Início > Sem categoria > Especial Iskra: A Catástrofe Alemã

Especial Iskra: A Catástrofe Alemã

A Catástrofe Alemã

A responsabilidade da direção

 

28 de maio, 1933

Leon Trotsky

(Traduzido do inglês, extraído da compilação de escritos de Leon Trotsky entre 1929-33 sobre o fascismo na Alemanha, “The Struggle Against Fascism in Germany”, da editora Pathfinder. Tradução: André Augusto) 

 

 

A época imperialista, pelo menos na Europa, tem sido uma época de reviravoltas agudas, nos quais a política adquiriu um caráter extremamente móvel. A cada giro, o que está em jogo não é apenas uma ou outra reforma parcial, mas o destino do regime. O papel excepcional do partido revolucionário e de sua direção está baseado neste fato. Se, nos bons e velhos tempos em que a Social Democracia crescia regular e ininterruptamente, assim como o capitalismo que a nutria, a direção de Bebel assemelhava-se a um Estado-Maior elaborando tranqüilamente planos para uma guerra num futuro indefinido (uma guerra que talvez nem chegue a dar-se), sob as condições atuais o Comitê Central de um partido revolucionário assemelha-se a um quartel general de um exército em ação. A estratégia do estudo foi substituída pela estratégia do campo de batalha.

A luta contra um inimigo centralizado exige centralização. Treinados num espírito de estrita disciplina, os operários alemães assimilaram esta idéia com um vigor renovado durante a guerra e as convulsões políticas que a acompanharam. Os operários não estão cegos para os defeitos de sua direção, mas nenhum deles enquanto indivíduo é capaz de sacudir as amarras da organização. Os operários como um todo consideram melhor possuir uma direção forte, mesmo que defeituosa, do que caminhar em direções diferentes ou recorrer a atividades “aventureiras”. Nunca antes da história da humanidade um grupo político desempenhou um papel tão importante ou concentrou tanta responsabilidade como na época atual.

A derrota sem paralelo do proletariado alemão é o acontecimento mais importante desde a conquista do poder pelo proletariado russo. A primeira tarefa da manhã após a derrota é analisar a política da direção. Os dirigentes mais responsáveis (que estão, graças aos céus, sãos e salvos) apontam com piedade à base partidária aprisionada, executores de sua política, a fim de suprimir toda a crítica. Nós só podemos abordar esse espúrio argumento sentimental com desprezo. Nossa solidariedade com aqueles os quais Hitler encarcerou é inquebrantável, mas essa solidariedade não se estende a nossa aceitação dos erros cometidos pela direção. As perdas que temos de carregar justificar-se-ão apenas se as idéias dos que foram varridos forem avançadas. A condição preliminar para isso é a crítica corajosa.

Por um mês inteiro nem um só órgão comunista, o Pravda de Moscou incluso, sussurrou uma palavra sobre a catástrofe de 5 de março. Todos eles aguardaram saber o que o presídio do Comitê Executivo da Internacional Comunista iria dizer. Por sua vez, o presídio oscilou entre duas variantes contraditórias: “O Comitê Central alemão deixou-nos perdidos,” e “o Comitê Central alemão perseguiu a política correta”. A primeira variante foi descartada: a preparação da catástrofe acontecera sob os olhos de todos, e a controvérsia com a Oposição de Esquerda que precedeu a catástrofe tinha empenhado muito claramente os dirigentes da Internacional Comunista. Por fim, a 7 de abril, a decisão foi anunciada: “A linha política… do Comitê Central, com Thaelmann1 à testa, estava completamente correta até e durante o golpe de estado de Hitler.” É de se lamentar que todos aqueles que foram despachados para o além pelos fascistas não puderam ouvir essa confirmação consoladora antes de morrer.

