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As incansáveis provocações jornalescas

André Augusto

Os golpes “insolentes” que a resistência política oposta pelos trabalhadores durante as greves do funcionalismo público desse ano ainda deixam cicatrizes ácidas e profundas nas mentes da burguesia. Particularmente a greve dos servidores públicos na USP foi intragável; ela atrai a ira enlouquecida do governo estadual, as reitorias das universidades estaduais e dos demais filisteus da direita, uma vez que os trabalhadores conseguiram reverter a liminar do corte de ponto que descontava ilegalmente os salários referentes aos dias paralisados (ao contrário dos resultados das outras greves do funcionalismo), além de arrancar da boca de João Grandino Rodas, o REItor da lei marcial na USP, que “não haveria punições aos trabalhadores nas atividades de mera greve”, frase que, como dissemos em publicações anteriores do blog Iskra, continha mais saliva que seriedade, comprovada pelo processo administrativo que levou à suspensão por trinta dias a companheira Patrícia (trabalhadora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – FFLCH).

As operações de guerra reacionárias que a burguesia continua conduzindo em seus jornais contra o direito democrático de greve, demonstrado pelo artigo redigido pelo professor titular aposentado do instituto de química da USP, Rogério Meneghini, prova acima de tudo quão baixo nossos jornalistas contemporâneos se afundaram. A Folha de S. Paulo até recorre a escritores substitutos, renomados coordenadores da “ciência para a burguesia”, membros da Academia de Ciências impregnados daquela fumaça do cretinismo professoral, para apelar aos sentidos da pequena burguesia e da classe média a fim de que ouçam os urros terríveis que provocaram os “vândalos bárbaros” em sua auto-estima. Inconformados com sua própria pusilanimidade, os jornais burgueses fazem rufar ainda mais fortemente os tambores e espalham as mentiras mais desgraçadas sobre o conflito.

E um convite faz corar a vaidade. As bochechas do sr. Meneghini certamente se avermelharam, não entretanto de vergonha ou fúria, num arroubo da mais profunda indignação, mas com a cor do prazer e da satisfação. Mas o cientista não quis responder o artigo mais afiado também publicado na seção “Tendências/Debates”, por Jorge Luiz Souto Maior, Luiz Renato Martins, Paulo Arantes e Francisco de Oliveira, que abordam a negligência proposital do Estado com o ensino público, a promiscuidade do investimento privado no ensino público, a necessidade da democratização interna e externa da universidade mediante voto universal e a superação do vestibular; escolheu dedilhar o artigo bem mais modesto de Ricardo Antunes e Marcus Correia que, importante pelo debate do destino das verbas investidas, detêm-se nos marcos da “ameaça da liberdade de cátedra” e da “preservação da integridade da universidade pública” atual, cuja régua é a permissão da entrada da Polícia Militar no campus em 2009 para reprimir a balas de borracha e bombas de gás os trabalhadores e estudantes manifestantes.

Assim continua Meneghini o que os mercenários jornalistas da mídia oficial repetiram piamente durante os dois meses da greve da USP, referindo-se aos benefícios acadêmicos da doação de cidadãos privados às universidades norte-americanas: “Não há nenhuma suspeita de que essas doações por pessoas privadas, que nos Estados Unidos somaram US$ 27,9 bilhões de dólares em 2009, tenham se constituído em ameaça à liberdade de cátedra ou em um estorvo para a pesquisa básica no setor acadêmico, como temem os articulistas. Muito ao contrário, ela abriu possibilidades para lançamentos de programas, contratações e fortalecimento no ensino e pesquisa”.

Por que foi exatamente pelo temor da burguesia à “ameaça da liberdade de cátedra” e a um possível “estorvo para a pesquisa básica no setor acadêmico” que os trabalhadores se bateram contra José Serra e seu interventor nas greves das estaduais paulistas! Que tentativa vã de obscurecer os eixos políticos centrais dessa importantíssima mobilização operária! Os grevistas das universidades estaduais paulistas não lutavam pela reinstauração da isonomia salarial entre docentes e não-docentes por fora da luta pela democratização radical da universidade, pelo ensino superior público gratuito, de qualidade e a serviço da classe operária e do povo pobre da cidade e do campo! Embora a liberdade nos rumos do ensino, de seu caráter e conteúdo gerais, seja uma condição importante, o pressuposto crucial para esse tipo de universidade é que ela seja controlada pelos trabalhadores, que hoje tem de ler seus interesses não só caluniados, mas presunçosamente ignorados pelos escritores substitutos!

