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Adendo à defesa de Saramago

André Augusto 

 

Ao refluir o pântano da religião, deixa para trás poças de lama e os líquidos mais imundos; nesse recente período, a chefatura da cristandade quis levar consigo o escritor português José Saramago, julgando-se a maré sobre a qual tudo navega. Mas assim o era nos inícios da Idade Média: esse rio já secou há muito tempo. Como dissemos, a Igreja é só um pântano. E para tratar seriamente dessa ridicularidade, é preciso tratá-la ridiculamente.

O espírito geral da religião, e o espírito específico do cristianismo em particular, só pode carregar em suas batinas e nos seus solidéus a reação em toda a linha, embora seu reacionarismo evolua de acordo com as necessidades em evolução da classe parasitária que defende, a burguesia.

O modo adequado da expressão religiosa foi desde o primeiro momento oposta a toda a verdade, e por isso está sempre ao lado da escolta oficial da modéstia, da moralidade, da bondade, da humildade, da seriedade e da virtude, atrás das quais esperou durante séculos esconder bem a sua charlatanice, bem ao tom das “cartas lacradas” dos nem tão antigos reis cristãos, ordens secretas pelas quais encarcerava e desterrava do país, sem juízo, os inimigos do regime.

O último aborto da ciência cristianizada foi público, nada lacrado nem secreto. Parecia querer desterrar o autor português da vida, depois deste já falecido. Como se Saramago desejasse qualquer aprovação dos “representantes de deus na Terra”, e pudesse ficar preocupado com essa desaprovação agora que foi.

E o vaticano sabe muito bem disso. Então, por que raios espera a morte do português para abrir os portos da calúnia e da “severa penalização” em seu editorial, que se coloca “com lucidez contra as ervas daninhas no trigal do Evangelho”?

Por duas razões: primeiro, se o fizesse em vida do português, este exporia com facilidade todas as fissuras indefensáveis na posição de uma instituição que depende da defesa irracional – e armada – de sua existência; de resto, silenciado o escritor, a covardia cristã soa aos ouvidos cristãos como autos de virtuosismo; o acriticismo dos fiéis cristãos transforma os ridículos mais amargos em excessiva modéstia. Segundo: essa moralização tem de arranhar sua passagem dentro dos cérebros dos que ainda vivem. Que não haja mais “ideólogos irreligiosos”, nem “populistas extremistas”, ou seja, toda a ausência cŕitica necessária para a manutenção dos privilégios da Igreja Católica, sobre as costas dos trabalhadores e do povo pobre.

A Igreja Católica é uma das instituições mais reacionárias do planeta e firme agente do imperialismo. Foi o principal agente do desvio do processo de revolução política na Polônia em 1980-81 (através de sua influência na direção do sindicato Solidariedade) e da posterior restauração capitalista nesse país; abençoou a ditadura genocida na Argentina, faz campanha contra o direito ao aborto e se nega a aceitar o uso de preservativos até em países onde a AIDS consiste numa pandemia, como no continente africano (sem mencionar incontáveis abusos sexuais e atos de pedofilia). Em Cuba, hoje, atua a serviço da política imperialista de impor uma democracia burguesa na ilha, para acelerar a volta ao capitalismo e à recolonização norte-americana, com suas seqüelas de opressão, fome e miséria para milhões.

Historicamente, pois, essa agência, “ideóloga religiosa que admite toda metafísica”, pode sempre fazer “bons ofícios” frente às potências estrangeiras, e caso for necessário desempenhar um pérfido papel de contenção social como o fez no Brasil durante a ditadura militar e em outros países, ou ainda, chegado o caso, ser um setor chave em qualquer plano de “transição” negociada com o regime.

Além disso, há a questão do machismo da Igreja Católica como reforço a uma das maiores pressões da ideologia burguesa contra as trabalhadoras e seu protagonismo no movimento operário, dividindo homens e mulheres. A Igreja, bem ao tom de uma “burocracia religiosa”, impede que as mulheres trabalhadoras possam se organizar independentemente, acirram todos os freios e amarras para que elas não façam isso, desmoraliza-as, aportam para a desconfiança das mulheres, principalmente negras e pobres, nas suas próprias forças, legalizando o reino dos céus para elas, já que reconhece o reino da terra para os capitalistas.

Nesse sentido, o vaticano, na sua figura de destaque, Bento XVI, se agrupa para alinhar todos os seus fiéis no instinto de rebanho a favor da propriedade privada; da posse do latifúndio; dos privilégios da “Casa de deus” e daqueles privilégios do deus da Casa, a burguesia; da violência contra a mulher, contra a legalidade do aborto e a favor da excruciação de seus corpos, da dupla jornada de trabalho e da escravidão doméstica à la “cumpram tudo que seus maridos desejarem”; a favor de não escandalizar-se com os casos de pedofilia em diversas cúrias episcopais ao redor do mundo, enquanto incitam a homofobia para seguir impune, fazendo com que os padres e bispos sejam acusados individualmente, mas expurgando coletivamente os casais homoafetivos; e, acima de tudo, a favor da construção da atmosfera espiritual geral que duvida de qualquer possibilidade de conhecimento objetivo, sendo a matriz social de todas as teorias relativistas.