A resolução do presídio não tenta analisar a política do Partido Comunista Alemão – o que era de se esperar, acima de tudo – mas é outra indicação na longa série de acusações contra a Social Democracia. Somos advertidos que ela preferiu uma coalizão com a burguesia a uma coalizão com os comunistas; que ela evitou uma luta real contra os fascistas; que ela represou a iniciativa das massas; e como possuía em suas mãos “a direção das organizações operárias de massas,” que ela teve êxito em prevenir uma greve geral. Tudo isso é verdade. Mas nada disso é novo. A Social Democracia, como o partido da reforma social, exauriu a progressividade de sua missão na medida em que o capitalismo se transformava em imperialismo. Durante a guerra a Social Democracia funcionou como um instrumento direto do imperialismo. Depois da guerra, contratou-se oficialmente como o médico familiar do capitalismo. O partido comunista esforçou-se para ser o seu coveiro. De que lado estava todo o curso do desenvolvimento? O estado caótico das relações internacionais, o colapso das ilusões pacifistas, a crise sem paralelo que equivale a uma grande guerra com suas conseqüências epidêmicas – tudo isso, pareceria, revelava o caráter decadente do capitalismo europeu e a incompetência do reformismo.

Então o que aconteceu com o Partido Comunista? Na realidade a Internacional Comunista está ignorando uma de suas próprias seções, mesmo que essa seção tenha organizado alguns seis milhões de votos nas eleições. Isso já não é mais uma mera vanguarda; é um grande exército independente. Por que, então, ele tomou parte nos acontecimentos apenas como vítima da repressão e dos pogroms? Por que, à hora decisiva, provou-se golpeado pela paralisia? Existem circunstâncias sob as quais não se pode recuar sem dar a batalha. Uma derrota pode resultar da superioridade das forças inimigas; após a derrota, pode-se recuperar. A entrega passiva de todas as posições decisivas revela uma incapacidade orgânica para lutar, a qual não passa sem punição.

O presídio nos diz que a política do Partido Comunista estava correta “antes assim como durante o golpe de estado.” Uma política correta, entretanto, começa com uma apreciação correta da situação. Não obstante, durante os últimos quatro anos, de fato até o dia 5 de março de 1933, escutávamos dia após dia que uma poderosa frente anti-fascista crescia ininterruptamente na Alemanha, que o Nacional Socialismo estava recuando e se desintegrando, e que toda a situação se encontrava sob a égide da ofensiva revolucionária. Como uma política poderia estar correta quando toda a análise sobre a qual estava baseada foi derrubada como um castelo de cartas?

O presídio justifica a retirada pacífica pelo fato de que o Partido Comunista, “privado do apoio da maior parte da classe operária,” não podia engajar-se numa luta decisiva sem que estivesse cometendo um crime. Não obstante, a mesma resolução considera o chamado para uma greve política geral, de 20 de julho de 1932, como merecedor de aplauso especial, embora por alguma razão desconhecida negligencie a menção de um chamado idêntico a 5 de março de 1933. Não é a greve geral uma “luta decisiva”? Os dois chamados para a greve correspondiam totalmente às obrigações de um “papel dirigente” na “frente-única anti-fascista” sob as condições de uma “ofensiva revolucionária.” Infelizmente, os chamados de greve caíram em ouvidos surdos; ninguém apareceu para os responder. Mas se, entre a interpretação oficial dos eventos e os chamados para a greve de um lado, e os fatos e as ações de outro, surge uma contradição tão gritante, é difícil entender em que aspecto uma política correta se diferencia de uma política desastrosa. Em todo caso, o presídio esqueceu de explicar qual política estava correta – os dois chamados de greve ou a indiferença dos operários a eles.

Mas talvez a divisão nas fileiras do proletariado tenha sido a causa da derrota? Tal explicação está cunhada especialmente para as mentes preguiçosas. A unidade do proletariado, como uma consigna universal, é um mito. O proletariado não é homogêneo. A ruptura começa com o despertar político do proletariado, e constitui a mecânica de seu crescimento. Apenas sob as condições de uma crise social madura, em que se defronta com a tomada do poder como uma tarefa imediata, pode a vanguarda do proletariado, na condição de estar provida com uma política correta, organizar em torno de si a esmagadora maioria de sua classe. Mas a elevação a esse pico revolucionário é atingida sobre os degraus de rupturas sucessivas. 

