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Ainda sobre o Colóquio Marxismos na USP: quais as perspectivas para a esquerda?

 Edison Salles

Mesmo passados vários dias, vale a pena ainda dedicar algumas linhas à mesa que sem dúvida constituiu o ponto alto de todo o evento, reservada para o último dia, sexta-feira 21/05. Reuniu Chico de Oliveira, Luiz Werneck Vianna e Juarez Guimarães (UFMG).

Chico de Oliveira abriu o debate, como esperado, criticando o ciclo neoliberal no Brasil, nos termos conhecidos: poder das finanças, fundos de pensão como mecanismo de cooptação e transformismo do sindicalismo petista, etc. Werneck Vianna manteve-se atado ao esquema liberal-‘gramsciano’ da oposição Estado vs sociedade civil. Juarez Guimarães fez o que pôde para defender a experiência do governo Lula com o nível teórico mais alto e com o discurso de não o estar defendendo, mas apenas “disputando o campo teórico a partir do qual a crítica a ele é feita”.

Passados já alguns dias do debate, e abrindo mão da cobertura “jornalística” do evento, vamos expor alguns dos principais argumentos oferecidos por nossos debatedores, para tentar compartilhar com o leitor a estranha sensação gerada pelo debate, em que, segundo todas as aparências, teríamos visto uma discussão de alto nível… após a qual, porém, nada mudou de lugar.

Qual a crítica a Lula?

A primeira coisa que saltou aos olhos foi que, com dois críticos abertos do governo, e um defensor não declarado porém contumaz “da experiência”… saíram-se todos bem, felizes, e tanto o governo quanto seus críticos podem se sentir enaltecidos…. Como entender o fenômeno?

Werneck Vianna, além de um orador pouco convencional (e interessante), mostrou-se hábil em apresentar-se de “esquerda” para fazer uma crítica de direita. Contraste este – entre forma e conteúdo – que se esclarecia quando o expositor transitava entre a crítica ao governo Lula e seu balanço próprio da “transição à democracia” dos anos 1980.

Mais de perto: Werneck Vianna apresentou uma grande “saga democrática”, que teria sido gestada durante os anos 1970, e tomado impulso da década seguinte para cá; e que teria como característica distintiva o fato de, pela primeira vez na história brasileira, significar um avanço da sociedade civil perante o Estado (e de uma sociedade civil moderna, dizia ele – contrapondo ao Florestan que, numa época passada, dizia que no Brasil o Estado era mais moderno que a sociedade).

Nesse processo, que teve seus momentos de glória na afirmação da hegemonia paulista, com seus empresários, seus intelectuais e sua classe operária (com a USP, FHC e Lula, dizia ele), o ponto fora da curva teria sido a atitude “anti-republicana” que ainda marcava o primeiro período petista, em que este partido expressava os interesses “selvagens” e “sem processamento político prévio”, represados pela política autoritária vigente no país até então… A marca maior desses elementos “pré-republicanos” no PT seria a recusa a ingressar no Colégio Eleitoral e a apoiar Tancredo Neves, e mais de conjunto as tendências ao “assembleísmo” e o desejo de “ganhar sozinho”… Na análise de Vianna, “felizmente para a democracia”, tais tendências foram neutralizadas e o PT terminou aceitando seu papel em construtor e pilar do regime democrático burguês, o que seria um ganho. A crítica se limita, portanto, ao exercício do governo Lula e a tendência atuante hoje no sentido de canalizar toda atividade da “sociedade civil” para o interior do Estado, processo que daria por resultado: de um lado, uma sociedade civil imobilizada, calada… por outra uma monopolização da iniciativa política por parte de Lula (“a única pessoa que faz política no Brasil hoje é o presidente!”).

Chico de Oliveira, por sua vez, reproduziu e aprofundou a crítica ao neoliberalismo brasileiro pela qual se notabilizou nos últimos anos…

Sua definição principal, repetida com insistência, foi a de que o governo Lula promoveu uma inédita concentração de capitais no Brasil (especialmente através de fusões e aquisições, cujo exemplo maior citado por Oliveira foi a da fusão Perdigão-Sadia: “hoje no Brasil até a produção de carne e embutidos virou monopólio!”). E a consequência disso (o mais interessante da sua argumentação): onde existe concentração de capitais, existe redução grave do poder de classe dos trabalhadores; razão pela qual os “avanços sociais” reivindicados por Juarez Guimarães em prol da “experiência”, se reduziriam a “ondinha de surfista” perante o “tsunami” dos capitais concentrados e aumento do poder de classe dos capitalistas sobre os trabalhadores.