Por isso, a Igreja é a garantia formalmente material do refúgio da burguesia dentro do irracionalismo sempre que a necessidade se apresente. Quando busca crucificar Saramago, assim como buscou anteriormente, com êxito em alguns casos, fixar penitências, ostracismos e outras mil opressões sobre autores como Boccaccio, Gil Vicente, Rabelais, Heinrich Heine, entre tantos outros, o que faz na verdade é questionar, entre uma tortura e outra, “por que não, melhor, adotar na escrita o bom estilo curialesco alemão dos velhos tempos?” Deveis escrever livremente, mas procurando que cada frase seja uma reverência ao bom senso e à censura liberal, (à Igreja Católica, portanto), para que esta permita a passagem de seus juízos. E que não percais nunca a consciência da devoção.

A Igreja Católica do Ocidente, privada dos imensos poderes que possuía há poucos séculos atrás pela concentração da forma em que a propriedade privada se materializava, na terra, essa instituição não pode exercer sua influência no novo tempo histórico senão de maneira indireta, através do estado republicano burguês. Sob o governo Lula, líder do atual “partido da ordem” do PT, esta reacionária instituição não só fica mais rica a cada dia às custas da fé e do trabalho alheio, como com a concordata Brasil-vaticano assinada em novembro de 2008, é-lhe concedida por direito ensinar seus horrores intelectuais nas escolas públicas.

Combater a “democracia” burguesa significa combater esta relíquia carcomida da Idade Média, resultado do medo, das superstições e dos erros vulgares da época em que o homem era coagido a não controlar as forças vivas e criadoras de sua inteligência. Lidar de maneira revolucionária com esse cadáver deitado sobre a mesa fria do necrotério da história, ainda operante, é dirigir uma arma terrível contra a hipocrisia reinante dessa confraria de poderosos que apregoam aos trabalhadores que bebam água enquanto ela mesma toma vinho. Significa lutar contra essa casta que postula o sacrifício da vida atual em favor de uma imaginária vida celeste, e ainda se reivindica “defensora da vida”! Que deseja perpetuar-se nas doces mordomias, através desse baixo expediente do obscurantismo.

Em última instância, enfim, os revolucionários é que somos os verdadeiros herdeiros da vida e lutamos por ela, contra a Igreja Católica e sua maneira morta de submeter o homem ao receio do castigo; as formas essenciais de nossa atividade são a subversão, a alegria, a ironia, a vivacidade, o movimento, a clareza, o humanismo enfim, e não aceitaremos que a sombra se torne o modo adequado de expressão da(o)s trabalhadora(e)s e do povo pobre, que precisam da maior liberdade para agarrar com suas próprias mãos o seu destino.

Repudiamos o ataque do vaticano contra Saramago, e ficamos ao lado dos que escrevem livremente; ao mesmo tempo em que reconhecemos que o português, se ouvisse a investida, provavelmente estaria rindo às bandeiras despregadas. Aprendemos com o português, e escrevendo em sua gramática não admitiremos as insolências reacionárias do vaticano. Contra essa instituição que armazena vaidade, rancor, hipocrisia, maldades, os revolucionários devemos domesticá-la com chicotadas de riso pois, lembrando um dos perseguidos pela Igreja, “rir é próprio do homem”.

 

p.s.: no seu leito de morte, o grande empirista iluminista escocês, David Hume (1711-1776), foi visitado por um curioso padre para operar-lhe a extrema unção. O padre questionou o ateísmo vigente durante a vida de Hume, e quis saber se, antes de morrer, o escocês se arrependeria de seu ceticismo radical e se converteria ao cristianismo. Hume respondeu que não, de maneira alguma, e estava ainda plácido e imperturbável com isso. Após longa conversa, em que os argumentos do padre se esgotaram em fracasso, este se rendeu e perguntou pela última vez: “Você realmente acredita que, ao morrer ateu, não irá ao inferno?”.

Hume replicou: “Bem, há essa possibilidade, assim como há a possibilidade de se atirar uma peça de carvão numa churrasqueira e ela não queimar”.

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  1. 07/01/2010 às 6:43 pm

    Oi André, tribuno do povo,
    Pena que este texto tenha a letrinha tão pequenininha, mas um texto e tanto. Seria interessante republicar o texto sobre terceirização que saiu no antigo endereço, ele é muito bom, e muito necessário. A Maria, funcionária do IFCH, leu no endereço aitigo, fez um comentário, mas que não conseguiu enviar; depois lhe envio através do Jornal do Porão.
    Mário

  2. 07/01/2010 às 6:46 pm

    André

    Além de bem escrito e atacar a questão da terceirização , papel que deveria ser de nosso sindicato, seu texto é apaixonante, traz a marca de quem se indigna com “os odores dessa sujeira”. Espero que deixe indignados também outros leitores, funcionários , estudantes, professores, responsáveis ou não pela terceirização,pois quem não se incomoda é no mínimo conivente.
    Maria

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