Início > Sem categoria > A reforma da USP é um alerta às estaduais paulistas de conjunto!

A reforma da USP é um alerta às estaduais paulistas de conjunto!

Por André Augusto

“E assim cubro minha nua vilania

com velhas intenções escusas, roubadas às santas escrituras;

E pareço um santo, quando mais desempenho o diabo”

Dessa maneira é que o REI-tor interventor da USP, João Grandino Rodas, que agora prova-se como o REI-tor da lei marcial com a atual escalada repressiva “legalmente” instituída contra os trabalhadores, ativistas e os estudantes combatentes do primeiro semestre na USP, com processos judiciais e administrativos e inquéritos policiais, concebe o mundo pelo seu inverso. A cartilha imposta das reformas curriculares na Universidade de São Paulo, a única promessa verdadeira entre todas as promessas de Rodas, é o prefácio necessário para as reformas curriculares a nível estadual, e revelam finalmente em toda a sua glória, até ao simplório mais crédulo, o projeto de universidade orientado para a construção de “áreas de excelência”, despido dos últimos traços de hipócritas lantejoulas “democráticas”.

As tentativas iniciais de José Serra, desde 2007, em implementar o conjunto de seus ataques à educação, em especial na USP, foram o motor para que o PSDB se relocalizasse, dando a Rodas a tarefa fundamental de “pacificá-la” em 2010. Segundo mais votado na lista de indicados pela monárquica eleição para reitor na USP, Rodas foi diretamente imposto por Serra. Para anestesiar as principais colunas de defesa da educação pública, que reivindicam a democratização radical do ensino superior de qualidade para todos, com o fim do vestibular e a estatização do ensino privado, começando pelos grandes monopólios, o orador Rodas ofereceu em comprimento o que lhe faltava em conteúdo: um pretenso “diálogo de paz social”, tentando amordaçar o Sindicato dos Trabalhadores da USP para que não se erguessem enquanto o veneno privatista era injetado.

Não é possível compreender essa ofensiva repressiva se não partimos de que durante os recentes anos foram diversas as tentativas de avanços privatistas na universidade, que vieram elaborados nas tratativas unificadas pelo CRUESP e o reitorado da USP, UNESP e UNICAMP, aproveitando-se dos diferentes poros específicos de cada instituição para passar com mais volume ao menos alguns elementos que favorecem o projeto privatista de universidade. Desde os Decretos de Serra em 2007; a UNIVESP como plano de remoção de vagas presenciais para a totalidade dos cursos e formação de mão-de-obra ultra-precarizada; a quebra da isonomia salarial entre docentes e não-docentes nas três estaduais paulistas; o derramamento extraordinário da terceirização do trabalho, principalmente na UNICAMP, em que metade da força laboral é terceirizada (por volta de 6000 trabalhadores); o aumento das Fundações e Centros de Pesquisa atrelados à captação de recursos externos; a privatização do Hospital Universitário da USP (e autarquização de outros); até a famigerada idéia de introdução de capital privado através do “regime de mecenato”; as sindicâncias abertas contra os estudantes que se colocam juntamente com os trabalhadores, ora indiciados como criminosos contra “a ordem do trabalho”, como escudo aos projetos petistas e serristas de destruição do ensino superior público; também o próprio ataque a organização dos trabalhadores combativos, especialmente o Sindicato de Trabalhadores da USP; a depredação das estruturas físicas da universidade notavelmente nos campi da Unesp; e a rotatividade de postos de trabalho e precarização nos contratos laborais infectam de maneira generalizada todas as unidades das universidades estaduais paulistas.

As intenções paternalistas do CRUESP, que tem seu epicentro na USP, acerca das reformas universitárias, junto com as respectivas camarilhas cúmplices da burocracia acadêmica oligárquica da USP, UNESP e UNICAMP, performam nos limites estaduais o que o governo de Lula e do PT fez erodir em âmbito federal, governo que deixou a estrutura das universidades federais em estado de decomposição, precarizou e arruinou os contratos trabalhistas, aplicou o ProUNI, que extorque dinheiro público e o desvia ao âmbito privado, isentando as universidades privadas de uma série de impostos em troca de algumas vagas semi-pagas, além do REUNI, que se trata de uma expansão desavergonhadamente desfinanciada, sem qualquer preocupação orçamentária, para formação técnica.

Feita essa breve abordagem histórica das origens das recentes reformas que vieram no sentido de aprofundar o projeto privatista do CRUESP, em cada uma de suas determinações, nas estaduais paulistas, vejamos o seu conteúdo.

Por determinação do Conselho Universitário, a USP irá reavaliar todos os seus cursos de graduação, com objetivo de reformular o projeto pedagógico da instituição, alegadamente “criar novas disciplinas, abrir novos cursos e evitar as altas taxas de evasão.” Mas o ditado é verdadeiro: a embarcação vazia faz estrépitos maiores quando racha. No documento enviado pelo CONSU, há também o projeto apresentado pelos diretores de “fechar os cursos de baixa demanda ou de baixo impacto social, bem como os que não atendem às necessidades do mercado ou foram superados pelo avanço da tecnologia. A manutenção de alguns cursos noturnos também será discutida.” Nas palavras da burocracia acadêmica da USP, o aprofundamento da privatização e da elitização da universidade converteu-se em “fazer uma pausa na expansão de vagas para discutir as diretrizes de um novo ciclo de crescimento”; o ataque aos cursos que não são diretamente “operacionais”, como praticamente todos os âmbitos das ciências humanas, História, Ciências Sociais, Pedagogia, Letras, a ameaça de demissões sumárias e fechamento de prédios inteiros se torna “a eventual extinção de cursos de baixa demanda, que não atendem às necessidades do mercado ou que foram superados pela tecnologia.” Esta é a tradução oficialista acerca da “confusão de termos” que Rodas, em cujos exercícios estilísticos predomina a mais abundante falta de conhecimento gramatical, demonstrava no início de sua gestão ao remarcar que “o paradigma público/privado está muito engessado; é necessário redefinir o que é uma instituição pública”.

Para vender ainda mais a USP à pirataria do capital privado na universidade, o Conselho Universitário deixou a cargo de cada uma das 41 unidades da USP a “liberdade” de escolher quais os cursos que serão fechados e quais deles sofrerão “modificações profundas.” Às unidades que não compreenderem bem os ritmos em que a REItoria quer que desfrutem dessa “liberdade”, o CONSU fará o favor de induzi-los a sentirem-se “livres” desde logo: para compelir às mudanças ainda nesse segundo semestre, em que os estudantes se desmobilizam num grau ainda maior, a REItoria reduzirá as verbas dos projetos das unidades que não seguirem as diretrizes aprovadas no Conselho.

Montesquieu LXXI“No bom sentido, o objetivo é colocar emulação, incentivo e concorrência dentro da USP,” diz Rodas, e isso valerá tanto aos abocanhadores capitalistas que se beneficiam do dinheiro público, quanto às unidades da USP para disputarem uma corrida de subordinação em relação à REItoria em busca de recursos suplementares para as faculdades.

Algumas conseqüências são já evidentes. O aprofundamento dos Decretos de Serra de 2007: a REItoria assume agora o papel que a Secretaria de Ensino Superior não conseguiu assumir até o fim em 2007, uma vez que ela controlará os recursos públicos e os distribuirá às unidades que melhor se adequarem “à sociedade”, isto é, às empresas de tecnologia e do ramo alimentício, aos barões do agronegócio, e a qualquer sopro de iniciativa privada; quanto aos trabalhadores, em maior medida aos funcionários terceirizados da USP, o horizonte é de massivas demissões com o fechamento de cursos e, para os que restarem, a redução salarial e dos direitos trabalhistas baseado na diminuição da jornada de trabalho com a desativação de certos setores da estrutura física da universidade. Para o estudantado, mais agudamente para os estudantes dos cursos noturnos, cujo critério de fechamento não é nem de longe próximo ao critério da “superação pela tecnologia”, estudantes que provêm diretamente das camadas trabalhadoras mais pauperizadas, o que está colocado é a perda da vaga dentro da universidade, nenhuma perspectiva de políticas de permanência estudantil, depredação das instalações das moradias e, no melhor dos casos, uma realocação em salas de aula super-lotadas fruto da mescla de vários cursos em um curso só.

A resolução do problema da ultra-especialização dos cursos de graduação está sendo abordado pelo extremo inverso, pelo amálgama insensato de diversos cursos de acordo com o paladar capitalista, naturalmente desligado de qualquer ampliação do orçamento da universidade.   Isso se vincula à importação do modelo europeu para a educação, com alguns setores da burocracia acadêmica, da Poli por exemplo, de reivindicar o conteúdo contido no chamado “Plano Bolonha”, subvencionado pelo Banco Mundial, que tem o intuito de transformar cursos em cursões voltados para a formação básica de mão-de-obra para o empresariado. No intuito de manter ainda alguns pólos de excelência – termo que a burguesia utiliza referindo-se à eliminação das camadas pobres da população dessas vitrines da “ciência” nacional no exterior – o CRUESP combina a construção desses centros com a sucção progressiva do que há ainda de útil nas universidades para a população, como instalações de informática, bibliotecas, arquivos documentais e cinematográficos, etc. O reitorado não tem nenhum pudor em compactuar com essa prostituição do ensino público. No caso da USP, querem que seu objetivo genético seja retomado e preservado em seus termos estritos: formar os quadros (intelectuais orgânicos) da burguesia paulista (e, digamos, nacional).

A diversidade de cursos e de faculdades, para Rodas, “está mostrando que não é um bom investimento para a universidade.” O que devemos bradar à comunidade universitária e à sociedade é que o investimento mais improdutivo que há reside na manutenção dos altíssimos cargos desses mentirosos bandidos liberais da oligarquia uspiana, que mantêm afastada das decisões dessa universidade financiada com dinheiro público toda a população.

Ato contra Rodas na Frente do Largo São Francisco

A reforma da USP surge como o pior ataque à educação pública do último período, talvez sem paralelo até mesmo com os ataques de 2007. O movimento estudantil estadual e de trabalhadores precisam repudiar ativamente este prelúdio dos ataques educacionais em todo o estado; por isso, não pode deixar de frear o precedente aberto na USP. A resposta deve vir no nível estadual. Para isso, não há outro aliado que não os trabalhadores que foram ameaçados, caluniados, processados, suspensos, demitidos e que foram obrigados a passar fome por esta mesma REItoria representante das elites racistas paulistas. Os maiores ataques ao corpo de funcionários com a terceirização do trabalho e as sindicâncias aos estudantes da UNICAMP pela mão de Fernando Costa estão intimamente relacionadas à preparação necessária para a aplicação incontestada dessas reformas aqui em Campinas. Não deixaremos que o CRUESP nos pegue, estudantes e funcionários, fora de guarda e escolha o momento favorável aos capitalistas para implementar o arrocho de vagas e o enxugamento de cursos. Não há outro meio de defender as necessidades estudantis que não passe pela defesa resoluta das necessidades dos trabalhadores. Só a aliança operário-estudantil para vencer anulará as intenções de privatização do ensino que já estão a bater na porta com violência.


 

Anúncios
Categorias:Sem categoria
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: