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A caducidade do navegador e o podre obscurantismo clerical

 André Augusto 

 

A religião está intimamente ligada à política, mas nosso interesse principal não é no presente a política teórica mas sim a prática. Queremos participar da política ativa e diretamente, porém falta-nos a tranqüilidade, o ânimo e a disposição para ler e escrever, para ensinar e aprender. Já de há muito nos ocupamos e satisfizemos bastante com o discurso e a escrita; exigimos finalmente que a palavra se torne carne, e o espírito, matéria; estamos fartos tanto do idealismo filosófico quanto do político; agora queremos nos tornar materialistas políticos”.

 

Ludwig Feuerbach, primeira preleção sobre a essência da religião, apresentada em 1848.

 

 

 

 

Depois de uma longa jornada de debates no senado, que havia iniciado perto do meio-dia da última quarta-feira, 14 de julho, e que terminou na madrugada do dia seguinte, foi aprovada no Senado argentino a lei de matrimônio igualitário entre casais homossexuais. Fazemos uma grande saudação aos companheiros dos movimentos de gays, lésbicas, travestis e transexuais da Argentina que conseguiram romper essa primeira camada epidérmica no gorduroso tecido reacionário da sociedade burguesa mergulhada no pântano do seu misticismo e de seus preconceitos, uma primeira conquista que abre caminho para avançar em outros direitos e liberdades democráticas, como o direito ao aborto e à separação da igreja do estado.

 

Mas é justamente este reboco residual das pinturas rupestres do cérebro medieval, que teima em não descascar, essa igreja católica e suas derivações, que sempre gostaram de regar a mente humana com riachos e lagoas feitas de sangue gélido, pelos quais os mortos tinham de passar em seus mitos à outra margem para se salvar, essa igreja esqueceu (ou melhor, temeu) atravessar aquele Rio de Fogo, aquele Feuerbach, o primeiro purgatório do século XIX. Não; ao se deparar com as ondas revoltosas das corredeiras da luta de classes, tratou de remar no sentido inverso, convertendo com cada vez maior desespero a carne em palavra, e a matéria em espírito, mesmo contra todas as evidências da realidade.

 

Naturalmente, um dos cadáveres frios do necrotério da história, a igreja católica (juntamente com organizações evangélicas e pentecostais), ante a possibilidade de perder qualquer polegada de sua nefasta e reacionária influência sobre as massas populares, vomitando sobre elas graus de atraso e de ignorância dignos das maiores excrescências das épocas medievais, que o sistema digestor da sociedade humana já devia ter expelido normalmente há muito, apareceu para dar o seu espetáculo. Como relata Andrea D’Atri, dirigente nacional do PTS (Partido de los Trabajadores Socialistas, organização irmã da LER-QI na Argentina) e impulsionadora da agrupação de mulheres Pan y Rosas, que estiveram presentes em massa na frente do Congresso realizando o ato em favor da aprovação da lei e se confrontando com o ato reacionário que corria em paralelo com algumas dezenas de religiosos: “Nesta ocasião, idearam uma estratégia para atacar o direito ao matrimônio igualitário, baseado na falácia de que somente é verdadeira uma família que tem ‘mãe e pai’. Mas na Argentina, quase 30% dos lares são sustentados por mulheres solteiras. Também diziam que não se sabia o que podia acontecer com crianças criadas por dois pais ou duas mães. O certo é que as pessoas homossexuais são filhas de uma mãe e um pai heterossexuais, e a igreja pretende acaso proibir o matrimônio tradicional para que não siga havendo filhos ‘desviados do plano de deus’? É uma verdadeira ridicularidade. Nas famílias que eles chamam ‘normais’ não são poucas as mulheres vítimas da violência machista e as meninas e meninos abusados e violentados por seus próprios pais”.1

 

Enquanto a igreja católica, apostólica e romana, com sua rede mundial de interferência, continua a disseminar sua cruzada de ódio e os insultos mais estapafúrdios à inteligência humana, colocando muitas vezes em risco a própria saúde das pessoas, recebem subsídios milionários pelo Estado, através dos impostos pagos pelos trabalhadores assalariados, não importando para isso sua crença. Nesse caso, a igreja católica reconhece o mesmo princípio da classe burguesa que defende: não possui divergências morais ou religiosas com o dólar.

