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As direções sindicais deixaram passar a reforma das aposentadorias apesar da enorme resistência dos trabalhadores e da juventude

Por Juan Chingo, membro da FT-QI e do Coletivo por uma Tendência Revolucionária no NPA, na França

 

Durante quase dois meses os trabalhadores franceses protagonizaram junto ao combativo movimento estudantil secundarista uma importante mobilização social contra o projeto de reforma da aposentadoria apresentada pelo presidente Sarkozy. Oito jornadas massivas de paralisação e mobilização que convocaram milhões de manifestantes: greves renováveis (por tempo indeterminado) em setores estratégicos, como os trabalhadores das refinarias e os portos, além (ainda que com menor incidência pela lei de serviços mínimos) da greve dos ferroviários; inumeráveis bloqueios de empresas ou locais públicos e depósitos petroleiros protagonizados por trabalhadores e ativistas solidários e a irrupção dos estudantes secundaristas e uma pequena vanguarda universitária, comoveram o outono francês.

Porém, esta enorme luta que contou um amplíssimo apoio popular de mais de 70% da população não pode impedir que a Assembléia Nacional (deputados) e o Senado aprovasse a reforma, promulgada por Sarkozy em 09/11. A partir de agora, os trabalhadores poderão se aposentar somente entre os 62 e 67 anos (ao invés dos 60 e 65). Com esta medida, Sarkozy pretende dar uma mensagem aos mercados para que baixem a qualificação dos bônus da dívida francesa, e a patronal de que, apesar de sua debilidade, não cederá ante os sindicatos. Mas tudo indicaria que, apesar de ter obtido a aprovação da lei, enfrentará uma dura resistência em seu objetivo de transformá-la no primeiro passo para avançar sobre outras conquistas.

A estratégia de desgaste da burocracia

Para além da dureza que Sarkozy tentou demonstrar, o principal fator da derrota foram as direções reformistas das centrais sindicais. Em nenhum momento os dois principais sindicatos, CFDT e CGT defenderam a retirada da lei. Se contentaram em reivindicar uma negociação. A CFDT e a CGT junto com o resto das organizações que conformam a Intersindical (Solidaries, CFTC-CFE/CGC-UNSA-FSU) e FO tiveram uma estratégia de desgaste com jornadas de ação isoladas, que se dispersaram mais justamente no momento de maior radicalização, o que levou a um isolamento dos setores em greve e à quebra das mesmas. Foi assim como as jornadas massivas de mobilização foram perdendo força e convocatória, como mostrou a última jornada de mobilização de 6/11. O chamado a uma nova manifestação para 23/11 quando a lei já foi promulgada se inscreve nesta mesma estratégia de pressão. Desta maneira, bloquearam a tendência à greve geral que as greves renováveis traziam, permitindo que Sarkozy, apesar de sua debilidade e da grande impopularidade de seu governo tenha podido aprovar a lei.

As tendências embrionárias à auto-organização

Além dos bloqueios e das greves renováveis de setores chave dos trabalhadores, como as refinarias, apesar de que as direções sindicais nacionais não convocassem à greve, outro elemento que mostrou o potencial de luta foi a tendência à auto-organização que surgiu, ainda que tardiamente, no curso do processo. Esta tendência se expressou nas Interprofissionais cujas características variavam segundo a região e as cidades. Nestas Interprofissionais se reuniram os melhores ativistas dos distintos setores em greve, em muitos casos com a juventude secundarista e a vanguarda universitária, para discutir as ações locais, e buscar laços de coordenação nas zonas da cidade e inclusive nacionalmente, que culminou na reunião de 6/11 em Tours, com 22 delegações de toda a França. Entre elas, a mais avançada foi a da cidade portuária de Havre, que nos momentos mais álgidos chegou a adquirir elementos de uma coordenação dos comitês e setores em greve, que levavam mandatos da Intersindical, que publicou 17 boletins de greve até 5/11 e juntou quase 20.000 euros para o fundo de greve.

Ainda que estas tendências tenham sido embrionárias, (ainda que mais estendidas que nas greves de 1995) e não puderam superar de conjunto a fragmentação das representações sindicais, ou apresentar uma alternativa ante a falsa “unidade sindical” com os que traíram a luta, são uma grande experiência de organização para as futuras lutas.

Um processo profundo

Apesar da derrota sofrida, a votação de lei dificilmente será suficiente para fechar o processo profundo que esta luta abriu, com a entrada em cena de forma contundente de trabalhadores importantes do setor privado, uma vez que o protagonismo explosivo da juventude secundarista, convergência que assustou o governo e a burguesia e inclusive as direções dos sindicatos.

