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Egito: um novo capítulo do processo revolucionário?

 por Celeste Murillo (do PTS, organização irmã da LER-QI na Argentina)

 

A continuidade dos protestos e onda de greves no Egito representa um dos principais problemas do Conselho Supremo das Forças Armadas. A Instituição que lidera a transição, e que foi durante décadas a garantia de estabilidade do regime, não pode hoje impor uma ordem até o fim. Embora logo depois da queda de Mubarak tenha se criado um clima de expectativas e de “deixar governar” o exercito, hoje são cada vez maiores os setores que começam a ver com impaciência a lentidão das mudanças prometidas e a continuidade do método e das politicas do velho regime. O exercito foi preservado como garantia de continuidade e também para impor limites nas lutas mais profundas que reivindicam coisas mais profundas no contexto da crise econômica que dificulta uma politica de concessões para milhões que vivem na pobreza.

Desde a queda de Mubarak vem se delineando a formação de duas tendencias. Por um lado, a formação de uma tendencia de “normalização” e canalização do processo revolucionário em um limite institucional estreito, que é composto pelos partidos e organizações que apoiaram o referendo e buscavam incorpora-se a uma pseudo vida parlamentar com as eleições de setembro. Por outro lado, uma tendencia ainda desorganizada com epicentro em algumas coalizões que se formaram ao longo do calor das jornadas revolucionarias e na classe trabalhadora, que vem de um processo de reorganização e lutas nos últimos anos, e cuja ação foi um fator decisivo na queda de Mubarak. A mobilização atual com greves e um processo de organização anti-burocrática por fora da central sindical que servia Mubarak, serve de exemplo para o aprofundamento do processo revolucionário.

 

O exercito garante a continuidade

A baixa participação no referendo constitucional de 19/3 havia sido um termômetro do crescente descontentamento existente, sobretudo entre os jovens, estudantes e trabalhadores (depois das incipientes divisões entre as organizações que participaram do levante). A continuidade do velho regime iniciou por tomar como concreto a impunidade do próprio Mubarak, que segue sem ser julgado (apesar da citação da justiça e da recente prisão) e na presença de seus funcionários nos principais postos, as empresas, as universidades, os jornais e na televisão estatal. Um dos exemplos mais emblemáticos dessa continuidade foi a repressão e as torturas sofridas por mais de 170 pessoas detidas no dia 9/3, durante o processo da praça Tahrir. Entre os detidos, haviam 18 mulheres que após as torturas e golpes, foram submetidas a “exames de virgindade” (verificação de que se o hímen está intacto). À repressão direta se somaram leis que cerceiam o direito de livre expressão, a vigência do estado de emergência, e as causas contra ativistas e jornalistas. Outra lei que da conta do verdadeiro conteúdo dessa “transição” é o direito aprovado há alguns dias sobre a proibição de manifestações operarias que afetem o desenvolvimento da economia. Este é um verdadeiro ataque ao direito de greve, já que qualquer medida de força que não afete o desenvolvimento da economia, carece de efetividade como meio de ação operaria. Assim o exercito busca o restabelecimento da ordem e garantir a continuidade dos negócios dos capitalistas (incluindo eles mesmos, já que os militares são proprietários de empresas de água mineral, azeite, pesticidas, plantas de tratamento de águas, hotéis e outras empresas de serviços). Isto é conflitante com a impressão dos operários que enxergam no processo aberto sua oportunidade para se colocar não somente a cima da burocracia sindical, mas também sobre os funcionários estatais que dirigem as empresas.

 

Um processo profundo na classe trabalhadora

O processo revolucionário aberto em 25 de janeiro, teve como precedente vários anos de resistência operaria e popular. Especialmente as trabalhadoras e os trabalhadores do setor têxtil, protagonizaram duas importantes jornadas de greves com ocupações entre 2006 e 2008 na cidade de Al-Mahalla. A importância dessas lutas reside no fato de que a industria têxtil emprega 48% da força trabalhadora do país, e Al-Mahalla abriga fabricas como a Companhia Hilos e Tecidos do Egito, que emprega 24 mil pessoas (em sua maioria mulheres). Com essas jornadas se inaugurou um processo de reorganização: surgiram sindicatos independentes da central sindical burocrática (como o do transporte, empregados fiscais ou do ensino, entre outros). Esta experiencia inicial previa que os trabalhadores e as trabalhadoras haviam tido um protagonismo importante com greves e mobilizações anteriores, durante e depois da queda de Mubarak. A caída do ditador, ao contrario da aposta do Exercito e do Imperialismo, só aumentou a contestação operaria, uma vez que estava livre da burocracia sindical e do controle policial viciados no regime.

Aqueles que não tinham nada, nem sequer o direito de protestar contra as péssimas condições de trabalho e os salários de miséria, encontraram no processo revolucionário um terreno fértil para suas lutas, e somaram forças com a imponente mobilização das massas. Assim, enquanto grande parte dos setores da classe media que havia motorizado grande parte das jornadas revolucionarias se retirava das ruas, a classe operaria se manteve em pé de luta.

Uma vez alcançado o objetivo de tirar Mubarak, primeiro triunfa das massas, o processo de luta e organização no movimento operário seguiu aprofundando-se. A luta de Hilos e Tecidos contra os gerentes de Mubarak se transformou em um simbolo, o que explica que o exercito havia terminado cedendo diante do levante operário evitando um potencial efeito dominó (ver “O exercito cede diante da greve dos trabalhadores têxteis”, em www.ft-ci.org).

Hoje, embora as greves tenham diminuído, se mantem lutas importantes como a dos trabalhadores das empresas subsidiarias da Autoridade do Canal de Suez (um local estratégico do petróleo), que exigem iguais condições de trabalho e de salários como os operários do Canal. Também há varias manifestações em vários ministérios e oficinas publicas, e existem lutas nas empresas privadas desde os últimos anos, em que os trabalhadores exigem a nacionalização e a reincorporação dos operários demitidos por organizarem-se e lutarem. Como parte deste processo, na sexta-feira 8/4, antes da mobilização em Tahrir, se realizou uma primeira reunião da central sindical independente, que havia lançado um chamado em fevereiro para fundar uma nova organização.

 

Dinâmica Revolucionaria

Quando caia Mubarak, longe de assinalar como triunfo de uma “revolução democrática”, dizíamos que a queda do ditador significava um grande triunfo para as massas, porem, que de nenhum modo representava o fim do processo revolucionário. É que a grande mobilização das classes medias em que logo se somou a classe operaria com a jornada de greves, embora tenha levada à queda de Mubarak, não conseguiu frustrar o regime. Ao não conseguir dividir as forças armadas, as FF.AA., nem criar organismos que estabeleciam um duplo poder, ano se gerou uma crise no Estado. Isto permitiu que se montasse a “transição” liderada pelo Exercito Egípcio com respaldo do imperialismo. Na sexta-feira, 8/4, uma nova mobilização ocupou a praça Tahrir. Dezenas de milhares de pessoas, 100.000 segundo os organizadores, exigiam a acusação de Mubarak, e voltaram a exigir a liberdade dos presos políticos, maiores liberdades democráticas e o fim do estado de emergência. Cabe ressaltar que alem dos jovens e trabalhadores, se somaram na marcha, soldados jovens que se pronunciaram contra a junta militar e foram detidos logo depois da mobilização. No termino da marcha, o exercito e a policia entraram na praça para desocupa-la; como produto da repressão, duas pessoas morreram e 70 ficaram feridas. Isto provocou uma nova crise no Conselho Supremo: organizações que formavam parte de uma equipe de dialogo com o governo, se retiraram, como a “Coalizão 25 de janeiro”, e ao mesmo tempo muitos setores que haviam se retirado das ruas, respondendo ao chamado do exercito, voltaram a se mobilizar no dia.

O setor que havia se mantido mobilizado é, no entanto, o mais desorganizado e sua forças se encontravam fragmentadas pela ausência de uma ferramenta politica que aglutinasse as demandas de trabalhadores e jovens.

Essa ausência de organização e seu caráter espontâneo havia cativado intelectuais como Alain Badiou, que via no movimento o “puro comunismo”: “o levante popular que falamos manifestadamente não tem partido nem organização hegemônica, nem dirigente reconhecido. Já vai o tempo de se avaliar se essa característica é um elemento de força ou debilidade. Em qualquer caso, é isso que faz com que, numa forma muito pura, sem duvida a mais pura desde a Comuna de Paris, tenha todos os traços necessários para se denominar como um comunismo de movimento”. Porem, lamentavelmente, a ausência de um grande partido operário revolucionário se traduziu numa debilidade para as forças que são o motor do processo revolucionário, enquanto conta com a vantagem o regime. Se torna cada vez mais urgente que uma aliança entre a classe operaria, a juventude e o povo pobre forme seus próprios organismos de auto-organização com um programa e uma estrategia revolucionaria independente do regime e como aqueles que se apresentem como opositores dentro dos limites do molde da “transição ordenada”.

As audiências na Universidade do Cairo para rever os reitores da era Mubarak, os protestos e greves pela renacionalização das empresas privadas e para que saiam todos os gerentes do antigo regime, são uma mostra eficiente de que as consignas que motorizaram as jornadas revolucionarias seguem vigentes. E mais do que nunca, está começando a ser patrimônio da vanguarda da juventude e da classe trabalhadora que o Conselho Supremo da FF.AA. não será a garantia de que se realizem essas demandas, se bem que o seu contrario.

A força social da classe operaria e seu protagonismo nas jornadas revolucionarias é o que distingue o processo no Egito e Tunísia dentro da “primavera árabe”, especialmente em comparação com países como a Líbia (com uma classe operaria débil e ausente no processo aberto).

Aí está seu grande potencial revolucionário aberto para ser a ponta de lança na luta contra o regime de transição, em que o Conselho Supremo atua como agente do imperialismo e como instrumento de domínio da classe dominante, a ponta de lança para lutar por um governo operário e popular baseado nos organismos de democracia operaria, que expropriem os capitalistas e o imperialismo, e seja o primeiro passo da revolução socialista no norte da África e no conjunto do mundo árabe.

A primavera árabe enfrenta hoje duas variantes reacionárias: por um lado, as tentativas de desvio, e por outro, o achatamento contra-revolucionário, como ocorre hoje na Líbia. É preciso superar a debilidade que mostrou a ausência de um programa anti-imperialista – uma debilidade importante do processo de conjunto – e lutar contra a intervenção do imperialismo na Líbia, assim como enfrentar seus agentes na região.

 

 

 

 

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