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As ondas populares engolem os autocratas do Magreb e começam a emborcar os elos débeis do capitalismo mundial

por André Augusto

 

O ano de 2011 inaugurou uma poderosa primavera árabe na região do Magreb, no norte da África, com massivas mobilizações que tratam de transformar países como a Tunísia, o Egito, o Iêmen, entre outros, do Oriente Próximo ao Oriente Médio, nos atores pioneiros no teatro mundial de grandes batalhas de classe contra as amplas penúrias das massas e a degradação das condições de vida trazidas pela crise econômica mundial em curso. A ativação da ira acumulada da população árabe da região, por parte de vários setores sociais – com marcada predominância da juventude desses países – que se aglutinam pelo ódio comum aos velhos regimes autocráticos – altamente corruptos e pró-imperialistas – não dá sinais de desaceleração mediante as manobras de desvio e os embustes institucionais lançados pelos regimes, o que começa a elevar o grau de apreensão dos centros imperialistas, responsáveis pela manutenção desses regimes ditatoriais que asfixiam há décadas a participação política das massas e suas aspirações mais elementares.

Iniciada com a queda revolucionária do apodrecido regime ditatorial de Ben Ali na Tunísia, essa primavera árabe transcende suas fronteiras, e seu efeito contágio teve desde o início enorme impacto em todo o Oriente Médio e no norte da África (e ainda tem, com emergentes mobilizações no Iêmen, na Arábia Saudita, em Marrocos, na Jordânia), região infestada por regimes autocráticos que há décadas asseguram uma estrutura política ditatorial capaz de garantir as condições sociais de pauperismo e super-exploração de suas classes trabalhadoras, em função do essencial do capitalismo da região, dos negócios das débeis burguesias nacionais, e principalmente dos acordos de submissão imperialista em relação aos EUA, à França e ao restante da UE.

Tudo está em pleno desenvolvimento e há que ver o curso ulterior dos acontecimentos. Mas, apesar de a imprensa das “democracias” degradadas do ocidente tentarem constranger o conteúdo de classe do processo, apressando-se em amaciar os primeiros passos na recomposição subjetiva da classe operária e do povo oprimido da região nesses grandes acontecimentos históricos com nomes inofensivos – e ligando os desejos imediatos das massas com a fatal “modernidade” de suas democracias imperialistas – esses processos abertos podem trilhar a via do arraigamento gradativo no seio do proletariado do Magreb, se a situação continua a operar as contradições evidentes expressas na incapacidade tanto do Governo de Unidade Nacional na Tunísia quanto da oposição burguesa árabe no Egito em solucionar os problemas vitais para a classe trabalhadora e o povo pobre.

A preponderância da crise capitalista como disparador da insatisfação que se gestava há muito na região é o principal fator limitante para o estancamento da profunda crise social; o rodeio dos gabinetes e ministros só podem ter um caráter cosmético, pois em nada atenderão qualquer demanda econômica básica, muito menos as demandas mais estruturais relacionadas à garantia de emprego e moradia dignos. Esse quadro de pauperismo, submissão e miséria, “organizado de maneira genial” pelos regimes pró-imperialistas, não pode remodelar-se por fora de um acirramento da luta de classes. Para além de como finalmente se resolvam as explosões desatadas, de variantes ainda indefinidas e abertas, não acontecerão sem deixar marcas profundas nas relações entre as classes dos países semi-coloniais dos países imperialistas, e seguramente ferirão de morte o quadro atual dos regimes políticos (o tempo da agonia dependerá da dinâmica que adquira o atual processo político e a velocidade dos acontecimentos).

Hoje, a crise mundial abre uma nova situação em que as contradições acumuladas que se relacionam com o caráter histórico da crise assentam as condições para uma mudança na relação de forças, de signo ainda indefinido, mas que recoloca a vigência da época imperialista, de crises, guerras e revoluções.

