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Nada é neutro, nem mesmo a brancura da pirâmide branca do Arquivo Edgard Leuenroth…

Por Mário Martins (extraído do blog Jornal do Porão: jornaldoporao.wordpress.com)

 

Se for olhada pelos olhos de uma extenuada trabalhadora terceirizada.

 terceirização, do Coletivo Miséria

Nunca limpou um chão quem mandou fazer um chão de granito clarinho num prédio situado num ermo, cheio de terra, pó, barro, folhas. Mas quem foi que mandou fazer este prédio para torturar trabalhadoras terceirizadas? Esta dolorida trabalhadora terceirizada é obrigada a ficar de quatro para esfregar sujeirinhas no chão e escadas e, pasmem, limpar portas, batentes e paredes, para deixar tudo branquinho como um manicômio ou como a sala de entrada de algum hospital de rico ou da entrada de algum céu imaginário. Porque raios não pintaram isso de outra cor? Porque diabos não repintam? Porque têm que ficar explorando, machucando e humilhando trabalhadoras? Mas quem foi que decidiu fazer um inferno pintado de branquinho para parecer a entrada de um ceuzinho? Ou é uma pessoa cínica ou brincalhona? Ou quem sabe é apenas uma pessoa que naturalizou tanto a exploração da sua empregada doméstica que quer transformar a Unicamp, e aqui o AEL, numa casa grande escravagista.

Numa reunião com todos os funcionários alguém falou, com toda sua autoridade professoral, que é “assim mesmo”. Não tem o que se possa fazer. E tem que ficar de quatro mesmo, se é necessário. Estas palavras tão violentas foram faladas num tom blasé do burocrata pertinaz. Eu fiquei desconcertado diante de tal naturalidade de senhor de engenho. Será que o leitor adivinhará quem poderia falar assim como senhor de escravo? Tenho certeza que você não conseguirá. E tive medo de retrucar e fazer mais uma batalha desigual. Mas ali mesmo já tinha decidido contar esta história aqui no jornaldoporao, esperando que meu leitor seja de outra estirpe.

Você não vai acreditar ou nem vai se importar com informações tão comezinhas. A firma limpadora dá um paninho de 40 X 60 que não pára no rodo e a trabalhador tem que abaixar toda hora para ajeitar o pano no rodo. Pior, o pano não para porque o granito é liso demais. Informação boba, não. Mas não para a coluna desta trabalhadora que já é uma espécie de ovo saltado.

Depois do almoço as trabalhadoras terceirizadas que não têm onde ficar e descansar ficam deitadas em papelões ou em marquises de ponto de ônibus. A elite intelectual da Unicamp acha isto tudo muito natural, muito necessário, para que seu mundo continue o mesmo, que suas regalias, núcleos, centros e fundações continuem os fluxos de dinheiro e prestígios.

Isso tem alguma importância para você? Se os trabalhadores terceirizados do mundo inteiro passam por coisas iguais ou pior? Por que ficar falando do AEL e da Unicamp? Por que não aceitar o que a maioria aceita e ficar quietinho cuidando da própria vida? Há colegas que calam em busca de um promoçãozinha. E dá certo, eles conseguem. Outros ficam coladinhos no chefe, trazem bolos de aniversário e dá tudo certo, eles se sentem afagados e cheios de si. Agora ficou bem claro que as trabalhadoras terceirizadas podem também participar de qualquer dos nossos ambientes. E com muita timidez, é claro, elas também ficarão contentes. Mesmo porque elas também acham de não tem jeito, que são e serão escravizadas de qualquer jeito. Mas que marxismo me permite aceitar isso?

