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Coréia do Sul: fracassos e armadilhas do G-20

(por Paula Bach, do Partido de los Trabajadores Socialistas, organização irmã da LER-QI na Argentina)

tradução: André Augusto e Danilo Magrão

 

No final de semana passada se realizou na cidade de Gyenongju, Coréia do Sul, a reunião dos ministros das finanças dos chamados países do G-20, destinada a definir a agenda da Cúpula dos chefes de Estado e Governo programada para o próximo 12 de novembro em Seul.

A principal discussão entre os membros esteve associada à denominada “guerra de moedas”1 que vem dando o tom à agudização da crise econômica internacional durante esse mês.

 

Guerra de moedas” e desequilíbrios externos

 

A questão dos desequilíbrios externos, nos quais as balanças comerciais (exportações e importações) ocupam um lugar de maior peso, resulta certamente no problema mais agudo que enfrenta hoje a economia mundial capitalista, prenunciando uma probabilíssima fase de guerras cambiais e comerciais. Os grandes desequilíbrios externos apresentados, para tomar dois grandes exemplos, nas relações comerciais entre Estados Unidos e China por um lado ou entre Alemanha e o resto dos países da zona do euro por outro, contribuíram contraditoriamente para delinear as bases do equilíbrio relativo na qual a economia mundial se assentou durante as últimas duas décadas. Entretanto essa situação passou a ser questionada a partir da deflagração da crise econômica mundial que teve seu epicentro nos Estados Unidos ao final de 2008.

A intervenção inicial massiva dos principais Estados capitalistas sobre suas economias, na medida em que conseguiu conter a crise, gerou este agudo problema do primeiro plano mantendo sob uma forma velada ainda que persistiu a disputa. O conflito teve no mínimo duas grandes expressões. Por um lado, a contínua pressão dos Estados Unidos sobre a China exigindo a revalorização de sua moeda, o Yuan. Por outro, o episódio que se pode considerar como o segundo capítulo da crise econômica mundial que teve por epicentro a zona do euro e a União Européia. Por sua vez ambas as situações refletiram entre si.

Inicialmente a crise européia provocou uma queda do euro e revalorizou o dólar, questão que em termos comerciais prejudicou a intenção norte-americana de aumentar sua competitividade externa como contrapartida à débil recuperação de sua economia. Mais tarde o mega resgate do euro, a intervenção da China com suas reservas e o começo do desenvolvimento dos duros planos de ajuste em curso permitiram uma recuperação relativa da Europa e um crescimento da Alemanha. A revalorização do euro voltou a provocar uma desvalorização do dólar, conveniente para a política econômica externa norte-americana, ainda que insuficiente frente à debilidade de sua recuperação.

O alto e contínuo desemprego que assedia a economia dos Estados Unidos, assim como o risco de deflação e grandes déficits, determinaram uma política monetária frouxa que acabou incorporando quase todos os mercados do mundo a uma sorte de guerra por desvalorização O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, anunciará, muito provavelmente nos primeiros dias de novembro, um salto dessa política que se conhece com o nome de quantitative easing ou facilidade quantitativa.

 

 

Essa medida consiste em injetar fortes quantidades de dinheiro mediante a compra de títulos no mercado secundário, buscando debilitar o dólar, aumentando a competitividade externa da economia norte-americana e buscando uma reativação interna que afaste o risco de deflação além de reduzir a rentabilidade (juros) da dívida norte-americana.  

O dólar é nossa moeda, mas é seu problema”2

Ao mesmo tempo em que joga com a desvalorização da moeda, os Estados Unidos buscaram marcar a reunião do G-20, mediante uma carta enviada pelo Secretário de Estado norte-americano Timothy Geithner, na qual propunha que “os países do G-20 se comprometam a adotar políticas consistentes com a redução de seus desequilíbrios externos abaixo da porcentagem do PIB nos próximos anos” (El País, 23/10/10).

A proposta de Geithner para resolver os desequilíbrios consistia em solicitar aos países com fortes superávits, como China e Alemanha, a levarem adiante políticas estruturais para desenvolverem seus próprios mercados internos, como fonte de crescimento e ajuda ao desenvolvimento da demanda global. Por sua vez, com respeito aos países com déficit como os Estados Unidos, fundamentalmente deviam impulsionar a poupança nacional mediante compromissos fiscais e fortalecendo suas exportações.

