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Moralismo criticista e crítica moralizante

por André Augusto

“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos. Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida  política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais
[…] Ressurge a democracia! Vive a nação dias gloriosos… Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a
disciplina
.”

 

Editorial do jornal “O Globo”, nos dias 2 e 4 de abril, primeiros dias após o Golpe Militar de
1964.

 

 

Parafraseando Saint-Simon, a cada capacidade segundo suas obras. Vemos que a inspiração continua a mesma. No editorial do jornal “Diário de SP”, pertencente ao conglomerado midiático O Globo, encontramos a expressão literária daquilo que terça-feira nós, estudantes da USP, Unesp e Unicamp, juntamente com o Sintusp e as bravas trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da USP, tirávamos das lixeiras da FFLCH e atirávamos ao chão de todo o pavilhão do prédio, a saber, a sujeira insaneável da porca burguesia paulistana.

Vulgar, bombástico, dando um espetáculo de grosseria no ataque, histericamente sensível a sua própria estupidez, pregando o moralismo dos torturadores, unindo absurdamente o sentimentalismo a sua depravação, usando a arrogância escolástica pequeno-burguesa contra a intervenção operária na universidade, preocupada apenas com a questão central e sempre errando a questão, endeusando a educação da elite onde se encontra apenas a semi-escravidão dos insurretos: “Ao emporcalhar escadarias, jardins, alamedas, estacionamentos e outros pontos do campus da Universidade de São Paulo (USP), os grevistas de uma empresa terceirizada sujaram a própria condição de trabalhadores, mancharam o direito de greve, deturparam qualquer sentido que pudesse ter a sua pauta de reivindicações […] Esses sujões não merecem mais ser tratados como trabalhadores, perderam a condição de integrantes de uma categoria profissional”, escreve o editorial. E com essa orquestra de filisteus moralmente indignada, os impertinentes colunistas da elite burguesa ocultam que sequer um deles faz parte da vida de instituições de ensino superior como a USP: os jornalistas que continuam sob o cabresto dos defensores dos genocidas se sentem tranqüilamente aptos para falar em nome dos pressupostos capazes de “sujar a condição de trabalhadores, manchar o direito de greve, deturpar  sentido de suas reivindicações”.

A USP  é de toda a população, pertence ao povo”. A realidade devolve ironicamente o eco dessa frase deturpada: desde 1989, as universidades estaduais paulistas possuem vinculação orçamentária, o que quer dizer que parte dos impostos arrecadados através do ICMS, ora de 9,57%, vai diretamente aos cofres da USP. Nos últimos vinte anos, a arrecadação de impostos escoada para a USP através do ICMS mais que dobrou e os recursos para a universidade aumentaram; já a abertura de vagas não acompanhou essa engorda dos cofres da USP, e nem poderia, pois isso significa a engorda dos cofres de seus gestores empresariais no Conselho Universitário e nas Fundações Privadas. Há vinte anos atrás, a USP tinha 6.780 vagas; hoje oferece pífias 10.652. Aumento de apenas 3872 vagas. Distribuídas em média ao longo desses vinte anos, a burocracia acadêmica da USP, que esse ano declarou oficialmente um período de “respiro” para se recuperar do diligente ofício de escancarar de par em par as portas da USP à população, e “fazer uma pausa na expansão de vagas para discutir as diretrizes de um novo ciclo de crescimento,” abriu 193 vagas por ano. Acréscimo de apenas 193 vagas por ano desde 1990!!

Que ignorância desses que nem se pode chamar de “trabalhadores”! Que profanação! Que sábio poderia ter previsto que vassouras invisíveis poderiam se atrever a poluir a “entidade criada há mais de meio século pela elite pensante paulista”? A indignação do editorial é um caudal sem fim, indignação que só tem efeito quando se esconde os fatos e as condições de trabalho na “universidade de excelência da elite paulista” como se esconde um crime. Não pode violentar os terceirizados no campo dos fatos, para o fazer no das frases; não pela frase, mas pelos gestos e acentos que animam a fraseologia dos opressores “violentados”. “A USP deve ser – e só pode ser – vista como um templo, um santuário em que se cultiva o conhecimento, em que se formam os futuros educadores, cientistas, pesquisadores, técnicos de alto nível, pensadores de São Paulo e também do Brasil”. Esta descrição coquete e ridícula seria completamente descartável se não expusesse um aspecto de verdade: a USP é o santuário em cujo altar se sacrificam os corpos e as mentes dos trabalhadores que sustentam esse pesado “templo” e seus gordos sacerdotes nos ombros.

