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A Grécia no centro da crise econômica

por Iuri Tonelo

A crise econômica mundial tem acelerado seus ritmos no último período, especialmente na Europa. Os diversos economistas burgueses já traçam analogia do presente período com o início da crise em 2008, quando da quebra de Lehman Brothers. A última irrupção intensa da crise na Grécia aparece como um sinalizador do caráter estrutural da crise das dívidas públicas dos Estados europeus.

O último relatório do Banco Internacional de Compensações (BIS – Bank for International Settlements), que reúne os bancos centrais de diversos países, advertia sobre a necessidade de uma coordenação internacional para os ajustes e pacotes, em detrimento de qualquer iniciativa particular que poderia “custar muito caro”[1]. Não é nova as propostas de coordenação da ação burguesa internacional, que esbarram cada vez mais nos limites impostos pelos conflitos interestais que aceleram os choques de interesse em meio a crise; mas é interessante perceber que o alerta contido no “custa muito caro”: com o aprofundamento da crise, o cenário “Lehman Brothers” se recolocaria com a diferença histórica de 3 anos e trilhões de dólares a menos para os Estados lidarem com a crise do setor privado utilizando das finanças públicas.

Assim que a burguesia aponta cenários imediatos possíveis especialmente para o caso Grego, conforme expressou Martin Wolf (Financial Times) tendo em vista o relatório do BIS: liquidação da dívida; calote; aumento da renda real; inflação.

Tendo em vista a limitação das dívidas públicas para dar “choques de liquidez”, como fizeram em 2008, a combinação que se coloca para a Grécia (e demais países no aprofundamento da crise) liga políticas monetárias internas (implicando em inflação), redução de déficits fiscais (e subseqüente redução dos gastos sociais), privatizações, combinadas com pacotes de estancamento imediato da crise (advindos do FMI e UE), o que em outras palavras significa concentrar em toda linha um ataque frontal a classe trabalhadora grega e a juventude, impondo a uma geração uma condição de vida profundamente mais desfavorável, arcando na pele com os custos que o governo grego coloca para manter os lucros dos bancos alemães e franceses.

O plano de austeridade grego

“Alas, Greece’s austerity plan looks doomed to fail” [Infelizmente, o plano de austeridade grego parece estar fadado ao fracasso]; assim escrevia The Economist em sua última análise da crise grega[2]. O que qualquer analista burguês sério poderia facilmente reconhecer é que a crise no setor privado na Grécia não será resolvida em ações que tergiversem a incompatibilidade de produção de valor (e do conjunto produtivo da economia grega) para alimentar as herdadas bolhas de dívidas da hiperfinanceiração da economia mundial, o que coloca a Grécia de joelhos diante da União Européia (especialmente da Alemanha e França), aprofundando os planos de austeridade de acordo com a cartilha internacional que não vê nenhuma solução de fundo para a crise, nenhuma possibilidade de um novo padrão de acumulação capitalista em termos internacionais.

A saída então é um coordenado e profundo ataque a classe trabalhadora (grega no caso), medidas insuportáveis para um país socialmente já frangalhos.

O plano deve ser aprovado para ser implementado de agora até 2015, recebendo um pacote internacional do FMI e União Européia de 120 bilhões de euros. Entre os pontos do plano de austeridade aprovado, encontram-se privatizações – incluindo setores estratégicos como de portos El Pireo e Salónica e setor de correio; subida de impostos – com incremento de 2,3 bilhões já em 2011; aumento do IVA (imposto sobre valor agregado) – para se ter uma idéia o valor desses impostos em bares e restaurantes chegará a quase ¼ (23%); demissões massivas (aposentadorias e acabando com contratos temporários) no setor público (querem economizar 770 milhões só em 2011); economia de 5 bilhões em benefícios sociais etc[3].

Ou seja, nos próximos anos, está decretado aos trabalhadores gregos que sua situação só poderá piorar, sistematicamente. Isso relacionada com o “fracasso previsível” do plano em termos mais estruturais, não tira do horizonte da recessão.

A crise entre o conflito interestatais e a organização dos trabalhadores

Está clara que a saída para a crise grega é pontual e que outras irrupções da crise da dívida se sobressaíram na Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda etc. em um curto prazo. Os economistas internacionais, apavorados até a aprovação do plano de austeridade encabeçado pelo primeiro ministro George Papandreou no parlamento grego, agora se iludem com um suspiro de estabilidade e otimismo nas bolsas do mundo.

