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Rodas, Joel: assaltantes dos trabalhadores já no início do ano

por André Augusto

 

Rodas tem a maior das aptidões para chegar pela noite e subtrair os bolsos operários quando estes adormecem.

O REI-tor interventor da USP, João Grandino Rodas – recentemente condecorado pelas autoridades militares Amigo da Marinha, pelo mérito de “divulgar a mentalidade marítimanão deixou de lado a memória da medalha e foi auto-complacente com o título recebido. Na última entrevista que forneceu à Rio Bravo Investimentos, discorrendo sobre o legado que espera deixar à USP, abriu francamente as janelas de seus ideais fluidos para a universidade pública. O legado de Rodas, comprovado REI-tor da lei marcial, por ele-mesmo:

 

“A minha postura é uma postura humilde, estou fazendo a minha parte, que é imprimir um dinamismo maior à USP, deixá-la mais dinâmica”.1

 

Assim pois, humildemente, no dia 5 de janeiro o REI-tor João Grandino Rodas anunciou a demissão em massa de 270 trabalhadores aposentados da universidade, que não contavam com a estabilidade, estando vinculados à instituição em regime de CLT e aposentados pelo INSS. Ainda que a reitoria tenha declarado que não realizaria mais demissões além dessa primeira remessa, sabe-se que o plano original das demissões estipulava que se chegasse a 800 funcionários “desligados naturalmente”, como noticiava o comunicado da Administração central do dia 5/01. Estes trabalhadores tomaram conhecimento de que estavam sendo demitidos através de seus holerites, sem terem contado com a possibilidade de realizar qualquer questionamento ou diálogo com a instituição.

O significado político do comunicado da Administração após as demissões, contradiz-se com a interpretação oficial de forma direta. Anuncia a descoberta do pedido de aposentadoria dos trabalhadores ativos como a revelação de um crime. “Ao proceder dessa forma, acabam prejudicados porque têm o valor de sua aposentadoria reduzido por não estarem na melhor idade para efetuar essa solicitação. Desse modo, agem tendo como única motivação os ganhos de curto prazo, sem perceber que estão assumindo perdas no longo prazo, visto ser regra da Previdência Social não rever as aposentadorias concedidas.” A reitoria usa o tom tutelar para mostrar aos trabalhadores que “não cairá nesse truque”, enquanto espera que a opinião pública caia de boca nessa inversão absurda da lógica; evidencia a “ganância” dos aposentados, que não possuem outro meio de compor seus salários miseráveis, dissimulando a própria avidez pelo lucro; veste o carrasco com a roupa de pedagogo, “ensinando os trabalhadores a administrarem melhor suas aposentadorias”; deleita-se em demitir com demagogia patriarcal e tradição romântica, quando não há qualquer romance no desemprego; enfim, coloca os trabalhadores aposentados na posição de réus culpados pela sua própria punição, enquanto sorri de ouvido a ouvido ao imaginar as vantagens pessoais da reposição precarizada desses postos abertos.

Não nos enganemos: esses moralizadores de coração amaciado, Rodas, Joel Dutra & Cia., para os quais não é tão fundamental assim “estabelecer regras para o período de permanência na Universidade”, tentam escancarar e manter abertas as portas de um processo de negação das conquistas trabalhistas, da estabilidade no emprego, para impor o “padrão” da rotatividade e habituar o espírito dos trabalhadores à terceirização da força de trabalho.

Com o processo de sumárias demissões em massa de funcionários da Universidade de São Paulo, inaugurado com as 270 demissões de funcionários aposentados pelo INSS que continuavam o exercício de suas funções, Rodas e toda a burocracia acadêmica que se oculta atrás de suas medalhas – como o diretor de Recursos Humanos da USP, Joel Dutra, direto co-responsável pela efetuação das demissões – não deixam nada para a imaginação no que concerne ao que querem dizer com a “fluidez” e o “dinamismo” que “a modernização da universidade requer.”

Na entrevista mencionada acima, Rodas por ele-mesmo:

 

Estava há pouco meditando sobre um número que me preocupa: se nós somarmos, temos 80000 alunos na universidade, temos quase 6000 professores e 17000 funcionários; temos por volta de 23 mil pessoas (não estamos contando aqui os terceirizados)” é claro que não, sr. Rodas! Quem os conceberia como “pessoas”?, “somados os funcionários docentes e não-docentes na universidade temos, na percentagem de funcionário/aluno, 3/3,5 funcionários para cada aluno, uma das maiores percentagens consideradas as universidades de todo o mundo.”

 

Donde conclui:

 

“A universidade [USP] tem muito a progredir nesse sentido.” (!!)