A paralisação das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados na USP é fruto exclusivo dos “pecados” neoliberais da REItoria de João Grandino Rodas e da burocracia acadêmica da USP – política seguida por todas as universidades estaduais e federais – da manutenção de licitações a empresas que prestam serviços terceirizáveis. Essas empresas fraudulentas aliciam mão-de-obra barata dos extratos mais empobrecidos da sociedade para trabalharem em regime de semi-escravidão em diversos setores de produção e serviço: a empresa União, que presta serviços de limpeza na USP, também executa a “moenda” dos corpos das funcionárias da limpeza na rede pública de ensino em Campinas e região. Quando terminam seus contratos com a instituição contratante, isso significa uma coisa para os trabalhadores terceirizados: demissão sumária em massa. E na maioria das vezes, essas empresas rescindem o contrato antes do pagamento dos salários dos funcionários, o que acrescenta uma tinta de crueldade ainda maior às condições em que esses homens e mulheres tem de exercer seu duro ofício.

O discurso de aumento dos postos de emprego que o ex-presidente Lula sustentou durante seus 8 anos de mandato, agora encampado por Dilma, buscava esconder o fato de que a esmagadora maioria dos empregos gerados se davam sobre a semi-escravidão, obscena rotatividade do trabalho, nenhuma estabilidade e péssimas condições de trabalho: e o que comumente é chamado de terceirização.

À paralisação realizada em vista dessa série de flagelos contra os trabalhadores terceirizados, para o editorial do Diário de SP, significa “ultrapassar os limites da convivência civilizada entre o trabalho e o capital”. E não se podia esperar coisa diferente dos “oficiais” de imprensa da burguesia: a interpretação “civilizada” da constituição trabalhista pertence àqueles que a aceitaram e se utilizam dela para se enriquecer (a patronal, o governo e a burocracia sindical), e o significado que a burguesia lhe atribui é o único sentido possível. Que melhor expressão da missão civilizatória do capital em relação ao trabalho assalariado que centenas de trabalhadoras e trabalhadores passando fome e impossibilitados de se locomover pela falta de dinheiro no fim do mês? A terceirização do trabalho é o jesuíta de nosso século, o missionário que ensina religiosamente aos trabalhadores que o seu trabalho é quem diviniza e exorciza o corpo… dos capitalistas.

Todo profissional tem o direito de cruzar os braços em defesa de melhores condições para trabalhar com dignidade”, lembra o editorial. A segunda metade de sua existência serve para negar a primeira. Durante a greve do funcionalismo público nas estaduais paulistas em 2010, a mídia burguesa (também através do grupo O Globo) assim se ilustrou seu princípio manifesto do “direito de cruzar os braços em defesa de melhores condições”: “foi mantida uma das mais tristes tradições da USP, segundo a qual os servidores convertem quem ensina, estuda e pesquisa em refém de interesses corporativos, paralisando a vida da instituição de modo truculento, sem o risco de sofrer sanções“, (2/7/10). Isso porque apesar do direito de cruzar os braços, o profissional não deve nunca esquecer o direito adquirido de enriquecer os senhores do engenho da terceirização em base a um trabalho semi-escravo, se alimentando em porões e impedido de alimentar a família.

Durante a heróica greve do funcionalismo público das estaduais paulistas em 2010, escrevemos: “A mesma classe, a burguesia, que remunera a 20 euros mensais (vinte euros mensais!) os responsáveis pela totalidade da produção da riqueza de Bangladesh, os trabalhadores, através principalmente das indústrias têxteis (que são responsáveis por 80% das exportações do país e abrigam 40% do operariado industrial nacional) – é a classe que considera os salários dos funcionários públicos das universidades estaduais paulistas, particularmente da USP, um verdadeiro “privilégio“; é a mesma classe que quer estufar a boca do funcionalismo público combativo com o argumento do “reajuste de 119%, entre junho de 2009 e março de 2010, numa inflação de 79%”, no marco geral da lama que é o recrudescimento da terceirização, a combinação do aumento da taxa de exploração dos trabalhadores com o aumento da rotatividade e inserção de trabalhadores precários na economia, fruto de 8 anos de Lula e PT no governo federal”. A burocracia do Conselho Universitário da USP utiliza a mesma falta de originalidade para justificar a existência criminosa das empresas que lucram com a terceirização do trabalho, atacando agora o setor mais explorado e precarizado de funcionários, tratando de aprofundar a divisão nas fileiras operárias pela degradação de suas vidas.

