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A greve dos controladores de vôo na Espanha: a ferrugem corrói as correntes da eurozona em crise

por André Augusto

 

Neste último sábado, 4 de dezembro, as redes aéreas da cidade de Santiago, no Estado Espanhol, entraram em caos pela ira dos trabalhadores ligados aos aeroportos, movimento que nesta terça-feira se espalhou para a malha aérea da capital, Madrí. Os controladores de vôo de Madrí puseram-se no centro do furacão da contorcida economia espanhola ao paralisar um setor estratégico da economia com uma greve espontânea e imposta ao Governo de José Luiz Rodrígues Zapatero (uma vez que os controladores de vôo não têm direito concedido de fazer greve). Essa revolta espontânea dos controladores de vôo, neste fim de semana de feriado, pegou o Governo completamente despreparado, levando o próprio Chefe do Estado Maior da Aeronáutica, José Jiménez Ruiz, e o advogado geral do Estado, Joaquín de Fuentes, a debaterem se os controladores deviam obedecer às ordens militares antes da militarização do espaço aéreo.

Apesar da forte determinação dos controladores de vôo em fechar o espaço aéreo por tempo indeterminado, a ameaça das instituições do Estado de militarizá-los (tornando-os submetidos imediatamente à corte marcial), além de militarizar todo o espaço aéreo, ameaçando-os com a perda de bens e com pagamento de indenizações (além de possível encarceramento), esgotou o espírito dos trabalhadores. A mídia burguesa, que tanto enaltece a “recente história democrática do Estado Espanhol,” não tece dúvidas em enxovalhar violentamente o movimento dos controladores, mesmo após o novo decreto do governo que calcula o número de horas fixas necessárias para cada trabalhador (que tem de somar 1.670 horas) além de um rebaixamento salarial coletivo. Nem abriu as janelas à diferença cabal entre a situação de um militar ter o controle genérico do espaço aéreo e a situação de obrigar um civil a seguir as instruções do Comando do Exército.

 

Os ataques aos trabalhadores em meio à lama dos planos de ajuste

Coincidência é a palavra que o oficialismo governante costuma utilizar para esconder as alavancas e as roldanas que move. Esse alvejamento público dos controladores de vôo e o rechaço para terceiro plano acerca da inexistência de um direito civil elementar como o direito de greve, vem emparelhado ao anúncio por parte de Zapatero do novo pacote de medidas de contenção que, em matéria laboral, implicou a aprovação, nesta última sexta-feira, da regulação das agências privadas de colocação e da não renovação do auxílio de 426 euros mensais aos desempregados (que no Estado Espanhol ultrapassam a taxa estarrecedora de 40 milhões de pessoas). Além disso, Zapatero confirmou que facilitará a “criação” de pequenas e médias empresas e rebaixará os impostos para estas (auxiliando grandes companhias capitalistas com o demérito de se rotularem como “pequenas empresas”).

As medidas privatizantes do PSOE não cessam por aí: o Governo de Zapatero privatizará 49% da AENA (Aeroportos Espanhóis e Navegação Aérea), além de 30% das Loterias do Estado. Com essa iniciativa, os aeroportos de Madrí-Barajas e Barcelona-El Prat (dois dos mais movimentados do país) estarão submetidos à gestão privada.

 

A quarta economia da eurozona pode ser o próximo elo arruinado do euro

O Estado Espanhol acumula contradições monstruosas na esfera do mercado de trabalho (com mais de 20% da população desempregada) que, unidas ao problema de sua dívida soberana, poderia levar o país à bancarrota ou, quando menos, o obrigaria a intensificar a exploração de sua força de trabalho e apertar os cintos dos ajustes fiscais já votados (o Estado Espanhol possui um exorbitante déficit orçamentário agregado de mais de US$160 bilhões, o que necessitaria de um dispêndio de resgate de aproximadamente US$879 bilhões, o que praticamente drenaria sozinha a quantia de US$1 trilhão disponibilizada no mecanismo comum de estabilização financeira dos países afetados pela explosão da crise da dívida).

O risco país do estado espanhol subiu ao nível mais alto desde que a Espanha adotou o euro como moeda; e é provável que o Fundo de Estabilização Financeira aprovado em maio resulte insuficiente para o “resgate” de Espanha. Enquanto que para receber o chamado “resgate” do Eurogrupo – que em realidade é um auto-resgate das potências francesa e alemã – FMI e o Banco Central Europeu exigem que a Irlanda reduza o déficit fiscal acumulado mediante reduções salariais, reduções do seguro-desemprego e aumento de impostos; enquanto a União Européia exige que a Grécia faça “um esforço extra” para baixar o déficit público para o próximo ano e seguir recebendo a “ajuda”; exige-se que o Estado Espanhol enxugue ainda mais o plantel dos servidores públicos e privatize alguns setores chave da economia em favor de maiores demonstrações silenciosas de compromisso com o monitoramento externo por parte dos organismos financeiros internacionais.

