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O marxismo acadêmico de ontem e hoje e as movimentações da realidade

Léo Rodrigues 

 

Quando Lenin afirmou em 1902 que “sem teoria revolucionária não há prática revolucionária”, seu público era restrito. Do mesmo modo que os endinheirados, “que no último ano ganharam mil francos na bolsa de valores”, nunca poderão ler Stendhal, também devem fechar rapidamente o Que fazer? aqueles que no último ano se esconderam da realidade atrás de suas teorias “revolucionárias”.

Frente à greve da USP e das universidades estaduais paulistas, encerrada na última quarta-feira, faz-se necessária uma crítica decidida à escória marxista que ocupa os mais diversos cargos nestas universidades, e sob o legado de Lenin, na melhor das hipóteses, nada fizeram para que a luta dos trabalhadores triunfasse. Não é a primeira, e nem será a última, vez na história que isso aconteceu. Hoje, como ontem, os marxistas acadêmicos se escondem da realidade e entrincheiram-se em seus mantos avermelhados.

Antes porém de passar a esta necessária e dura crítica, faço a justa e mais que necessária reivindicação daqueles que decididamente tiveram uma atuação e tomaram posições genuinamente marxistas frente a greve. Estes professores ocupam cargos também na academia, mas são a ela, tal como é hoje, alheios. Escreveram artigos nos jornais em defesa dos trabalhadores, fizeram aulas públicas sobre a universidade e a greve e em alguns casos até atuaram diretamente nas assembléias de greve. Defenderam e batalharam incondicionalmente pela defesa do direito de greve. Pintam-se da cor da realidade e com ela se fundem.

Olham para além de suas escrivaninhas e por isso estão certos de que as dádivas que vem do alto representam o governo, com sua mão de ferro dentro da universidade, o interventor Rodas, que leva à frente o projeto explícito de privatização da universidade pública, como bem ficou expresso mesmo textualmente durante o conflito. Sabem ainda que para se implementar este projeto é extremamente necessário antes atropelar qualquer foco de combatividade existente dentro da universidade, como é o caso do Sintusp. Este que, por sua vez, como também lhes é claro, representa um projeto oposto ao vértice ao do governo e do REItor, pois defende um programa claro de fim do vestibular, por uma universidade a serviço dos trabalhadores em detrimento do capital. É esta força que tomo para a crítica que passo agora.

                                        *  *  * 

Em 1969, quando os estudantes alemães ocuparam universidades em luta contra a “tecnocratização” da academia, também o Institut (conhecida Escola de Frankfurt) foi ocupado exigindo o posicionamento dos seus membros frente ao conflito. O Sr. Adorno, tido com um dos grandes marxistas alemães do século XX, tomou posição. Pensou algo menos que uma vez e… CHAMOU A POLÍCIA, e do alto de sua autoridade “marxista” concluiu em carta a Marcuse, “não se deve caluniar abstratamente a polícia. Só posso repetir-te que ela tratou os estudantes de maneira incomparavelmente mais tolerante que estes a mim”.

Adorno furtou-se tão enfaticamente à negação determinada – dando o penúltimo adeus à classe operária –, agarrado a sua superioridade idealista, que transformou-se em seu contrário e só pôde fazer-se braço armado da razão instrumental. Não bastasse sua paixão policialesca, teve também seu caso com o exército americano: “não se deve protestar apenas contra o horror das bombas de napalm, mas igualmente contra as indescritíveis torturas ao estilo chinês, que os vietcongues continuamente praticam. Se não se pensar nisso também, o protesto contra os americanos tem algo de ideológico”, como expressa na mesma carta a Marcuse. Ao reduzir a regressão fascista ao mero triunfo da razão instrumental, tecnicista, e seu conteúdo à violência abstrata, desviando-se do conteúdo real de classe, Adorno é capaz de igualar não só os estudantes à polícia, como também o imperialismo norte-americano aos vietcongues. Aqui sim, tem algo de ideológico, diga-se, de cunho burguês.

Não parou por aí, quando questionado em uma entrevista à revista Spiegel de como pretendia modificar a totalidade social, da qual se via como ícone teórico, sem ações isoladas, o frankfurtiano foi enfático:

Diante da questão ‘que fazer’, eu, na realidade, só consigo responder, na maioria dos casos, ‘não sei’. Só posso tentar analisar de modo intransigente aquilo que é”. E, se já não bastasse, seguiu, “verificou-se inúmeras vezes na história que precisamente obras que perseguiam propósitos puramente teóricos tenham modificado a consciência, e com isso também a realidade social”.

Adorno, em uma só paulada, matou duas vezes o marxismo. O marxismo dele.

Primeiro achincalhou Lenin, que escreveu uma obra magnífica em resposta à questão “que fazer?”, mostrando a necessidade da atuação prática revolucionária, portanto, entendida em partido político revolucionário, onde mostrou a relação orgânica, incontornável aos reais marxistas, entre teoria e prática, a qual Adorno mais uma vez respondeu, “não sei”.

Depois inverteu e matou mais uma vez o marxismo, desta vez o próprio de Marx, esquecendo que “não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência” e afirmou o contrário: obras de propósitos puramente teóricos mudaram a consciência e assim a realidade. Desta consciência que fala, Sr. Adorno, só pode ser a consciência invertida do mundo, porque viveste no mundo invertido e dele não pôde despregar-se nunca.

Adorno negou tão enfaticamente a razão instrumental, que dela, perdido tardiamente em seu idealismo, fez-se braço armado. Furtou-se à negação determinada e deu o penúltimo adeus à classe operária.

Mesmo àquilo que se propunha, “analisar de modo intransigente aquilo que é”, fracassou. Atribuiu ao movimento estudantil de então a qualidade de “fascismo de esquerda”, devendo ser combatido, portanto, com o braço armado do Estado. (Cômico como a história pode também se repetir, não só uma, mas duas vezes como farsa. Em 2007 ouvimos o mesmo argumento, em defesa de seus interesses próprios, agora como antes, na greve do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp – quando uma professora deste instituto disse ao jornal campineiro Correio Popular que o movimento estudantil de hoje se assemelhava a um “fascismo de esquerda”.)

Vamos a um salto histórico, é sempre bom refrescar a memória também com os acontecimentos do passado recente(íssimo).

Em 2007, interpelados pelas barricadas estudantis, marxistas do IFCH, carregados de seu petismo insuperável e do alto de seus gabinetes, que gritavam: “eu estudo barricadas, sou mestre em piquetes”, numa espécie de “meu objeto me é dócil, deixem-me passar”! Digo, repito e mastigo, tire as mãos de seu objeto, ele não é alheio à realidade; podes apaixonar-te por ele enquanto museu: seu objeto estará invariavelmente sempre contra você!

Há marxista no IFCH que persegue trabalhadores por defenderem a memória da classe que dizem representar e, portanto, a ela se opõe. Grite, camarada, assim como bem sabe fazer: VÓS SOIS GIGOLÔS DA CLASSE OPERÁRIA!

Novamente, na greve dos trabalhadores das universidades estaduais paulistas, recém encerrada, os marxistas deram a cara. Não bastassem os marxistas que se esconderam em seu feudo por temor à realidade, houve também o “trotskista-newtoniano”. Foi o caso daquele da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, organizado em partido político operário (obrero), que ao início da greve estava de frente para a vanguarda do movimento, não por opção, mas por uma questão de ocuparem o mesmo espaço e tempo; preferiu, então, apegar-se tardiamente a Newton e viu-se coagido pela lei de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço-tempo – preso à alternativa: ou ele, ou os trabalhadores em greve – de modo que preferiu dar as costas e saiu pelas portas do fundo.

Marxistas em Marília, daqueles filiados ao PCB, atuaram como cavalo de batalha do governo e da reitoria na UNESP. Condenaram veementemente a heróica ocupação da diretoria do campus levada à frente pelos combativos estudantes. Tentaram mesmo criar alarde contra a abnegação estudantil para com os trabalhadores, propondo uma carta de todos os professores contra os estudantes (felizmente neste momento a social-democracia pôde ir mais à esquerda que este tipo-marxista e impediu tal atitude reacionária). Ainda assim, à revelia destes nomeados, os estudantes conquistaram uma bandeira importantíssima para a classe operária hoje ao barrarem a terceirização.

A universidade da mercadoria produz e coloca nas vitrines também marxistas!

Os trabalhadores e os estudantes são hoje a intelectualidade das universidades. Pensam, criticam, invertem e modificam a realidade. Determinam a consciência na sua prática-programa. Educam os educadores na luta de classes.

Que fique sólido: o zoológico não é a totalidade da natureza, assim como seus feudos são parte ínfima da realidade – diga-se, a parte mais inabitável do todo, aquela que nada enxerga um palmo adiante.

Estou certo, sem prática revolucionária, não há teoria que se sustente.

Assim, Marx ofereceu já em 1843 um bom fim de papo aos “fogos-fátuos de marxismo” da academia: “a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria transforma-se em força material quando penetra nas massas”.

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  1. 07/11/2010 às 6:18 pm

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