E como dizíamos no começo, a disposição sanguinária da imprensa oficial não deixa nada a desejar às declarações feitas em abril de 1964: “A Reitoria da USP, em nome dos paulistas que a sustentam, deve exigir a demissão de todos os funcionários grevistas dessa limpeza terceirizada. Será uma demissão pela mais justa das causas, a da proteção de um precioso núcleo de formação cultural num país  tão carente de educação, como o nosso. Esses vândalos fantasiados de grevistas devem ser exemplarmente punidos, para que não haja o menor risco de esse tipo de prática se tornar comum […] Espalhar o lixo pelas instalações da USP, como fizeram esses grevistas porcalhões, é ferir o direito de greve, é profanar os princípios mais elementares das relações trabalhistas […] Provocaram a punição. Que sejam punidos”.

Com essa retórica de torturadores, defendem a demissão e punição exemplar de todos os funcionários grevistas para que paralisações, greves e os métodos legítimos de luta da classe operária (a criatividade dos terceirizados conseguiu traduzir sua forma específica de piquete em “atirar lixo ao chão”) não voltem mais a se repetir. Nenhuma palavra sobre a fraude das empresas terceirizadas, nenhuma palavra sobre o Conselho Universitário que advoga os direitos dessas empresas em permanecerem na universidade. “Profanar os princípios mais elementares das relações trabalhistas” burguesas não é deixar sem salário centenas de trabalhadores e famílias famintos; significa questionar a sujeição oficial e aberta de toda a classe trabalhadora e o povo pobre às leis da moderna produção burguesa. “Profanar essas relações” não significa emporcalhar e precarizar a vida desses homens e mulheres; para a burguesia, significa se levantar contra o missionário da fome, da miséria, da destruição da constituição física e mental desses trabalhadores. Essa é a expressão brutal e escancarada das convicções sanguinolentas da burguesia paulista.

Que o Jornal Diário de SP vá para o inferno. Não estão na posição de juízes, mas de réus: os criminalizadores dos trabalhadores do século XXI são os mesmos do século XX. Seu apoio aos militares genocidas que torturaram, assassinaram e fizeram desaparecer milhares de militantes de esquerda e trabalhadores, assim como sua sede de sangue operário por estes trabalhadores – absolutamente brilhantes – terem sujado o prédio de uma das faculdade mais elitistas, racistas e homofóbicas do Brasil e que abriga menos de 1% da população: tudo isso mostra a quem serve a imundície que estampam em seus jornais. Os trabalhadores, efetivos, contratados e terceirizados, as organizações de esquerda, os sindicatos, as organizações de direitos humanos, e todos os setores progressistas da opinião pública só devem rechaço e nojo a uma declaração tão insultante e violenta contra os protagonistas de um dos momentos históricos mais impressionantes, combativos e classistas da Universidade de São Paulo. Mulheres e homens terceirizados que até ontem eram golpeados sem cessar pela burocracia sindical e pela patronal, e agora arrancam o microfone das mãos dos professores para falar a centenas de estudantes as suas condições; que conduzem suas próprias assembléias com a ajuda indispensável do Sintusp; que se aliam a estudantes para levar adiante seus métodos de combate absolutamente originais e legítimos e colocam em xeque toda o status quo da mediocridade burguesa: esses trabalhadores merecem estátuas; os sanguinários editorialistas do Diário de SP, o cárcere.

Esta rebelião contra a precarização, explosão que deixa um incêndio, exige que os estudantes e trabalhadores solidifiquem sua aliança para a radical democratização no acesso à universidade e para a defesa irrestrita dos que lutam contra esse projeto de universidade elitista, policialesco e racista como o comandado por Grandino Rodas e uma estrutura de poder oligárquica que nada, absolutamente nada, pode oferecer aos trabalhadores e ao povo pobre da cidade e do campo, a não ser continuar retirando de suas mãos todo o conhecimento produzido na universidade, privatizando esse conhecimento, usando-o contra aqueles cujo sangue é drenado para que se mantenha a estrutura elitista da universidade. É indispensável nesse momento em que a terceirização sai de baixo do tapete, a reivindicação da incorporação imediata de todos os funcionários terceirizados ao quadro de funcionários efetivos da USP, sem a necessidade de concurso público. Nenhuma punição aos lutadores trabalhadores!

Trotsky lembrava que “o único fator progressivo da história hoje não é o espírito de combinação dos deputados e jornalistas: é o ódio legítimo e criador dos oprimidos contra os opressores”. Esse ódio de classe é o portador de novos acontecimentos e do futuro. Viva a paralisação das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados! Viva a aliança operário-estudantil!

 

 

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