Cumpre lembrar que o governo de Zapatero anunciou no primeiro semestre o maior ajuste de gasto público desde a ditadura; nem sequer durante as crises dos anos ’70, ’80, ’90 um governo havia-se atrevido a baixar o soldo dos empregados públicos em 5%. Para os sucessivos golpes, cada vez mais agressivos aos trabalhadores espanhóis, os capitalistas de conjunto precisam anestesiar a guarda e neutralizar todos os mecanismos de combate dos trabalhadores, cuja maior expressão é o ataque ao direito de greve de importantes setores do funcionalismo público, e despedir o restante aos cuidados da burocracia sindical mais traidora, que desde as poderosas paralisações de setembro vem utilizando a estratégia geral de descompressão do movimento operário, fazendo com que este aja à distância e prolongando seu esgotamento no tempo.

 

A fraqueza e a capitulação sindical da USCA. A necessidade de entidades operárias combativas e classistas para as tormentas a caminho!

Nesta mesma revolta dos controladores de vôo, com as ameaças do governo de confiscar a propriedade dos trabalhadores e meter-lhes no cárcere, o próprio presidente da USCA (União Sindical dos Controladores Aéreos), Camilo Cela, instou aos controladores que retornassem aos seus postos de trabalho. O presidente do sindicato ajudou a exaltar as ameaças da declaração do estado de alarme entre os trabalhadores, alegando que poderiam entrar em prisão militar acusados de sedição. Ainda assim, enquanto a USCA dava uma coletiva de imprensa, os controladores começaram a ausentar-se massivamente de seus postos de trabalho, numa atitude ousada de auto-organização.

Ficaram patentes as diferenças existentes entre os controladores de vôo e os dirigentes sindicais. Vários controladores disseram “não reconhecer” o presidente do sindicato após a conversa deste com chefes do governo e do Estado Maior da Aeronáutica, e o porta-voz da USCA, César Cabo, qualificou de “desmedida” a reação dos controladores, ainda que reconhecesse que esta se produziu “provocada por meses de perseguição, uma lei e vários decretos” que cortam os direitos coletivos (La Gaceta, 6-12-10).

Os sindicatos são importantes instrumentos para a luta de classes, na medida em que estiverem sob gerência democrática de toda a base dos trabalhadores. Do contrário, são estéreis para a luta operária e servem de banquete faustuoso para sua aristocracia. Pois na medida em que são expressão da divisão entre as classes, os sindicatos constituem contraditoriamente um importante pilar da ordem social vigente: podem negociar dentro do sistema capitalista, mas são incapazes de aboli-lo.

Embora não estejam capacitados para questionar o capitalismo – e seu bestial regime de dilapidação da força de trabalho – como regime social, é preciso recuperar essas organizações para a luta combativa e classista dos trabalhadores, contra todo pragmatismo sindical, totalmente avesso às tradições da esquerda revolucionária no movimento operário. As avançadas e robustas pressões dos ajustes orçamentários e fiscais já recorrem a Europa, e exigirão uma barreira muito melhor moldada e resoluta para contrarrestar a cadeia de saques imperialistas sobre as costas da classe trabalhadora.

 

A Espanha como mais um ingrediente no turbilhão de desmanche da eurozona

O coquetel explosivo da situação internacional está ativado: a forte crise econômico-financeira desatada na Irlanda (com exorbitante déficit fiscal de 32% do PIB); o fracasso indigesto da reunião do G-20 em Seul; os incidentes mais incisivos entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte, que coloca em paralelas tensões militares o imperialismo norte-americano e a China (que já se manifestou indignada sobre os exercícios militares conjuntos de EUA-Coréia do Sul em áreas próximas ao continente); essa mescla de crise econômica, tensões militares, ajustes, crise política e entrada dos trabalhadores em cena, agrega-se que o euro vem caindo como moeda frente ao dólar, o que significa que o mecanismo de relaxamento quantitativo utilizado pelo Federal Reserve (Banco Central norte-americano) para debilitar o valor do dólar e reduzir o desequilíbrio comercial, está fracassando antes de começar. Os ritmos da crise econômica estão-se acelerando e arriscam gerar um novo salto nos deslocamentos geopolíticos e na luta de classes internacional.

 

*No fechamento deste artigo, o governo irlandês acaba de detalhar o orçamento mais rigoroso já feito no país, visando mais de U$6 bilhões em cortes de gastos públicos e em aumento de impostos. A aprovação do Orçamento parece ter satisfeito o FMI, que marcou uma reunião de conselho na sexta-feira para considerar um empréstimo de 22,5 bilhões de euros para a Irlanda, parte do pacote de resgate de 85 bilhões de euros criado em conjunto com a União Europeia. Naturalmente, o FMI foi o primeiro a saudar “o claro sinal do forte compromisso da Irlanda para combater seus problemas,” maneira festiva que essa cúpula inadulterada de aristocratas filisteus possui de chamr de “empréstimo” o esvaziamento compulsório dos bolsos e da medula do povo e dos trabalhadores irlandeses para financiar os grilhões dourados que os prendem. Os braços e as pernas pgam pela volúpia do estômago.

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