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A arte como termômetro da vida social

 por Thyago Villela

 

 

“O desenvolvimento da arte é a mais alta prova da vitalidade e importância de uma época”, escreveu certa vez Leon Trotsky. Não é difícil perceber, à luz desta sentença, o grande abismo que distancia o momento histórico pelo qual passamos de outros anteriores, como o Renascimento Cultural no século XVI ou, mais proximamente, o início do século XX, que manifestaram, de diversas formas, um grande desenrolar de produção artística e cultural, frequentemente acompanhadas por um progresso a passos largos dos ramos científicos e da esfera política – esta última, sob fortes matizes revolucionários. Não é difícil, tampouco, perceber que, aliado ao fenômeno de precarização de todas as esferas da vida – que hoje se expressam, por exemplo, na precarização das condições de trabalho, nas relações pragmáticas, opressivas e conservadoras travadas entre os indivíduos, na falta de um horizonte subversivo que dê conta de recuperar o espírito revolucionário da prática política; a arte atual, ou a omissão desta produção artística, ocupa um lugar privilegiado em nos revelar a miséria e a falta de vitalidade de nossa época.   É como se este valoroso termômetro apontasse para uma escala negativa na contínua noite deste século.

Longe de uma intensa articulação e produção entre os artistas, que se pôde observar no final de 1880 até aproximadamente a década de 1930, através dos movimentos cubistas, expressionistas, dadaístas, futuristas, surrealistas e tantos outros; ou ainda um anseio por responder e resolver “todos os problemas centrais da vida”, conforme colocou André Breton em 1924, atualmente nos debruçamos diante um contexto de intensa passividade e desarticulação entre os criadores de arte, subordinados à lógica fundamental de produzirem simples valores de troca (como uma banana ou um chip de alta tecnologia) através do atrelamento de sua produção, sensibilidade e subjetividade aos marcos estreitos do mercado e da produção capitalista. Se antes nos deparávamos mais frequentemente com vanguardas artísticas que se propunham a aliar a atividade de interpretação do mundo à atividade de transformação do mesmo, hoje, como uma espécie de face reversa, temos uma morte das vanguardas e da experimentação, tanto da interpretação quanto da transformação da vida – excetuando-se breves e esparsos despontamentos que rumam em outro sentido.

A indústria cultural e sua intensa capacidade hegemônica, fundamentada, conforme coloca Theodor Adorno, em uma estrutura de eterna repetição dos modelos, barrou política e economicamente grande parte das inovações artísticas em termos estéticos. Assim, na medida em que se decresce a apreciação de Stravinsky, um músico absolutamente experimental, por exemplo, se expande incomensuravelmente o consumo desenfreado de bandas pop que reproduzem a estrutura da forma canção (ou seja, uma música com refrão, convencional) sem nada propor à sensibilidade de inovador, e tampouco qualquer forma de conteúdo original, que ultrapasse as lamentações de amor monogâmico. Temos perante nós o mundo desumanizado de uma quantidade gigantesca de Julias Roberts e uma infinidade de comédias românticas absolutamente idênticas, plenamente adaptadas à estreiteza da sensibilidade e do intelecto avinagrado das classes dominantes. Encontra-se em disputa, fundamentalmente, os monopólios culturais (como indústria fonográfica, cinematográfica, editorial, etc) – que se movimentam, primeiro, no sentido de cooptação de artistas mais sensíveis e sinceros, e segundo, em sentido expansivo de construção hegemônica de uma cultura caduca; contra os poucos bons produtores de arte que ainda reivindicam o potencial emancipador de suas obras.  O desenvolvimento da sensibilidade e de uma ação revolucionária no campo cultural encontra-se há muito em xeque.