Os protestos na Tunísia contra o governo de transição e as históricas manifestações no Egito

O levante popular que terminou com a queda revolucionária de Ben Ali e que ainda está em curso, expressa o fracasso de um regime neoliberal e pró-imperialista, como efeito da crise econômica internacional que pôs fim ao crescimento sustentado da Tunísia a partir de 2008-2009, o que se combinou com a elevação dos preços dos alimentos e dos combustíveis devido ao aumento dos preços das matérias-primas, o que havia disparado rebeliões de fome no Egito e em outros países da região.

A partir do estouro da crise mundial em 2008, a catástrofe financeira global somou-se a um processo de privatizações que, iniciado pausadamente a meados da década de ’80, degenerou em uma concentração descomunal de poder econômico em pouquíssimos bolsos. Até 2009, o investimento estrangeiro, ainda assim, marchava com violência: a França – com 1250 empresas só na capital – é o principal sócio econômico da barbárie nacional tunisiana, mas também Itália, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Países Baixos também contribuíram no esgotamento dos recursos e na exploração da força de trabalho. Depois disso, a inversão forasteira nos setores turístico, imobiliário, energético e agrícola despencou 33%. Isso se refletiu no desemprego: este situa-se em 13% na soma de todos os setores sociais, com 30% dos jovens sem qualquer tipo de renda fixa.

Em meio a esse cenário catastrófico, o governo interino de Fuad Mebaza mantém intacto o reacionário Estado de Emergência no país, segundo o qual não poderá haver reuniões de mais de três pessoas e em que as “Forças da Ordem” burguesa poderão disparar contra qualquer pessoa que acharem por bem ser suspeito, ou que não obedeça às ordens. Assim, os carrascos ex-partidários de Ben Ali mostram em que esfera “todos os tunisianos, sem exceção, tomarão parte do processo político”: por trás do discurso do regime de “paz social” e “sensibilidade patriótica e unidade”, as Forças da ordem burguesa continuam assassinando jovens desempregados e trabalhadores tunisianos de maneira selvagem. Em meio à demagogia do “garantidor da revolução popular”, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Rachid Ammar, o Exército continua fazendo rondas nas ruas vigiadíssimas da capital para capturar e executar “suspeitos”. A série continuada de protestos custou a vida de mais de 70 tunisianos (fontes oficiais), o que tampouco serviu para deter a repressão oficial. Enquanto Mebaza e Ghannuchi fazem o possível para levar sorrateiramente a luta de classes para o plano eleitoral, é bastante pouco provável que a mudança governamental com a criação de mais um gabinete – mera substituição no poder das diferentes camarilhas da mesma classe dirigente – consiga aplacar a situação: os protestos não vão simplesmente contra a participação do RCD (partido do ex-ditador) no governo, mas também exigem a dissolução do ex-partido benalista e a renúncia do Premiê Ghannuchi, questionando objetivamente as próprias bases do velho regime.

A principal cartada do grosso da burguesia tunisiana (o novo governo, o Exército, e a oposição moderada) – além do imperialismo – consiste hoje em apostar numa “transição para a democracia”, ou seja, numa contra-revolução democrática que altere a fachada do regime de escravidão assalariada, pela qual colocará a salvo seus suculentos negócios e os acordos de espoliação com o imperialismo. Não obstante, a falsidade das primeiras intentonas de “democratização cosmética” faz com que o movimento de massas mantenha um rechaço frontal ao governo de Unidade Nacional de Ghannuchi e à manutenção do ex-partido de Ben Ali.

Um dos obstáculos mais profundos a essas tentativas de contra-revolução democrática reside na debilidade extrema daquelas que foram as mediações tradicionais no mundo árabe, seja o nacionalismo burguês laico, ou a ala burguesa islâmica. A ausência do islã político, como mediador no tabuleiro da luta de classes é a manifestação de quão pouco seu caráter reacionário pode oferecer à juventude e às massas tunisianas, com seu caráter eminentemente burguês e adaptado ao regime. Sua aparição não está descartada caso os trabalhadores tunisianos não tomem em suas mãos o destino do país: as alternativas burguesas laica ou islâmica se prepararão para capitalizar a revolução e levá-las a alguma “transição política pactuada” com o regime, como ora acontece mais pronunciadamente no Egito. Contra elas, há que começar a propor um programa político aos distintos agentes da contra-revolução democrática na Tunísia.