 

Essa rotatividade alucinante dos postos de trabalho; a descartabilidade do trabalhador em todos os âmbitos da produção; a aptidão para demitir mais facilmente e com menos ônus para a instituição; a redução draconiana dos gastos com força de trabalho para os que ficam, com contratação por menores salários para os que vêm; a conseqüente substituição de postos efetivos por postos de trabalho dominados pelas fraudulentas empresas de terceirização; a humilhação dos trabalhadores lançados inescapavelmente ao desemprego, à fome e ao desespero junto a suas famílias; a ocupação em regime de meio período, com correspondente decréscimo salarial, em cada cume das crises cíclicas do capital; a exploração calejadamente selvagem que não termina até que haja sequer um músculo, um tendão, ou uma gota de sangue restante dos quais extrair uma prudente economia, devorando parte importante do que escoa dos impostos públicos; a vívida memória para os trabalhadores que, demitidos, carregam sua saúde integralmente arruinada para onde quer que vão, incapacitados para engajar outro ofício. A isso Rodas chama “dinamismo”, e é precisamente esse dinamismo que o REI-tor da lei marcial quer vorazmente implementar no funcionalismo da universidade pública em geral, e na USP, em particular.

E para Rodas, esse “sentido em que progredir” segue o exemplo dos excessos impostos aos trabalhadores fora dos espessos muros da universidade. A dinastia do PSDB no governo do estado, na mesma medida em que “denuncia” desavergonhadamente o excessivo gasto público e ajuda Dilma Rousseff e o PT a preparar a opinião pública burguesa para os ajustes fiscais e cortes orçamentários – argumentando que o descontrole nas despesas do governo está na raiz de muitos dos atuais indicadores negativos, salivantes pelo pagamento dos credores da dívida pública – o tucanato, na figura de José Serra, aumentou os gastos com mão-de-obra terceirizada em 372% no estado de São Paulo, no período de 2005 a 2009. A expansão dos encargos com a contratação de serviços terceirizados superou não apenas a inflação do período, mas também o crescimento da economia, parâmetro que serve de base para a arrecadação de impostos e outros tributos. Empresas que fornecem mão-de-obra para limpeza receberam, no período de 12 meses encerrado em novembro, quase R$ 500 milhões, 77,5% acima do volume do final da gestão anterior de Geraldo Alckmin.

 Este último amigo de Rodas tomou a cifra de seu predecessor como um desafio a sua devoção de classe. Alckmin elevou os gastos com a contratação de serviços terceirizados em taxas ainda superiores às de José Serra. O aumento dos gastos públicos permanentes em taxas superiores ao do crescimento da economia só tem sido possível no país porque a receita também tem subido mais que o PIB – em outras palavras, graças ao aumento da carga tributária.

Nomeado interventor na USP por José Serra, o poderoso servo Rodas tem metas a cumprir e parâmetros a zelar; a despeito da aguardada resposta dos trabalhadores da USP e do Sintusp, Rodas tratou de adotar a euforia inteiramente desumana por exploração, que fora das muralhas da universidade já é usada pelos capitalistas para pisotear todos os requisitos da sociedade civilizada. Sem essa irrestrição exploratória, O REI-tor não poderia prostituir o terreno público para a entrada triunfal dos rufiões do capitalismo internacional, como tanto sonha. Na entrevista citada, Rodas diz que “é necessário incentivar os pólos tecnológicos abertos às empresas privadas. São algo da realidade, elas mostram o futuro. A escola pública com verbas estritamente públicas é algo terrivelmente ultrapassado.”

A burguesia paulista, opressora e parasitária, deu a Rodas a tarefa fundamental de “pacificar” a USP em 2010; e, impedido de lançar mão de recursos mais ou menos engenhosos, geralmente ilícitos, em relação ao combativo Sindicato dos Trabalhadores da USP, apelou à “modernização.” Da mesma maneira como recorreu à modernização na Faculdade de Direito em 2007 – quando solicitou, na madrugada do dia 22 de agosto, a moderna entrada da tropa de choque da Polícia Militar para repressão e expulsão de estudantes e manifestantes do MST, – assim como fez repicar as primeiras badaladas da modernidade na USP em 2010 – quando ameaçou cortar integralmente os salários dos trabalhadores, que ainda não haviam entrado em greve, e multar cada um deles em R$1000 a cada dia paralisado, pelo “flagrante delito” de responder ao ataque desferido por Rodas ao quebrar a isonomia salarial entre funcionários docentes e não-docentes, existente há décadas; com o que não podemos acusá-lo de falta de pioneirismo – esse imperador sem coroa assim também trata de modernizar a virada de ano com a inauguração em primeira mão da escalada das demissões em massa de trabalhadores aposentados, que contavam com o apoio previdenciário de apenas 60% de seu salário para compor sua receita insuficiente. E tudo isso com o toque autocrático de haver decidido as demissões em “gabinete restrito”, sem sequer comunicar a diretoria das unidades sobre a ação de despejo.