Como desdobramento da expansão deste fenômeno chamado de indústria cultural, tem-se 1) a intensificação do investimento das empresas privadas no financiamento de museus, centros culturais e locais de produção artística e 2) a elitização destes mesmos espaços, o que acaba por relegar à juventude e à população pobre uma pequena gama de espaços culturais, ao mesmo tempo em que uma injeção de grandes proporções da cultura de massas dominante, a mesma que intensifica e naturaliza a exploração das classes subalternas. Não raro, ou melhor dizendo, sempre, seja nas novelas de televisão, no cinema hollywoodiano ou na música popular, observamos a existência de personagens tais como a da “empregada obediente”, da “mulher naturalmente submissa”, do “grande empresário que um dia foi pobre”, e muitos outros estereótipos que, longe de serem permeados por um potencial crítico (como poderiam, e já foram, utilizados em obras de arte de grande qualidade), cumprem a função narrativa de naturalizar o establishment. O produto ideológico daí decorrente é, dito vulgarmente, a possibilidade utópica desenhada para as classes subalternas de ascenderem socialmente, de compactuarem com os patrões e de entenderem a vida enquanto busca por concentrar capital e consumir mercadorias elevadas ao status de objetos mágicos. A perversidade deste processo se estende a amplos fenômenos, que mereceriam um debruçar paciente, tal como a construção de formas de beleza a que os corpos deveriam se subordinar, por exemplo, o que traduz esteticamente e se articula à opressão às mulheres em todos os âmbitos da vida.

O momento histórico atual e sua falta de vitalidade inerente são expressos também, dentre outras determinações políticas e econômicas, pela morte de propostas inovadoras em termos de sensibilidade (ou crise de subjetividade no meio artístico) articulada e em grande medida subordinada ao cerceamento das possibilidades para que se desenrole e para que avance esta subjetividade, como a já mencionada redução dos espaços culturais.

São constantes as empreitadas políticas dos governos burgueses para que se marginalizem as poucas expressões culturais e artísticas críticas que desafinam o coro dos contentes, como o recrudescimento, por parte dos reitores universitários (mandatados diretos dos governadores), de espaços e momentos de socialização entre os estudantes, professores e funcionários. A mesma reitoria, por exemplo, que não pune os estudantes responsáveis pelo nefastamente chamado “rodeio das gordas”, no caso da Unesp, é a mesma que proíbe e procura impedir um festival cultural contra o ocorrido. Na Unicamp, processo semelhante se desenvolve com a proibição das festas pela reitoria, bem como de um festival organizado pelos alunos do Instituto de Artes.

Reconhecemos, neste sentido, a urgência de se lutar amplamente pelo acesso à cultura da juventude e dos trabalhadores, bem como pela ampliação de espaços culturais públicos, nos quais podem ser desfrutadas e criadas obras de arte, além de serem realizados debates sobre o assunto. Reiteramos a idéia cara ao trotskismo de que os problemas da cultura, como a vinculação utilitária desta ao capital, só podem ser resolvidos através de uma revolução social, ao mesmo passo em que a desconstrução da cultura conservadora vigente é também momento fundamental para a construção de qualquer revolução que se pretenda bem-sucedida, na medida em que forja uma juventude radicalmente subversiva em seus modos de vida e combatividade, prontas a defender e lutar por uma democracia operária e por relações sociais não estranhadas. É preciso que as classes subalternas, acaudilhadas pelo proletariado, tomem em suas mãos os rumos da cultura e da arte, apreendendo e desenvolvendo a cultura humana em sua totalidade e reelaborando uma nova forma de consciência, livre da opressão, exploração, e jugo de classe.

 

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  1. 04/20/2011 às 1:00 am

    Impossivel não reconhecer a argúcia de argumento e a fluidez de estilo. A isso, alie-se um conteúdo substancioso. Um texto que me enche de orgulho. De muito orgulho, aliás. Porém, eu gostaria de ver outras reflexões acerca do papel de vanguarda que o artista DEVERIA ter. Não me move o saudosismo, mas não posso deixar de lembrar o quão vanguardista foi a “Tropicália”, por exemplo. Se espaços aos artistas são negados, que ele os conquiste. Que dispute espaço com a Indústria do Entretenimento (hipnotismo sócio-politico?)que o Conservadorismo empurra às populações. Que ele os crie, como eu presenciei há pouco tempo com uma atriz maravilhosa que conquistou um espaço “maldito”, mas de entretenimento para a burguesia e ali fez Pura Arte, contra as eventuais impossibilidades.

    “Caminhante, não há caminho. O caminho se faz ao caminhar…”

    Beijo, filho.

    Fabio Renato Villela

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