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Os Bocas do Inferno da mídia e da acadêmia e seu mundo de ponta-cabeça

André Augusto

Os bocas do inferno da mídia em geral e da academia, com traços de lúcida covardia inexistentes naquele original do século XVII, não demonstram nenhum interesse em expor suas “idéias”, “opiniões públicas” ou “pensamentos”, nos fóruns dos trabalhadores que atualmente ocupam a reitoria da USP. Entretanto, atiram-se salivantes no conforto da resposta muda, reunindo toda sua covardia política, sua fraseologia democrática (aquela democracia que depende do bem-estar e do direito “de ir e vir” daquela que fala), sua castidade de negociante, sua instintiva repulsa pelo preciso, acabado e decidido no domínio das idéias, sua veneração pelo uso das conquistas políticas da esquerda para defender projetos que são da direita, enfim, todo o conjunto patético de lugares-comuns da pequena e da grande burguesia, nas páginas seguras da “Ex-Libris” e da Folha de São Paulo.

Essas almas generosas, que mais nada sabem que ouvir as cantatas indignadas dos jornais cuja única função é discutir os assuntos de interesse de sua classe, aproveitam-se da passividade ainda em trono na juventude, e da timidez dos próprios trabalhadores, para erguer com blocos e blocos de estupidez e cinismo o cerco midiático contra as posições políticas dos trabalhadores em greve, numa mescla de falta crassa de informação e associação dessa falta com a realidade efetiva das coisas . Escondem tudo o que há por trás da aparência com a própria vacuidade da sua aparência.

E com pilhas de palavras. Nesse último período, a burguesia lançou um tropel de ataques à ocupação da reitoria da USP através de seus periódicos, quase nunca preocupados em falar uma verdade sequer – portanto ataques religiosos – além de fazer a opinião pública da classe média ocupar uma posição política útil à ordem capitalista.

Veja-se, por exemplo, essas porções literárias de Fernando de Barros e Silva, colunista da Folha, de 11/06; assim inicia: “Chama a atenção, na invasão da reitoria da USP por funcionários e estudantes, que muitos tivessem os rostos cobertos”. É com essa dissimulação de espanto, desejoso de equiparar sua letra com as melhores aberturas da crônica, que esquece de dissimular a total normalidade com que trata o assédio repressivo daqueles que registram os manifestantes para puní-los com sindicâncias. Nada mais óbvio do que a necessidade de cobrir-se diante de inimigos de classe que querem derrotar a mobilização do ímpeto dos trabalhadores, e que fantasiarão nos seus pasquins que o motivo para isso é talvez “a tentativa de obter, com a máscara, um rosto, uma identidade possível”.

É provável que fizesse essa pergunta sem sentido a si mesmo; deixemo-la a ele, para que responda em seus momentos íntimos. Mas o autor tem o direito, esse também democrático, de descrever o cenário no primeiro parágrafo, para daí até o fim do texto provar que a descrição valia mais que todo o resto do escrito.

Após minerar no deserto de suas idéias, reservamo-nos apenas mais um parágrafo desse paladino dos espaçoes públicos:

E, no entanto, barbarizar está virando rotina na USP, piquetes com ameaças a funcionários e estudantes, invasão da reitoria e depredação do patrimônio público parecem ter sido incorporados ao calendário oficial do ano letivo da principal universidade pública do país”.

Para que se chegue à verdade, é necessário inverter totalmente a sentença do cavaleiro, uma vez que ele colocou o mundo de cabeça para baixo. Há pouca coisa que seja mais bárbara do que 1000 famílias sem ter o que comer; entre essas coisas, um número maior de pessoas sem comer. O que reitor-interventor de José Serra, João Grandino Rodas, julgou por bem fazer deixaria escandalizado um servo russo do século XIX. Primeiramente, esse homem “preciso e lúcido”, segundo Maria Hermínia Tavares de Almeida, trucidou pela primeira vez o acordo travado em 1991 entre o CRUESP (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) e o Fórum das Seis (Órgão que reúne docentes e funcionários das três estaduais paulistas) sobre a isonomia salarial dos trabalhadores, entre funcionários e docentes, repassando um aumento de 6% nos salários dos docentes, repasse inexistente aos funcionários. Após essa intransigência, os trabalhadores entraram em greve no dia 5/5. O Conselho de Reitores utilizou as duas reuniões para ridicularizar as propostas dos sindicatos, (repasse de 6% retroativo a fevereiro, mantendo a isonomia salarial), mesmo após os trabalhadores da Unesp e da Unicamp aderirem à greve.

O que o ilustrado reitor fez, após conversas ao pé de ouvido com os reitores Fernando Costa e Herman Voorwald – após ter sido ineficaz em fazer com que as Congregações dos institutos sancionassem os funcionários que respondem a elas – foi autorizar o corte de ponto de todos os trabalhadores paralisados no setor da Administração Central da universidade, que respondem diretamente à reitoria, suprimidos 16 dias da folha de pagamento de cada funcionário. Alguns trabalhadores na Ocupação, como na Coseas, já não possuem outra fonte de subsistência senão o fundo de greve.

Nesse sentido, não que quiséssemos superestimar a inteligência do Sr. Barros e Silva, de maneira alguma: esse foi o sujeito que chama “barbarizar” o ato de arrebentar uma porta blindada, e não o corte do próprio salário de fome dos trabalhadores; mas pensávamos que ao menos ele sabia alguma coisa do assunto para o qual abriu a pena. Repreendemo-nos do erro.

