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III Colóquio Marx e os Marxismos, na USP

Iuri Tonelo

O jogo de forças entre as classes muitas vezes começa a se expressar antes mesmo da luta. Na maior e mais expressiva universidade do Brasil, a USP, os avanços da reitoria reacionária, genuína defensora dos interesses do capital na universidade, são latentes e visíveis: nesta irrupção do trabalho contra o capital (a greve de trabalhadores que se iniciou há semanas), as medidas autoritárias se expressam em ataques aos trabalhadores de conjunto (com o corte de ponto) e às organizações proletárias da universidade, como o sindicato, que está sendo alvo de coerções financeiras. Mas os trabalhadores dão respostas, e para esta terça-feira está marcado um piquete em frente à reitoria, buscando desenvolver essa importante greve. Enquanto isso, em um canto localizado na FFLCH não longe dali, em meio a esse cenário, jovens intelectuais participavam, na semana do dia 17 a 21 de maio, do colóquio “Marx e os Marxismos”.

Em uma universidade com uma tradição de pensamento social brasileiro tão conservadora, que forjou diversos quadros da classe dominante, o espectro de Marx parece insistir em incomodar: vemos como muito bem-vindas as discussões sobre nosso pensador alemão: na guerra de posições que se dá dentro da universidade, a discussão sobre marxismo se constitui como uma penetrante trincheira em meio à hegemonia conservadora.

Além de cinco mesas (que pretendemos abordar em outros textos aqui no Blog), com os temas de feminismo, crise econômica, Daniel Bensaïd, Gildo Marçal Brandão e situação nacional, o colóquio contou com a participação ampla de comunicações, que foram apresentadas em mesas temáticas: diferente do conhecido colóquio da UNICAMP (“MARX/ENGELS”), estas mesas foram constituídas de diversos pesquisadores em diferentes etapas do desenvolvimento da pesquisa, que iam de pesquisadores de iniciação científica a doutores e professores universitários, além de pesquisadores independentes, o que em muitos momentos privilegia uma discussão mais apaixonada e menos acadêmica, posto que não são só nomes consolidados no meio universitário.

Nesse sentido, foi triste perceber a mal elaborada divulgação do colóquio, que inviabilizou a participação mais massiva de estudantes: em cada uma dessas mesas, o que se via era uma quantidade muito pequena de participantes, variando entre 10 a 25 o número de pessoas acompanhando as mesas de comunicação.

O perfil dos estudantes era heterogêneo, prevalecendo ainda um espírito muito pouco militante. Todavia, em algumas mesas, foi possível um bom debate político e as perspectivas de relacionar a pesquisa com a práxis. Para isso, a juventude da Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional esteve presente, estimulando o debate em diversas mesas e buscando concatenar as discussões (por vezes abstratas sobre marxismo) com os problemas da práxis política, essencialmente discutindo a greve da USP (além disso, entre as comunicações que nos propomos a apresentar, estavam debates com György Lukács, Ruy Mauro Marini, sobre Benjamin Péret, polêmicas com o chavismo, com a constituição e estratégia do petismo, além de discussões sobre crise econômica e trotskismo) . Em uma das mesas, conseguimos arrecadar, através de proposta ao público, um montante para o fundo de greve da USP; em outros momentos, quando estávamos palestrando nas mesas, discutíamos em cada fala essa questão candente. Assim, de uma forma geral, a juventude trotskista disputava aquele espaço para que não se tornasse um novo quadro da galeria do marxismo morto, acadêmico, desvinculado da práxis, mas sim palco da discussão dinâmica, típica de um pensamento ligado indissoluvelmente a uma perspectiva revolucionária e subversiva da sociedade de classes.

Se devemos lamentar que a organização do evento não o construiu no sentido de ser uma arma alternativa dos trabalhadores em greve que naquela universidade continuam combatendo a ofensiva oligárquica de Rodas, ficamos contentes em perceber que existem iniciativas para se discutir o pensamento de Marx, que continua a se manter como um espectro bem concreto em meio a toda estrutura de poder da universidade, que aprofunda cada vez mais seu caráter anti-democrático e se desenvolve no sentido de ligar profundamente as universidades públicas com o capital privado. Em meio ao aumento da influência do capital e de suas personificações burguesas na reitoria, vemos que a classe trabalhadora, quando organizada e com a estratégia direcionada a combater os exploradores, mostra sua força mais uma vez na greve da USP. O ímpeto revolucionário dos trabalhadores não pode ser freado pelas estruturas de poder ditatoriais. Tudo o que é estável e sólido desmancha no ar…

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