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Sim, eu tenho ódio dos preconceituosos

Em resposta ao artigo, “Sim, eu tenho preconceito” publicado na Folha de São Paulo, 11/11/2010

 

Por Iuri Tonelo

(dedicado ao meu amigo André Augusto, pelo estilo, ironia amarga e pelo mesmo ódio aos intelectuais da burguesia)

 

“O único fator progressivo da história hoje não é o espírito de combinação dos deputados e jornalistas: é o ódio legítimo e criador dos oprimidos contra os opressores. É preciso voltar-se para as massas, para suas camadas mais profundas. É preciso fazer um chamado a sua razão e a sua paixão”

Trotsky – Aonde vai a França?

 

Vivemos tempos de crise capitalista profunda, tempos em que a burguesia começa a perder sua margem de manobra para segurar as rodas da história e a necessidade de caducar um modo de produção que tanta barbárie, exploração e opressões tem gerado pelo mundo. Ainda assim, o proletariado, sujeito histórico das transformações sociais, camada estratégica da sociedade – produtora da vida – ainda não se coloca em termos políticos com a organização necessária para fazer frente a essa barbárie. Ainda não vivemos tempos de luta de classes aberta.

Ou seja, enquanto a crise econômica cria as bases à polarização social, que ainda está se gestando em conflitos intensos entre os trabalhadores e as formas mais conservadoras do capital, em termos ideológicos, a intelectualidade burguesa já tem nos surpreendido e se antecipando: no primeiro semestre, no jornal Folha de São Paulo, a intelectualidade burguesa conjurou dezenas de páginas de artigos atacando a greve de trabalhadores das estaduais paulistas, atacando a greve do judiciário, atacando os controladores de vôo que “ousaram” o método da greve etc., ou seja, direitos democráticos elementares tem sido colocados em xeque.

Todavia, o jornal Folha de São Paulo não se contentou com abrir espaço para a empreitada anti-democrática e anti-operária: agora a intelectualidade pequeno-burguesa que carrega os elementos mais reacionários da opinião pública teve seu espaço reservado – ao contrário do DCE da UNESP, que não teve o mesmo espaço ainda para colocar suas posições sobre o caso brutal de opressão e violência contra a mulher no Interunesp.

Leandro Narloch, um jornalista absolutamente grotesco, resolveu manifestar sua consciência reacionária em Tendências e Debates[1] (dia 11 de novembro). Diz esse jornalista, num texto que se intitula “Sim, eu tenho preconceito”, que não é pertinente o racismo baseado em elementos naturais; e condena! Mas pasmem, esse sujeito acha perfeitamente pertinente o “preconceito social”.

Primeiramente, no que tange ao terreno da (para sermos moderados com ele) leviandade da primeira parte de seus escritos, esse sujeito atribui aos brasileiros do nordeste a “responsabilidade” pela eleição da candidata petista Dilma Rousseff. Nós, os marxistas revolucionários, não achamos que a candidata petista pode resolver qualquer problema estrutural dos trabalhadores, ao contrário, achamos que a ausência de uma resposta independente da demagogia e dependência ideológica da burguesia, por parte da classe operária, nessas eleições é uma grande derrota para os que anseiam com uma resposta alternativa à sociedade da exploração capitalista. Entretanto, entendemos que a classe burguesa que explora economicamente os trabalhadores, é a mesma que tece as amarras ideológicas, financia a mídia burguesa, a educação conservadora, se atrela a Igreja etc, que juntos, conformam um amálgama de dominação ideológica e ilusão aos trabalhadores e os impede, ainda, de buscarem construírem de forma independente o seu futuro.

Mas Narloch, um sujeito daqueles que fazem um grande esforço para entrar para a história como verdadeiros canalhas, atribui o problema aos indivíduos que “não tem educação”, ou seja, a culpa toda é desses indivíduos que mal tem dinheiro para comer, não tem emprego, as vezes moram em casas de péssimas condições etc; claro, a culpa é toda deles, não é, Narloch? Diz ele:

“Tampouco simpatizo com quem tem graves deficiências educacionais e se mostra contente com isso e apto a decidir os rumos do país”

Todos os que tem um mínimo de raciocínio achamos que os brasileiros que vivem na seca do nordeste estão contentes com essa situação e não prefeririam estar nas universidades da Suécia (!!!) – para verem como o método falacioso é imperante no texto de Narloch. Mas, além das impertinências que fala sobre a educação dos brasileiros desfavorecidos economicamente, esse sujeito busca aprofundar seu método de escrever atrocidades e, implicitamente, defende as privatizações, o aumento dos impostos, a criminalização do aborto (e mesmo a punição das que abortam!!!), absolutamente convencido da beleza de ser uma excrescência emanante da sociedade do capital, um Vernou[2] contemporâneo.

E Narloch não cansa: do preconceito ele avança para seu programa reacionário:

“Não estou disposto a adotar uma postura relativista e entender esses indivíduos. Prefiro discriminá-los”

Vejamos que tanto o autor destas letras quanto nosso leitor já devem estar sem paciência com o grau de reacionarismo de nosso Narloch: como pode em pleno século XXI alguém vir a público, no principal jornal do Brasil, e estufar o peito para dizer que discrimina brasileiros que não tiveram acesso a educação e cultura? O grau do absurdo desse conteúdo é algo que deve mover o coração e a alma daqueles que ainda mantém algum grau de humanidade e de coerência com uma perspectiva da anti-barbárie. É importante que todos gritemos bem alto contra esse tipo de manifestação atroz.

Para finalizar, Narloch condena aos que ainda reivindicam sua cultura, tradições, raízes, modos de vida, que muitas vezes se contrapõe aos scripts do capitalista. Diz ele:

“Por fim, eu nutro um declarado e saboroso preconceito contra quem insiste em pregar o orgulho de sua origem. Uma das atitudes mais nobres que alguém pode tomar é negar suas próprias raízes e reavaliá-las com equilíbrio, percebendo o que há nelas de louvável e perverso”

Nós realmente não achamos que a cultura deve ser única, padronizada pela sociedade do fetichismo da mercadoria e de toda a porcaria da indústria cultural. Não reduza a riqueza cultural (por exemplo, do Brasil) a essa mesquinhez toda, Narloch. Mas além disso, não sabe esse senhor desprezível, que existem hoje no mundo muitos trabalhadores que adoram e sentem orgulho de sua origem de classe, de sua raiz operária; trabalhadoras e trabalhadores que sentem orgulho de fazerem parte da classe que saiu para o combate de modo independente no junho Francês de 1848, que estufa o peito ao falar da Comuna de Paris e da luta pela emancipação, que reivindicam o brilhantismo do início da Revolução Russa, que expropriou a burguesia exploradora, classe essa que travou diversos conflitos no século XX inteiro, expropriou diversas burguesias no mundo, que sofreu muitos reveses, mas que tirou lições da História para as novas lutas…

Os trabalhadores dos cinco cantos do Brasil devem se unir na sua condição comum de classe e se organizarem para varrer da História essas barbaridades que ainda são ditas em nossos tempos – arrastando consigo as massas populares, com um projeto que ofereça um futuro e as livre das mãos assassinas dos Narloch contemporâneos e sua classe. No ataque aos que são explorados e vivem nas piores condições de vida, estamos na linha de frente contra a opressão. No ataque aos nordestinos, estamos na linha de frente contra o racismo. Que as massas populares, sobretudo a classe operária, se encha de ódio da classe exploradora e de seus intelectuais burgueses, lacaios dos opressores do povo. É desse ódio legitimo e criador dos oprimidos contras os opressores que forjaremos a poesia futura da derrocada do capitalismo.


[1] Seção do jornal Folha de São Paulo, das mais importantes e nas primeiras páginas.

[2] – “O senhor então assume tudo o que escreve? – disse-lhe Vernou, brincalhão. Acontece que somos negociantes de frases, vivemos de nosso comércio. Quando quiser fazer uma grande bela obra, um livro enfim, poderá nele lançar os seus pensamentos, sua alma, entregar-se a ele; mas artigos lidos hoje, esquecidos amanhã, a meus olhos, só valem o que se paga por eles”  Honoré du Balzaz – As Ilusões Perdidas

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  1. Léo Rodrigues
    11/11/2010 às 11:04 pm

    O sr. Narloch é do tipo que está preso às verdades por uns fiapos tênues que podem se romper com o mínimo movimento dos negros, nordestinos, dos “sem educação”, mulheres, gays e da classe trabalhadora em geral, e faz o possível para segurá-los pelo terror de não encontrar Deus na escuridão da morte. Teus dias cairão pelo golpe do oprimidos, junto às verdades que sustenta tua breve vida, porta-voz da podridão!Tua sociedade perecerá, junto com ela teus santos que protegem tua palavra!

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