Nos últimos eventos, a burocracia da central sindical da União Geral Tunisiana dos Trabalhadores terminou levantando a greve geral por tempo indeterminado do sindicato docente, que tinha sido acatada de forma quase unânime em todas as escolas do país. Por conta das intervenções liquidacionistas da burocracia, começa e desenvolver-se um processo de diferenciação e contestação entre as alas mais combativas da central sindical. Apesar de ser anunciada como o eixo central da transição política, a burocracia da UGTT por muitos anos obedeceu submissa e calada o regime de Ben Ali, seus altos funcionários têm laços estreitos com o partido do ex-ditador (há alguns anos, o Secretário Geral da central, Abdelsalam Jrad, apoiou a reeleição de Ben Ali), e agora teme que as greves se convertam em coluna vertebral da oposição ao governo de transição, que hoje aposta em reformas cosméticas e em negociatas com as mesmas Forças Armadas que continuam a assassinar a juventude trabalhadora tunisiana.

O Secretário Geral adjunto, Abed Briki, chamou recentemente à calma institucional: “Não é o momento de expulsar os diretores de organismos públicos porque há que preservar a estabilidade”. Contra esses desejos piedosos para que os “protestantes voltem às suas casas”, a pressão das bases operárias segue sendo muito alta, como testemunha a greve geral que começou a paralisar, a 26/01, a segunda cidade do país, Sfax, o pulmão econômico da Tunísia.

Contra a falsa democracia que promoverá o imperialismo e as distintas alas da burguesia tunisiana devemos opor a única saída verdadeira e autenticamente democrática, rompendo com os “ditadores menos rudes” do RCD que ficaram e com as alas burguesas laicas e muçulmanas, que passa pela convocatória de uma Assembléia Constituinte capaz de rediscutir as próprias bases do país sobre as ruínas do regime benalista e os acordos de submissão imperialista à França e à UE. Esta Assembléia Constituinte só pode ser convocada por um Governo operário e popular composto pelas mesmas pessoas que foram o motor revolucionário da queda Ben Ali nas ruas, baseado nos comitês de greve e de auto-defesa, definitivamente independentes do Exército tunisiano.

O desenvolvimento do processo revolucionário aberto na Tunísia ganha um impacto extra e outro grau de importância, muito superior, com o desencadeamento dos protestos egípcios.

Mobilizações históricas no Egito: breve histórico

O manto suntuoso do liberalismo foi despido e o mais asqueroso despotismo está aí, em toda a sua nudez, diante dos olhos do mundo inteiro. Em relação á Tunísia, é um salto de qualidade enorme as mobilizações terem se deslocado para um país chave dentro dos interesses do imperialismo.

Desafiando o estado de sítio em vigor desde 1981, milhares de manifestantes se enfrentaram com a polícia no Cairo, em Alexandria e em Suez, exigindo a renúncia de Mubarak, no poder há 30 anos. Pôde-se ver pelos vídeos que a repressora polícia, que há poucos instantes havia assassinado um jovem na rua, retrocedia por toda a ponte do Rio Nilo enquanto confrontava-se com a população enfurecida pelos massacres; além das imagens patéticas desses agentes da burguesia atirando na população protegidos dentro dos blindados, e em seguida fugindo com o veículo da perseguição popular. Em Alexandria, os depósitos de armas das delegacias centrais foram tomadas, os edifícios incendiados e o prédio da sede do partido governante foi incendiada e tomada. Em Suez, a polícia acossada foge da praça central e abandona veículos blindados que ficam à mercê dos manifestantes.