“A parceria com empresas tem enfoque distinto e já ocorre em pequena escala em nossas universidades. Ela geralmente se dá a partir do interesse recíproco de um pesquisador e de uma empresa; a meta principal é criar tecnologia de ponta […] São já vários os casos em que as empresas estão investindo recursos para que setores específicos das universidades e institutos desenvolvam pesquisa de interesse recíproco e formem recursos humanos para seus próprios quadros. Como negar que este é outro papel social importante da universidade?”. Como negar que o pobre senhor Meneghini desconhece que este não é “outro”, mas o único papel social da universidade dirigida pela burguesia e direcionada a satisfação de seus excessos?

O cientista manteve o que pôde de sua coerência. A meta axial do seu artigo visava encontrar leitores tão precipitados quanto ele, pois igualou sem pudores as condições de dois países diametralmente distintos, Brasil e EUA, e, como não podia faltar, o papel de suas universidades. A impossibilidade da comparação sem demarcações claras entre o Brasil, seu sistema de ensino altamente subordinado aos interesses imperialistas, e o sistema educacional norte-americano, por si só, poderia ter colocado em guarda qualquer leitor sério contra qualquer transposição cega. Para represar entre as duas condições o “córrego” que o químico não enxergou, dizemos brevemente que os EUA são a potência imperialista máxima frente a todo o mundo capitalista, controladores do mercado financeiro especulativo em escala global, centro irradiador da tecnologia necessária à continuidade das investidas bélicas contra as economias coloniais e semi-coloniais, porém cuja hegemonia se encontra em palpável declínio graças aos insucessos e reveses parciais na guerra genocida dentro do Afeganistão e do Iraque, da saturação de sua economia enquanto encarregada de solver o problema dos países europeus que foram o epicentro do estouro da crise das dívidas públicas.

Já o Brasil se apresenta no cenário internacional com o tímido semblante de uma semi-colônia, com um caráter especial, projetando grandes monopólios capitalistas que associam capital nativo, capital imperialista e o auxílio do estado nacional, e cujo modelo de acumulação capitalista por isso evidencia um alto grau de dependência ao capital financeiro internacional, profundamente atrelado às inversões financeiras de investidores localizados nos centros imperialistas, desavergonhadamente dependente da exportação de commodities, em tal grau que seu rápido escape do primeiro capítulo da crise econômica internacional em curso só pode ser examinada a partir de sua subordinação às respostas que as economias centrais forneceram a seus próprios problemas (derramamento do dinheiro público para o resgate de empresas e bancos privados, derivando-se daí um enorme default de dívida publica nesses países).

Mas o sr. Meneghini não quis correr o risco de parecer “superficial e deformado” na argumentação, então decidiu esconder a diferença e fazer os dois países tão iguais quanto duas ervilhas. Começando assim, não havia por que adiantar a atenção à frente do teclado, e encontrar na realidade viva da economia mundial a divergência dos papéis dos estabelecimentos de ensino nos dois países. E, preocupado em não escorregar na armadilha embaraçosa em que caíram seus adversários, os quais “nem sequer chegam a fazer uma distinção entre duas formas das universidades”, cai na armadilha de confiar demais em sua memória recente, e associa naturalmente uma universidade privada como Stanford e uma universidade pública como a USP. O valor da identidade está em que freqüentemente com ela vem o interesse da identidade.

