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Da impossibilidade, ou 103 anos de Frida Kahlo

Thyago Villela

Qualquer texto sobre Frida, breve, extenso, coloquial ou estritamente  formal, começaria por abordar sua história pessoal, seu lugar na pintura e na vida política mexicana, seus amores, sua conturbada relação com Diego Rivera, seu uso compulsivo de narcóticos ou suas vestimentas excêntricas. Comentaria a filiação da pintora ao Partido Comunista Mexicano, em 1928, seu rompimento devido a stalinização de suas fileiras e sua re-filiação, vinte anos depois. A aproximação, física e intelectualmente, de Leon Trotsky também constaria no texto. Depois, poder-se-ia expor brevemente seu estilo de pintura, inspirado, ora nos classicistas europeus, ora nas pinturas folclóricas e nos muralistas mexicanos. E o leitor respiraria aliviado e sonolento, contente por haver artistas engajados e preocupados com novas sensações; artistas que sofreram e hoje se tornaram grandes mitos, estrelas distantes e frias – artistas que já morreram, para o nosso bem, graças a Deus.

           

                             Este texto nada diria de Frida Kahlo.

Melhor seria uma narrativa brilhante e intensa como sua paleta de tintas, seu gosto revoltado, suas sobrancelhas unidas como que para lançar pontes entre os dois olhos atentos e sonhadores. Melhor seria dançar Frida, gritar sua obra, urrar seus auto-retratos mornos e impossíveis. Ai se Frida pudesse estar entre as palavras! Ai se Frida fosse dócil como um cão, e se colocasse entre nossas pernas indispostas, e pusesse suas orelhas em nosso colo esperando o abate de nossas canetas. Ai se Frida fosse fácil! Ai se a Casa Azul pudesse barrar os sonhos de Frida! E a pintora escoa por nossos dedos frágeis, e não podemos saber os mistérios da pintora, a língua da pintora, o castanho da pintora. Nenhum museu, nenhum artigo num jornal de domingo matará Frida.

Frida ficará mais 103 anos com seus olhos de gume afiado, sua cara de menina raivosa e amável. Porque Frida não conseguiu matar Frida. Porque os ônibus em combustão escancararam a vagina da pintora, que desde então não se fechou roxa. Porque não se queda a tinta e não se queda a alma revolucionária. Porque, parafraseando Drummond, NASCERAM FRIDA KAHLO.

 

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Categorias:Sem categoria
  1. Renata
    07/08/2010 às 12:11 am

    Que texto maravilhoso!

  2. 07/08/2010 às 6:38 pm

    Possível é, ainda bem, estranhar e entranhar a obra (pintada ou não pintada, pensada ou escrita) de Frida. Esse é o legado que fica mais que a vida.

  3. Evandro - Harry
    07/12/2010 às 3:19 pm

    gostei bastante desse texto Thi.
    é um prazer militar com vc!

  4. 11/06/2010 às 11:49 pm

    “esperando o abate de nossas canetas…”

    Esplêndido!

    Fabio

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