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Gilberto Dimenstein, a universidade e o socialismo democrático

 

 

Por Thyago Villela

“(…) os reformistas são incapazes de aprender as lições mais trágicas da história”, escreveu Leon Trotsky em 1938, referindo-se ao governo de León Blum e à política da social-democracia francesa e alemã em seu conjunto. O que o revolucionário russo apontava, com esta assertiva, era a incapacidade de qualquer mudança substancial na estrutura social que fosse impulsionada por um governo de Frente Popular tais como os que se configuravam no período, cuja prática política recaia sob a cooperação entre as classes sociais e a disputa eleitoral pelo aparato do Estado. Trotsky criticava, para além desta política superestrutural e demagógica, o senso-comum que a embasava; ou seja, a lógica formal de que, a partir da conquista de postos estatais e da inserção de elementos progressistas nas políticas públicas poder-se-ia reconfigurar o Estado e, desta maneira, tornar o capitalismo um modo de produção mais justo, livre de grandes desigualdades, ou ainda, para os mais otimistas, capaz de alcançar o socialismo sem maiores entraves.

O debate travado, longe de ter se esgotado ou de ter sido superado pela intelectualidade (como nos faz crer hoje a fraseologia neoliberal), torna a mostrar as caras; ou melhor, torna a ser ordem do dia em um contexto político-social brasileiro de reorganização sindical, eleições e uma greve unificada entre as três estaduais paulistas. Agradecemos, como ponto de partida desta discussão, o artigo de Gilberto Dimenstein publicado na Folha de São Paulo intitulado Estudantes da USP devem pagar?(28/06/2010), como expressão da estreiteza intelectual reformista.

Em seu texto, o autor discorre sobre o projeto de Paulo Skaf, candidato a governador de São Paulo, que prevê o pagamento de uma mensalidade às universidades públicas por parte dos alunos de maior renda. Dimenstein se posiciona a favor da medida proposta e de seu conteúdo benevolente, já que “rico deve pagar mensalidade para ajudar aos mais pobres”. A Universidade, desta maneira, teria maior capital para investimento, além de um avanço em sua função de promover a justiça e o bem-estar social. O grande intelectual Gilberto, manejando sua varinha, converte magicamente o influxo de capital privado no espaço público em “ajuda aos necessitados”.

Ajuda, sim, nos daria o brilhante colunista, se se mostrasse capaz de desnudar o problema. Em primeiro lugar, cabe esclarecer quem é Paulo Skaf, promotor da política de cunho pretensamente progressista, tal como propagandeada por Dimenstein. Pois bem: o sr. Skaf, tal como deve ser chamado por seus bajuladores, teve uma vida de amplas realizações no mundo dos negócios, sendo vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), presidente do SESI-SP e SENAI-SP, até tornar-se, em setembro de 2004, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Em 2009 filia-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Uma mente atenta poderia se perguntar: “mas por que o presidente de uma organização patronal é membro de um partido socialista?”. A aparente contradição fica clara quando se sabe que o “partido socialista”, como o reivindica um dos cem homens mais influentes do país (conforme eleito pela revista Época), é o mesmo que agora mendiga uma aliança junto ao PT e ao PMDB para as eleições – os mesmos partidos que há oito anos implementam uma política de desmonte do ensino público nacional, como a compra de vagas nas faculdades privadas (chamada de Pro-Uni), a redução de verbas para o ensino público e a implantação do ensino a distância, mascarado de democratização, como coroamento do processo da omissão do governo em relação ao seu compromisso com um ensino público qualitativo. Vale a pena mencionar que estas políticas, em linhas gerais, se alinham às do governo do estado de São Paulo (como a Univesp de José Serra, por exemplo), da onde se deduz a falsa polarização empreendida agora em fases eleitorais.

Eis o partido socialista defendido por Gilberto. E como se não bastasse sua ingenuidade ou má-fé, o autor mostra-se incapaz de uma reflexão sobre o que significa uma Universidade ser ou manter-se pública, bem como sobre o papel do Estado em fazê-la ou mantê-la como tal. Os “bobocas ideológicos”, como caracteriza Dimenstein, dirão, certamente, que o grande empresário Paulo Skaf traduz a lógica de seus negócios para o campo do ensino e da produção de conhecimento e que esta mesma lógica configura-se como neoliberal, ou seja, pela prática de abandono e descaso do governo com sua obrigação de sustentar instituições de pesquisa, dentre os demais campos, como o da saúde pública. O colunista, em seu reduzido horizonte reformista, não chega por um momento sequer a perguntar-se o porquê deste alheamento do governo estadual, ou ainda pior: não considera a composição social da USP e seu caráter elitista como fruto de um amplo processo de divisão da juventude e alocação de cada grupo de jovens no lugar que lhes cabe no modo de produção da vida social.

Que fazer, então? Ao invés de colocar-se contra o vestibular, filtro social por excelência entre aqueles que irão mandar e aqueles que irão obedecer, por uma Universidade desvinculada do capital privado e das empresas, pela estatização das faculdades privadas ou “tão somente” por uma maior democratização do ensino de qualidade, o autor nos coloca a premência dos ricos darem esmolas aos pobres como promessa de um mundo melhor.

O cristianismo político de Dimenstein é típico da demagogia reformista, que, alheia ao movimento real da matéria e de suas contradições, vislumbra no apelo a mudanças jurídicas em abstrato o campo de batalha política privilegiado. Não é à toa que o texto não faz menção uma linha sequer à greve unificada dos trabalhadores das estaduais paulistas por isonomia e pelo direito de greve, que vem sendo cerceado há tempos pelos “reitores do diálogo”. Não é à toa que o artigo publicado na Folha de S. Paulo, mesmo jornal que chama de “baderneiros” e “criminosos” estes mesmos trabalhadores que, diferentemente de Paulo Skaf, lutam por uma concepção diversa de Universidade; seja incapaz de comentar a estrutura de poder absurdamente antidemocrática à qual estão submetidas as mesmas. Não, o problema reside, para Gilberto, em uma simples taxação para os alunos mais ricos.

O “tema tão polêmico” levantado por Skaf aparece-nos demasiado modesto, ainda que exaltado pela intelectualidade reformista. Modéstia esta típica de um pensamento conformado com o mínimo do mínimo, sem maiores pretensões prático-intelectuais, adaptado ao mal-estar de nossa época. Atentemo-nos: a incapacidade de extrair lições da história reverte-se prontamente em sua própria tragicidade.

 

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  1. 07/08/2010 às 7:57 pm

    Neoliberalismo nunca teve, ou terá, qualquer projeto, nem mesmo para seus orbitais lucros. Pagar por algo público, isto é, além dos já pagos tributos que mantém a universidade e a garantia que ela seja aberta a todos (verdadeiramente universal), já é um passo dado à sua privatização, haja vista as terceiizações.

    PS: não leiam os jornalôes, ou leiam se quiserem rir da desgraça de seus pensadores.

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