 

Na Argentina, com os impostos, os trabalhadores pagam salários de mais de 10.000 (dez mil!) pesos a bispos que nunca trabalharam – segundo leis que foram incorporadas durante a ditadura militar – pagam os subsídios a escolas católicas e muitas outras coisas. Alguns dados relevantes saltam aos olhos: o orçamento nacional desse ano votado à igreja católica monta à soma de 25 milhões de pesos; ao redor de 16.500 curas e monges cobram salários e aposentadorias pagos com dinheiro público. Na capital Buenos Aires, durante o governo Binner em 2009, votou-se 730 milhões de pesos aos colégios católicos; na atual gestão do governo de Macri, votou-se a soma estarrecedora de 803 milhões de pesos a esses colégios2.

 

Esse dinheiro é utilizado por esta instituição faraônica para fustigar suas propagandas sumamente reacionárias em incitação à homofobia e ao expurgo coletivo dos casais homo-afetivos, para esconder seus crimes de pedofilia e de lesa-humanidade, para travar acordos com a patronal e com os partidos burgueses, para envenenar a consciência dos trabalhadores e das massas pauperizadas com seu charco ideológico e suas falsificações sobre “as vias pacíficas e dialogáveis” de solução das crises sociais, jogando nos bastidores seu papel tradicional de firme agente do imperialismo e companheira íntima dos generais genocidas nos regimes de ditadura militar. Mergulhada na profunda hipocrisia que a corrói há milênios, a igreja católica procede a juízos canônicos contra o cura que se posicionou a favor da lei do matrimônio por casais homossexuais, mas não iniciam investigações contra os curas que participaram dos grupos de tarefa da ditadura sangrenta da década de ’70, nem muito menos o fazem contra aqueles acusados comprovadamente de abuso de menores e pedofilia.

 

Não resta dúvida de que o lugar donde radica a cota de poder desta instituição obscurantista e medieval é decididamente das relações que mantém com o Estado, que sustenta materialmente o culto católico com os impostos que pagamos os trabalhadores e o povo – tal como dita o artigo segundo da Constituição Nacional Argentina, que junto às leis aportadas pela última ditadura garantem os ingressos mensais, aposentadorias e pensões de dezenas de milhares de bispos e monges, como dito acima. Termina assim com a demagogia de que o estado burguês seja laico e que seja imparcial às questões religiosas. Prova, pelo contrário, apoiar desbragadamente um dos maiores entraves ao esclarecimento da consciência política e organizativa da vanguarda da classe trabalhadora e do povo pobre, e sua curiosidade por entender realmente os eventos.

 

A garantia do desenvolvimento da Igreja com o financiamento do Estado nacional demonstra a cumplicidade deste na ingerência católica em campos como o da educação e o da saúde pública das grandes massas populares, habilitando-a a condenar com absoluta irresponsabilidade os métodos contraceptivos, as políticas de saúde reprodutiva, o direito democrático ao aborto livre, seguro e gratuito, tornando-se vigia silencioso da morte de milhares de mulheres que são obrigadas a praticar abortos em condições desumanas. É claro que, no entanto, a igreja católica o faz sempre com a melhor das intenções, em nome da “defesa da vida”…

 

 

…da vida de seus privilégios e mordomias, como possuidora do maior patrimônio privado na maioria do países do globo, insuperada mesmo pelas multinacionais, em aliança com o patronato.

 

 

Apesar de contar com o apoio de quase 70% da população argentina, a aprovação da lei esteve permanentemente em situação de “empate técnico” no Senado, correndo o risco de não ser aprovada e com a possibilidade de que ficasse arquivada por mais um ano. Esta margem muito pequena (33 votos a favor, 27 contra), colocando em perigo a aprovação da lei até o final da sessão, mostra que não podemos deixar nas mãos de deputados e senadores, oficialistas ou opositores, a conquista dos direitos dos trabalhadores, da grande massa de assalariados, do povo pobre, em não menor proporção que os direitos dos gays, lésbicas, transexuais e travestis.