Enquanto que, insistimos, os Estados Unidos apostam na desvalorização do dólar, Geithner solicitava aos países do G-20 que “se abstenham de políticas cambiárias desenhadas para obter vantagens competitivas já seja debilitando sua moeda ou evitando a apreciação de uma moeda sub-valorizada” (Idem), solicitando a economias emergentes como a chinesa (embora sem nomeá-la) a revalorização gradual de suas moedas.

A política desenrolada pelos Estados Unidos, para além do discurso, faz recordar aquela desenvolvida nos anos ’70 quando se pôs fim aos acordos de Bretton Woods através de fortes desvalorizações do dólar e finalmente sua desvinculação do ouro, que buscava aumentar mediante políticas monetárias a competitividade norte-americana ameaçada pela forte recuperação e incremento de produtividade das economias do Japão e da Alemanha.

Recorda também os acordos del Plaza em 1985, que foram um duro golpe que os Estados Unidos assestaram sobre o Japão, mediante outra desvalorização do dólar que fez a economia japonesa submergir na crise dos anos ’90, da qual nunca pode recuperar-se. Não obstante essa ofensiva monetária dos EUA, que busca esconder por trás de um cínico discurso de cooperação internacional, produz-se em uma situação muito mais crítica da economia mundial e em um momento de uma crise muito maior da hegemonia norte-americana.

Neste contexto, a situação tem altas probabilidades de desembocar num processo crescente de guerra cambiária e comercial no marco do aprofundamento da crise econômica internacional mais prolongada, profunda e generalizada desde os anos ’30. A Alemanha condenou a política monetária laxa dos EUA como “forma indireta de manipulação do tipo de câmbio” (El Cronista Comercial, 25/10), e junto a Japão, China e Índia, rechaçaram a agenda norte-americana. A “pré-cúpula” acabou em uma clássica declaração geral de compromisso que assinala todos os seus membros dispostos a evitar “desvalorizar sua moeda com objetivos competitivos”, ficando todos à espera das medidas do Federal Reserve que serão anunciadas no próximo mês.

 

Fundo Monetário Internacional: reforma histórica?

 

O presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique-Strauss Kahn, partícipe da reunião do G-20, buscou algum tipo de acordo de último momento que ocultasse a ineficácia do encontro. Resolvendo uma discussão que tem mais de um ano de história, decidiu-se que China, Brasil e Índia aumentarão em 6% seu poder de voto no FMI, obtendo, dentro de dois anos, dois bancos do diretório atualmente ocupados por europeus.

A “reforma histórica” consiste em que os países denominados “emergentes”, cujo crescimento cumpre um papel chave na sustentação de uma economia mundial em crise aguda, e um dos quais – China – representa, desde o ponto de vista de seu PIB, a segunda economia mundial, devem esperar – dois anos! – para que os países europeus acordem quais, dentre os oito totais, dois bancos irão relegar. Por outra parte, os EUA, que possuem 17,67% de participação nas cotas do FMI, continuará tendo poder de veto nas decisões centrais, que precisam de 85% dos votos dos membros do organismo.

Por outra parte a “reforma histórica” implica que, ainda com o incremento de sua participação, China, Índia, Brasil e Rússia juntos apenas somam 14,18% dos votos, e todos os chamados países “emergentes” só chegariam a juntar 42,29% dos votos, questão que lhes impede de impor qualquer tipo de veto.3

Não obstante, não deve negar-se o “gesto” do FMI e do G-20 que resulta em grande parte simbólico. O organismo já não é a única agência de empréstimo em última instância. Os grandes desequilíbrios econômicos que se produziram nos últimos anos fizeram com que um país como a China, ainda que continue sendo dependente, tenha acumulado grandes massas de reservas, questão que lhe outorga desde o ponto de vista monetário um peso nada desprezível.

Vá como exemplo que a China jogou um papel destacado no salvamento do euro na recente crise da Europa. Oferecer-lhe um espaço maior, ainda que claro sem nenhum poder de decisão, pode ser uma política de subordinação para evitar ações monetárias inesperadas, em um futuro em que o FMI “lamenta que se tenha evaporado a coordenação vista nos momentos mais intensos da crise financeira” e teme que “as tensões sobre o tipo de câmbio lancem uma corrida protecionista que façam colapsar a atividade comercial” (El País, 23/10).

 

 

1Ver ‘Una nueva oleada de guerra monetaria’, Juan Chingo, La Verdad Obrera, Nº 396.

2 Famosa frase que em 1970 pronunciou John Connally, secretário do Tesouro do presidente norte-americano Nixon, pouco tempo antes do fim dos acordos de Bretton Woods.

3 Dados extraídos de El Cronista Comercial, 25/10/2010.

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