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Sobre greve, tanques e chineses de ontem e hoje

“É um grupo que paralisou o funcionamento da universidade. E nós sabemos que isso é muito fácil. Existia um chinesinho na Praça da Paz Celestial que paralisou toda uma coluna de tanques do Exército chinês, sozinho. É a mesma coisa.”
ALBERTO GOLDMAN, governador de São Paulo sobre a greve da USP

Edição impressa do jornal O Estado de S Paulo – 01/07/10

 

Por Simone Ishibashi

 Alberto Goldman e José Serra

O governador do estado de São Paulo, Alberto Goldman, ao fazer a comparação citada acima deixa entrever involuntariamente não apenas o conteúdo mais profundo que reside detrás da campanha perpetrada pelo governo do estado contra os trabalhadores da USP, como ainda declara, também sob a forma de ato falho, em que lado da barricada se encontra de acordo com a analogia por ele proposta: a dos tanques. Não há emenda capaz de consertar este soneto. Com a espontaneidade típica daqueles que trazem tão profundamente arraigados em sua consciência os valores repressivos aos que ‘ousam’ se levantar em defesa dos seus direitos, questionando a atual ordem de coisas, Alberto Goldman coloca, contra seus propósitos, uma verdade inquestionável que muito se tentou mascarar. A de que os trabalhadores das estaduais paulistas, tendo na USP sua linha de frente, que finalizaram uma greve de 57 dias, são hoje um setor que avança para ser parte viva da vanguarda da classe trabalhadora brasileira, renegando a receita da passividade frente a um ataque contra seus direitos.

Antes de entrar na discussão que queremos desenvolver aqui, não poderíamos deixar de mencionar algumas linhas acerca do processo no qual Alberto Goldman forjou suas atuais “convicções”. Ex-militante stalinista do PCB, Goldman esteve ao lado de setores burgueses que impediram a derrubada revolucionária da ditadura militar, ao atuar pela transição pactuada, responsável por assegurar a impunidade dos militares que assassinaram e torturaram trabalhadores, jovens e militantes. “Comunistas” deste tipo terminam se provando boa matéria-prima para dar neoliberais convertidos. Assim foi como Goldman chegou hoje a ser o que é: um agente do PSDB, que representa os interesses mais entreguistas da burguesia nacional submissa ao imperialismo, o que não poderia deixar de se traduzir no plano nacional em uma ostensiva ferocidade com os trabalhadores.  

Mas nada disso intimidou os trabalhadores das estaduais paulistas. Em meio a um clima de festa, favorecido tanto pelo consumismo como pela já ‘finada’ copa do mundo, estes trabalhadores se levantaram contra uma campanha massiva que buscou os colocar como “privilegiados”, mesmo quando enfrentam péssimas condições de trabalho. Se levantaram contra a ameaça de corte de ponto, e, portanto, em defesa de seu direito constitucional de greve, enfrentando o reitor, que todos sabem ser um interventor de José Serra. Por 57 dias os trabalhadores das estaduais paulistas obrigaram as páginas dos jornais a dar destaque a algo além de Dunga e da seleção. Obrigaram que se abrisse o debate sobre o futuro da universidade pública, e sua função social, opondo dois projetos claros: o do reitor Rodas, de mecenato privatista,  e o de uma universidade que esteja à serviço dos interesses da ampla maioria da população, composta pelos próprios trabalhadores.

Tal como o “chinesinho” de 1989, os trabalhadores da USP, e das estaduais paulistas, se enfrentaram a todas as adversidades, e inimigos aparentemente mais poderosos. E, à sua maneira, também pararam os ‘tanques’ lançados pelo governo do estado e pela reitoria, que neste ano não vieram sob a forma da repressão policial orquestrada pelo tucanato. Repressão que foi responsável por um dos episódios mais grotescos ocorridos em 2009, quando o campus da USP se transformou numa cortina de fumaça produto das bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia contra a comunidade universitária numa repressão que faria Erasmo Dias – comandante da fatídica ofensiva militar na PUC em 1977 – morrer de inveja. Não, desta vez, os ‘tanques’ tinham um alvo mais localizado: os trabalhadores. Sua munição foi a política de ataque ao direito de greve, com a ameaça de corte de ponto preparada previamente pela quebra da isonomia, separando professores de trabalhadores.