Não foi Lênin que inventou a política de frente-única; assim como a ruptura dentro do proletariado, ela é imposta pela dialética da luta de classes. Nenhum sucesso seria possível sem acordos temporários, para o cumprimento das tarefas imediatas, entre várias seções, organizações, e grupos do proletariado. Greves, sindicatos, jornais, eleições parlamentares, atos de rua, exigem na prática que seja construída uma ponte sobre esta ruptura, de tempos em tempos, quando a necessidade surgir; isto é, eles exigem uma frente única ad hoc, mesmo que nem sempre tome a forma de uma. Nos primeiros estágios de um movimento, a unidade surge episódica e espontaneamente desde abaixo, mas quando as massas estão acostumadas a lutar através de suas organizações, a unidade deve também ser estabelecida desde acima. Sob as condições existentes nos países capitalistas avançados, a consigna de “apenas desde abaixo” constitui um anacronismo grosseiro, alimentado pelas memórias dos primeiros estágios do movimento revolucionário, especialmente na Rússia czarista.

Num determinado nível, a luta pela unidade na ação é transformada de um fato elementar a uma tarefa tática. A simples fórmula de uma frente-única não resolve nada. Não são apenas os comunistas que apelam para a unidade, mas também os reformistas, e até os fascistas. A aplicação tática da frente-única está subordinada, em cada período dado, a uma concepção estratégica definida. Na preparação da unificação revolucionária dos trabalhadores, sem e contra os reformistas, uma experiência longa, persistente e paciente na aplicação da frente-única com os reformistas é necessária; sempre, é claro, partindo do ponto de vista do objetivo revolucionário final. Foi precisamente neste campo que Lênin nos deu exemplos incomparáveis.

A concepção estratégica da Internacional Comunista era falsa do início ao fim. O ponto de partida do Partido Comunista Alemão não há nada senão uma mera divisão do trabalho entre a Social Democracia e o fascismo; de que seus interesses são similares, se não idênticos. Ao invés de auxiliar o agravamento da discórdia entre o principal adversário político do comunismo e seu inimigo mortal – para o qual teria sido suficiente proclamar a verdade em voz alta e não violá-la – a Internacional Comunista convenceu os reformistas e os fascistas de que eram gêmeos; predisse sua conciliação, amargurou e se tornou repulsiva aos operários social-democratas, além de consolidar as posições de seus dirigentes reformistas. Pior ainda: em todos os casos em que, a despeito dos obstáculos apresentados pela direção, comitês de unidade local para a defesa operária eram criados, a burocracia forçava os seus representantes a se retirarem deles sob ameaça de expulsão. Revelou persistência e perseverança apenas na sabotagem da frente-única, desde acima assim como desde abaixo. Fez tudo isso, para ser preciso, com a melhor das intenções.

Nenhuma política da Internacional Comunista poderia, é claro, ter transformado a Social Democracia num partido da revolução. Mas nem era esse o objetivo. Era necessário explorar até o limite as contradições entre o reformismo e o fascismo – a fim de se enfraquecer o fascismo, ao tempo em que se enfraquecia o reformismo, expondo aos operários a incapacidade da direção social-democrata. Essas duas tarefas fundiam-se naturalmente em uma só. A política da burocracia da Comintern levou ao resultado oposto: a capitulação dos reformistas serviu aos interesses do fascismo e não aos do comunismo; os operários social-democratas permaneceram com seus dirigentes; os operários comunistas perderam a fé em si mesmos e em sua direção.