Mas quase desisti de contar estas historinhas insípidas, normais, cotidianas. Todo mundo sabe que assim. Há pessoas que viram e sofreram coisas piores. No corte de cana de Ribeirão Preto, em um único ano, morreram 13 trabalhadores de exaustão. Aqui na Unicamp os marxistas acadêmicos, os revolucionários de blazer, vão lhe mostrar que as trabalhadoras terceirizadas, (aqui na UNICAMP!), são mais bem tratadas que na USP. Que nas indústrias os trabalhadores terceirizados são mais explorados ainda, tendo que pagar ônibus. Onde os capazes quase têm direito sobre a vida ou a morte. Os marxistas de cabelos enxampuados também vão lhe dizer que na China é muito pior. Vão demonstrar que o problema está no sindicalismo pelego e patronal. Vão tentar demonstrar que a terceirização é inevitável. Que o Brasil e a Unicamp precisam explorar as trabalhadoras e trabalhadores terceirizados para desenvolver a ciência, coisa fundamental para o país, que o Brasil precisa de empresas terceirizadas para poder competir no mercado mundial de mercadorias. Bláblábláblá. Os marxistas de colarinho branco são realmente sábios e realistas!!!. Mas será porque então que eu leio Marx, Lênin e Trotski e fico cada vez mais revoltado?

Mas quase desisto de contar esta historinha banal e insípida quando me lembro que toda a classe média estudantil, todo mundo que chega ao Arquivo Edgard Leuenroth fica extasiado diante da brancura da pirâmide branca do AEL. Todo mundo fica maravilhado com as 30(trinta lâmpadas) que ilumina a sala branquinha da entrada, como se fossem mariposas.

Será que a trabalhadora terceirizada que hoje se arrebenta para manter esta brancura monumental também ficou petrificada com tal beleza?

Brancura da pirâmide branca do AEL
Assim como os judeus, a caminho do forno crematório, achavam que estavam indo para um banho em banheiros limpinhos. Num átimo e já estertorando, num lampejo de consciência envergonhada, viam que em vez de água do chuveiro saia gás letal. Mas todo mundo sabe que aqui ninguém morre. Elas podem até comer junto com a gente. E se adoecerem da coluna ou de qualquer outra coisa, todos os trabalhadores adoecem, sofrem e morrem. E se os trabalhadores terceirizados trabalharem bastante vão até aliviar o meu lado e trabalharemos menos e receberemos um salário 6 ou 7 vezes maior que eles. Como vêm nós não somos injustiçados. E temos que agradecer aos trabalhadores terceirizados por nos livrar nos trabalhos mais pesados.

 Contra a terceirização

E eu continuarei defendendo, contra os burocratas, contra os privilegiados, contra os donos de escravos, na escravidão moderna chamada terceirização, que estes trabalhadores têm que ser incorporados imediatamente aos quadros do funcionalismo.

terceirização coletivo Miséria 006

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

A luta no país inteiro e no mundo inteiro, de todos os sindicatos não traidores, de todos os partidos não traidores (como o PT é), todos os revolucionários, para serem dignos deste nome, terão que lutar pela efetivação imediata dos trabalhadores terceirizados e lutar, à morte, contra toda e qualquer terceirização. Sabemos que será uma luta violenta, pois o capitalismo hoje, para tentar amenizar a crise, terceiriza, escraviza e humilha.

DUAS NOTÍCIAS DO DIA SEGUINTE

A trabalhadora terceirizada está esfregando a brancura sozinha e gemendo de dores na coluna.

E hoje às 10 horas haverá manifestação no escritório da empresa terceirizada Centro que demitiu uma trabalhadora porque ela assistiu a um ato de protesto em frente ao restaurante, semana passada. E outras foram advertidas.

Na Assembléia de ontem o STU, o sindicato, depois de muita insistência, se comprometeu a acompanhar as manifestações.

 

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Categorias:Sem categoria
  1. Wagner Bezerra
    10/06/2010 às 3:01 pm

    Bom dia.

    Gostei do blog de vcs. Por favor me informem o e-mail de contato. Tenho algumas dúvidas sobre socialismo e queria saber se podem me ajudar.

    Obrigado.

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