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O luto nos debates da Dieta da imprensa – Parte 1

Por André Augusto 

 

Em sua badalada da meia-noite de sexta-feira, 2/7, a Ex-libris andante e seus colunistas, cascos que suportam o peso do estreito galope de idéias da burguesia – e que conseguem rearranjar as mesmas 300 palavras em diversas seqüências, com a exaltada imaginação de um gravador quebrado –, fizeram seu balanço inicial da greve: num funeral. Datilografaram, em luto, o cortejo fúnebre que se seguiu, segundo eles, ao final da greve do funcionalismo público das universidades estaduais paulistas: estes senhores (e é certo que Fernando de Barros e Silva está em mais este estábulo imundo d’O Estadão) suspendem a andança por um momento, ruminam o mesmo feno que haviam mastigado durante os dois últimos meses sobre a greve, convertem alquimicamente a violência burguesa em uma burguesia violentada, entornam o tubo de ensaio goela abaixo da opinião geral, e admitem a morte da “grande resistência” do porta-voz do banditismo capitalista na universidade pública, João Grandino Rodas, frente à “escalada de intimidação e violência da categoria grevista“.

Não cabe antepor com maior elegância e naturalidade o direito de uma jovem porta blindada ao direito dos homens; do contrário os ídolos de madeira triunfariam, imolando-se a eles os próprios homens. A forma ilegal e autoritária com que a Reitoria e o governo Serra cortaram o ponto dos servidores, buscando vencer a mobilização operária com um momento blitzkrieg de terror, não funcionou, além de ir contra a posição da própria Congregação da Faculdade de Direito da USP, que reúne os principais advogados e juízes do país, seguindo a orientação do Juiz do Trabalho Jorge Souto Maior, que anunciou que “não é possível contrapor o direito de greve ao direito de sobrevivência do trabalhador”. Daí não poderem lançar mão de preceitos jurídicos para fundamentar a calúnia que corre nos quatro cantos dos seus estábulos jornalísticos de que os trabalhadores “não fazem greve, tiram férias”, campanha utilizada para minar o direito democrático de greve.

Tudo somado, e partindo da pregação funesta de que “foi mantida uma das mais tristes tradições da USP, segundo a qual os servidores convertem quem ensina, estuda e pesquisa em refém de interesses corporativos, paralisando a vida da instituição de modo truculento, sem o risco de sofrer sanções“, dão a impressão de que sequer um deles faz parte da vida das instituições de ensino superior, para depois fazerem aparecer às claras que os quadros escritores das impertinentes colunas dos jornais da elite burguesa saem daqueles que criticam “a paralisação violenta da vida da instituição de modo truculento“. Mas o que esclarecem, acima de tudo, é que até agora não se acabam de perguntar, indignados: como é que trabalhadores tem a “insolência” de se transformarem na vanguarda política consciente desse último processo, à frente de catedráticos e intelectuais (mais ocupados com seu retrato na sala de quadros da reitoria da USP), através do mecanismo da greve? Teriam as ações conteúdo mais profundo que nossas palavras?

Acaso consideram todas as conseqüências da necessidade de abrir espaços jornalísticos para a discussão de um problema atual tão pouco importante para os salões, a condição de trabalho de funcionários públicos, uma vez que veste os trapos sujos das classes pauperizadas e que não cheira precisamente água de rosas?

No século XIX, os debates congressuais dos sábios de Estrasburgo versavam sobre como, no cume da cadeia montanhosa daqueles eventos, ocorria com a burguesia o que ocorrera com a nobreza em 1789; que outrora a burguesia reclamara os privilégios da nobreza, e os obtivera; e que então era o estamento totalmente despossuído que exigia a participação na riqueza da burguesia, condutora do timão da sociedade. Mas, contrariamente às previsões (ou esperanças) desses sábios, que achavam que por a burguesia se encontrar melhor apetrechada que a nobreza do ’89 contra um assalto surpresa do povo, as contradições cada vez mais carregadas na tensão extrema entre as forças produtivas tornadas sociais, manejadas por coletivos de homens, e as formas de produção, mantidas individuais, poderiam ser resolvidas pela via pacífica.

O cenário é totalmente outro, e com um século de gloriosas revoluções proletárias, triunfantes e traídas, de entremeio: o sonho da “via pacífica” é mais cortejado nos salmos que nas intenções da classe dominante, e disso bem o sabem os escriturários vendidos da burguesia. Os doutores d’O Estadão, e todos os escritores afeitos à subordinação da produção intelectual das universidades ao covarde obscurantismo que o capital financeiro debruça sobre as massas, reconhecem com o mais melancólico dos desenganos que a profecia do abade Sièyes cumpriu-se e que o terceiro estado é já ou será todo o estado, se é que cabe aqui o delito histórico de transportar um estamento ao século XXI. Que a classe que nada possui, senão a origem de toda a riqueza do mundo que lhes é extraviada pelos órgãos e mecanismos de dominação “democrática” do capital, reclame participar de suas riquezas nas mãos da classe que a oprime é um fato que todo aquele que enxerga e quer enxergar pode tocar, tanto na Manchester, na París e na Lyon do XIX, quanto na Dhaka, em Bangladesh, e nas diversas províncias chinesas do XXI. Isso, sem necessidade dos discursos de Estrasburgo e apesar do silêncio da mídia oficial.

Ou acaso crêem Barros e Silva, Eunice Durham, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Patrícia Diguê – que conhecem a história como um pasteleiro a botânica – e as colunas de sua mídia, que seu mal-humor e seu silêncio podem refutar os fatos de nosso tempo? Abrem as bocarras empestadas da moral neoliberal, aquecem os pulmões dos ouvintes com a doce melodia da compaixão e da misericórdia por aqueles que ficaram “sem almoçar nos restaurantes subsidiados, sem utilizar os serviços gratuitos dos circulares, sem retirar livros das bibliotecas”, e esquecem de apontar de que são continuados sobre a esteira dos ossos dos trabalhadores; que o fato de estudantes não poderem estudar pois não têm onde deixar seus filhos, a falta de políticas de permanência estudantil, a ausência de espaço suficiente nas moradias universitárias, tudo isso é lei e não excrescência dos períodos de greve, só levantados pela mídia impressa quando seus interesses são postos em xeque. Põem-se em fuga ante os fatos comprometedores do dia e acreditam que a poeira que levantam seus pés ao correrem e as injúrias cheias de medo que mastigam entre os dentes enquanto fogem borrarão as incômodas realidades atuais, como embrulham e confundem a opinião de seus pacientes leitores.

A cena se assemelha ao carrasco afagando a cabeça do enforcado, acalentando-o com o fato de que a culpa de tudo é de seu parceiro de forca, que provocou demais a corda. Ao tentar impor a crença de que há um delito onde não há, aplicando o corpus delicti onde não tem o direito de empregá-lo, a imprensa burguesa quer converter o verdadeiro delito em um fato jurídico, converter em lei a quebra da isonomia salarial, o corte na folha de pagamento de mais de 1000 funcionários, a deterioração do ensino público superior e a implementação do pseudo-democrático ensino à distância, expressando como barbárie irracional a vontade dos trabalhadores de lutar pela manutenção de suas conquistas históricas. Quer destruir o patrimônio público injetando garganta abaixo massivas somas privadas, custear a terceirização do trabalho para domesticar o funcionalismo público pelo terror das demissões, adestrar a única organização de trabalhadores no país que se provou ferramenta para a luta contra o capital – o Sintusp – e justificar com a poética da individualidade a ilegitimidade da luta operária contra o cerceamento de direitos democráticos conquistados em barricadas no decurso da história e no rolar de rios de sangue.

Essa massa cerebral amorfa que compõe a mídia burguesa, no espírito animalesco do direito, é a dirigente intelectual e serva omissa de todos os ataques da patronal sobre os trabalhadores e povo pobre, imolando-os com mentiras legais.

 

(continua…)

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