As massas queriam lutar, mas foram obstinadamente impedidas de fazê-lo pela direção. Tensão, inquietação, e finalmente a desorientação rompeu o proletariado por dentro. É perigoso manter metal derretido por muito tempo no fogo; é ainda mais perigoso manter a sociedade por muito tempo num estado de crise revolucionária. A pequena-burguesia voltou-se em sua esmagadora maioria para o lado do Nacional Socialismo apenas porque o proletariado, paralisado desde acima, provou-se impotente para conduzi-la por um caminho diferente. A ausência de resistência da parte dos trabalhadores elevou a autoconfiança do fascismo e diminuiu o temor da grande burguesia, defrontada pelo risco de guerra civil. A desmoralização inevitável do destacamento comunista, crescentemente isolado do proletariado, tornou impossível até mesmo uma resistência parcial. Assim fora assegurada a procissão triunfal de Hitler sobre os ossos das organizações proletárias.

A falsa concepção estratégica da Internacional Comunista colidia com a realidade a cada estágio, conduzindo assim a um curso incompreensível e inexplicável de ziguezagues. O princípio fundamental da Internacional Comunista era: uma frente-única com os dirigentes reformistas não pode ser permitida! Então, à hora mais crítica, o Comitê Central do Partido Comunista Alemão, sem explicação ou preparação, apelou aos dirigentes da Social Democracia, propondo a frente-única como um ultimato: hoje ou nunca! Tanto operários como dirigentes no campo reformista interpretaram esse passo, não como produto do medo, mas, pelo contrário, como uma armadilha diabólica. Após o fracasso inevitável de uma tentativa de compromisso, a Internacional Comunista ordenou que o apelo fosse ignorado e que a própria idéia de uma frente-única fosse proclamada mais uma vez como contra-revolucionária. Tamanho insulto à consciência política das massas não podia passar incólume. Se até 5 de março se podia, com alguma dificuldade, ainda imaginar que a Internacional Comunista, amedrontada por seu inimigo, poderia possivelmente recorrer à Social Democracia, no último momento, sob o porrete do inimigo – então o apelo do presídio a 5 de março propondo ação conjunta aos partidos social-democratas do mundo inteiro, independentemente das condições internas de cada país, tornou impossível até mesmo essa explicação. Nesta proposta mundial e atrasada de frente-única, quando a Alemanha fora revelada pelas chamas do incêndio do Reichstag, não havia mais nem sequer uma palavra sobre o social-fascismo. A Internacional Comunista estava até mesmo preparada – é difícil acreditar nisso, mas estava impresso em preto e branco! – a abster-se de criticar a Social Democracia durante todo o período da luta conjunta.

As ondas dessa capitulação, tomada de pânico, ao reformismo, mal tiveram tempo de acalmar-se quando Wels jurou fidelidade a Hitler, e Leipart2 ofereceu sua assistência e apoio ao fascismo. “Os comunistas,” declarou imediatamente o presídio da Internacional Comunista, “estavam corretos em chamar os social-democratas de social-fascistas.” Esta gente está sempre certa. Então, por que eles mesmos abandonaram a teoria do social-fascismo alguns dias antes dessa confirmação inequívoca disso? Por sorte, ninguém ousa colocar perguntas tão embaraçosas aos líderes. Mas as desventuras não param aí: a burocracia pensa muito vagarosamente para manter o passo com o ritmo presente dos acontecimentos. Mal havia o presídio caído de volta sobre a famosa revelação: “o fascismo e a Social Democracia são gêmeos,” e Hitler concluía a completa destruição dos Sindicatos Livres e, acidentalmente, encarcerava Leipart & Co. As relações entre os irmãos gêmeos não são inteiramente fraternas.

Ao invés de tomar o reformismo como uma realidade histórica, com seus interesses e suas contradições, com todas as suas oscilações à direita e à esquerda, a burocracia opera com modelos mecânicos. A disposição de Leipart de ficar de quatro após a derrota, é oferecida como argumento contra a frente-única antes da derrota e com o propósito de evitar a derrota. Como se a política de travar acordos de combate com os reformistas estivesse baseada no valor dos dirigentes reformistas e não na incompatibilidade entre os órgãos da democracia proletária e as bandas fascistas.