Esse inusitado desenvolvimento do ascenso popular no Egito, para além de ser um subproduto dos efeitos catastróficos da crise econômica mundial em curso e da degradação das “democracias” ocidentais, tem seus antecedentes no surpreendente ascenso de uma das classes operárias mais poderosas da região: a classe operária egípcia. A chamada “crise do pão” de 2008 teve sua origem no aumento espetacular registrado nos preços deste componente básico da dieta da maioria da população. O preço – apesar de subsidiado pelo estado – aumento em 50%. Isto produziu um desabastecimento e inclusive longas refregas entre os habitantes que procuravam um pedaço de pão, o que deixou centenas de feridos e mortos numa guerra de pobres contra pobres. A isto, pode-se somar uma inflação que elevou às nuvens outros insumos vitais, além de disparar os preços dos aluguéis, o que perdura como um problema estrutural em que milhares vivem nas ruas sem um abrigo.

Aquela greve era o desenlace de mais de um ano de distintas experiências de luta que travava a classe trabalhadora egípcia. Somente nos três primeiros meses de 2008, produziram-se 389 greves e protestos em todo o país. As cimentadoras, os ferroviários, os condutores de metrô e várias fábricas do ramo têxtil acompanhavam a greve dos operários da planta têxtil de Mahalla, o que não é pouco se se tem em conta que o regime de Mubarak governa com o estado de exceção desde 2004. Mais importante ainda é que a vanguarda das greves eram as mulheres trabalhadoras, uma vez que a mão-de-obra nas tecelagens era fundamentalmente feminina.

O profundo descontentamento social, a onda de greves e as reivindicações por liberdades políticas foi uma resposta ao reacionário e pró-norte-americano regime de Hosni Mubarak que governa o país desde 1981.

O Egito, país semi-colonial do norte da África, é um país geopoliticamente estratégico na junção do Oriente Próximo ao Oriente Médio. Sua importância para o controle da instabilíssima região é inestimável. Transformou-se sob o atual regime no segundo receptor de ajuda econômica e militar por parte dos EUA (com aportes de U$1.300 bilhão por ano, ficando atrás do assassino estado sionista de Israel). Cumpre lembrar que os EUA sustentou a ditadura de Mubarak desde 1980, tendo íntima influência na ascensão dos três presidentes egípcios após a queda da monarquia, há 60 anos, (Nasser, Sadat, Mubarak), todos eles saídos das fileiras do Exército. Por sua posição estratégica na região – controlando o Canal de Suez, dando acesso ao Golfo Pérsico a uma rota marítima para o comércio e distribuição do petróleo de toda a região – sua diplomacia é funcional tanto à política dos EUA quanto à do racista estado de Israel para a manutenção do controle estável no Oriente Médio, (o Egito foi um dos primeiros países a reatar relações com Israel em 1979), maior região petrolífera a nível mundial. Nesta última década aplicou uma política econômica neoliberal, que fez imergir na miséria a grande maioria dos trabalhadores, levando ao desemprego 20% da população economicamente ativa, enquanto um quarto da população (de 80 milhões de habitantes) vive com apenas dois dólares diários.

O principal partido de oposição política a Mubarak, a Irmandade Muçulmana, organização infectada com uma ideologia teocrática islâmica conservadora, embora recompondo parcialmente seu prestígio nos últimos dias integrando o movimento de oposição a Mubarak encabeçado pelo ex-chefe do Organismo Internacional de Energia Atômica, Mohammed El-Baradei, deixa de ter hoje uma influência decisiva enquanto direção canalizadora do processo revolucionário em curso no Egito justamente por sua atuação reacionária nas greves de 2007-2008, negando-se a apoiá-las com o objetivo de estabelecer um Estado Islâmico opressor, mostrando mais uma vez seu profundo desprezo pelo movimento operário e suas lutas e representando um setor da burguesia egípcia deslocada dos negócios de Estado.