A Stanford University, que o Sr. Meneghini esparrama em sua resposta sem qualquer motivo aparente mesmo para efeitos comparativos, é uma universidade norte-americana de pesquisa privada fundada por Leland Stanford, um senador norte-americano e magnata da construção de estradas ferroviárias, ofício dos mais opressivos e exploratórios para a classe operária, junto às mineradoras da Califórnia no início do século XX. Fundada especialmente para o desenvolvimento da técnica maquinária e química alinhada com os interesses das firmas capitalistas de alta tecnologia vinculadas à exploração da região oeste dos EUA, foi responsável fundamental pelo desenvolvimento da região do Vale do Silício na Califórnia. A Universidade ainda abrigou o “Instituto Hoover sobre Guerra, Revolução e Paz” no período entre-guerras, instituto designado para a coleta de informações internacionais à maneira de um serviço secreto.

E essa universidade (privada, como todas as instituições “de ponta” do Ensino Superior nos EUA), servindo a pesquisas militares de um estado imperialista, é comparada, como a planta à semente, com a universidade pública da USP. Se ignoramos a lógica interna da comparação (já que não possuem nenhum caractere comum ao qual possam reduzir-se imediatamente a não ser serem ambas “universidades”), conhecemos as falsas cordas sofísticas com que o autor amarrou a USP à Stanford. Quer o senhor Meneghini borrar as fronteiras que demarcam toda a diferença entre o público e o privado, à maneira do REItor Grandino Rodas, que sentiu no início de sua posse, como dissemos em publicações anteriores, “que o paradigma público/privado anda muito engessado, e é preciso reformulá-lo”. É assim que o químico conhece a botânica da espoliação do tesouro público em favor dos interesses monopólicos.

Cumpre lembrar que essa coluna foi publicada no momento em que o grupo editorial britânico Pearson Education, que controla o jornal Financial Times, anunciava a compra da divisão de sistemas de ensino do SEB (Sistema Educacional Brasileiro) e de outros ativos da empresa por R$ 888 milhões, transação que aumentara a participação do grupo britânico no mercado de material didático, avaliado em R$ 2 bilhões. Os agora controladores imperialistas do SEB, liderados pelo presidente-executivo, Chaim Zaher, manterão a gestão de 31 escolas de educação básica e pré-vestibular COC, Pueri Domus e Dom Bosco em sete Estados, além de unidades de ensino superior presencial. As mesmas escolas elitizadas que lançam nas universidades estaduais paulistas os projetos de quadros dirigentes a burguesia.

Nas mãos do filisteísmo burguês, “que se comportam na política como vira-latas tagarelas e no comércio como velhas”, segundo Marx, esse argumento se vira contra o dispositivo da greve, argumento que só é perfeitamente eficaz quando usado com os desinformados.

Além de tudo, o cientista justifica a retidão e até a obviedade de sua opinião por serem “não-ideológicas”, por não ser o que estúpidos arrogantes como Gilberto Dimenstein chamam de “bobocas ideológicos”. A guerra do limo estagnado da intelectualidade burguesa contra a heresia chamada “ideologia” tem um interesse claro como o sol. “Tudo o que foi dito acima pode ser desqualificado por um posicionamento rígido, para não dizer ideológico, de que a universidade não deve se imiscuir com interesses de setores privados, individuais ou empresariais. E que os recursos adicionais necessários devem advir do setor público”. Todos os articulistas burgueses, com especial predileção os assalariados da Folha de S. Paulo (como o substituto Rogério Meneghini), O Estado de S. Paulo, os subordinados de revistas como IstoÉ, Veja e demais depósitos do entulho nacional, não escrevem um rascunho editorial contra a classe operária e o povo pobre, contra o elementar direito democrático de greve de livre organização sindical, sem emborcarem no papel a tinta do “terror à ideologia”. Marx estava completamente correto quando disse que a classe operária alemã era a herdeira legítima da filosofia alemã, e não banqueiros, industriais, ministros, escritores substitutos e outros verdugos capitalistas.

