pago, com certeza.
Estas empresas terceirizadas falem. Esta é a regra na Unicamp. Em oito anos de construção do prédio do Arquivo Edgar Leuenroth várias faliram ou desistiram de tocar a obra que tinham ganhado na licitação. Prazos são meras formalidades.
Uma palavrinha sobre vigilância e segurança. Já aconteceram vários seqüestros relâmpagos. No último destes, eram duas biólogas. Chamam atenção para aqueles e aquelas que lutam contra a violência contra a mulher. A Unicamp, com a vigilância terceirizada, mal preparada e mal paga, indica-nos perspectivas trágicas. Bibliotecas e Arquivos sem vigilância interna, sem vigilância preparada, sem brigada anti-incêndio, é um território de ninguém. Não esqueçamos que, no prédio velho do Arquivo Edgard Leuenroth, um incêndio poderia ter desaparecido com o maior conjunto de história social da América. E, para nós brasileiros, o mais importante do mundo. Sem vigilância, sem manutenção preventiva, sem brigada de combate a incêndio, que futuro nos espera?
Isso parece piada. Isso é um desleixo. Nossas lideranças acadêmicas e a alta burocracia parecem que foram tomadas pela ineficiência, descaso e irresponsabilidade, fruto da cultura das empresas terceirizadas que impera neste capitalismo em crise, e reinam também, por aqui. A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante e a fração da classe dominante que manda na Unicamp são as empresas terceirizadas. A Unicamp, sob a batuta das terceirizadas, cultua a precarização, o jeitinho, o lucro a qualquer custo, a super-exploração do trabalho, a violência das demissões. Além de uma questão política é um questão cultural. Nossos valores de cuidar bem da coisa pública estão indo embora, da mesma forma que falem, e vão embora, deixando nossa biblioteca com milhares de livros amontoados em local inadequado e prejudicial. Estas firmecas vêm até aqui, super-exploram os trabalhadores, fazem contratos com preços exorbitantes, lesam os interesses do que é propriedade do público que paga os impostos e vão embora, sem serem responsabilizadas. A situação é escandalosa, mas não há escândalo algum. Impera uma espécie de “calmaria de pantanal”. Há muitos “marxistas” na Unicamp, mas parecem monges que fizeram voto de silêncio e estão absorvidos em fazer uma exegese hermética do marxismo. Outros mais descarados deixam claro que o marxismo na Unicamp, ainda permite fazer uma modesta carreira acadêmica. É impossível não se lembrar do texto do professor Maurício Tragtemberg, A DELINQUENCIA ACADEMICA.
A carta dos professores do IFCH de 2009, dirigida à reitoria, diz que o instituto agoniza. Coisas muito mais profundas putrefazem no instituto e na Unicamp. A Unicamp foi dominada por um sistema perverso, a cultura do jeitinho, a cultura da irresponsabilidade diante do que é do público. O nome disso é precarização, terceirização e fundações. Este “jeitinho” é a marca registrada das fundações. Elas são criadas exatamente para isso, para dar um drible na lei, na constituição e nos acordos trabalhistas. Os governos e seus deputados criam leis para isentar certas categorias de trabalho da obrigatoriedade constitucional, desde 1988 de só se ingressar no serviço público através de concursos públicos. Estas fundações são usadas para rebaixar o salário das categorias, para implantar um regime de trabalho precarizado e para praticar a super-exploração, isto é, aumentar o ritmo do trabalho. Também são uma forma de terceirização, com o agravante de ser também uma forma de privatização do que é público. O caso FUNCAMP, na Unicamp, que cresceu na época da inflação alta, para poder movimentar o dinheiro em jogatinas financeiras que são proibidas às instituições de direito público. Mas o último episódio merece de nós um repúdio e uma cobrança, em todos os momentos: o descalabro que foi a FUNCAMP ser condenada pela justiça por fazer centenas de contratos juridicamente nulos. Mas o doloroso, cruel mesmo, foi que funcionários de 10 a 16 anos serem demitidos sem direito algum e, para receberem alguma coisa, fizeram um acordo. Mas, e os direitos de aposentadoria? E aqueles que adoeceram e envelheceram de tanto trabalhar sob as exigências desse modelo de super-exploração? A FUNCAMP (Fundação da Unicamp) foi condenada, mas não responsabilizada. Os reitores, desde a década de 80, que a criaram e continuam, até hoje, usando esta fundação para precarizar os serviços na Unicamp, continuam aí, vivos, ricos e ocupando cargos públicos, como Carlos Vogt (secretário do governo Serra), Carlos Brito (um espécie de czar da FAPESP),
O Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp é dirigido pelo PCdoB há mais de uma década. A Associação dos Professores da Unicamp, que tem uma sede que é um palacete dentro da Unicamp, parece que tem gente à direção que se diz de esquerda; o DCE é dirigido, há décadas, por petistas que hoje são do PSOL. É quase uma multidão de militantes que se dizem de esquerda. Há na Unicamp, como já foi dito, um contingente de “marxistas”, e mesmo um CEMARX (um centro de estudos marxistas). Mas por que diabos este silêncio todo? Mas por que então vivemos, silenciosamente, transitando entre bancos, laboratórios de empresas capitalistas, trombamos com operários super-explorados, com alojamentos precários, sendo demitidos por qualquer coisa, sem mesmo receber seus direitos? Ou mesmo vendo professores criando fundações, fazendo núcleos para angariar dinheiro para projetos próprios ou de grupo. Ou temos que lidar com uma burocracia autoritária e um estatuto da Unicamp, filhote da ditadura, que incorporou, quase sem mudar a redação, o 477, que a ditadura pariu para punir estudantes depois de 1968. Ou uma comissão processante só para punir funcionários. Por que esta festa capitalista selvagem em meio a tantos “marxistas”, petistas e Psolistas? Como calam, como podem esses “marxistas” deixar de levantar um ais? Parece mesmo que vivemos num mundo do faz-de-conta.
O intuito deste texto não é fazer mais um choramingo, mas um chamamento. O que acontece no IFCH acontece em todo o Campus. Vivemos sob o poder das empresas terceirizadas e da má qualidade de serviços, de riscos e irresponsabilidade da terceirização no serviço público. Um chamamento a pessoas socialistas e sindicalistas para nos unirmo-nos e criarmos uma grande frente contra a terceirização que super-explora, que precariza, que cria uma rotatividade absurda, que cria um clima de terror, desorganização política, que dá poder a chefete que implanta “leis” de capataz de fazenda, que exige produção até a exaustão. E um chamamento às pessoas que têm qualquer referência com a cultura humanista, para que nos unamos para impedir que trabalhadores sejam tratados, aqui na Unicamp, como peças descartáveis. Que direito mais elementar há que receber os salários, que estes sejam garantidos? Que protestemos contra alojamentos e vestiários precários, que permitem amontoar as trabalhadoras e os trabalhadores das firmas terceirizadas, pois se fossem funcionários públicos se uniriam e protestariam. Um chamamento para que professores, estudantes e mesmo funcionários públicos não aceitemos o papel de senhorezinhos, servidos por trabalhadores precarizados e mal pagos – é um chamamento para que deixemos o cinismo perverso e elitista de lado e tenhamos vergonha do nosso papel de capatazes e até, muitas vezes, beneficiários desta nefanda precarização da mão-de-obra.
Até quando as chamadas esquerdas serão coniventes com esta brutalização? Não sabemos. Objetivamente é notório que este modelo se esgotou, e que o patrimônio do público e o próprio serviço público chegaram muito longe na precarização. A saúde pública está numa situação lastimável. Aqui, na Unicamp, caminham para privatizar, ou criar uma fundação, para o HC. O ensino médio público não existe. É um acinte. Ele serve para empobrecer o pobre. Para piorar, este ano, será ano eleitoral, onde estas mesmas esquerdas sairão à cata de votos. Mas os Marxistas, que honrarem a tradição, aproveitarão este momento para acelerar a luta concreta dos operários, trabalhadores e de todos os oprimidos.

visite o endereço www.jornaldoporao.wordpress.com para mais detalhes sobre a terceirização na Unicamp.

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