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Amy Winehouse, a indústria cultural e a questão das drogas

por Bernardo Andrade
 
 
 
“Eu não quero beber nunca mais, eu só preciso de um amigo”. É assim que Amy Winehouse resume em sua música – Rehab – seus problemas com as drogas. Na verdade esse pequeno trecho expressa apenas uma pequena parte dos problemas de Amy. Se o uso auto-destrutivo de drogas foi uma característica marcante da trajetória de Amy, a raiz dessa mesma característica não se encontra no uso de drogas em si – como a cocaína – senão na busca às estranhadas necessidades e aspirações profundas de um ser humano em constante e completa contradição às formas sociais em que vivemos hoje. Humanidade procurada, no caso de Amy, na arte e, simultaneamente, na negação desta.
O uso de drogas na música durante os anos 60 foi característica marcante do que havia de mais radical, do ponto de vista estético, na produção musical do período. De Jimi Hendrix ao mundo, fazer música no período se tornou explorar radicalmente a sensibilidade e consciência humana. O uso da música eletrônica (distorção), da cocaína e do LSD em Jimi Hendrix propunha o questionamento do uso da eletrônica e dos “agentes (químicos) laranjas” na guerra do Vietnam.
Porém, a arte não muda a vida e a aposta hippie de sociedade alternativa foi a transfiguração política pela qual o questionamento radical da juventude, através da estética, do questionamento à repressão sexual e do uso questionador das drogas, no período foi derrotado e não pôde realmente transformar as bases da sociedade e acabar com a exploração e opressão – ainda que aqui falamos especificamente do movimento hippie; em contrapartida, no mesmo período a juventude francesa dava grande exemplo de luta se aliando à classe trabalhadora e questionando a base do capitalismo, ou seja, a sociedade de classes. Aconselhamos a leitura do artigo Reflexões sobre a crise da universidade  e o movimento estudantil. Estudantes e Trabalhadores: Uma aliança estratégica sobre o assunto.
Assim, dos anos 80 em diante vimos uma ofensiva neoliberal que tirou os direitos dos trabalhadores e do povo pobre e que se aprofundou depois da queda do muro de Berlin e a propaganda burguesa de que a história havia acabado, de individualismo e falta de perspectivas. Como não poderia deixar de ser, a cultura seguiu o mesmo caminho, se aprofundando não como meio de emancipação humana senão como verdadeiro guia moral para a triste época de restauração burguesa.
Nesses anos se aprofundam as péssimas condições de vida, o número de favelas cresce exponencialmente e as péssimas condições da juventude trabalhadora, negra e pobre obriga uma elevação exponencial no número de jovens que se aliam ao tráfico de drogas – hospedado justamente nas favelas e periferias, mas dirigido desde as partes ricas das cidades por políticos burgueses em apartamentos de luxo, desde os quartéis policiais por seus oficiais e desde os prédios públicos pela participação dos poderes legislativo, judiciário e executivo, que são os que nacionalmente lucram com o mercado do tráfico de drogas. A ofensiva burguesa nesse período de restauração, no campo das drogas, eleva os lucros dos grandes laboratórios, dos fabricantes de armas e logística nos países imperialistas. Já nos países semi-coloniais, como Brasil, Afeganistão e Bolívia, degrada as condições sociais e trabalhistas, joga um grande setor da juventude à marginalidade, ao mercado ilegal das drogas, acompanhada da ideologia de que não são mais trabalhadores senão apenas “pobres urbanos”, aumenta o massacre e a repressão policial à juventude, os assassinatos da polícia racista e aprofunda a proibição das drogas como meio de elevar seus lucros da burguesia.
Por outro lado, a indústria cultural avança como instrumento de dominação, enganando as massas através do cinema, das novelas, do rádio, revista e outdoor, quebrando cada vez mais a liberdade de expressão e de produção artística, entregando seus produtos midiáticos como pretensas obras de arte, segundo os quais o único resultado possível para o espírito humano é o embrutecimento da consciência e da sensibilidade. Produtos segundo os quais a única expressão estética e política é um guia moral burguês, filmes que tem sempre os mesmos personagens, que acompanham um atestado de bom comportamento, caracterizado pelo machismo, pelo preconceito, pelo conservadorismo, pela homofobia, pela confiança no estado burguês e no imperialismo, sem nada novo do ponto de vista estético, com passagens mecânicas e rápidas onde o único sentido é fazer imaginar uma situação difícil e dar uma resposta conservadora para esta mesma situação, a esposa que supera as dificuldades do casamento pelo amor incondicional ao marido e aos filhos, o herói que supera os inimigos pela maravilha do mundo do consumo individualista, o presidente estadunidense que salva a humanidade dos aliens, o jogador de basquete negro que supera as dificuldades da vida de pobreza seguindo os mandamentos do técnico branco e autoritário.
Enfim, obriga o trabalhador e a juventude a viver o regime de exploração fabril nos seus momentos de descanso[2], fora da fábrica, em sua casa assistindo televisão ou ouvindo uma música, que nada mais é do que uma fabricação cuidadosamente modelada para acomodar o espírito e fazer frustar, que afasta a busca pelas aspirações humanas dos próprios humanos, transformando o que deveria ser fruto da livre expressão estética humana em produto pronto, à venda, feita por “grandes artistas”, tão diferentes do trabalhador comum… um gênio, ou lunático, mágico, auto-destrutivo… o produto pode ser tudo, desde que inserido à indústria cultural faça da sensibilidade humana, rica e interminável, um arquivo de situações pré-concebidas e brutas, prontas para serem reproduzidas e justificadas.
E hoje, ao mesmo tempo em que a juventude no Mundo Árabe, na Europa e Chile se coloca em luta e indica o que pode ser o fim desse período de restauração burguesa, os moralistas burgueses saem a dizer sobre a morte de Amy Winehouse, “um talento desperdiçado pelas drogas”, “não é exemplo pra ninguém” e muitas outras frases recheadas da hipocrisia doentia que a burguesia – essa sim degenerada – quer fazer passar, sua verdadeira imagem e semelhança.  
 