Para estudar os organismos animais, é preciso começar estudando a ameba. Passemos às declarações do magnífico reitor João Grandino Rodas, desde o primeiro comunicado, em que manteve a ponderação que se espera de um homem de letras “preciso e lúcido”:

A Universidade de São Paulo (USP) lamenta a invasão violenta ocorrida hoje (08/06), no prédio da Administração Central. Cerca de 80 manifestantes, entre servidores, alunos e pessoas estranhas à comunidade acadêmica, portando ferramentas pesadas utilizadas em demolição, como marretas, machados e picaretas, vandalizaram as instalações do edifício e consumaram a invasão com a expulsão truculenta da Guarda Universitária, que atua normalmente como responsável pelo patrimônio. Dessa maneira, as instalações dos Órgãos Centrais da USP encontram-se sob o domínio completo dos manifestantes”.

Ora, seria excelente aos trabalhadores se pudessem ocupar o prédio sem derrubar nada e entrar caminhando pela porta da frente. Mas Rodas começa a descrever a epopéia de Tróia pela Odisséia. Da mesma forma que o lírico Barros e Silva, achando identidade entre o começo e o meio da história, Rodas ignora falar do seguinte: que dizer dessa completa perversão do que é comumente concebido como “patrimônio público”? O patrimônio público que não pode ser checado pelo público? Por que a reitoria da USP parece uma fortaleza, tal qual uma poderosa agência bancária, um verdadeiro bunker dentro do qual se escondem aqueles que não desejam ser inspecionados pelos demais órgãos públicos? Os trabalhadores usaram marretas para transpassar portas pois que essas portas eram blindadas, com chapas de aço no interior da moldura amadeirada; e não são duas ou três portas, mas várias.

Utilizaram ferramentas de demolição para derrubar o vandalismo com que o reitor Grandino Rodas afasta a comunidade universitária de algo que é pago por ela, assim como a classe trabalhadora urbana e o povo pobre, tão tributários desse “Parthenon do povo” quanto aqueles, cuja sombra nem se imagina chegue perto dessa “Área 51” da mais cristalizada, elitista e racista burocracia acadêmica do estado.

Cada vez mais, o que de “públicos” têm os patrimônios são apenas o financiamento, pois sua regulamentação, moderação e utilização são absolutamente privadas. Esse é o nódulo inicial sobre que Rodas discorria quando falava, no início de sua gestão, em “re-significar a antinomia público/privado, já bem engessada”. João Grandino Rodas e sua camarilha burocrática, após admirável pesquisa no campo da filologia, encontraram a nova semântica apropriada aos vocábulos “público/privado”: os esforços do público garantindo os seus interesses privados, os da burguesia.

[…] Dessa maneira, as instalações dos Órgãos Centrais da USP encontram-se sob o domínio completo dos manifestantes”.

Todos sabemos que isso é uma grande mentira de um magnífico pesquisador de dicionários. Se assim fosse, se as tarefas da Administração Central da USP estivessem concretamente paralisadas, Rodas já teria tirado a maquiagem demagoga do paternalista negociador; anunciaria que fizera uma “boa” e intransigente proposta aos trabalhadores, para que negociassem com a faca no pescoço, e omitisse o cano surdo de seus ouvidos. Se assim fosse, provavelmente o 9 de junho não estivesse há um ano de distância da USP.

A principal mostra de que os trabalhadores manifestantes infelizmente ainda não possuem nas mãos os fios centrais dessa trama se expressa no fato de que Rodas ainda nem pensa em reabrir as negociações, portanto, não há uma mudança decisiva da correlação de forças.

Há poucos dias, Rodas ainda provocou o público urbano dizendo, “as greves trabalhistas se tornaram usuais no calendário letivo. O povo que paga pela universidade pública acha isso justo?” Mais uma vez, o reitor pára a frase justamente onde ela deveria continuar.

O complemento decepado da última frase seria: os trabalhadores e o povo pobre, que pagam pela universidade pública, acham justo… que ela sirva apenas ao abastecimento de uma classe privilegiada destinada a manter sua escravidão assalariada? Acha justo ficar fora da universidade que banca com o próprio exaustão física? Acha normal um capitalista da educação utilizar-se do seu suor para brincar com a vida de centenas de trabalhadores que tiveram seus salários descontados?

A reitoria da USP ainda tem nos gordos bolsos o aparato do “patrimônio público”, que nas mãos da burguesia se torna uma arma contra todos os interesses do público dentro e fora da universidade, legítimos herdeiros dessa instituição do ensino superior, por ora apenas à elite paulista.

É preciso derrubá-la através de comitês de organização dos trabalhadores e do povo pobre que atue de maneira independente dos governos estadual e federal, com seus próprios métodos e descobrindo a profundeza de seus limites: nisso, os combativos trabalhadores do Sintusp se forjam exemplarmente.

Os intelectuais universitários precisam espelhar-se na combatividade desses trabalhadores ocupados em defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade, a serviço dos trabalhadores e do povo pobre; que batalham contra a terceirização e pela solidificação mais permanente da vital aliança operário-estudantil. Principalmente os intelectuais que se reivindicam da tradição marxista: urge que entrem em franca guerra ideológica contra as posições reacionárias para a educação pública de Serra e Rodas do PSDB, e de Lula do PT.

As reivindicações da ocupação giram em torno da reabertura das negociações e o pagamento dos salários descontados. Rodas tem a vantagem conjuntural que se origina do fato de que a ocupação da reitoria no último dia 8/6, e a permanência dela, ainda não conseguiu reverter os pesos na balança de forças entre a reitoria e os trabalhadores em favor destes últimos. Mas isso é só uma vantagem. Vantagens não garantem a vitória; o que a garante é o impacto e a mobilização das forças vivas.

Os trabalhadores, a aliança operário-estudantil, representam o futuro arrastando o passado morto.

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