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O luto nos debates da Dieta da imprensa – Parte 2

(A primeira parte do texto se encontra logo abaixo deste)

Mas há sim uma doutrina em que crêem com todas as forças; há, sobretudo, a doutrina do amedrontamento, que agora se virou contra eles mesmos. Essa é característica inescapável de qualquer análise do pós-greve das estaduais 2010: o terror que lhes inspira o fato de que os servidores públicos, numa batalha heróica dos trabalhadores das estaduais paulistas que totalizaram 57 dias paralisadas ou acompanhando de perto as ações da categoria em cada local de trabalho, mesmo com o freio das burocracias sindicais do STU na Unicamp e do Sintunesp, mesmo sem conseguir a intenção inicial que constituía o restabelecimento da isonomia salarial entre docentes e não-docentes, conseguiram impor o pagamento dos salários descontados de forma arbitrária e ilegal pela Reitoria da USP durante o período de greve, além de impor um acordo em que a Reitoria do corte de ponto declara que não haverá punições pelas atividades grevistas, por mais molhada que seja sua língua.

Nós partimos de que o decisivo não é o método em si mesmo, mas sua correta aplicação, a orientação marxista nos eventos: por isso nos diferenciamos da esquerda e da intelectualidade esquerdista passiva no apoio à greve dos funcionários públicos, não só das universidades estaduais, mas também nas recentes mobilizações na Sabesp e no Judiciário. Portanto, não nos embrulhemos nos salmos daqueles que pregam que se beba água, enquanto se servem de jarros de vinho. A mesma classe, a burguesia, que remunera a 20 euros mensais (vinte euros mensais!) os responsáveis pela totalidade da produção da riqueza de Bangladesh, os trabalhadores, através principalmente das indústrias têxteis (que são responsáveis por 80% das exportações do país e abrigam 40% do operariado industrial nacional) – é a classe que considera os salários dos funcionários públicos das universidades estaduais paulistas, particularmente da USP, um verdadeiro “privilégio“; é a mesma classe que quer estufar a boca do funcionalismo público combativo com o argumento do “reajuste de 119%, entre junho de 2009 e março de 2010, numa inflação de 79%”, no marco geral da lama que é o recrudescimento da terceirização, a combinação do aumento da taxa de exploração dos trabalhadores com o aumento da rotatividade e inserção de trabalhadores precários na economia, fruto de 8 anos de Lula e PT no governo federal.

Os defensores da gestão do capital comparam o que sua classe consegue impor aos trabalhadores no Brasil com o que seu par de classe consegue impor aos trabalhadores em países da Ásia, e fazem-no com trejeitos de ameaça e com a mesquinha profissão de fé neoliberal do “cale-se e salve-se individualmente”. Isso tem de estar claro como o sol para todos os trabalhadores e para o povo pobre, pacientes o suficiente para lerem os pasquins do oficialato financeiro e industrial: “Numa universidade onde os servidores ganham duas vezes o que ganham os trabalhadores da iniciativa privada que exercem a mesma função, as principais funções da instituição – ensino, pesquisa e extensão – parecem estar em segundo plano”. Essa constatação tem no temor e na resignação das camadas pauperizadas o seu alvo, quando na verdade tem de inspirar a mais profunda revolta o fato de que trabalhos iguais não sejam remunerados igualmente, escravizando e hierarquizando funcionários, fazendo-os associar-se imaginariamente com o seu opressor, transformando irmãos de classe em capatazes uns dos outros!

Ajustadas a diferença de situação entre os países, a burguesia de cada país faz o que pode ser feito, ao extremo, para rebaixar a remuneração dos escravos assalariados que mantém, concentrando a exploração dos trabalhadores e a quantidade de tempo de trabalho não-retribuído, seiva de que se sustenta. Estando de afinado acordo com as possibilidades de seu peso opressivo sobre a vanguarda consciente do pensamento, que são os trabalhadores, sabem a que limites podem – e gostariam – de chegar.

E escondem o detalhe, que mais parece uma borrasca na linha dos acontecimentos, de que os salários dos servidores técnico-administrativos da USP não nasceram já “como os maiores dentre todas as universidades do país e mesmo fora delas”. Esse nível salarial não foi nem no mais mínimo um delicado mimo ou uma dádiva das reitorias paulistanas: os salários do funcionalismo público uspiano não são tão revoltantes como no resto do país justamente porque “somadas as paralisias dos últimos 17 anos, o funcionalismo da maior universidade pública do país permaneceu 388 dias – dois anos letivos – sem trabalhar“.

São justamente as experiências dos trabalhadores na luta de classes, na realidade teórica das idéias tiradas de cada lição, no teste prático que travam com as direções sindicais que mais parecem diplomatas em nome da patronal, da aliança operário-estudantil ativa e com vários setores da sociedade, que conseguem transformar as porretadas da democracia burguesa, que não presenteia nem nunca regalou aqueles que a carregam nas costas, em conquistas importantes dos trabalhadores, no giro da relação de forças com o capital. A perda ou a degradação de muitas das posições econômicas, sociais e políticas conquistadas nas etapas anteriores da luta de classes se deu pelo acúmulo dos efeitos de uma sucessão de derrotas sofridas por batalhas não dadas, com pouca ou nenhuma resistência, ao longo dos anos ’80 e ’90, estendendo-se até a primeira década dos anos 2000 com o ápice nas demissões incólumes na Embraer.

O enorme peso social da luta operária é o que quer ocultar a elitista imprensa paulista, como a imprensa de “Río Negro” ou “La Mañana” de Neuquén, na Argentina, querem ocultar a vitória plebiscitária – subproduto da luta ativa nas ruas pela estatização e a garantia dos postos de trabalho, agora apoiada pela imensa maioria da população – dos operários da cerâmica Stefani. Por isso o ressonante choro público da burguesia através de seus lacaios, que continuam desejando que o proletariado não tenha condições de dar a batalha para defender suas conquistas e reagrupar-se em torno delas, numa questão hoje central: a defesa do direito de greve. Oram para que estes sejam reprimidos antes que possam fazê-lo.

Por ironia, enquanto os grevistas negociavam o fim da greve com o reitor, o diretor de uma das principais unidades da universidade divulgava um comunicado anunciando que neste mês o expediente será reduzido, por causa das férias dos servidores. Ou seja, não haverá nem mesmo reposição das horas não trabalhadas, pelo menos em julho, o que prejudicará ainda mais o lançamento de notas das provas realizadas em junho”. É de fazer rir tamanha hipocrisia desavergonhada, mas assim deploram Barros e Silva e Cia. nos hinos sacros deste enterro fantoche. Por trás dos dejetos destes bons alunos preocupados com a graduação da estupidez rasa nas latrinas da opinião média, os colunistas midiáticos choram na verdade um retrocesso parcial de sua classe, por mínimo que seja. Provavelmente os colunistas renomados d’O Estadão não chegarão a conhecer nunca essa angústia da consciência provocada pela rebelião dos desejos subjetivos do homem contra as convicções objetivas de seu próprio intelecto, pela razão natural de que não têm nem intelecto próprio, nem próprias convicções, nem tampouco consciência própria.

 

André Augusto

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