Não acreditamos em uma só palavra do que dizem!
 
A verdade é que a proibição das drogas e a indústria cultural existem ambas partindo de um sentido comum. A burguesia, em sua sede insaciável de lucros, estranha o produto do trabalho humano dos próprios produtores. As drogas são fruto do trabalho e da cultura humana, usadas pela humanidade no decurso de toda sua história e no capitalismo, transformadas em mercadorias em favor do lucro, precisam existir em função somente do mesmo lucro. Para tanto a burguesia usa das leis proibitivas e do moralismo. E a indústria cultural é ela mesma esse moralismo.
A contradição é que Amy era ao mesmo tempo vítima e reprodutora desse moralismo. Inserida na indústria cultural como produto a ser consumido não poderia estar ela mesma por fora do sentido alienante que imprime a burguesia à cultura no capitalismo. A liberdade para explorar a sensibilidade e consciência humana não existe por dentro da indústria cultural. Amy não foi nada mais do que os moralistas que hoje a criticam queriam que fosse. O que havia de autêntico em sua música – o resgate do soul, um aparente radicalismo, o diálogo com o público do rock`n`roll etc – nada mais era do que a ferramenta necessária para trazer os setores que buscam questionar a indústria cultural para dentro da própria indústria cultural, para dar a impressão de que temos a liberdade de produção artística, de usar drogas, a liberdade para viver de maneira diferente. Um produto para imprimir um significado degenarativo para o uso de drogas. Uma prerrogativa para o estado manter a proibição das drogas em favor dos seus lucros absurdos, da repressão à juventude pobre, de potencializar a exploração, a precarização e o rebaixamento geral das condições de trabalho, dos salários – através da degradação das relações humanas que permeiam a vida da juventude obrigada a trabalhar para o tráfico de drogas por falta de perspectivas – e da vida da juventude que mora nas favelas e periferias pelo mundo.  
A juventude temos que lutar contra o moralismo ideológico que coloca a burguesia, não podemos cair nessa armadilha. Temos de defender a legalização de todos os tipos de droga ou substâncias, para todos os tipos de uso, medicinal, científico e recreativo!
Queremos que o estado não regule nossas vidas! Que possamos ter controle do fruto do nosso trabalho sem que um punhado de capitalistas e o estado nos digam que somos incapazes de usar o que produzimos em favor dos interesses da humanidade. Que possamos explorar nossa sensibilidade e consciência livre, pois degeneradas são as condições de vida que nos impõe a burguesia e não nossa capacidade de explorar nossa consciência e sensibilidade livremente, através das drogas inclusive!
Mas também sabemos que não é possível avançar a esse nível de compreensão por dentro do Estado que vivemos hoje, ou seja, um estado burguês capitalista. Afinal, são os capitalistas que controlam a produção através da expropriação do produto do trabalho da classe trabalhadora. Portanto, a juventude temos uma primeira e primordial tarefa, assim como os jovens no maio de 68, nos unirmos aos que tudo produzem e por isso são os que podem organizar a produção a serviço dos interesses da humanidade e não do lucro; a classe trabalhadora.
Expropriar e estatizar as empresas produtoras de todos os tipos de drogas sob controle operário, popular e da juventude, organizados democraticamente, independente do estado e dos capitalistas para organizar a distribuição, comissões independentes de pesquisa para o desenvolvimento e estudo sobre as drogas, comissões de investigação independentes para relacionar e confiscar os bens dos responsáveis pelo tráfico de drogas no poder judiciário, legislativo e executivo. Por atendimento médico e psicológico, público, gratuito e de qualidade a todos os usuários garantido pelo Estado,  pela quebra de todas as patentes de todas as drogas (sejam as consideradas lícitas ou ilícitas), reversão das centenas de milhares de reais gastos com as tropas no Haiti e com a implementação das UPP’s nacionalmente para um plano de obras públicas controlado pelos sindicatos, associações de moradores e de juventude para garantir emprego, moradia, educação, transporte, saúde e lazer dignos. Isso só podemos fazer expulsando a polícia dos morros e favelas, lutando pela dissolução da polícia e criando e comitês de auto-defesa contra a violência policial e do tráfico.


[1] Revista ISKRA de teoria e política marxista 1.
[2] ADORNO, Theodor W. A dialética do esclarecimento.

 

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