Agradecemos ao governador Goldman, portanto, por colocar as coisas de maneira tão elucidativa, e gostaríamos de seguir brevemente o raciocínio por ele proposto, de modo a explorar o rico significado desta analogia histórica. Em primeiro lugar há que esclarecer ao governador que o ‘chinesinho’ não era apenas um individuo isolado, mas a manifestação de um sentimento de insatisfação crescente no interior da sociedade chinesa, que tomou conta de estudantes e trabalhadores contra a burocracia do PCCh, que reprimiu e distorceu as aspirações revolucionárias do povo chinês desde 1949. Ainda que numa escala histórica menor, pois tratamos de uma greve e não de um episódio de massas como na China, entre os trabalhadores das estaduais paulistas o que se demonstrou nestes 57 dias de paralisação foi que longe de se tratar de um ‘grupo isolado’, a mobilização se manifestou em amplos setores, não só de trabalhadores, mas também de estudantes, que em alguns dos campi da UNESP se solidarizaram com os trabalhadores ocupando a diretoria. Ganhou ainda o apoio passivo de muitos outros setores, e contou com a contribuição honrosa de professores que levantaram suas vozes em defesa dos trabalhadores.

Uma digressão sobre a China. Os mais diversos defensores da dominação capitalista sobre o globo, por pura conveniência, saúdam o chinês que se prostrou diante dos tanques em 1989, como se ele expressasse uma pretensa vontade daquele povo de integrar a sociedade de consumo. Hipocritamente, enquanto seguem torturando em Guantanamo, assassinando no Iraque e no Afeganistão, ou ainda lucrando trilhões com a entrada de suas empresas na própria China e em Bangladesh, onde se ganha menos de 20 dólares mensais, enquanto arrastam o mundo a uma crise sem par, os defensores do capitalismo falam de ‘direitos humanos’. Estes são os mesmos que em 1989 apoiaram, mesmo que silenciosamente, a repressão ao movimento que se iniciava contra a burocracia do PCCh, que ao contrário da propaganda imperialista da época não tinha um claro propósito restauracionista do capitalismo, ainda que houvessem alas em seu interior que pudessem atuar neste sentido. O episódio da Praça da Paz Celestial impôs uma derrota histórica aos estudantes e trabalhadores através de um massacre, que muitos autores chineses consideram comparáveis à execução em 212 a.C por ordem do impiedoso fundador do império, Qin Shinhuangdi, de 460 intelectuais que ele mandou enterrar vivos. Assim, o massacre foi peça fundamental da posterior “modernização” chinesa baseada na superexploração de sua vasta mão-de-obra, que tanto favoreceu as grandes multinacionais estrangeiras, e à cúpula do PCCh fazendo com que a China hoje seja peça chave da engrenagem capitalista, já em crise.

Voltando a Goldman e à greve das estaduais paulistas. Com os ajustes das diferenças evidentes de situação, a burguesia também quer com o ataque sistemático aos trabalhadores das estaduais paulistas impor um ataque estratégico. Para isso disseminam que os trabalhadores não fazem greve, ‘tiram férias’. Que é um absurdo que os trabalhadores ‘paralisem todos os serviços da universidade’. Que ‘pratiquem a violência’, (oh! quanta violência), de ocuparem a reitoria. Que usam capuzes, para não serem identificados. O senso comum, incitado pelos mandantes dos tanques, se escandaliza com “tanta violência”. Os mais tresloucados, como Reinaldo Azevedo, defendem contra estes ‘peões insolentes’, o ‘porrete da democracia’.  

O pano de fundo, e é isso o objetivo perseguido tanto pelo tucanato como pelo ‘ex-grevista’ Lula que defendeu abertamente o corte de ponto, é a necessidade de atacar o direito de greve, sobretudo do funcionalismo público, consenso entre todas as frações da burguesia brasileira. Disso dependeria a “modernização brasileira” a que tanto aspira a burguesia nacional, que não conseguiu terminar esta tarefa nos anos 90, auge da ofensiva neoliberal. Sob este objetivo, não pensam duas vezes em ameaçar 1000 famílias de não ter o que comer, cortando os salários dos trabalhadores por exercerem seu direito democrático e elementar de fazer greve, disseminando o hipócrita discurso citado acima. Buscam transformar em violência a justa mobilização das estaduais paulistas para que os demais trabalhadores não vejam que se nestas universidades os salários dos trabalhadores é um pouco menos desfavorecido – um pouco ainda – isso deve justamente pelas greves que protagonizaram. Que na USP, maior universidade da América Latina, a vanguarda consciente está não entre os catedráticos, mas entre os trabalhadores, tal como agudamente caracterizou um professor desta casa ao constatar que quem está abrindo o debate sobre a defesa da universidade pública são eles. Assim, a burguesia, seus governos e intelectuais temem que o “efeito estaduais paulistas” se prolifere.

Conscientes disso é que nós saudamos os trabalhadores das estaduais paulistas, e seu exemplo para o conjunto da classe trabalhadora brasileira nestes 57 dias de greve.

Estes tanques não passarão!

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