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Especial Iskra: Introdução a “Três Concepções sobre a Revolução Russa”, de Trotsky

Soldados bolcheviques nas ruas de Moscou, durante a Revolução Russa de 1917

pos Gilson Dantas, 

Três concepções sobre a Revolução Russa,

escrito em agosto de 1939 (apêndice à biografia de Stalin escrita por Trotsky).

 

Introdução  

 

A crise global do sistema capitalista é evidente e tende a crescer aos olhos dos trabalhadores à medida que o governo, preposto da classe dominante que enriqueceu durante o crescimento econômico, a descarregue sobre as massas. Em vários cantos do mundo pode-se instalar uma situação revolucionária. Em países como o Brasil, frações da burguesia liberal ou “reformista” tendem a levantar a cabeça postulando-se como saída ante a crise. Neste contexto e considerando que, em nenhuma hipótese a esquerda marxista deve partir do zero é que adquire suma importância a recuperação do pensamento de Trotski.

Em 2010, aos setenta anos do seu assassinato a mando de Stalin, questões como a da estratégia revolucionária estão mais vivas que nunca. E as formulações teóricas e programáticas de Trotski igualmente vivas e atuais.

O texto abaixo republicado é uma amostra significativa disso e, dentre outras coisas, é uma ferramenta teórica, dialética, que nos arma para o combate contra todo tipo de ilusões no terreno que tantas derrotas políticas  veio trazendo aos trabalhadores no século XX, o terreno da colaboração de classes. O texto Três concepções sobre a Revolução Russa, nesta medida  cobra toda sua atualidade, toda sua importância política e teórica.

Neste caso, tomando a Rússia revolucionária como um exemplo histórico, Trotski recupera a noção de estratégia revolucionária e da necessária independência de classe dos trabalhadores e seus aliados mais pobres na luta por sua emancipação. Este elemento encontra-se entre aqueles que mais fazem falta nas conjunturas revolucionárias como as que parecem aproximar-se.

Sem propor, em relação a estes textos, comparações ou transposições mecânicas – a começar do fato de que, ao contrário da Rússia de então, sociedades como a nossa, por exemplo, são mais amplamente urbanas que rurais – este texto merece ser estudado, discutido, aprofundado e entendido como ferramenta teórico-metodológica na esfera da luta revolucionária. Contribui para desconstruir a idéia de qualquer projeto revolucionário que pretenda juntar patrões e empregados, proletariado e burguesia. Projetos desta natureza, típicos do chamado socialismo “populista” ou nacionalista, ante-sala de tantas derrotas (e de negação da democracia dos trabalhadores, controle das fábricas, escolas e hospitais pelos trabalhadores), podem ser claramente compreendidos em textos como este, de Trotski,  onde o papel da burguesia liberal ou “progressista” aparece claro e posto em sua formulação tão clássica como atual.

 

Algumas palavras sobre o texto de Trotski. 

 

Três concepções da Revolução Russa, de 1939, constitui, em boa medida, uma síntese, talvez a última, que Trotski tenha feito, sobre sua teoria da revolução permanente. E falar em teoria da revolução permanente é tratar de um tema completamente atual quando se pensa a revolução social em países como os da América Latina; e é tratar de um tema encarnado na própria Revolução Russa.

Antes de considerar este ponto, vale destacar que nesse texto Trotski irá recuperar, teórica, política e historicamente, a questão do conteúdo social de Outubro através do exame das três concepções da Revolução Russa.

Trotski recordará que faz parte do patrimônio inicial comum de bolcheviques e mencheviques, de Lenin e de Plekanov-Martov, a percepção de que a Revolução Russa tinha um caráter burguês, democratização da terra, soberania nacional, liberdades políticas republicanas etc.

A diferença – crucial, no caso – entre, por exemplo, Lenin e Plekanov, residia em que enquanto este último propunha a aliança entre o proletariado e  a burguesia liberal, Lenin defendia a aliança entre o proletariado e o campesinato. E, como fruto da colaboração política destas duas classes, Lenin propunha a “ditadura democrática de operários e camponeses”.

Até aqui, portanto, temos o embate entre duas concepções sobre a natureza da Revolução Russa e as tarefas da estratégia política. Pode-se ver, a partir delas, que o caráter do governo provisório ou revolucionário é diferente para os dois campos da social-democracia: são atitudes e tarefas políticas opostas em relação à burguesia liberal. Os mencheviques – com Plekhanov, Martov etc – acreditavam que a burguesia liberal poderia encabeçar uma revolução que democratizaria a terra e abriria espaço para a democracia operária. Lenin não via esta possibilidade e argumentava que nenhum tipo de tática ou de diplomacia por parte do proletariado impediria a frente reacionária da burguesia liberal com o latifúndio contra o campesinato, contra, portanto, a reforma agrária.

O governo provisório, para a ala menchevique da social-democracia era, portanto, o da burguesia liberal e, para os bolcheviques, ao contrário, era o governo operário e camponês.

O liberalismo, ante a intervenção de massas, operárias e camponesas, marcharia para a degeneração reacionária. Assim era visto pelo bolchevismo. Na prática, o menchevismo ainda enxergava a burguesia como um fator revolucionário.

Em todas as situações análogas, o século XX iria mostrar o quanto era acertado o prognóstico sociológico de Lenin (revolução na China dos anos 20, na Espanha dos anos 30, processo revolucionário no Brasil de 1964, na Argentina dos anos 70, Chile de 1973 e assim por diante). Por mais liberal, “nacionalista”, populista ou até “socialista” que o

 

governo capitalista pareça, por mais apoio popular que conte, termina evoluindo para posições reacionárias ou dando passagem a golpes reacionários assim que as massas avancem, tomem posições ou se coloquem, politicamente, de modo independente.

Em 1917 Lenin dá mais um passo adiante: passa a ter claro que cabia ao proletariado a liderança, a hegemonia do governo operário e camponês que ele propunha. Observe-se bem: aqui há uma mudança. Não se fala mais em governo operário e camponês no sentido de aliança sem hegemonia de nenhuma das duas classes. Aqui os termos da equação algébrica são preservados (proletariado e campesinato) mas são finalmente e “aritmeticamente” definidos. Estamos com o Lenin de 1917, o Lenin das Teses de abril. Não será mais a velha fórmula bolchevique (“ditadura democrática de proletários e camponeses”). Estamos diante da terceira concepção da Revolução Russa. A liderança da revolução tem que ser, inequivocamente, do proletariado apoiado no campesinato.

Observe-se também: não se trata de “saltar por cima” da revolução burguesa, simplesmente o seu agente principal é claramente percebido como sendo a classe operária urbana, aliada aos camponeses, às suas camadas pobres, sem terra e assalariadas.

Trotski, já formulara esta concepção, da revolução permanente, em 1905. Muito antes de Lenine, portanto. Houve, ao longo de mais de uma década, por assim dizer, um duplo movimento. Lenin construirá, ao longo dos anos, a ferramenta política (o partido de classe) que permitirá ao proletariado a tomada do poder em 1917. Mas a sua fórmula de poder estivera incompleta até o início de 1917. Ele irá corrigi-la ali, em 1917, em luta aberta contra os veteranos do partido.

A orientação leninista estivera incompleta até ali já que “assinalava corretamente a orientação geral da luta mais caracterizava incorretamente suas etapas” (Trotski); o que importa é que ali ela se completa e os bolcheviques, que já vinham se temperando como partido revolucionário, passam a orientar suas lutas por essa estratégia do poder operário através dos sovietes, da hegemonia revolucionária do proletariado sobre as demais camadas exploradas. É a terceira concepção da revolução. Por outro lado, a transformação dessa revolução (burguesa por seus fins e objetivos) em socialista e a própria permanência do proletariado no poder dependerão do apoio estatal direto do proletariado mundial; a revolução é mundial. Esta será a concepção de Lenin e Trotski. Irreconciliavelmente oposta à perspectiva menchevique – “falsa até à medula”, como diz Trotski – de apoio à liderança da burguesia liberal.

O texto aqui presente, de Trotski, resenha todo esse debate.

Para que se tenha uma idéia da atualidade do tema desenvolvido nesse texto de Trotski, tome-se, por exemplo, algumas questões atuais em relação ao Brasil. Um governo como o de Lula – que chegou a ser definido por setores da esquerda como “democrático e popular” – jamais teria condições históricas de levar adiante a reforma agrária, de desenvolver algum padrão relevante de soberania nacional e monetária, de livrar-se do subdesenvolvimento, romper sua condição de semi-colônia e estender o mercado interno como fizeram França e Bélgica, por exemplo. Não existe espaço para tal projeto histórico. Em linha semelhante de raciocínio, equivaleria a achar que governos bonapartistas, populistas, nacionalistas burgueses, tipo Chávez na Venezuela – teriam condições históricas e sociais de realizar a revolução democrático-burguesa, que na prática, resultaria ser, necessariamente, anti-imperialista.

Argumentos como os de Trotski neste texto – estabelecidas as diferenças históricas necessárias – contribuem definitivamente para colocar nos devidos termos, marxista-revolucionários, o debate sobre a natureza social e histórica da revolução no Brasil – ou na Venezuela, na Argentina. Permite enxergar – mutatis mutandis – que não há marcos históricos para qualquer revolução com uma “etapa” democrático-popular, onde, por exemplo, transformações democráticas – duradouras -, sociais, trabalhistas e agrárias possam ser levadas adiante por um governo de colaboração de classes, no qual os trabalhadores emprestem apoio político para que seu governo “democrático” leve adiante tais reformas. Este seria um certeiro atalho para derrotas sangrentas.  

Para os revolucionários, para aqueles que adotam o ponto de vista da classe trabalhadora, tem, assim, toda importância familiarizar-se com o debate teórico-histórico  formulado aqui por Trotski – sobre natureza da revolução social em um país como era a Rússia de 1917. Partimos do princípio de que o êxito e a estratégia revolucionária para a revolução socialista depende da teoria revolucionária, da mais sólida concepção teórica sobre o que é essa revolução, sobre como levá-la adiante, qual a relação entre as classes sociais em movimento e, daí, portanto, as tarefas, a estratégia.

Se o partido revolucionário ou os partidos revolucionários não procurarem compreender e dominar, através da experiência prática, da luta de massas, a teoria e a concepção da revolução socialista da qual fazem parte, estarão, inexoravelmente, preparando o fracasso; dificilmente triunfarão e se o fizerem, é improvável que saibam para onde ir  – a exemplo da China, de Cuba e de toda revolução cujos partidos não se socorreram das lições da Revolução Russa, especialmente da estratégia soviética, da construção da República ou da democracia dos conselhos, dos sovietes, começando também pela incompreensão da natureza da sua revolução.

Neste ponto Trotski é imprescindível.  Neste ponto a defesa do internacionalismo proletário, da atualidade da revolução proletária e da IV Internacional são também parte do legado que tem em Trotski o grande fio condutor  em direção ao marxismo revolucionário. Deste manancial é preciso que sejam tiradas as idéias cabíveis para hoje, atualizadas. O conhecimento revolucionário só avança através do estudo consciencioso da experiência passada. A começar de Trotski, o marxismo mais vinculado aos problemas cruciais do nosso tempo.

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