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USP: a greve de ontem e as batalhas de amanhã

por Iuri Tonelo

Ontem, depois de uma dura batalha em escala estadual, os trabalhadores da USP e da UNICAMP decidiram sair da greve. A luta pela isonomia, travada em cima de ações radicalizadas e de debates políticos, não conseguiu se plasmar na vitória dos trabalhadores: manteve-se a diferença no reajuste salarial para aqueles que produzem conhecimento, o trabalho intelectual – os professores – e os que produzem universidade, o trabalho manual – os trabalhadores. Em mais um reflexo da nossa sociedade de classes, tenta-se promover a divisão das categorias, buscando-se transformar os professores nos agentes diretos do capital do futuro (em alguns casos do presente), com seus núcleos de pesquisa e de posse das estruturas de poder da universidade. Assim, os professores receberam reajuste e os trabalhadores ficaram à mercê dos acontecimentos. Entretanto, desta luta importante, os trabalhadores conseguiram manter uma conquista decisiva: o direito de lutar, o direito de fazerem greve sem terem seus pontos cortados e suas cabeças perseguidas.

Esse foi um processo difícil também pelo apoio que a grande mídia burguesa deu, em todo período, à direção da reitoria da USP. Ontem na Folha de São Paulo o jornalista Fernando de Barros e Silva não deixou por menos e escreveu atrocidades reacionárias, no último dia da greve. Parecia querer sustentar as posições de João Grandino Rodas (reitor da USP) durante todo o período, ou seja, da mais deslavada e conservadora intransigência. E como todo bom escritor burguês, exercitou sua capacidade de inverter tudo! Assim, o exercício democrático e legítimo de greve por parte dos trabalhadores é, ao juízo do jornalista em questão, uma forma de truculência!

Nesse sentido, a fim de atacar frontalmente um dos sindicatos mais combativos do último período, escreve Fernando de Barros e Silva: “Desde 1994, os funcionários da USP já fizeram 11 greves e ficaram parados 388 dias, como mostra hoje a Folha. Houve paralisações justificáveis? Sem dúvida. Mais o Sintusp desmoralizou o direito à greve. Inventou um grevismo profissional e faz dele um modo de vida – dane-se a maioria. Quanto menos representativos, mais truculentos são”.

Toda vez que uma organização operária, como um sindicato, foge a sua vinculação com o Estado e não se faz dele refém, constituindo-se em cima de seus próprios métodos (métodos operários) e de forma independente, a burguesia se descontrola: está acostumada com tantos anos de petismo, de sindicalismo adaptado, de lutas corporativas, com burocracias vendidas. Não é a toa que o absurdo completo se faz comum hoje na USP: sistematicamente, a polícia militar tem entrado no campus, e entra para intimidar (e às vezes diretamente para reprimir os trabalhadores e os estudantes); nada há de irônico no fato de que quanto mais combativo o Sintusp se torna, mais reacionária se porta a burocracia acadêmica; no trato com a polícia, os reitores nos fazem lembrar o partido da ordem francês em 1849: “J’ai mieux la terreur blanche que la terreur rouge” (prefiro o terror branco ao terror vermelho).

Assim Fernando de Barros e Silva condena o Sintusp por seus métodos, seus piquetes, ocupações, enfim, por mobilizar os trabalhadores da universidade contra o projeto autocrático, elitista e privatista de Rodas e seus condescendentes. Isso não tem nada de progressista: Rodas quer a universidade americana, com terceirizações, vinculação com o mercado e estranha aos interesses da população. Já o Sintusp, junto com os trabalhadores da USP combativos, representam a luta pela abertura democrática real da universidade, para que esta sirva aos interesses dos trabalhadores que a financiam.

Fernando de Barros e Silva, como bom representante da opinião latente e burguesa da Folha de São Paulo, não deixa por menos e busca, mais uma vez, a justificação política para atacar a tradição do Sintusp na questão dos métodos, se apoiando na “problemática” ocupação da reitoria, no fechamento da creche, na possibilidade de ocupação do CCE (Centro de Computação Eletrônica) ect. O jornalista, é claro, não teve seu ponto cortado e não estava passando fome ou sem nenhum dinheiro para alimentar seus filhos; evidentemente, do alto de sua arrogância, ataca os métodos dos trabalhadores, sem julgar seu conteúdo.

A fúria com a qual Fernando de Barros e Silva atacou a organização e a greve dos trabalhadores da USP não foi um caso isolado, mas antes, a regra nas mentes dos escritores burgueses da mídia em geral. E o que gerou tanto ódio burguês a um pequeno sindicato? A greve mesma, uma greve política! O momento, de crise econômica internacional, nos coloca no horizonte uma série de ataques por parte da burguesia ao conjunto da classe trabalhadora brasileira. O Sintusp, que vem colocando em suas bandeiras a luta contra a terceirização e, portanto, a unidade entre os trabalhadores, se põe contra a corrente, contra os ataques que se delineiam por vir, cada vez mais agressivamente.

De um lado, a faceta conservadora daqueles que querem destruir o sindicato da USP e dar um exemplo para a burguesia de como acabar com as formas de organização operária e abrir caminho para a precarização do trabalho; de outro lado, a combatividade dos trabalhadores da USP, que se apresentavam como legítimos “tribunos do povo”, colocando no centro de suas lutas a questão do projeto de universidade e a própria luta democrática pelo direito de organização e contra a precarização do trabalho.

A luta na USP aparece como uma caixa ressonância do próximo período.

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