Esta “oposição” se posiciona estrategicamente por uma transição pactuada e pacífica que não envolva o elemento da luta de classes como motor destronador do regime, planificando a mudança por dentro do regime de exploração dos trabalhadores e do povo. “Mubarak precisa sair hoje, para que se produza uma transição suave a um governo de unidade nacional”, diz El-Baradei (El País, 31/01). El-Baradei, ainda que não seja visto com simpatia pelo imperialismo – por conta de suas atuações na OIEA, em que criticava os EUA por suas alegações fraudulentas acerca da existência de armas nucleares no Iraque – e estar muito aquém de servi-lo (unindo a Irmandade Muçulmana em seu séquito de oposição ao aliado íntimo dos EUA, Mubarak), se ergue, desde já, como inimigo direto da classe operária e de seus interesses históricos, desempenhando o papel exclusivo de adormecer com frases sonoras a vigilância e a atenção do povo oprimido e da classe trabalhadora.

Últimos eventos no Egito

As jornadas de mobilizações continuam massivas no Egito; o último chamado foi para que se conformasse, a 1/02, uma marcha de 1 milhão de pessoas contra o regime ditatorial de Mubarak. O líder opositor, e nome para o imperialismo, El-Baradei, instou ao presidente, após dizer que Mubarak foi “muito importante em outros períodos no Egito” (!!), que se deponha para que evite (!!!) um “banho de sangue”. Evitar um banho de sangue, quando há já mais de 300 mortos em uma semana de conflito! Isso deixa escancarado os interesses da “oposição” por uma transição tranqüila por dentro do regime. Esta oposição formal se encontra empestada de agentes burgueses e conservadores (empresários, líderes sindicais, comerciantes, intelectuais burgueses, políticos notáveis) que se aproveitam dos protestos para que, com seu apoio, coloquem-se à cabeça deles como possíveis “alternativas políticas”, de modo a impedir demasiada independência das massas. Tentam desesperadamente evitar uma auto-organização das massas e sua radicalização a limites estrangeiros ao regime burguês. Ontem, 1/02, convocou-se uma greve geral para todo o país.

Enquanto no caso da Tunísia, Barack Obama e o governo norte-americano “aplaudem a dignidade e a coragem dos tunisianos”, um aplauso trovejante que soa “Ordem!”, repreendendo nas massas tunisianas justamente aquilo que as fez merecedoras do aplauso, no processo aberto no Egito não pode deixar de despir a aparente frieza. O Egito é o portal dos EUA na região, berço do nacionalismo árabe na região e referência chave na geopolítica entre o Oriente Próximo e o Oriente Médio. O ditador Mubarak é um aliado ímpar para sua política no Oriente Médio. É a partir dessa posição que o imperialismo norte-americano condensa uma das mais importantes bases militares donde lança as escaramuças genocidas de rapina contra os povos do Afeganistão, do Iraque e da Palestina. É exatamente aqui que encontramos o seu apoio “às aspirações democráticas dos povos”. O próprio Obama chama “todas as partes a se conterem e evitar a violência”, sendo “o melhor caminha a transição pacífica”, tratando cuidadosamente de não interpelar Mubarak após sua alocução nacional dizendo que se manterá no cargo até as próximas eleições, e que pilotará a transição hipotética com o devido “ordenamento”.

Isso leva os agentes imperialistas a se ocuparem com a preparação reacionária da opinião pública para aceitarem sem maiores contradições o respaldo velado que Washington segue ministrando ao regime de Mubarak. Robert Kaplan, secretário do Centro de Segurança Nacional norte-americano, chega a declarar: “Em termos de interesses americanos e de paz regional, há muitos riscos na democracia […] Um autocrata firme no comando pode fazer concessões mais facilmente do que um líder eleito, porém fraco” (The New York Times, 30/01). A preocupação se objetiva no aumento da cotação do barril de petróleo nas Bolsas de Valores de todo o mundo.

Como dissemos acima, El-Baradei adotará uma política social-democrata para o Egito, brigando com Mubarak para saber quem realmente irá conduzir uma transição pacífica e ordenada para uma “democracia burguesa” num país semi-colonial, como pedem os imperialismos norte-americano e europeu. Nem publicamente, para efeitos de ilusão, seus discursos diferem no objetivo final. Essa é a manifestação escancarada de que, apesar dos distintos níveis de desacordo político e diplomático das alas burguesas islâmicas – e inclusive laicas – com o imperialismo, sobre com que meio se implementarão as mudanças simplesmente cosméticas e sobre quem as fará, não deixam de estar por dentro de seus interesses comuns de classe capitalista: estão de acordo em prevenir a classe trabalhadora de intervir no processo revolucionário aberto de maneira independente, prontos para aceitar qualquer tipo de brutalidade para fazê-lo.

Acampados para resistir

A aposta em maior conta dos EUA e de Israel (este, muito inquieto por sua segurança numa era “pós-Mubarak”) é que Omar Suleimán, chefe de inteligência do Exército egípcio e que dirige os serviços secretos, pilote a transição pacífica, pois tem a confiança tanto de Obama quanto do primeiro Ministro israelense, o sionista Netanyahu. Este já se mostrou temeroso de que a queda de Mubarak traga perigo à hegemonia bélica israelense na região, e abomina os pensamentos de que o processo revolucionário no Egito se alastre para o Oriente Médio (em que administra negócios bilionários com a submissão dos palestinos à fome e à miséria, com a rede de controle do petróleo e o tráfico de armas). A solidariedade prestada a Mubarak pela Autoridade Nacional Palestina, através de Mahmud Abbas, não é menos escandalosa. Ao invés de solidarizarem com as massas exploradas árabes os líderes árabes se solidarizam com os as burguesias árabes! Essa Autoridade Palestina que tem íntimas relações com o Exército e as forças de segurança israelenses, que renunciou de maneira traidora ao direito de retorno dos próprios refugiados palestinos, e que, segundo revelaram documentos secretos publicados, aceitou a anexação, por parte do estado de Israel, dos assentamentos na zona ocupada de Jerusalem desde a guerra de 1967, ainda que sob constituição internacional sejam considerados ilegais.1

Por estas razões, os candidatos do “novo” governo burguês, que seria a reedição com vários dos mesmos componentes do velho regime ditatorial, e que portanto recebe o apoio velado ou escrachado do imperialismo e de seus agentes corruptos, não merecem nenhuma confiança por parte da classe operária egípcia e do povo oprimido, pois confirmam e ratificam os tratados vergonhosos de sujeição travados pelos governos militares que se sucederam e culminaram com Mubarak, enganam o povo, e organizam exemplarmente a fome, o desemprego, a falta de condições mínimas de sobrevivência, do povo egípcio.

O prestígio do Exército egípcio e suas contradições

Apesar do prestígio que o Exército encontra nos olhos das massas, seus altos escalões e comandantes militares possuem conexões muito profundas com o regime de Mubarak. Nos últimos dias, trata de avançar algumas manobras que possam se combinar estavelmente na mente das massas com as declarações sonoras que emitiu acerca de como o Exército não “reprimiu nem reprimirá nenhuma manifestação de métodos pacíficos” e que “está ao lado do povo”. A 2/02, começava a permitir a entrada de elementos leais ao regime de Mubarak na praça Tahrir, onde se concentra o grosso dos manifestantes contra o atual governo. O desencadeamento de ferozes conflitos, com dezenas de feridos, entre os dois campos restaurou a necessidade de intervenção militar, agora coberta pela demagogia de “política de segurança para a população”.

A continuidade da confiança que goza entre a população possibilitou que o porta-voz do estamento militar declarasse aos manifestantes que se opõem ao regime que retornem a suas casas, pois sua mensagem já foi escutada e suas demandas já são conhecidas. “As Forças Armadas vos chamam. Começastes saindo às ruas por vossas demandas e sois os únicos capazes de recuperar a vida normal”. Esse afã pela calma e pela “normalização da vida” desconhece completamente as condições especiais por que não se pode alcançar uma normalização da vida agora. Nada tem a ver com uma “defesa da revolução egípcia”, muito menos esse alto escalão coloca em xeque a política efetiva real seguida pela burguesia egípcia.

Esse chamado para que os manifestantes abandonem as ruas cumpre um papel fundamental de sustentador do regime ditatorial, além de fazer as massas egípcias terem esperanças irrealizáveis numa pretensa “transição pacífica”, impotente para deter a marcha das agruras sociais oriundas de um regime sumamente reacionário, cujo aparato de polícia política teve de se esconder para que se não o linchassem nas ruas, e ao qual o Exército está intimamente vinculado. Essa localização dos altos cargos de comando deve ser evidentemente diferenciada da posição dos soldados de baixa patente, com setores sinceramente simpáticos ao povo.

A conquista de frações do exército para o lado da revolução é vital para a consumação da greve geral insurrecional pela ação centralizada da classe operária a partir de seus organismos de auto-determinação em conjunto com os soldados, para a imposição violenta da ruptura com a chacina imperialista, para a derrubada do poder escravizante do capital (provocador de imolações e batalhas de pobres contra pobres), para a passagem do poder de Estado para outra classe, para o proletariado.

As tarefas da classe operária egípcia que derivam da situação internacional de crise histórica do capitalismo

A explosão egípcia não caiu do céu; como dissemos, desde anos ela se encontrava “no ar”. O processo revolucionário aberto na Tunísia foi mais o catalisador do que o instigador das atuais mobilizações de protesto no Egito. Tudo está em pleno desenvolvimento e há que ver o curso ulterior dos acontecimentos. A tensão política no Egito coloca o regime de Mubarak em xeque: resta saber qual variante se prova como desenlace mais oportuno, em seu momento, para as forças em luta. A existência de uma débil burguesia liberal autóctone impede que se enraízem regimes democráticos estáveis, como mostra a história egípcia no século XX, marcada por regimes autoritários de viés bonapartista sui generis, como o de Nasser, ou de direita, como o de Sadat. Se a situação segue evoluindo, e as massas seguem nas ruas, com crescente despertar político acerca da unidade entre seus anseios estruturais e a maneira de implementá-los, um desvio democrático torna-se muito difícil. As variantes mais prováveis a longo prazo são ou um salto no avanço da revolução proletária, ou um golpe sanguinário do imperialismo.

Sem um partido marxista revolucionário arraigado no proletariado e na juventude que ofereça às massas uma alternativa política autenticamente independente de qualquer facção burguesa, é impossível que o processo revolucionário aberto no Egito triunfe até o final. Pelos inimigos que enfrenta, as tarefas das massas vão muito além da derrubada das alas burguesas nacionais: há mil laços que unem estreitamente a classe representada pelo governo Mubarak com o capital financeiro dos EUA, da Inglaterra, da França, laços que exigem a ruptura com o imperialismo. As reivindicações democráticas (liberdade de expressão, de organização, greve, etc.), as reivindicações transicionais (expropriação e passagem das terras existentes no país para as mãos do poder central do Estado; escala móvel de horas de trabalho para que todas as pessoas disponíveis tenham emprego, por exemplo) e as tarefas da revolução socialista não estão separadas por etapas históricas distintas, mas surgem imediatamente ligadas umas às outras sob as cadeias gerais da dominação imperialista mundial.

Por isso, é importante conseguir medir qual a interferência da classe trabalhadora na direção desse processo e a expressão política que dá a seus interesses de fato, a partir do grau de maturidade alcançado por esses interesses históricos; se poderá dotar-se da consciência política justa no caminho da insurreição revolucionária contra a ordem existente, como se alargue as demandas democráticas para fora das mãos do regime governante e da oposição.

Para triunfar, a luta de classes aberta deve seguir o caminho da greve geral convocada de maneira unificada a uma Assembléia Constituinte Revolucionária a partir dos comitês de bairro para a auto-defesa contra os capangas de Mubarak, das comissões de fábrica através de delegados mandatados nas respectivas assembléias por locais de trabalho, prestando atenção máxima à iniciativa das massas, que podem sinalizar a modificação das formas de organização subordinadas ao caráter e aos tempos do movimento.