Esse modelo de “modernização” é veiculado pelo projeto de universidade de toda a burocracia universitária uspiana, de vender a USP com cada vez menos empecilhos à pirataria do capital privado que, como Rodas, concebe os seguintes “instrumentos essenciais para a USP continuar a ser a melhor: laboratórios, bibliotecas digitalizadas, internet de primeira categoria: isso é que deve ser a universidade2. Não há espaço para os trabalhadores nesse projeto de universidade! Tal modelo é tão moderno quanto o eixo das discussões educacionais nos anos ’30, em que também partia-se da idéia de que o país deveria ter uma grande base de formação técnica especializada para fornecer mão de obra qualificada e prometer “sólida” empregabilidade a classes desfavorecidas, enquanto por outro lado bolsões de formação ‘humanista’ seriam criados para uma elite que teria como função a reprodução de si mesma.

Não há nada novo na redução do espectro das pesquisas universitárias aos interesses imediatos dos grupos econômicos hegemônicos; pintar essa façanha como “a mostra do futuro”, como a “irresistível modernidade”, que se ergue contra “as minorias muito grandes (sic) que se rebelam contra a mudança”, é que é uma falcatrua verdadeiramente original.

É necessário discutir com todos os trabalhadores, e com toda a população, a realidade efetiva das coisas sobre a questão das aposentadorias. A aposentadoria integral é um direito democrático elementar (ainda não conquistado, já que o fator previdenciário aprovado no governo Lula limita à metade os salários dos aposentados) para a imensa maioria da população que dedicou a maior parte de suas vidas à realização de um ofício. Não podemos ser iludidos com o preconceito burguês de que o aposentado ativo é um inválido ganancioso: essa é a acusação da mesma classe que apregoa que quanto mais rápido o trabalhador aumenta a riqueza do capitalista, mais ricas serão as migalhas que cairão para ele, e mais favoráveis serão as condições sob as quais lhe será permitido novamente trabalhar até à exaustão quanto mais rápido se multiplicar a riqueza burguesa. Esse processo de demissões se torna ainda mais repugnante pela tentativa de estabelecer com um fato o preconceito contra os trabalhadores aposentados, sucesso que garantiria a separação da classe operária frente a um inimigo que está sedento por obter anos e anos de servidão.

Rodas é também um aposentado. Quanto custa sua aposentadoria à universidade e aos cofres públicos? Por que ele pode ser aposentado e continuar “trabalhando” (já vimos em que esse trabalho consiste) como REI-tor? Donde vem esse desprezo pelos aposentados, em meio a uma política que aumentou as verbas para a terceirização em 85% em comparação com a gestão anterior, sabendo-se que os trabalhadores terceirizados não possuem direito à aposentadoria? E quanto à orientação do REI-tor, inimigo dos aposentados, que fez o Conselho Universitário da USP aprovar uma medida que permite que professores sigam dando aula na universidade depois dos 70 anos, idade da aposentadoria compulsória?

Todo esse cinismo da reitoria deve ser combatido pela unificação concreta e organizada de todos os trabalhadores demitidos, terceirizados e efetivos pelos seus direitos e pelos direitos daqueles companheiros que não possuem nem o mais elementar, como é o caso dos terceirizados. Quanto mais a burguesia e seu regime de dominação de classe afunda, mais cobiçosa e selvagem se torna. Nesse período de crises respiratórias graves da economia mundial em geral, e do regime burguês no Brasil em particular, ao que se acrescentam às demissões da USP as renovadas enchentes que, por meio do descaso assombroso e inadmissível dos governos de Sérgio Cabral e Dilma Rousseff, anunciam novas tragédias ao povo pobre e trabalhador do país e o abandona a sua própria sorte; à bestial repressão da tropa de choque da Polícia Militar contra estudantes e trabalhadores que lutam contra o aumento mais que abusivo dos custos do transporte público em São Paulo; é necessário preparar-se para este momento com um audaz e sistemático trabalho revolucionário e fazer com a burguesia trema diante do pagamento minucioso de cada um dos seus sucessivos crimes contra a população.

 

 

1Todas as alegações de Rodas podem ser ouvidas no podcast da entrevista concedida no site da USP, pelo link: http://www.usp.br/imprensa/?p=6539.
2Entrevista de Rodas mencionado, no site da USP.
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