As teorizações burguesas, expressões desdobradas de sua ideologia, são privadas do caráter de genuínas generalizações de uma classe contra outra pela própria burguesia, apresentando o conteúdo que se reveste da defesa incondicional de seus desmandos e privilégios como um cânone neutro dos valores mais sublimes da ordem humana. Importa muito saber que as classes exploratórias destituem a carga de sua ideologia de qualquer voltagem associando-a aos desejos de todo o universo produtivo. É notável investigar esse assunto, pois, dentro dos limites deste artigo, podemos apenas indicar que a burguesia qualifica como uma desvirtude, um sacrilégio ímpio, um verdadeiro despudor a atenção vigilante para o aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado, e o combate travado num patamar no qual a burguesia, liberal ou conservadora, não possui nada a oferecer. Banal em todas as suas expressões orais ou literárias, e original apenas em sua banalidade, chocando a cabeça contra o reboco da mesma sentença, como “tudo isso pode ser desqualificado por ser ideológico”, ou “esse argumento não possui base, pois, além de ser ideológico…”, ao invés de colocarem-se frente a frente com os revolucionários no terreno científico, os ideólogos “sem-sabê-lo” da burguesia querem extorquir uma vantagem adicional que os marxistas revolucionários têm sobre eles, a saber, de poder levar uma idéia até o fim, de poder afiar a lança de sua luta teórica por meio de um estudo científico das relações de classe, a serviço de uma guerra implacável contra a ideologia burguesa.

O grande temperamento, a mediocridade intelectual auto-satisfeita, o amorfismo sentimental de alguém que não se mede como “superficial e deformado”, a ausência de pensamento disciplinado e a ignorância misturada a uma erudição afetada – são todos elementos componentes e indispensáveis às vísceras indigentes da burguesia e de seu temor pela lei dos fatos. Não podem deixar de temer a “ideologia”, essa praga da consciência científica materialista e poderosa arma crítica dos revolucionários, pois a classe burguesa propriamente dita não possui senão intelectuais de segunda e terceira categorias, cujo papel histórico não lhes permite perseguir um único pensamento até sua conclusão.

A observação feita por Engels no prefácio ao livro A guerra camponesa na Alemanha conserva toda a sua atualidade e força: “Os operários alemães apresentam duas vantagens essenciais sobre os demais operários da Europa. Primeiramente pertencem ao povo mais teórico da Europa; além disso, conservaram o sentido teórico já quase completamente desaparecido nas classes por assim dizer ‘cultivadas’ da Alemanha. Sem a filosofia alemã que o precedeu, notadamente a de Hegel, o socialismo alemão – o único socialismo científico que já existiu – não teria sido estabelecido. Sem o sentido teórico dos operários, estes não teriam jamais assimilado esse socialismo científico, como o fizeram”.

A “neutralidade ideológica” mantém as ferramentas da reação burguesa aceitáveis e em boas condições. Os revolucionários devemos atacá-las em todos os distintos graus da atividade produtiva do homem, para que não ocupem o potencial revolucionário da classe operária com o colapso de sua latrina ideológica, reacionária em toda linha, buscando com que a classe operária tome ingenuamente como suas as posições da classe dominante, cujo principal vetor hoje é “o metalúrgico que transformou o Brasil num país capitalista”, o presidente Lula.

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A intransigência nas negociações, o corte de ponto dos grevistas e as demissões que vemos no último período (como a demissão de Brandão e de ativistas da Sabesp) são, na ligação interna necessária que mantêm, um ataque preparatório ao direito de greve e à organização da classe trabalhadora. Conseqüentemente, esses trabalhadores estão totalmente justificados em se prepararem política e organizativamente, elevando com seus próprios métodos de luta um ataque a seus direitos a uma grande batalha de classe, com a mais irrestrita independência de classe, para combater os duros ataques que a patronal e os distintos candidatos à presidência preparam; como Dilma, Serra e Marina Silva, a tríade ajoelhada ao capital imperialista.

As vitórias operárias não se podem obter cumprindo-se as regras do jogo marcadas por aqueles contra os quais lutamos, que são os primeiros a atropelarem suas próprias leis. De fato, a manutenção do regime do estado burguês se dá através do permanente pisoteamento de suas próprias leis pela burguesia. Que a classe operária também desconheça a legalidade dos ataques maciços que virão e, como mostraram os metroviários de Madrí, resgatem seus próprios métodos de luta de classes.

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