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Saramago: da destreza literária à investida contra a reação católica

Por Danilo Magrão e Iuri Tonelo

Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.

(Hebreus, 11,4) LIVRO DOS DISPARATES

Qual o limite da igreja católica quando pretende destilar o seu reacionarismo? Essa é uma pergunta que se faz premente quando se observa desgraçadamente que a pouquíssimos dias da morte de José Saramago, importante gênio da literatura mundial da contemporaneidade, a igreja já se manifesta, em seu L’osservatore Romano, jornal oficial do vaticano, ofensivamente contra o escritor, atacando a quem já não pode, depois de muitas lutas, responder às heresias de cada conteúdo desta instituição perversa que insiste em não caducar. Respondamos por Saramago! Em primeiro lugar é importante que apontemos, já que não nos é possível uma crítica literária, o que expressava a figura de Saramago: (a despeito de estar filiado a um partido tão contraditório com a emancipação dos trabalhadores, podemos dizer que ele era) um escritor comunista, irreconciliavelmente ateu, que buscou entre suas obras responder aos fundamentos das principais contradições que regem a nossa sociedade capitalista, sobretudo no que tange a questão da alienação e da apatia intelectual da sociedade. Nos últimos tempos, particularmente, a figura de Saramago tem se envolvido diretamente com duas questões fundamentais: primeiro, com a problemática da crise econômica internacional, que é um dos grandes fenômenos que vigoram hoje, e que tem colocado em xeque alguns pilares da economia burguesa, de sua dominação política e, por conseguinte, de todas as suas formas ideológicas de representação, de todos os dogmas da sociedade atual. Não é pouca coisa o fato de um escritor com o peso intelectual como o de Saramago aparecer a público para afirmar que Marx nunca esteve tão certo, numa admirável constatação num momento de tanta escassez de pensamento crítico nas artes. Sobre esse ponto, podemos lembrar também que a crise abre as portas para a intensificação de soluções e formas ideológicas conservadoras, tendo como ponta de lança histórica a igreja católica. Assim, Saramago não se manteve calado, gritando a plenos pulmões que, “As insolências reacionárias da igreja católica precisam ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de deus na terra, os quais, na verdade, só tem interesse no poder”. Uma instituição que se mantém omissa perante a pedofilia de seus próprios pastores, que se calou frente à hecatombe do nazismo, que foi e é firme agente do imperialismo em muitos momentos históricos decisivos, como no apoio as ditaduras militares na América Latina etc., prepotentemente desferiu de maneira covarde todo seu veneno sobre aquele que se manteve inquieto perante as mazelas da humanidade. Assim como Saramago não pôde se manter calado frente ao genocídio israelense contra os palestinos, todos nós que temos em nosso horizonte a emancipação humana, nos sentiríamos criminosos se não respondêssemos por quem já não pode se defender. À nós resta, para além da sua incomparável contribuição no campo da arte, seu legado crítico, incansável defensor daqueles que na terra sofrem. Na paixão revolucionária, Saramago vive; em contrapartida, “deus está morto”.

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