O embate contra Mubarak, que une os mais diversos setores de classe e distintas classes, é o primeiro momento de um processo revolucionário que deve ser permanente q que, se se aprofunda, representaria uma fissura enorme no domínio imperialista. É a razão pela qual defendemos a perspectiva da reconstrução de um partido mundial da revolução e suas seções nacionais, a IV Internacional.

O verdadeiro efeito contágio que se alastra como um rastilho de pólvora pelo globo é oriundo da crise histórica do capitalismo mundial, e da decadência da hegemonia imperialista norte-americana em particular a nível mundial, ambos que dão origem a situações inéditas na luta de classes que foram obscurecidos há décadas. O desvio democrático, para além de suas possibilidades, constitui um “avanço” para trás, para as mesmas condições que possibilitaram a manutenção de uma das ditaduras militares mais sangrentas da África. É forçoso ilustrar com o exemplo das “modernas” democracias ocidentais o caráter limitado, comprimido e mutilado do democratismo burguês, envolvido numa atmosfera de necessidade e miséria para as massas. O proletariado continua oprimido, as massas trabalhadoras – principalmente os imigrantes, mulheres e negros – escravizadas pelo capitalismo, cujos representantes europeus há pouco descarregavam onerosos planos de ajuste e de contenção de gastos nas costas dos trabalhadores e da juventude, de acordo com a hierarquia de papéis que cada imperialista desempenha.

O caráter combinado de seu desenvolvimento deriva de que esse país atrasado, como todos os outros, vive sob as condições da dominação mundial do imperialismo: reúne ao mesmo tempo as formas econômicas mais primitivas e a última palavra da técnica e da civilização capitalista. A política do proletariado de países atrasados como o Egito e a Tunísia está determinada pela obrigação de combinar a luta pelas tarefas mais elementares da democracia burguesa com a luta socialista contra o imperialismo mundial, sem deixar que as consignas burguesas sejam uma forca democrática para aqueles que só a utilizam para ultrapassá-la imediatamente com mais facilidade.

Os acontecimentos revolucionários no Egito terão impacto enorme sobre os imigrantes que atravessaram o Mediterrâneo e sobre a classe operária européia, um efeito sobre o estado de ânimo das massas a nível internacional como importante motor da acumulação subjetiva dos trabalhadores, que se reagrupam na luta de classes para avançar a demandas estruturais profundas em meio à desagregação das bases de dominação do capital em crise.

- Abaixo Mubarak e todas as variantes muçulmanas ou laicas de governos burgueses

- Abaixo a ingerência do imperialismo norte-americano! Contra o desvio democrático!

- Nenhuma confiança no chamado do Exército pela desmobilização! A mobilização segue!

- Por uma greve geral insurrecional que coloque a classe trabalhadora no centro da cena!

- Pela formação de comitês operário e popular de auto-defesa!

- Por uma Assembléia Constituinte Revolucionária composta pela iniciativa direta das organizações e pessoas em luta, como única forma de responder às demandas mais sentidas dos trabalhadores e do povo!

1- O mais escandaloso é o papel capitulador dos negociadores palestinos, que se queixaram ante os EUA (mediador entre a ANP e Israel), de não fazer os esforços necessários para bloquear os túneis que dão acesso do Egito à Faixa de Gaza, utilizados para o envio de ajuda aos palestinos que vivem lá em condições terríveis. Os documentos publicados colocam em primeiro plano o papel traidor da direção palestina, rifando milhares de vidas palestinas a Netanyahu e ao fascista Estado de Israel, e demonstram sua completa bancarrota e seu caráter pró-imperialista, convertendo-se em atores totalmente servis e lacaios do governo de Washington em uma aberta traição às aspirações democráticas do povo palestino. Ver artigo “El rol de la Autoridad Palestina al descubierto”, em http://www.ft-ci.org/article.php3?id_article=3361.
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