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A primavera árabe impõe um golpe para os Estados Unidos da América

por Thiago de Sá

 

A profundidade dos processos revolucionários no Egito e Tunísia mostram que as demais semicolônias árabes podem sofrer de um “contágio” generalizado que se abriu durante a queda do ditador da Tunísia Bem Ali e que agora tem seu epicentro no Egito. Diante da maior mobilização de massas que o Egito já passou desde 1952 o futuro do governo do ditador Hosni Mubarak continua incerto. A razão pela sua manutenção está na necessidade da burguesia egípcia e do imperialismo em salvaguardar o regime e em preservar sua posição estratégica conquistada naquele país.

Luta de classes que nasce da crise capitalista

As mobilizações no norte da África começaram em uma situação de desequilíbrio econômico em que os países centrais do capitalismo promovem uma guerra cambial através das “desvalorizações competitivas” do preço de suas moedas no exterior, para ampliar os recursos provindos da exportação a fim de equilibrar suas contas internas impactadas pela crise que se iniciou desde 2008 e que vem se desenvolvendo ao longo destes anos. Na presente conjuntura, esta “guerra cambial” motoriza as exportações e o comércio internacional de forma que se cria uma nova bolha de especulação sobre as commodities , elevando seus preços no mercado o que pressiona uma alta vertiginosa da inflação de artigos de consumo e primeira necessidade afetando principalmente o salário dos trabalhadores e abrindo maior espaço para instabilidade social nas semicolônias. Este fator impacta países que são especialmente frágeis a este problema inflacionário, foi justamente no Egito onde a alta carestia de vida provocou mobilizações operárias entre 2007 e 2008 na chamada “Crise do Pão”, onde se destacou o protagonismo da classe trabalhadora e de operárias têxteis. Devido ao processo revolucionário de 2011 que se desatou no Egito exigindo a queda de Mubarak, o preço do barril de petróleo chegou a ultrapassar os U$ 100 pela primeira vez desde o início da crise mundial em 2008, levando bolsas do mundo a registrar relativas baixas. A ameaça de greve geral e a possibilidade da queda de Mubarak podem não só retro-alimentar os efeitos econômicos negativos para o capital imperialista e para as burguesias nacionais árabes, mas principalmente ameaçará politicamente outros importantes agentes regionais do imperialismo nos regimes ditatoriais da região, como falaremos mais adiante.

A alta carestia de vida que foi a fagulha que incendiou o enorme palheiro da África do norte agora em 2011 também alimenta reflexos pontuais na América Latina, repercutindo nas mobilizações massivas contra o aumento do preço do gás em Magallanes no Chile, duras lutas na Argentina e também no Brasil em menor escala, provocando atritos entre as centrais sindicais e o novo governo Dilma a respeito do reajuste do salário mínimo. Desta forma enxergamos como são afetados de modo desigual os distintos países pela crise e como se desenvolvem respostas desiguais por parte da classe trabalhadora contra suas burguesias nacionais. Neste aspecto certamente os elos mais frágeis do capitalismo estão no Oriente Médio, com o processo revolucionário em curso, e na Europa, onde ocorreram o outono francês, e as demais mobilizações de massas na Grécia e Itália, sendo a luta de classes, pela primeira vez durante a crise capitalista, o seu elemento mais dinâmico. Esperamos os reflexos progressivos para a subjetividade da classe trabalhadora mundial que este processo inédito no mundo pós-restauração capitalista poderá desenvolver nos países que voltarão a estar no olho do furacão da crise capitalista no próximo período.

O Egito do protagonismo nacionalista árabe a semicolônia do imperialismo ianque

O Egito é uma peça chave da política imperialista na África e nos países árabes de conjunto, sendo desde o período pré-capitalista no século XVI até os dias de hoje uma rota comercial e militar de importância geopolítica estratégica. O Egito além de ser um dos países mais industrializados da região possui um poderio militar de destaque e detêm em suas fronteiras o Canal de Suez, rota fundamental para o transporte marítimo ligando o mediterrâneo a toda a região do Golfo Pérsico, do Oceano Índico e Pacífico, sendo responsável por transportar grande parte da riqueza produzida na China, Índia, Coréia do Sul, Japão e Oriente Médio para os países capitalistas centrais principalmente da Europa e de todo o ocidente. Em Suez transporta-se em média 2 milhões de barris de petróleo por dia, grande parte da exportação de petróleo de todo o Oriente Médio.