Em agosto de 1932, quando a Alemanha estava ainda regida pelo “general social” Schleicher3, que supostamente asseguraria a união entre Hitler e Wels, anunciada pela Internacional Comunista, escrevi: “Todos os sinais apontam para a ruptura do triângulo Wels-Schleicher-Hitler antes mesmo de que comece a tomar forma.”

“Mas talvez ele será substituído por uma combinação Hitler-Wels?… Assumamos que a Social-Democracia, sem temer os seus próprios operários, de fato aceitasse vender sua tolerância a Hitler. Hitler, no entanto, não precisa dessa mercadoria: não precisa da tolerância mas sim da abolição da Social-Democracia. O governo de Hitler só pode cumprir sua tarefa quebrando a resistência do proletariado e removendo todos os possíveis órgãos dessa resistência. Precisamente aí reside o papel histórico do fascismo.”

O fato de que os reformistas, após a derrota, estariam felizes se Hitler lhes permitisse vegetar na legalidade até a chegada de melhores tempos, não pode ser duvidado. Mas infelizmente para eles, Hitler – a experiência da Itália não passou em vão para ele – bem entende que as organizações operárias, mesmo que seus dirigentes aceitem a mordaça, converteriam-se inevitavelmente num perigo ameaçador na primeira crise política.

O doutor Ley4, cabo militar da atual “frente operária”, determinou, com uma lógica muito maior do que o presídio da Internacional Comunista, a relação entre os pretensos gêmeos. “O marxismo está-se fingindo de morto,” ele disse a 2 de maio, “a fim de erguer-se novamente numa oportunidade mais favorável…. A esperta raposa não nos engana! É melhor para nós que lhe apliquemos o golpe final ao invés de tolerá-lo até que se recupere. Os Leiparts e os Grassmanns5 podem afetar toda sorte de devoção a Hitler – mas é melhor mantê-los sob celas trancafiadas. É por isso que estamos arrebatando das mãos da escória marxista sua arma principal [os sindicatos] e através disso privando-os da última possibilidade de armarem-se novamente.” Se a burocracia da Internacional Comunista não fosse tão infalível e se desse ouvidos à crítica, não teria cometido erros adicionais entre 22 de março, quando Leipart jurou fidelidade a Hitler, e 2 de maio, quando Hitler, a despeito da promessa, encarcerou-o.

Essencialmente, a teoria do “social-fascismo” poderia ter sido refutada mesmo se os fascistas não tivessem feito um trabalho tão completo de debruçarem-se forçosamente sobre os sindicatos. Mesmo se Hitler tivesse achado necessário, como resultado da correlação de forças, deixar Leipart temporária e nominalmente à testa dos sindicatos, o acordo não teria eliminado a incompatibilidade dos interesses fundamentais. Mesmo que tolerados pelo fascismo, os reformistas lembrariam os luxos recebidos da democracia de Weimar e isso, exclusivamente, faria deles inimigos ocultos. Como se pode escapar da percepção de que os interesses da Social-Democracia e os do fascismo são incompatíveis quando mesmo a existência independente da Stahlheim é impossível no Terceiro Reich? Mussolini tolerou a Social-Democracia e até mesmo o Partido Comunista por algum tempo, apenas para destruí-los sem misericórdia tempo depois. O voto dos deputados social-democratas no Reichstag em apoio à política externa de Hitler, cobrindo este partido com mais uma fresca desonra, não melhorará seu destino nem em uma polegada.