 

Por isso, de nenhuma maneira se pode confiar nos senadores dos partidos patronais, que tanto aqui no Brasil como lá, mantêm todos os privilégios da igreja e se recusam a impulsionar o direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Na Argentina, o governo se negou a dar quórum de deputados por duas ocasiões nessa votação da legalização do matrimônio entre homossexuais, tentando ocultar que dentro de suas fileiras há uma dezena de deputados e senadores clericais e direitistas que estão contra o direito democráticos dos gays e das lésbicas. No Brasil, sob o governo Lula, líder do atual “partido da ordem” do PT, esta reacionária instituição não só fica mais rica a cada dia às custas da fé e do trabalho alheio, como com a concordata Brasil-vaticano assinada em novembro de 2008, é-lhe concedida por direito ensinar seus horrores intelectuais nas escolas públicas.

 

Como se não bastasse, o deputado brasileiro Paes de Lira (PTC-SP) foi um dos primeiros a mostrar a lixeira aberta do seu pensamento, e qualificou que a decisão do Senado argentino é um “exemplo danoso” para o país. “Não tenho dúvida de que essa decisão dará força a grupos de pressão no Brasil, grupos que já são recebidos no Congresso com uma pompa desproporcional, grupos absolutamente minoritários […] Os modos alternativos são uma realidade com as qual temos que conviver, mas essa realidade não encontra respaldo nos fundamentos cristãos de um país como Brasil ou mesmo Argentina“. Os dois elementos mais comuns na terra são o hidrogênio e a estupidez.

 

 

Não podemos confiar também nos partidos patronais da oposição, expresso na direita auto-declarada do PSDB e DEM, nem um mínimo a mais que naqueles do oficialismo petista, para aprovarem no papel as garantias de liberdades democráticas mais elementares, já que não o podem fazer sem colocar nossos direitos em risco de ser negados ou condicionados pelos direitistas e fundamentalistas recalcitrantes. Vêem-se as iluminações exemplares sobre isso no ataque ao direito democrático de greve dos trabalhadores, nas tentativas de corte de ponto, nas ameaças de prisão, na concretude das balas de borracha e dos gases da polícia contra os professores da rede pública, contra os judiciários, os controladores de vôo, os servidores do IBAMA, da Sabesp e os funcionários públicos das universidades estaduais paulistas.

 

O centro de configuração dos cenários para arrancar aquilo que se nos negam mesmo no papel tem o fundamento na luta ativa nas ruas, e sobre esta base extra-parlamentar tem a tarefa de utilizar o parlamento como um tribuno do povo, e este como um palco agitador e disseminador da política correta para a solução dos problemas candentes com que o capitalismo mantém a miséria sobre as costas do povo pobre. Não nutramos a esperança simplória e exclusiva para que essa cova de ladrões que constituem os ricos no Congresso saldem os problemas de nossa classe!

 

Há que dizer um basta ao obscurantismo clerical e separar definitivamente a igreja do Estado, e apelar à mobilização nas ruas até separar genuinamente as duas instituições, expropriando todos os bens e propriedades da cúria católica. Há que se cortar os subsídios estatais e abolir todas as leis que garantam o desenvolvimento dessa instituição reacionária que é a igreja, reforçada pela legislação sobrevivente dos tempos da ditadura militar.

 

Em nota paralela, não admira que a Reitoria da PUC Campinas, controlada pela igreja católica cuja cúpula sempre manteve íntimas relações com a ditadura, exponha como um troféu um monumento de pedra em homenagem aos favores preocupados que Emílio Garrastazu Médici prestou “à educação e à cultura do povo brasileiro”, exatamente o mesmo general que esteve à frente dos anos mais nefastos da ditadura militar no Brasil e responsável pela implementação do Ato Institucional no. 5, que contribuiu “com a educação e a cultura do povo brasileiro” como uma vala aberta na lama contribui para esconder os ossos dos bravos militantes e trabalhadores que lutaram contra esses generais genocidas.

 

Que a conquista de nossos companheiros argentinos inflame o incêndio de nossas forças para avançar na conquista dos direitos do matrimônio homossexual legal e o direito do aborto livre, seguro e gratuito!

 

 

 

 

 

2Para dados mais relevantes, assistam o vídeo produzido pelo PTS acerca da aprovação da lei matrimonial: http://www.tvpts.tv/spip.php?video=1637 
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