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Sobre um arquivo operário e a crítica a uma homenagem fascista em Campinas

A dominação na História e a História da dominação

Sobre um arquivo operário e a crítica a uma homenagem fascista em Campinas


Por Iuri Tonelo


Assim, desde que o nome da liberdade seja respeitado e impedida apenas a sua realização efetiva – de acordo com a lei, naturalmente – a existência constitucional da liberdade permanece intacta, inviolada, por mais mortais que sejam os golpes assestados contra sua existência na vida real

Karl Marx – O Dezoito Brumário



No desenvolvimento conturbado do capitalismo do século XX, distintas formas de organização política estatal se manifestaram (de maneira mais ou menos repressiva, mais ou menos ideológica) para salvaguardar a continuidade de um modo de produção que insiste em não caducar; afinal, como dizia Marx, a história é sólida e atravessa muitas estados ao conduzir uma formação antiga ao sepulcro. Da democracia liberal-burguesa, com seu discurso pomposo e hipócrita em tempos de estabilidade, aos mais explícitos ataques à classe trabalhadora e a sua democracia, ataques esses expressos nas sangrentas ditaduras – como as da América Latina – tudo o que se objetivou foi a continuação histórica da dominação da burguesia e de outras classes dominantes. Para isso, fez-se e se faz necessário que as idéias e a própria historiografia fossem enviesadas por essas classes, ou seja, que os desejos e anseios dos dominantes se identificassem com os valores mais sublimes e devessem ser transpostos para a história como se fosse “vontade geral”, personificada em seus herois – imputando em nós a memória dos dominantes. Vocês devem se lembrar aqui das perguntas de um operário que lê:

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus operários?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros?

(…)
Tantas histórias
Quantas perguntas

(Bertolt Brecht)

Passando das perguntas do poema às questões da práxis, chamamos a atenção para essa reflexão pois em Campinas temos um exemplo muito cabal e significativo dessa disparidade (de “memória”), do ponto de vista das classes.

Como primeiro ponto, devemos nos lembrar que na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) existe um arquivo com uma das mais ricas compilações de livros, panfletos, jornais, textos, fotos e outras formas de memória que estão diretamente relacionados com a classe operária: trata-se do AEL, Arquivo Edgard Leuenroth.

Edgard Leuenroth

Aqui queremos chamar a atenção para um dado: Edgard Leuenroth foi um importante anarquista que, a despeito de sua concepção estratégica da revolução estar equivocada, cumpriu um papel decisivo em compreender a grandiosidade e riqueza dos materiais e arquivos que trabalhadores e militantes de sua época elaboravam, fato que fez Leuenroth dedicar parte de sua militância a preservar estes documentos, inclusive contra a ditadura. Merecidamente, este arquivo residente na UNICAMP leva seu nome; mas infelizmente, perde cada vez mais seu espírito militante. Afinal, o arquivo está em uma das universidades mais elitistas do país e, nesse sentido, leva à incoerência de (um arquivo operário) ser regido por uma burocracia acadêmica ligada ao capital1.

Assim, os burocratas querem acabar com o AEL, transformá-lo em um arquivo qualquer, querem que perca toda a poesia e a luta que mancha com a tinta da história àquelas páginas amarelas dos milhares de livros militantes. Mas nós resistimos, os que estão ligados à classe trabalhadora, a começar pelos trabalhadores combatentes do AEL, e enfrentamos com paixão essa deturpação burocrática da academia, em especial na inserção das empresas terceirizadas – que são, em muitos casos, as grande responsáveis por problemas que destroem a estrutura do arquivo, danificam documentos etc., – mas também estamos contra cada gesto cotidiano de autoritarismo, de corrupção capitalista, de burocratismo, em especial, quando atingem as trabalhadoras terceirizadas, que são as mais exploradas e oprimidas. Nós fazemos jus à memória de Leuenroth.

O outro lado da moeda está bem perto da UNICAMP e do AEL, só que em outra universidade, a conhecida Pontifícia Universidade Católica de Campinas, a PUCCAMP. Lá vemos um exemplo execrável de a que ponto pode chegar a burguesia em suas manifestações de heroísmo burguês, uma vez que lá existe uma praça intitulada Emílio Garrastazu Médici (!), com os seguintes dizeres: “constante preocupação com a educação e a cultura do povo brasileiro” .

Placa em homenagem a Médici na PUCCAMP

Em essência, é a mesma a lógica da burocracia acadêmica que quer destruir o arquivo operário da UNICAMP e da que quer manter na PUCCAMP uma homenagem a uns dos mais cruéis responsáveis pelo período de aplicação do AI-5, de torturas e assassinatos dos militantes, repressão brutal da classe trabalhadora – tirando direitos democráticos elementares.

Desse ponto de vista, temos que nos organizar, debater a questão da PUCCAMP no marco da tragédia que representa a todos da comunidade manter essa homenagem à Médici; que consigamos exigir e impor que a burocracia acadêmica da PUCCAMP retire aquela homenagem. Sigamos o exemplo dos companheiros da Argentina2, que fazem uma luta mortífera contra essas tragédias ditatoriais do passado. Como um outro manifesto havia dito, não se trata aqui de apagar a memória, uma vez que queremos que os torturadores do passado sejam punidos e que a classe trabalhadora saiba bem quem foram seus opressores e a quem deve combater, rechaçando qualquer intenção de se fazer passar inimigos por amigos.

O que queremos é estilhaçar todo vestígio da vil ditadura que aqui se fez presente, todos os laços com a sociedade da perseguição, com o reacionarismo. E, acima de tudo, aprofundar essa luta, para que a historiografia de amanhã não seja mais a dos dominadores, mas de uma História que conseguiu romper com os limites da sociedade de classes.



1Há quem diga que este não é um arquivo operário, mas tão somente um arquivo como outro qualquer da UNICAMP, e ainda assim se reivindique marxista.

2– Basta ver os importantes atos realizados na Argentina, todos os anos, que reunem milhares de ativistas contra os crimes da ditadura argentina. http://www.tvpts.tv/spip.php?video=1389

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  1. Pablo
    07/15/2010 às 8:46 pm

    Trabalho na FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade). Por aqui andaram inaugurando uma sala em homenagem a ninguém menos que Delfim Neto, professor emérito da faculdade. Na noite de inauguração, champagne e frios finos. É muito estranho que o fato de Delfim Neto ter cumprido um papel tão importante em um momento tão fúnebre (literalmente) da história passe desapercebido. Quando se fala em ditadura militar todos ficam sérios e agradecem por termos (nós, trabalhadores) terminado com essa história. O passado é passado, e hoje o departamento de Economia pode, orgulhosamente, homenagear o principal economista do período mais repressivo do nosso passado recente. Assim, enquanto a notícia de uma grande homenagem, com os principais professores da faculdade, com deliciosos quitutes e borbulhantes bebidas, corre pelos corredores da faculdade, tentam nos forçar, entre sorrisos, a esquecer quem somos e perdoar abusos. Naturalizam atrocidades e homenageiam genocidas. Tantas maneiras de se construir memória.

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