Como uma das principais causas da vitória do fascismo, os desafortunados dirigentes se referem – em segredo, para ser mais preciso – ao “gênio” de Hitler, que previu tudo e não negligenciou nada. Seria infrutífero submeter agora a política fascista a uma crítica retrospectiva. É necessário apenas lembrar que Hitler, durante o verão do ano passado, permitiu que o alto pico da maré fascista escapasse dele. Mas mesmo essa perda grosseira de ritmo – um erro colossal – não teve resultados fatais. O incêndio do Reichstag realizado por Göering6, mesmo que esse ato de provocação fosse rusticamente realizado, conseguiu, entretanto, levantar os resultados necessários. O mesmo deve ser dito da política fascista como um todo, pois conduziu à vitória. Não se pode, infelizmente, negar a superioridade da direção fascista em relação à direção proletária. Mas é apenas por ocasião de uma modéstia inapropriada que os chefes vencidos mantêm o silêncio sobre seu papel na vitória de Hitler. Há o jogo de xadrez e há também o jogo de “os perdedores vencem”. O jogo que foi jogado na Alemanha tem essa característica singular, que Hitler jogou xadrez e seus oponentes jogaram para perder. Quanto a um “gênio” político, Hitler não tem necessidade disso. A estratégia do seu inimigo compensou largamente qualquer coisa que faltasse em sua própria estratégia.

 


1    Ernst Thaelmann (1886-1944): foi eleito para o Comitê Executivo da Internacional Comunista em 1924; um fiel stalinista, tornou-se dirigente indisputado do Partido Comunista Alemão depois da expulsão de Maslow-Fischer-Urbahns, liderando a fração parlamentar e concorrendo para presidente contra Hindenburg e Hitler em 1932. Preso pelos nazistas em 1933, morreu num campo de concentração.

2    Theodor Leipart (1867-1947): sindicalista alemão conservador e organizador da poderosa agremiação dos Sindicatos Livres (assim chamada para distingui-la das outras velhas companhias sindicais), dominados pelo Partido Social-Democrata Alemão, que se tornou a Federação Geral dos Sindicatos Alemães (Allgemeiner Deutscher Gewerkschaftsbund). Otto Wels (1873-1939): membro dirigente da Social-Democracia. Como comandante militar de Berlim, esmagou a insurreição espartaquista sob ordens de Gustav Noske, ministro da Defesa social-democrata, mandante do assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Substituíu Friedrich Ebert, dirigente junto a Philipp Scheidemann da ala direita da Social-Democracia, como co-presidente do executivo do SPD, encarregado do aparato partidário, posto que ocupou até 1933.

3    Kurt von Schleicher (1882-1934): general da Reichswehr, que havia se tornado o maior elo de ligação entre o exército e o governo, e que era considerado “o poder atrás do trono” nos governos bonapartistas de Bruening e Papen. Serviu como ministro da Defesa no governo Papen, e foi nomeado chanceler por Hindenburg a 2 de dezembro de 1932. Foi assassinado a 30 de junho de 1934, durante um expurgo nazista.

4    Robert Ley (1890-1945): comandante de área nazista, alocado em Colônia, era o “dirigente operário” de Hitler, cabeça dos “sindicatos” sob os nazistas.

5    Peter Grasmann se encontrava no posto logo abaixo de Leipart, seu segundo homem, nos Sindicatos Livres.

6    O incêndio do Reichstag (parlamento) foi impulsionado pelos nazistas a 27 de fevereiro de 1933. No dia seguinte, Hindenburg assinou um decreto suspendendo as seções da Constituição que garantiam a liberdade de expressão, de assembléia, de imprensa, de associação, e de outras liberdades civis. Milhares de oficiais do Partido Comunista Alemão e do Partido Social-Democrata Alemão foram presos. Eles então encarceraram M. Van der Lubbe (um elemento holandês que havia pertencido a uma organização comunista na Holanda), Ernst Torgler (testa da fração do Partido Comunista Alemão no Reichstag), e Georgi Dimitrov (dirigente do Partido Comunista Búlgaro). Reivindicando que o incêndio era o sinal de uma insurreição comunista incipiente, os nazistas usaram essa provocação para consolidar finalmente seu poder. Após o incidente, os nazistas, que não permitiram senão que eles mesmos fizessem campanha eleitoral para o pleito de 1933 durante a última semana antes, receberam mais de 17 milhões de votos, 43.5% do total.

Anúncios
Categorias:Sem categoria
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: