Início > Sem categoria > Especial Iskra: Introdução a “A Catástrofe Alemã”, de Leon Trotsky

Especial Iskra: Introdução a “A Catástrofe Alemã”, de Leon Trotsky

André Augusto

 

Nenhuma classe dirigente habita num vácuo; ela se ergue em relações definidas com outras classes. Todo regime político, numa sociedade em que subsiste a propriedade privada dos meios de produção e a acumulação privada dos meios de subsistência dos homens, possui suas bases nessas relações de classe específicas, apoiando-se na posição prevalente de uma classe dirigente que visa a manutenção de seus privilégios no domínio tirânico das relações econômicas. Neste caso, deve-se constatar que um regime democrático, uma democracia, não fica suspensa no espaço: na moderna sociedade burguesa, ainda mais incisivamente numa época histórica produto recente da conversão do capitalismo em imperialismo, a democracia também está com os pés cravados no regime ditatorial de uma das duas classes fundamentais da sociedade industrial: ou ela é democracia burguesa ou democracia proletária. Não há uma democracia “pura”, sem classes.

Leon Trotsky nos legou a lição, enraizada profundamente em leis dialéticas finamente descobertas pelo marxismo, de que a contradição entre a democracia e o fascismo existe, definitivamente. E existe dentro dos marcos de disputas inter-imperialistas entre estados burgueses em estágios desiguais de decadência do sistema capitalista. Essa contradição não é para nada “absoluta”, ou, colocando na linguagem do marxismo, não denota para nada o domínio de duas classes irreconciliáveis. Mas denota sistemas diferentes do domínio de uma só e mesma classe. Esses dois sistemas: um, democrático-parlamentar, o outro, fascista, derivam seu apoio de combinações diferentes das classes oprimidas e exploradas. Para a burguesia monopolista, os regimes parlamentar e fascista representam apenas veículos diferentes de sujeição; pode lançar mão de um ou de outro, dependendo das condições históricas.

Com a guerra de classes explodindo no terreno da história após uma profunda depressão econômica jamais vista que se convertera numa crise que colocava em xeque a própria dominação de classe no capitalismo, mais agudamente desenvolta na década de 1930, o palco concentrado dessa batalha se dava na Alemanha. O Partido Comunista Alemão, em consonância com o tempo histórico inédito, segurava nas mãos uma responsabilidade histórica inédita para o proletariado mais poderoso do mundo. O partido comunista crescia, mas por causa da pressão dos acontecimentos, e não graças à política da direção. Pelo contrário, com uma política imposta pelo cabresto pelo Comitê Executivo da Internacional Comunista, já em bancarrota pelo stalinismo, política eclética, vacilante e sem princípios, a direção do Partido Comunista jogava fora as maiores oportunidades para travar acordos práticos para a ação com os dirigentes reformistas da Social-Democracia, lançava os operários social-democratas nos braços de seus dirigentes que apenas queriam restaurar a “boa saúde” do capitalismo europeu, fazia com que os operários comunistas perdessem a confiança em suas próprias forças, e atuava como entrave primordial às tentativas de auto-organização das massas para sua auto-defesa diante do banditismo fascista. Em outras palavras, como único partido com responsabilidade de partido revolucionário numa época de crise revolucionária, o Partido Comunista Alemão, sob a mordaça traidora e assassina de Stalin, represava a inciativa combativa das massas alemãs, e passava a iniciativa ao inimigo mortal do proletariado.

Para atuar sobre algo, é preciso conhecer bem sua natureza e saber o que fazer com ela; para modificar algo, é preciso saber bem quais são seus pontos mais suscetíveis, menos guarnecidos, para saber onde golpear e como golpear. O fenômeno social do fascismo surge, junto com seu movimento de massas, do colapso do capitalismo enquanto sistema social, sob o peso de suas incontroláveis contradições acumuladas. O fascismo constitui a forma exasperada da dominação capitalista, a qual a burguesia não pode deixar de recorrer em épocas de crise social geral; e somente se pode terminar com o fascismo fazendo fracassar a violência anti-operária através da violência organizada do proletariado; opondo ao programa da contra-revolução fascista o programa da tomada do poder pelo proletariado.

Os traços particulares do fascismo que surgem da mobilização da pequena-burguesia desorientada contra o proletariado, sua natureza específica comparada com outros tipos de reação capitalista, devem determinar aos marxistas revolucionários as maneiras específicas de aplicar os golpes certeiros contra ela.

Para Trotsky, a dialética da ação revolucionária, neste caso especial, estava dada: correlacionando a luta pelo poder com a luta pelas reformas; mantendo a completa independência do partido enquanto se preserva a unidade nos sindicatos; lutando contra o regime burguês e ao mesmo tempo utilizando suas instituições; criticando implacavelmente o parlamentarismo e a impotência da democracia burguesa – do tribunal parlamentar. Por fim, travando uma guerra sem misericórdia contra o reformismo, e ao mesmo tempo travando acordos práticos com esse mesmo reformismo nas lutas parciais.

Nós da LER-QI, pertencentes à Fração Trotskista – Quarta Internacional, reivindicamos a atualidade da herança teórico-programática político-prática do revolucionário russo Leon Trotsky, assim como a vitalidade de sua luta incansável contra a burocracia stalinista na Oposição de Esquerda Internacional, base organizativa da construção da Quarta Internacional em 1938. E no tratamento de questões tão importantes como o fascismo, não substituímos o processo histórico por uma careca abstração sociológica. Não se trata apenas de palavras, mas de ações. Nossos esforços teóricos e analíticos se voltam para a preparação concreta em relação a problemas tão reais quanto a incapacidade das classes capitalistas, num momento de crise social madura, conterem a fúria e os anseios revolucionários das massas trabalhadoras com os aparatos policiais e militares “normais” da repressão “democrática” da burguesia, e da necessidade de trazer consigo as bandas enfurecidas da pequena-burguesia pauperizada.

Num contexto de crise econômica mundial em curso, avassalando as principais economias imperialistas européias nos dias de hoje, essa alternativa não está descartada para os capitalistas, por mais que desejem despejar os produtos da crise sobre as costas dos trabalhadores e da população pobre do mundo inteiro, sem os riscos de um guerra civil. Como afirmava Trotsky, “não somos historiadores, mas políticos revolucionários. Nossa tarefa não é apenas conduzir pesquisas históricas, mas encontrar a saída para os problemas candentes.” E a nossa saída é o poder dos trabalhadores baseado em conselhos operários, camponeses e do povo pobre; nosso método, a revolução proletária, a fim de acabar com as misérias escabrosas da sociedade burguesa. Nessa perspectiva, batalhamos pela atuação independente da classe operária em relação a qualquer verdugo da burguesia, não apoiando nenhuma de suas frações ou coligações – amplamente utilizadas para explorar melhor as camadas oprimidas – mas confiando em suas próprias forças, no sentido da reconstrução do partido mundial da revolução, a Quarta Internacional.

 

Anúncios
Categorias:Sem categoria
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: