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Contra a escravidão das formas! Sobre a juventude e o “rodeio das gordas”, Interunesp-2010

por Pão e Rosas

 

Nas universidades públicas de nosso país, nos deparamos com fatos que expressam a degenerescência na qual está se afundando uma parte da juventude. Nos Jogos universitários inter-campi da Unesp, o Interunesp-2010, um grupo de jovens organizou um “rodeio de gordas”, que consistia em simular uma “conversa” para se aproximar de uma garota gorda e depois montá-la como se fosse um gado, e ganharia a competição aquele que conseguisse “montar” a garota por mais tempo.

Na USP, poucos dias antes, um casal de homossexuais foi agredido verbalmente e espancado em uma festa organizada pela Atlética da Escola de Comunicações e Artes (ECA), única e simplesmente por estarem abraçados. Ambos os casos nos fazem lembrar da “brincadeira” do jornal “O Parasita”, de estudantes da Farmácia da USP, que no semestre passado davam ingresso de graça a uma festa àquele que jogasse fezes em homossexuais.

Nas capas de dezenas de jornais no mundo nessa semana todo estampou-se na última segunda-feira: no Brasil elegeu-se a primeira presidente mulher do país. Dilma Rousseff, depois de um operário metalúrgico, uma mulher! Nos EUA, um negro. Na Bolívia, um indígena. Na Argentina, Cristina… Avanços no combate à discriminação, ao preconceito, ao racismo, ao machismo e à homofobia? A corrida eleitoral por votos, intensificada no segundo turno, mostrou que Dilma está convencida a não dar nenhum passo no sentido de avançar com demandas históricas das mulheres e os direitos dos homossexuais. O segundo turno foi uma disputa entre Serra e Dilma pelo posto de “o candidato mais anti-aborto”.

São diversas as formas de violência contra as mulheres e homossexuais em nossa sociedade, e a barbárie desse “rodeio de gordas” é expressão nefasta da naturalização da violência contra as mulheres, um episódio orquestrado com premeditação pela internet, sem que nenhum dos agressores tenha sido punido até o momento; assim como nada foi feito para punir os agressores uspianos. É essa juventude adestrada pelos valores conservadores, reacionários, e burgueses, que ateia fogo em índios, que espanca empregadas domésticas, que joga calouros ao afogamento, que agride homossexuais e que monta em mulheres como se fossem gado; que “brinca” com a vida dos setores oprimidos da sociedade e que mata. Essa juventude é o exército reservista da burguesia brasileira, os porta-vozes da reação. Este setor da juventude está reproduzindo, acriticamente, uma moral atrasada que só faz jogar a humanidade cada vez mais no atraso. A atividade humana, e suas opiniões ou desejos, não é natural, mas é histórica e, portanto, reflete o nível de desenvolvimento da sociedade, o quanto esta sociedade, tal como está organizada, permite aos indivíduos a sua livre expressão, o exercício da sexualidade, a reflexão sobre as relações sociais que estabelecem, o questionamento que se traduz em práticas que avancem na liberação humana do preconceito e opressão castradores. Para garantir a estabilidade de uma sociedade que oprime, que explora e escraviza milhares de seres humanos é essencial naturalizar a violência e torná-la cotidiana. É essencial ao projeto da burguesia – de manter a humanidade na miséria e escravidão – disciplinar o espírito humano, embrutecê-lo até a estupidez. Na escravidão, os negros e negras eram tratados como animais; em pleno século XXI, mulheres fora do padrão de beleza imposto socialmente são tratadas como touros. Esse o país “desenvolvido” e da “igualdade” que Dilma vai governar.

A criação de um padrão estético imposto às mulheres e a naturalização de sua imagem enquanto um objeto de consumo e prazer para terceiros também fortalece ações como a do InterUnesp. As indústrias de cerveja, como a Skol, um dos patrocinadores desse evento, explora a imagem da mulher na TV como objeto sexual. A mídia burguesa com suas novelas e programas lavam as mentes da sociedade impregnando valores e padrões que sirvam tão somente para o enriquecimento de empresários, o consumo, o adestramento de acordo com a ideologia burguesa e o adoecimento. O controle da sexualidade e dos corpos imposto no capitalismo é responsável também pela proeminência de novas enfermidades, a anorexia, a bulimia, a depressão.

A imposição por parte da classe dominante de papéis sociais considerados como “normais”, “naturais” a homens (macho-alfa, chefe de família e heterossexual) e a mulheres (dona de casa, mãe, esposa submissa, heterossexual) autoriza agressões constantes àqueles que subvertem essa ordem de papéis sociais. Não à toa, os e as homossexuais são brutalmente perseguidos como doentes, seres pecaminosos e pervertidos ou diretamente criminosos.

Enquanto um terço das famílias é sustentado unicamente por mulheres, nesse último processo eleitoral, a despeito de que as mulheres tiveram visibilidade, a valorização da família nos discursos dos então presidenciáveis teve destaque, com um apelo voltado a uma família monogâmica nuclear burguesa, com pai provedor, “macho”, viril, a mulher submissa, abnegada e altruísta, e crianças que sejam criadas dentro desses valores. O controle da sexualidade e dos corpos foi tema de destaque nas eleições, contra os direitos das mulheres e dos homossexuais. As vítimas desta política: milhões de seres humanos oprimidos, humilhados, reprimidos e explorados todos os dias.

Na Unesp, as reitorias e diretorias locais, em casos de assédios, estupros e agressões, já mostraram que não estão dispostas a romper com a lógica social corrente de opressão às mulheres e aos homossexuais deixando impunes os agressores. Da mesma maneira, Serra/PSDB e Dilma/PT, com o empurrão de Marina Silva e Cia. religiosa, ergueram um altar eleitoral sobre o sangue de milhões de mulheres que realizam abortos clandestinos, enquanto os corruptos e padres e bispos pedófilos gozam de impunidade. Dilma venceu o tucano paulista. Uma mulher, a primeira presidenta do Brasil, que vai governar para os ricos e desferir ataques aos direitos sociais, como já sinalizado que em seu governo irá atacar a previdência social. Hoje milhões de pessoas, jovens e trabalhadores na França vão às ruas para lutar contra a reforma da previdência que inclui a extensão da idade de aposentadoria, nos mostrando que é possível e é preciso lutar em defesa dos nossos direitos.

A juventude francesa deve nos inspirar não somente para lutar contra os ataques futuros, que agravam a condição de exploração dos oprimidos, mas para hoje colocar de pé uma ampla campanha contra a violência para que na Unesp, e em diversas universidades de todo país, todos saibam que na universidade onde a juventude reacionária que fez o rodeio das gordas, estudantes homens e mulheres se organizaram e expulsaram os agressores da Universidade. É preciso desde já, nos colocar intransigentemente contra humilhações e violências aberrantes. A inflexibilidade a casos como estes e uma ação decidida irá nos fortalecer para lutar para combater e transformar pela raiz a opressão das mulheres, para lutar pela revolução socialista e pelo fim da propriedade privada, rumo a verdadeira emancipação da humanidade.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, colocamos nossas forças, para junto do Diretório Central dos Estudantes da Unesp, dos Centros Acadêmicos, e de centenas e milhares de estudantes, organizar um grande festival cultural e político, como parte de uma campanha contra o controle do corpo e da sexualidade e contra a violência às mulheres.

 

Pela expulsão imediata de todos agressores e seus cúmplices! Por comissões de estudantes e trabalhadores de apuração dos casos independentes das reitorias e da polícia!

 

Por uma ampla campanha contra o controle do corpo e da sexualidade! Basta de violência às mulheres e homossexuais!

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