A tendência que mais se delineia na União Européia é que o aprofundamento das crises internas abrem possibilidade real de default e desvinculação da UE, como aparece concretamente para a situação grega. Isso levaria a uma desestabilização do sistema econômico e financeiro, com grandes repercussões (inclusive monetárias imediatas) para todo o mundo e de um alcance imprevisível.

O fato é que a EU não é um super-estado ou uma unidade econômica, de modo que não suprime os conflitos interestatais os quais estão sendo acelerados, que começam no campo econômico (e nas guerras monetárias) e vão assumindo embrionariamente uma feição política, atuando para preservar os seus interesses financeiros e de seus monopólios –  vinculados à sua política imperialista para os países semicoloniais. Nesse sentido, soa ridícula a sistemática iniciativa da intectualidade burguesa de reafirmar aos quatro cantos a “necessidade de uma saída coordenada”, quando a realidade é cada vez mais imperativa na imposição das contradições entre Estados.

Nesse sentido, observamos o destacamento da Alemanha como imperialismo central no meio da crise, que aprofunda a empreitada de Ângela Merkel por relações bilaterais com China e Rússia, para localizar o país frente a um cenário  econômico mais crítico.

Os cenários mais explosivos não estão descartados para o próximo período, inclusive o cenário de desestruturação do euro e fortes fluxos de capitais da periferia e países economicamente mais débeis da UE para os principais imperialismos.

Isso leva a uma situação na luta de classes internacional em que a juventude começa a ser empurrada às mobilizações, mesmo herdando toda a herança do período de restauração burguesa, neoliberalismo, descrença em partidos, na auto-organização e na aliança com os trabalhadores, como acontece agora na Grécia, Espanha, Inglaterra etc. Entretanto, cada vez mais as direções do movimento operário vão mostrando toda sua ineficiência, como o Partido Comunista Grego (KKE) na Grécia, que frente aos ataques insiste num programa de eleições e “debilitamento do governo”; a juventude e trabalhadores também vão fazendo sua experiência com o Estado burguês e suas fortes repressões policiais, a qual uma camada da juventude radicalizada começa a se conformar dispostas a ir por mais contra os planos de austeridade burgueses.

Assim, a Grécia aparece como um sinalizador do desenvolvimento da crise econômica mundial: por um lado, ataques frenéticos da burguesia em meio sua incapacidade de dar qualquer resposta estrutural (que deve se generalizar em outros países da zona do euro); por outro lado, um aumento encadeado da luta de classe, descontentamento da juventude e trabalhadores, enfrentamentos com a repressão policial etc. Uma geração que deve enterrar suas ilusões nos parlamentos burgueses e buscar suas vias de auto-organização, com assembléias de trabalhadores e estudantes que possam conformar o embrião de uma resposta de fato a essa crise.

Para isso, os trabalhadores e a juventude grega devem avançar para um programa que inclua a suspensão das dívidas e a derrubada imediata dos planos de austeridade, vinculando esse programa com consignas de nacionalização dos bancos, controle operário das finanças públicas, monopólio do comércio exterior, nacionalização e controle operário dos ramos industriais e de serviços fundamentais, confisco dos bens dos especuladores e escala móvel de horas de trabalho e de salários.

Só atrelando a auto-organização dos trabalhadores e da juventude com um programa revolucionário, rompendo com as velhas direções do movimento sindical e buscando uma saída independente e dos trabalhadores para essa crise  é que pode-se ganhar os anseios dos trabalhadores, dar um sentido de futuro para a juventude e realmente concretizar a consigna de que “os capitalistas paguem pela sua crise”.


[1] – “While adjustment by surplus and deficit countries is necessary and mutually beneficial, it is constrained by a fundamental problem: countries may find unilateral adjustment too costly. This means that international coordination is essential to break the policy gridlock” In: http://bis.org/publ/arpdf/ar2011e_ov.htm

 

[2] – “The abuses of austerity” –  versão impressa, Print edition – July 2nd 2011

. Encontra-se o texto na versão online em: http://www.economist.com/printedition/

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