Ainda que as direções sindicais puderam impor a volta ao trabalho em lugares fundamentais como as refinarias de petróleo, ou os coletores de lixo, esta tarefa não foi nada fácil. Para dar só alguns exemplos, os trabalhadores dos portos de Fos-Lavera (Marselha) fizeram 33 dias de greve, votando o retorno ao trabalho recentemente em 27/10; na refinaria Donge do grupo Total, as burocracias sindicais impuseram o voto secreto para acabar com a greve em 28/10, assim como em outras refinarias. Similar reação tiveram os trabalhadores da coleta de lixo de Marselha que aceitaram a contragosto a ordem da FO de acabar com a greve que havia deteriorado seriamente a situação sanitária, frente à pressão fura-greve da “união sagrada” da direita e do próprio PS.

Entre os trabalhadores das refinarias, onde as assembléias que votavam a continuidade da greve haviam sido massivas, o estado de ânimo é de raiva. Como expressa um artigo do jornal Le Monde, “Fortalecidos com sua nova solidariedade, os trabalhadores não querem baixar os braços, apesar da volta ao trabalho” (29/10).

Mais de conjunto, no setor privado de pequenas e grandes empresas, que majoritariamente não pararam, o movimento geral parece ter dado novos ânimos, o que pode antecipar lutas duras por salário, condições de trabalho e reestruturações (fechamento de empresas e demissões), como temem alguns setores da patronal. Como disse a investigadora Evelyne Perrin: “o que é radicalmente novo é que os trabalhadores do setor privado entraram em cena, pela primeira vez massivamente, e onde havia bloqueio da economia (refinarias, portos), o exerceram com uma determinação e uma duração excepcional (…). Esta posta em marcha deste poder de decisão de uma capacidade de bloqueio, que foi nova, gerou um novo imaginário”. Este forte impulso levou sintomaticamente a obter algumas reivindicações setoriais em alguns lugares e inclusive agora, apesar da nova etapa, trabalhadores do setor público como a agência da Pole Emploi realizaram uma greve com um alto nível de aceitação, e setores muito atacados como os trabalhadores terceirizados da escola de elite, ENS, no coração de Paris estão reivindicando a incorporação e o aumento dos salários, com o apoio dos estudantes, conflito em que os estudantes e ex-estudantes da CTR (Coletivo por uma Tendência Revolucionária) do NPA (Novo Partido Anticapitalista) tem um papel destacado.

A vontade da maioria dos assalariados e da juventude de dizer basta, de não deixar passar a reforma das aposentadorias (primeira de uma série de reformas e ataques que implicaria um salto qualitativo na piora de suas condições de vida) mudou os ares destes tempos. Esta mudança é profunda e é difícil que se dissolva com o fim desta etapa na qual Sarkozy possa mostrar que triunfou, mas a que custo!

A extrema esquerda não foi alternativa à burocracia sindical

Frente a semelhante movimento social e á política de pressão e reformista das direções sindicais, a “extrema esquerda” francesa não foi alternativa. Lutte Ouvriére (LO) se opôs a levantar a consigna de greve geral e durante todo o conflito teve uma política completamente seguidista e subordinada às direções sindicais. No editorial de 8 de novembro, sua dirigente, A Laguiller segue colocando que “as centrais sindicais, por seus chamados sucessivos a se mobilizar, permitiram que surja o movimento”. Seu balanço não é que o resultado se deve à política das direções reformistas, senão a que esta enorme mobilização se desenvolve no marco de uma relação de forças desfavorável para os trabalhadores, ainda que sim, a situação recentemente começaria a mudar um pouco…. Sustentam isso apesar da grande impopularidade e debilidade do governo de Sarkozy e, sobretudo, a massividade do movimento de protesto que acaba de sacudir a França.

Em relação ao NPA, enquanto muitos militantes participaram na linha de frente dos bloqueios e a posição oficial foi pela retirada da lei e pela expulsão de Sarkozy, o centro da orientação não foi o chamado á greve geral, e na prática não houve uma orientação política unificada. Seus porta-vozes, como Olivier Besancenot e Alain Krivine, não fizeram a menor crítica pública à política das direções sindicais reformistas. Tampouco foi orientação da direção impulsionar ativamente o movimento de assembléias Interprofissionais, com exceção em alguns setores.

Aqueles que integramos o Coletivo por uma Tendência Revolucionária (CTR) do NPA participamos com todas as nossas forças no processo, colocando claramente a exigência do chamado à greve geral na luta contra a reforma e contra o governo de Sarkozy, a necessidade de estender a auto-organização através das assembléias gerais, dos comitês de greve, e coordenações interprofissionais com mandato, a unidade entre trabalhadores e jovens, tanto estudantes como secundaristas, como parte de uma orientação para superar as divisões e a estratégia de pressão das direções oficiais. Isso é parte do nosso combate para avançar rumo a um NPA revolucionário, arraigado na classe trabalhadora e na juventude.

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