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Para poder curar uma enfermidade, é preciso dar-lhe um nome

André Augusto

 

Recentemente, em entrevista para a Folha, o REItor João Grandino Rodas deu-nos o prazer de ler textualmente a jornada que percorrem seus pensamentos. Jornada esta que nos últimos meses envolve o ciclo da universidade pública e a greve das estaduais paulistas, além do tema da terceirização do trabalho. Naturalmente, como administrador central da USP, ele possui informações internas mais detalhadas sobre o que ocorre. Certo?

Ao ser questionado sobre o que pensava sobre a terceirização, Rodas replica: “É algo que precisa ser discutido”. Indagado, ora, sobre o possível aumento da terceirização do trabalho na USP, Rodas redargüe: “Não tenho conhecimento nem analisei a questão específica da USP para dizer se aumentou. Mas isso não é fenômeno só nosso”. Não lecionado suficientemente sobre a reticência de Rodas no que toca o domínio das perguntas, o inquisidor tenta uma vez mais e, buscando um dedo de comentário positivo após sua fala, afirma que há juristas no Brasil que concluem que a terceirização é inconstitucional e… pobre iludido! Recebeu a interrogação jogada de volta na sua cabeça; a isso responde o magnífico REItor: “Não estudei a questão de forma profunda para poder responder. Agora, se realmente for inconstitucional, o Brasil inteiro está inconstitucional”.

Mas o repórter é um bom cristão, e reflete que “o que nós não podemos, pode-o Ele”. Pergunta já de maneira contrita se o reitor da USP pretende repensar a questão (ou seja, “repensar” algo que Rodas nem guardava no covil seguro de suas idéias), ao que este, não menos dotado da cristandade, afirma: “Estamos examinando um monte de questões. Também esta”.

Rodas, um sujeito único cujo ser nega a palavra, diz não ter idéia das proporções em que o contrato precarizado entrou no orçamento da universidade, mas imediatamente se defende do aumento da terceirização na USP, negando-se a si mesmo, quando complementa, “mas isso não é fenômeno só nosso”. Da mesma maneira, adiante, ao indicar que não “estudou a questão profundamente” para poder responder sobre a inconstitucionalidade da terceirização na universidade pública, é o primeiro a admitir essa inconstitucionalidade ao defender-se dizendo que, “se realmente for inconstitucional, o Brasil inteiro está inconstitucional”.

Ao negar o homem, Rodas coloca a instituição no banco dos réus; assume o capuz de culpado. A sua seriedade aqui não é mais que um comportamento hipócrita do corpo para encobrir os defeitos da coisa.

Prontamente, já não se sabe mais o que Rodas está fazendo na chefia da Reitoria da USP, pois demonstra não conhecer nada, não saber absolutamente nada, nem conseguir ser criativo durante a expressão de sua própria ignorância. Enquanto cada gota de orvalho em que se reflete o sol brilha em um jogo inesgotável de cores, o magnífico João Grandino Rodas admite que se encontra no pântano onde se afundam a burrice e o pedantismo.

Podemos pensar que o Governo do Estado, em uma cegueira persistente, tenha escolhido os indivíduos mais ineptos, sistematicamente, para exercer as funções mais difíceis? Serão todos os administradores públicos tão incultos e tão torpes a ponto de desconhecerem a legislação interna, a folha orçamentária, a proporção de funcionários concursados e de funcionários terceirizados, o acréscimo ou declínio nesses dados, e que, sobre tudo isto, ainda sustentarem o poder de regular, em medida ainda maior que os censores romanos, não somente a conduta dos trabalhadores da universidade, senão inclusive comportamento do espírito público?

O atual REItor da USP é um interventor direto do Governo do Estado, um feitor de José Serra, um dos candidatos à presidência pela direita, que montou sua própria coleira e amarrou a corda até a América do Norte; disso não há dúvidas. Mas não se trata aqui de imputar aos indivíduos os defeitos objetivos de uma instituição – a universidade pública, que é “gratuita” e “de qualidade”, tanto quanto pode estar a serviço do capital – para suscita com isso a aparência de que se corrige algo, sem corrigir a essência mesma do mal.

Estamos, nestes casos, sempre ante um aparente liberalismo, que se presta a fazer concessões e sacrifica as pessoas, por ora instrumentos da burguesia, para manter de pé a coisa, a instituição.

Trata-se com isso de desviar a atenção de um público superficial. Converte-se em rancor contra as pessoas um rancor dirigido contra a coisa. E se crê fazer mudar a coisa com uma simples mudança de pessoa. Assim como se desvia o olhar da censura para fazê-lo recair sobre alguns censores, desvia-se o olhar do elitismo e do racismo estrutural da universidade pública a serviço das classes burguesas e de seu cientificismo desengajado e anti-científico, para depositá-lo sobre o mandato dos seus reitores, que é de fato, como vemos agora, um autoritarismo e um pedantismo em cadeia, culminado pelo REItor dos cortes de ponto.

Em pesquisa de Talita Bedinelli, da Folha, a USP aumentou em 85% os gastos com empresas terceirizadas na universidade nos últimos dois anos. Desde 2008, os gastos totais da universidade subiram 25%. Já o gasto com a folha de pagamento dos servidores e professores, 23%.

No início da década de 1990, a USP tinha mais de 17 mil funcionários. Hoje, o número é menor que 16 mil (nesse período, criou-se a USP Leste).

A possibilidade de contratação externa aumentou, depois que foi alterada a nomenclatura de alguns cargos. Marceneiro e pintor, por exemplo, viraram “auxiliar de manutenção e obras”. A nova nomenclatura pode generalizar um trabalho específico da maneira que bem entender, já que Rodas demonstrou, com a manutenção das portas blindadas dentro da reitoria, que não deseja ser inspecionado pelos órgãos públicos que têm essa tarefa, muito menos que o povo seja o protagonista dessa inspeção. Com isso, há funcionários que exercem a mesma função, mas com salários diferentes. O piso de um vigia terceirizado é de R$ 909. Já o piso de um agente de vigilância concursado na USP é de R$ 1.210, mais auxílios que chegam a passar de R$ 500.

A luta contra esses nefastos capitalistas da educação que hoje ocupam os cargos mais decisivos nas universidades públicas (para não dizer do descalabro das universidades privadas, que removem o direito de ensino superior gratuito que, por suas determinadas razões, era concedido até pelo estado prussiano no século XIX), contra os reitores da Unicamp, da Unesp, e Rodas da USP – este que defende abertamente a “melhoria da universidade pública com o advento de capital privado” e que “deve-se mudar o paradigma engessado público/privado”, ou seja, repudia os interesses públicos dentro das universidades públicas em favor da iniciativa privada – esta luta, enfim, deve correr ao lado do combate incansável pela universidade que seja pública, livre, gratuita e de qualidade, a serviço dos trabalhadores e do povo pobre da cidade e do campo.

Pelo fim da terceirização no funcionalismo público, com a incorporação de todos os trabalhadores terceirizados sem necessidade de concurso público, que é um combate contra a participação do capital privado em instituições financiadas pela verba pública, meio pelo qual os reitores burgueses tentam cobrir a negligência dos governos estaduais (de Serra, por exemplo) e federal (de Lula e do PT), a respeito da educação gratuita a todos os níveis.

A “universidade pública” da burguesia e de suas empresas impõe sobre a cabeça dos trabalhadores descontos salariais, cortes de ponto e o cerceamento do direito de combate contra tudo isso, a greve. Os trabalhadores, a juventude combativa, e as camadas mais pauperizadas da cidade e do campo precisam demonstrar o que é a universidade pública a serviço de seus interesses históricos, e mostrar que esse “educador” deve ser educado pelo curso da luta de classes.

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