Pela sua localização e por possuir o maior contingente operário da região, o Egito é um país em que se torna fundamental o estrito controle econômico (e por esta via político) para que o imperialismo estadunidense consiga chantagear os demais países árabes. Sem esta correia de transmissão de Washington, todos os esforços militares no Iraque, políticos no Oriente Médio e principalmente em Israel, correm perigo de se inverter contra a agenda dos EUA, das empresas monopólicas da produção e comércio de petróleo e na corrida de velocidades dos EUA com outras potências imperialistas ou potências regionais como Irã e China.

Desde a morte de Nasser e a ascensão do governo de direita de Anwar Sadat , o Egito é juntamente com a Arábia Saudita -e outros estados menores- aliados árabes fundamentais da política de Washington na região, que sustentam as movimentações do imperialismo e forma hoje, juntamente com o Estado de Israel, o tripé de sustentação da hegemonia imperialista dos EUA no Oriente Médio. Entretanto, o povo egípcio é historicamente protagonista de guerras de resistência contra o imperialismo britânico e francês desde a queda do Império Otomano com outras duríssimas lutas operárias de referência em todo o Oriente Médio como a revolução operária em 1919 (motorizada pela revolução russa de 1917) onde os trabalhadores dos telégrafos, ferroviários e operários conjuntamente com advogados e a classe média provocaram uma onde de mobilizações que causou a independência do país em 1922 em relação ao Império Britânico. Esse retrospecto empurra sua burguesia nacional durante o século XX ao maior fenômeno nacionalista árabe que já existiu com o nasserismo. Foi a partir dos anos 60 que os EUA precisaram impor uma nova ingerência para a burguesia egípcia através do um desgaste militar com as derrotas militares do Egito para o Estado de Israel nas guerras dos Seis Dias e do Yon Kippur, impondo o país a retaliações comerciais e econômicas a fim de construir laços econômicos de dependência do país em relação aos EUA muito mais diretos. A partir do final dos anos 70 os EUA se tornou o maior patrocinador das forças armadas egípcias, base social e política do regime egípcio após o bonapartismo nasserista. Os EUA envia anualmente cerca de 1,5 bilhões de dólares diretamente para patrocínio do exército e forças de repressão egípcias, além do país depender de 10 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros diretos todos os anos de empresas monopólicas norte americanas e européias.

Após o assassinato de Anwar Sadat em 1981, o Partido Democrático Nacional promoveu Hosni Mubarak para dar continuidade à política “pró-ocidente” por mais trinta anos. Mubarak foi responsável por referendar os acordos de paz entre Israel e Egito de Camp David, que no passado levou o Egito a ser o primeiro país do Oriente Médio a reconhecer o Estado de Israel, num claro serviço pró-imperialista em legitimar o massacre ao povo palestino, o que custou a expulsão do Egito da Liga Árabe. Durante as guerras do golfo, apoiou os EUA e a invasão imperialista se posicionando contra o Iraque e a sua auto-determinação nacional. Em 2008 e 2009 Hosni Mubarak a pedido de Israel fechou a fronteira egípcia para impedir que refugiados palestinos cruzassem a fronteira durante os ataques Israelenses à Faixa de Gaza. Não à toa, é considerada pela burguesia como “porta de entrada” da política estadunidense na região. É desta forma que o governo de Hosni Mubarak tem cumprido o importante papel de continuar a política de sufocar a influência das direções islâmicas alinhadas com o Irã, como a Irmandade Muçulmana , não apenas no Egito, mas usado sua influência e peso militar em todo o Oriente Médio.

A crise de Mubarak é o reflexo de um esgotamento do imperialismo

Entretanto a credibilidade internacional, sua capacidade diplomática e correlação de forças interna do governo Mubarak já vinha perdendo forças desde 2008. Com este processo revolucionário em curso, um golpe mortal pode ser efetivado contra a burguesia egípcia e contra o monopólio imperialista. Este importante aliado dos EUA sofre de sucessores políticos que consigam substituir seu papel para conduzir o regime ditatorial deslegitimando seu governo como agente do imperialismo diante do povo árabe e do islamismo em particular. A crise capitalista, a necessidade de maiores saques dos monopólios nas semicolônias, a dificuldade da burguesia egípcia em atender as mínimas necessidades econômicas e restringir todas as liberdades sindicais e democráticas levando a degradação do regime político do país a uma ditadura cada vez mais “comum”, eliminando quase por completo seus canais parlamentares apelando desde 2005 a sucessivas restrições políticas criam um esgotamento e uma dificuldade em repelir a formação e desenvolvimento de organizações da classe trabalhadora e da Irmandade Muçulmana como oposição islâmica interna no país, e têm afastado também a possibilidade de formação de qualquer outra liderança burguesa egípcia que possa aparentar uma “reforma” para as massas super exploradas e que ao mesmo tempo sustente de forma satisfatória as necessidades diplomáticas e políticas do imperialismo estadunidense na região. Essa crise revolucionária no Egito se soma a distintos fatores que tramam para o isolamento do imperialismo e seus aliados no Oriente Médio. Com a ascensão do primeiro-ministro Najib Mikati apoiado pelo Hisbollah no Líbano, somado ao perigo que correm todos os autocratas árabes ligados aos EUA correm hoje no Oriente Médio, o Estado de Israel fica cada vez mais isolado na região. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu está na linha de frente da defesa incondicional da permanência de Hosni Mubarak no Egito, exigindo do próprio EUA uma postura enérgica de defesa incondicional da ditadura egípcia a fim de manter a qualquer custo o Egito sob as rédeas da política imperialista. Mas o ritmo dos acontecimentos indica que as massas egípcias é que darão a palavra final, e o Estado de Israel teme por uma pressão diplomática, política e até militar cada vez maior por parte do Irã e de outros antigos inimigos que hoje deitam quietos nas fronteiras israelenses como Síria, Jordânia, Líbano e Egito, mas que urgem despertar vorazmente no intuito de expulsar o Estado de Israel da região da palestina caso o tabuleiro político interno destes países virar em favor das direções islâmicas.

Uma difícil posição para Barack Obama

A situação no Egito é de total incapacidade de permanência de Hosni Mubarack no poder. Porém, o imperialismo estadunidense não pode aceitar com facilidade -e sem um substituto imediato para a sua política- uma queda revolucionária de Mubarak devido o perigo que os trabalhadores de todo o Oriente Médio encabecem lutas em busca da queda dos demais autocratas de seus países. Ir à público defender a saída do ditador Mubarak significa não só apostar em um futuro incerto para a ingerência dos EUA em um país imerso em um processo revolucionário, mas principalmente estilhaçar as relações diplomáticas com as demais autocracias árabes que temes sofrer o mesmo destino possível que teve Bem Ali e terá Mubarak nas mãos dos trabalhadores insurretos. Na Jordânia diversas mobilizações nas ruas da capital Amã e em diversas outras cidades contra o aumento no preço dos combustíveis e dos alimentos se transformaram em protestos pela queda da monarquia do Rei Abdulla II. O primeiro-ministro Samir Rifai renunciou obrigando o Rei Abdulla II nomear um novo gabinete nos últimos dias temendo ficar ele próprio em xeque. O ditador Ali Abdullah Saleh do Iêmen adiou o processo eleitoral previsto, mas teve de anunciar que não iria se candidatar a um novo mandato após estar no poder desde 1978 devido às manifestações de rua do dia 27 de janeiro. Barack Obama começa a orientar os ditadores e monarcas aliados à política imperialista na África e Oriente Médio a desatar reformas cosméticas preparatórias para evitar ao máximo a magnitude e dimensão dos processos revolucionários da Tunísia e Egito aos demais países da região, porém, no Egito mesmo estas mudanças cosméticas não surtem mais efeito algum. Hosni Mubarak pretende se manter no poder até o próximo processo eleitoral, já anunciando que não irá concorrer, entretanto não se sabe qual será a liderança que o imperialismo patrocinará para o lugar de Mubarak. Isse problema reside no fato do questionamento das massas extrapolarem os limites do governo de Mubarak e já repercutirem um questionamento do regime político egípcio. Qualquer figura ligada ao Partido Nacional Democrático e ao atual regime está seriamente questionada, o “vazio de poder” não pode ser ocupado por uma direção islâmica, como a Irmandade Muçulmana egípcia, seria uma derrota estratégica de Washington na região a se somar à derrota no Líbano em favor do Hisbollah e indiretamente ao Irã. Muito menos o imperialismo pode esperar uma revolução que exproprie a burguesia com os sindicatos à frente das mobilizações, portanto Obama têm mantido todo o sustento econômico e político para as forças armadas egípcias reprimir as manifestações, mantendo o toque de recolher e todas as restrições às liberdades políticas democráticas e violações de direitos humanos por parte do regime, mas conjuntamente expõe uma posição cínica se manifestando em favor da “democracia e dos direitos civis”, exigindo que Mubarak faça mudanças cosméticas a fim de salvaguardar uma válvula de escape pela via eleitoral para ganhar tempo até que se costure uma nova força política burguesa capaz de segurar as mobilizações de massas. Além disso esse duplo discurso tenta garantir entre tantas contradições a imagem “democrática” que é utilizada pelo imperialismo para justificar a guerra no Iraque e no Afeganistão contra os regimes teocráticos apoiados pelo Irã.

É necessário que desmascaremos todos os esforços do imperialismo em manter seus governos autocráticos e monarquias e todos os esforços do imperialismo em patrocinar reformas cosméticas ou desvios “democráticos” a serviço dos interesses da burguesia que oprimem e exploram o povo árabe para arremessar sobre a classe trabalhadora o ônus da crise capitalista através da fome e da queda do nível de vida. É preciso defender-mos todas as mínimas liberdades democráticas para transformarmos a luta contra a ditadura na luta pela revolução socialista que exproprie a burguesia e coloque os sindicatos e organizações dos trabalhadores na direção política dos países árabes, a única direção capaz de romper definitivamente com a espoliação imperialista e salvaguardar a população árabe contra a ingerência dos EUA e a ameaça do Estado de Israel no Oriente Médio.

1- Definição para as matérias-primas, insumos e determinados produtos industriais que possuem seus preços tabelados no mercado e nas bolsas através de organismos internacionais, cuja procedência é em grande parte de seu contingente semicolonial. 2- Palco de enormes mobilizações de massas e uma revolução proletária em 1952 que dissolveu a monarquia e o parlamento, o Egito foi o país pioneiro em promover o nacionalismo árabe, através da ascensão em 1954 de Gamal Abdel Nasser, líder do Movimento de Oficiais Livres que desviou o processo revolucionário a um bonapartismo sui generis através de um golpe de estado com fim nacionalista e pan-arabista, que em meio à guerra-fria, buscou por um lado, limitar a influência do comunismo no oriente médio e o perigo da revolução em função de promover direções nacionalistas burguesas, mas por outro lado, conquistar melhores condições de barganha com o imperialismo apoiando-se no apoio popular dos trabalhadores e da classe média. Foi este fenômeno político que chegou a patrocinar uma guerra com a França e Inglaterra pela nacionalização do canal de Suez. O pan-arabismo nasserista extrapolaria os limites nacionais egípcios, com a pretensão de se formar uma única República Árabe Unida através da aliança com a Síria. Entretanto o movimento nacionalista recebeu um golpe mortal após Israel sustentado pelo imperialismo estadunidense derrotar o Egito na Guerra dos Seis Dias em 1967, assumindo o controle direto da península do Sinai e do Canal de Suez. Nasser morreu poucos anos depois do final da guerra. 3- Anwar Sadat presidiu o Egito após a morte de Nasser entre 1970 e 1981. Significou uma mudança no regime egípcio pelo Partido Nacional Democrático após quase vinte anos de hegemonia da União Socialista Árabe nasserista. O Egito, que havia perdido o controle do Canal de Suez e da Península do Sinai para Israel após a Guerra dos Seis Dias, se submeteu definitivamente ao imperialismo estadunidense após nova derrota militar na Guerra do Yon Kippur e se transformaria no primeiro país a reconhecer o Estado de Israel pela iniciativa política da burguesia egípcia presidida por Anwar Sadat, significando um giro na política internacional do Egito, uma vez que havia sido o irradiador do nacionalismo árabe na era Nasser. 4- Organização política islâmica egípcia fundada em entre os anos 20-30 por Hasan al-Banna líder religioso a fim de criar no Egito as bases para o surgimento de um estado teocrático. Hoje a Irmandade Muçulmana possui fortes laços políticos com o Hisbollah sediado no Líbano.
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