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Louise Michel nas trincheiras da Comuna

por Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP e dirigente da LER-QI

Artigo publicado na revista PUC VIVA da APROPUC

 

“Quando a multidão hoje muda,
ruja como o oceano,
disposta a morrer,
a Comuna surgirá.”
Louise Michel, 1871


 

A 140 anos da Comuna de Paris, descrita por Leon Trotsky como “um relâmpago, o anúncio de uma revolução proletária mundial” [1], prestamos homenagem a este capítulo da história que ainda hoje nos traz valiosas lições. Aqui, particularmente, voltaremos o olhar para uma personagem incendiária da Comuna. É Louise Michel, a mulher das trincheiras, que viveu como um ardente soldado. O jornal oficial da Comuna de Paris se referia a ela com as seguintes palavras “Nas fileiras do batalhão 61, combatia uma mulher enérgica; matou vários gendarmes e guardiões da ordem”.

 

Antes disso, vale rememorar os principais fatos, e também as principais lições que marcaram a Comuna de Paris. Entre os meses de março a maio de 1871, os trabalhadores parisienses conquistaram um órgão de poder, que seria o primeiro da classe trabalhadora mundial em toda a história. Por ter sido a primeira vez em que a classe operária fazia “tremer” a burguesia, sua resposta organizada foi uma enorme repressão, que durou semanas, com o saldo de mais de dez mil mortos. Mas a repressão foi incapaz de matar ou liquidar o espírito da Comuna, que permanece vivo em suas lições. Mas seu surgimento, ao contrário do que foi, por exemplo, a Revolução Russa, se deu de forma espontânea, e não de forma consciente. Como explica Vladimir Ilich Lenin:

 

“A Comuna surgiu espontaneamente, ninguém a preparou de forma consciente e sistemática. A desgraçada guerra com a Alemanha, os sofrimentos da cidade sitiada, a greve operária e a decadência em ruínas da pequena burguesia; a indignação das massas contra as classes superiores e as autoridades que haviam demonstrado uma incapacidade absoluta, a surda efervescência no seio da classe operária, descontente com sua situação e ansiosa por um novo regime social; a composição reacionária da Assembléia Nacional, que trazia temor quanto ao destino da República, tudo isto e muitas outras coisas se uniram para impulsionar a população parisiense à revolução de 18 de março, que passou o poder, inesperadamente, das mãos da Guarda Nacional às da classe proletária e da pequena burguesia, que se havia unido a ela. Foi um acontecimento histórico sem precedentes”

 

Conquistando o poder, o proletariado parisiense conseguiu suprimir a burocracia e estabelecer a eleição dos funcionários pelo povo. Ao exército regular contrapôs o povo armado, além de tomar uma série de medidas como perdão de dívidas de aluguéis atrasados, também estabeleceu que qualquer funcionário público recebesse o salário equivalente ao de um operário, eliminando assim os privilégios desta camada da sociedade. Decretaram a separação entre a Igreja e o Estado, declarando como propriedade nacional todos os bens da Igreja. E pela primeira vez na história, foi proclamada a igualdade de direitos para as mulheres. Era a classe trabalhadora demonstrando ser capaz de cumprir as tarefas democráticas que a burguesia somente pode proclamar, em palavras.

 

Das lições que se fica da Comuna, Lenin aponta duas essenciais, dizendo que o proletariado deteve-se na metade do caminho. Não expropriou os expropriadores, tendo sido tomados pelo sonho de idealização da justiça suprema sem a apropriação de instituições como, por exemplo, os bancos. Também, ao invés de exterminar seus inimigos, buscou agir moralmente sobre eles, deixando como secundárias as ações militares na guerra civil, e abrindo espaço para a contra-ofensiva do governo.

 

Em 1917, contudo, Lenin recuperava o que numa expressão era a ditadura do proletariado, que surgida da Comuna foi tomar vida na primeira revolução operária vitoriosa: “Eis o verdadeiro segredo: era ela, acima de tudo, um governo da classe operária; o resultado da luta entre a classe que produz e a classe que açambarca o produto desta; a forma política, enfim encontrada, sob a qual era possível realizar-se a emancipação do trabalho” .

 

O que resumimos acima em alguns parágrafos foi um processo intenso sobre o qual se debruçaram centenas de historiadores, pesquisadores, mas principalmente revolucionários que a partir das lições da Comuna de Paris repensaram as formas de se enfrentar com a burguesia para evitar a enorme derrota que sofreram os combatentes da Comuna. Dentre estes, destaca-se Louise Michel, que foi levada a julgamento pelo papel que cumpriu como uma das mais enérgicas combatentes da Comuna. O destino de milhares de combatentes, assassinados pela contra-revolução, foi o mote central da defesa de Louise Michel, que pedia o mesmo destino de seus irmãos de classe: “já que todo coração que bate pela liberdade só tem direito a um pouco de chumbo, eu peço a minha parte!” .

 

Na Comuna, era uma ardente lutadora, que sempre estava na primeira fileira ou na retaguarda, para conter os que fugiam. Combatia sem parar, inclusive procurando outros batalhões quando o seu descansava. Foi a expressão máxima da participação das mulheres na Comuna, desde a luta para igualar os direitos entre homens e mulheres, até o combate nas trincheiras. Ela vestia uma farda da guarda nacional, o que era incomum na época, já que se tratava de um traje exclusivamente masculino. No seu julgamento, foi questionada sobre isso “Parece que você usava vários trajes na Comuna. Você usou trajes de homem na Comuna?”. Ela assistiu o fuzilamento de inúmeros amigos, incluindo seu companheiro Theóphile Ferré, a quem vai dedicar o poema “Os cravos rubros” onde diz “Digam que, pelo tempo que é rápido, tudo pertence ao que está por vir. Que o dominador vil e pálido, também pode morrer como o dominado”.

 

Neste mesmo momento, Vitor Hugo, um dos mais famosos escritores da época, passa a trocar correspondências com Louise, e neste momento lhe dedica o poema “Viro Major”, considerado uma afronta aos repressores da Comuna. Louise passa a reivindicar, diante do fuzilamento de seus amigos e de seu companheiro, o direito de assassinato do juiz que os condenou. Mas ela foi presa em dezembro de 1871, quando então a levaram a julgamento no VI Conselho de Guerra. O relatório de seu processo demonstra como Louise era ardente e incendiária. Diante do tribunal, seguiu dedicando sua vida, e sua morte à honra da Comuna. A audiência, que ocorreu em 16 de dezembro, começava com as acusações:

 

“O processo de Louise Michel. Relatório da Gazette des Tribunaux. Sexto Conselho de guerra (em Versalhes). Presidência do senhor DELAPORTE, coronel da décima segunda cavalaria. Audiência de 16 de dezembro de 1871. (…) Portanto, a nossa opinião é que há motivos para julgar Louise Michel por: 1) Atentado tendo como objetivo mudar o governo; 2) Atentado tendo por objetivo incitar a guerra civil levando cidadãos a se armarem uns contra os outros; 3) Por ter, num movimento insurrecional, usado um uniforme militar, carregado armas aparentes e fazer uso delas; 4) Falsificação de documento “privado” por usurpação de identidade; 5) Uso de documento falso; 6) Cumplicidade por provocação e organização de assassinato de pessoas detidas como sendo reféns pela comuna; 7) Cumplicidade de prisões ilegais, seguidas de torturas corporais e de mortes, ajudando os autores que as cometeram. Crimes previstos pelos artigos 87, 91, 150, 151, 159, 59, 60, 302, 341, 344 do código penal e 5 da lei de 24 de maio de 1834.”

 

Ao ser questionada sobre o que teria a declarar em sua defesa, Louise inicia uma das mais históricas defesas em um tribunal. Começa dizendo que não quer se defender e não quer ser defendida. Que pertence inteiramente à revolução e que declara aceitar a responsabilidade de seus atos. Louise reafirma seu compromisso com a Comuna e com aqueles que deram sua vida à Comuna. Como ela dizia em seu famoso poema, “Quando a multidão hoje muda, ruja como um oceano, disposta a morrer, a Comuna surgirá”, a Comuna surgiu, sob a vida de muitos combatentes, mas sob a vida destes combatentes ficaram as lições imortais desta Comuna. Louise desafia a justiça, e todos os juízes daquele tribunal a condená-la à morte: “Vocês dizem que eu sou cúmplice da Comuna. Claro que sim, pois a Comuna queria acima de tudo a Revolução Social, e a Revolução Social é o maior dos meus desejos. Me sinto honrada em ser uma das promotoras da Comuna. (…) Tomem a minha vida se quiserem”.

 

Pedem novamente que fale algo em sua defesa, mas Louise mantém-se firme, e confirma todas as acusações, incluindo a de ter incendiado Paris, segundo ela para colocar uma barreira em chamas contra os invasores de Versailles. Insistem por uma defesa, e ela responde que se a deixarem viver, ela não irá parar de gritar vingança. O juiz responde “Eu não posso te dar a palavra se você continuar nesse tom!” ao que ela responde “Eu acabei! Se vocês não são covardes, me matem!”. Depois destas palavras, que causaram uma profunda emoção no auditório, o conselho se retirou para deliberar. Depois de alguns instantes, ele volta à sessão para o veredicto. Louise Michel é condenada por unanimidade a deportação para um forte. Levam a acusada e lhe dão o julgamento. Quando o escrivão diz que ela tem 24 horas para pedir uma revisão, ela grita “Não, não tem apelação! Mas eu preferia a morte”.

 

O emocionante julgamento de Louise Michel, uma das communards, levou-a a deportação por 20 meses. Lá, presa, recebe a visita de Paul Lafargue, também combatente. Na conversa, depois publicada por Lafargue, Louise declara:

 

“Não sinta pena de mim, estou mais livre do que muitos daqueles que andam ao céu aberto. Suas cabeças estão presas, estão acorrentadas por sua propriedade, por seus interesses econômicos (ou financeiros), as tristes necessidades de suas vidas. Estão absorvidos de tal maneira que não podem viver como os vivos, como seres. Da minha parte, vivo a vida do mundo. Eu sigo com entusiasmo os movimentos revolucionários da Rússia, Alemanha e França, todos os lugares. Sim, sou uma fanática, e como todos os mártires, o meu corpo não sente a dor quando os meus pensamentos me transportam para o mundo da revolução” 

 

Louise também organizou o Clube da Revolução, e lutou pela educação profissional e pela criação de orfanatos laicos, o que naquela época era uma inovação. Participou da I Internacional, onde fundou a União de Mulheres para a Defesa de Paris e a Ajuda aos Feridos. Certamente foi uma das personagens mais célebres da Comuna de Paris. Hoje, reivindicada por muitos anarquistas, a trajetória de Louise, com seus erros e acertos, deve nos levar a refletir sobre as conclusões mais profundas a que chegaram os revolucionários russos no início do século XX sobre a Comuna. Como demonstramos acima, sobre os erros cometidos que levaram a classe trabalhadora parisiense a “parar pela metade”, faltou-lhes também um partido revolucionário, que pudesse confluir com o melhor da vanguarda operária e das massas parisienses para levar a experiência da Comuna à vitória. Um erro que, talvez, fosse inevitável para a época da Comuna, quando o proletariado recém se formava como classe independente na sociedade moderna. Mas que hoje podem, com toda certeza, ser evitados, bastando para isso tirar as lições das batalhas de classe que se deram da Comuna até os nossos dias. Como na Revolução Espanhola, onde um batalhão internacional recebeu o nome de “Louise Michel” em sua homenagem, os 140 anos da Comuna devem nos fazer rememorar a experiência incendiária desta mulher e lutadora. Viva os 140 anos da Comuna de Paris.

 

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