Juarez Guimarães desde logo se antecipou ao desnível de prestígio acadêmico entre os debatedores, declarando-se de entrada um discípulo dos outros dois professores. Sem contar com grande brilhantismo teórico ou verdadeira profundidade de análise, conseguiu equilibrar o debate e, em certo sentido, responder a seus contendores de maneira suficiente.

Frente a Chico de Oliveira, desfiou o rosário de realizações do governo em tom triunfalista quanto à importância dos “avanços sociais” promovidos (por exemplo, insistiu em que no Brasil de hoje já não há mais fome, e isso é algo de cuja importância “nenhum socialista poderia duvidar” – sic). Diante de Werneck Vianna, optou por bater num ponto sensível, e que dificilmente poderia ser respondido sem que o atingido (Vianna) perdesse a carapaça de esquerdista que se esforçou para manter ao longo de toda a noite (não sem a ajuda de seus colegas de mesa). Ou seja: Guimarães trouxe à tona o viés liberal de toda a crítica de Vianna, não somente por operar sempre através da antítese Estado X sociedade civil, mas também, e principalmente, mostrando como Vianna comunga do universo de valores “liberal”, que postula que “a liberdade se dá fora do Estado”. E que, portanto, quando os movimentos sociais entram no Estado para lutar por suas demandas, Vianna veria apenas cooptação (ou corrupção)… Enquanto para ele, Guimarães, optando por um universo “republicano” de valores, a liberdade se dá através e pelo Estado, isto é, pelo exercício político efetivo… e que, “portanto”, quando os movimentos sociais “entram” no Estado, eles estariam amplificando sua capacidade política de lutar por suas reivindicações e fazê-las ouvidas. Bonitas palavras para alguém que, representando a chamada esquerda petista, vem contribuindo para atrelar o movimento sindical e demais organizações dos explorados ao Estado capitalista…

Porém nenhum dos debatedores realmente encurralou o representante governista em suas próprias contradições… E isso também porque Chico de Oliveira, mesmo argumentando e insistindo em que o lulismo implicava uma perda do poder de classe dos trabalhadores, auspiciava um longo período de crescimento interno, independente da crise mundial – chegou a dizer que não havia o que temer pois “o crédito vai continuar”, etc; enquanto isso, Vianna ficou todo o tempo preso à perspectiva do que chamou de “seu ator”, isto é, a “sociedade civil” explicitamente entendida como entidade abstrata pairando por sobre as classes – e pelo mesmo motivo insuficiente para garantir a crítica ao viés mais esquerdista da fala de Guimarães.

O saldo final

No final das contas, “entre mortos e feridos salvaram-se todos”, ou melhor: crítica vai, crítica vem, o fato é que entre os três debatedores se manteve o elo invisível de um certo modo de conceber a transformação social e de fazer política no Brasil. Um modo que deita raízes nas velhas tradições, estratégias e programas da esquerda nacional-reformista, com todos os seus matizes e suas divisões mais ou menos “contingentes” (de um ponto de vista mais amplo).

(Aliás, nesse ponto nada acrescentamos ao que foi dito pelo membro governista da mesa, que fez questão de ressaltar que em sua visão ali eram todos militantes de um mesmo “partido histórico”…)

Finalizando, como deve ter ficado claro pelo que já foi dito, o balanço geral pode ser apresentado através, também, de uma discussão de perspectivas teóricas: afinal, entre “liberais” e “republicanos” – de resto, uma divisão clássica do pensamento político burguês – o que ficou faltando mesmo foi uma visão marxista revolucionária – vale dizer,  proletária

Nossa intervenção, buscando expressar justamente esse elemento faltante no debate, não foi respondida, mesmo tendo levantado um tema tao essencial como o desenvolvimento da crise na Europa e o exemplo que aquele continente oferece de que partidos de “esquerda” como o PASOK grego ou o PSOE espanhol são hoje os responsáveis por brutais ataques contra suas próprias populações trabalhadoras – e que, se o PT de Lula foi conservador durante o ciclo ascendente da economia mundial, caminha para cumprir um papel de verdadeiro “partido da ordem” no período que temos pela frente.

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