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A crise internacional e a “união” sul-americana

por Diego Dalai

A cúpula da Unasul de 28/07 em Lima, convocada à princípio para discutir a “desigualdade social” na América Latina e dar apoio ao novo presidente Ollanta Humala, deu um brusco giro diante da possibilidade de default nos EUA. A reunião de presidentes se transformou numa discussão sobre as conseqüências que uma crise semelhante teria sobre a região e que medidas tomar como proteção.

Surpreendentemente, quem mudou o eixo da reunião foi o colombiano Juan Manuel Santos, um dos principais aliados dos EUA no Cone Sul, alertando que “o dólar pode continuar desvalorizando-se e nossas reservas, por fim, perdendo cada vez mais valor e, ao mesmo tempo, nossa economia perdendo capacidade de gerar emprego. (…) Temos que fazer algo juntos e pensar medidas entre todos para nos defendermos.” O restante dos mandatários seguiu no mesmo sentido. O equatoriano Rafael Correa até o convidou sarcasticamente a ingressar na ALBA. A presidenta brasileira Dilma Rousseff se queixou de que “não é justo que o país que gerencia o padrão monetário do resto do mundo o faça de qualquer maneira, porque afeta a todos”.
O caráter que tomou a reunião e os discursos alarmistas refutam a visão de que a região é imune à crise dos países centrais (ou de que existe uma certa ‘separação’, como afirmavam alguns analistas) e mostram que o nível de crescimento regional, em média de 5% com picos de 9% como na Argentina, pode ser gravemente afetado pela crise nos EUA e Europa.
A exposição frente a crise mundial
Ainda que a região até agora não tenha sido golpeada de forma direta pela crise e, ao contrário, tenha se beneficiado de alguns de seus efeitos (como o aumento de preços dos alimentos e das commodities, o que de todas as maneiras provoca forte inflação), está gravemente exposta aos vaivéns das finanças e da economia mundiais.
Um eventual default norte-americano, assim como o aprofundamento da crise na Europa, golpearia fortemente a América Latina. Em primeiro lugar, porque esta região é de conjunto um dos maiores credores norte-americanos (portador de títulos da dívida dos EUA), depois de China e Japão, por isso seria muito afetada se caísse a qualificação dos títulos. Em segundo lugar, porque os países latinoamericanos têm juntos 700 bilhões de suas reservas em dólares, que perderiam grande parte de seu valor com a desvalorização da moeda norte-americana.
Particularmente o Brasil, a maior economia regional que em caso de crise poderia arrastar todos os seus vizinhos, tem mais de 200 bilhões de suas reservas em títulos da dívida norteamericana. A Argentina, a segunda maior economia regional, tem cerca de 50 bilhões de dólares em sua reserva.
Debilidades do crescimento latinoamericano
Outro dos grandes temores é que uma desvalorização maior do dólar provoque a queda da balança comercial da maioria dos países (numa região onde os EUA continua sendo o principal sócio comercial): o que provavelmente traria uma invasão de mercadorias estrangeiras que liquidaria as já pouco competitivas indústrias locais[1], e as exportações seriam muito menos rentáveis.
Além disso, o default dos EUA ou o aprofundamento da crise na Europa poderiam provocar a saída de capitais especulativos de alguns ativos financeiros, como por exemplo os alimentos ou commodities, reduzindo seus preços internacionais, debilitando enormemente a base da maioria das economias latinoamericanas, como o agronegócio na Argentina ou o cobre no Chile.
Entre os discursos de unidade e os interesses capitalistas
Diante deste complicado cenário, todos disseram que a chave é unir esforços para fortalecer a região e evitar um colapso, apostando no fortalecimento da Unasul. Sem dúvida a realidade mostra a fragilidade dos esquemas de crescimento em que se baseiam hoje os países da região. A dependência do capital especulativos, dos preços das matérias-primas e o ritmo de desvalorização do dólar, geram também contradições e fricções no interior do bloco.
Ainda na cúpula da Unasul, votaram a realização de novas reuniões para os próximos dias para discutir medidas concretas de “blindagem” frente a um possível agravamento das condições econômicas internacionais. Assim como em crises anteriores, verão que são absolutamente impotentes para alcançar um consenso que possa favorecer a todos. Pelo contrário, cada país defende seus próprios interesses em base a acordos e laços que os unem aos países imperialistas. Assim mostra o próprio discurso de Cristina contra os capitais especulativos que são uma das bases do crescimento brasileiro, país que mantém altas taxas de juros para atrair estes capitais. Mesmo assim, o recente anúncio de Dilma Rousseff de outorgar subsídios do Estado aos empresários brasileiros de 16 bilhões de dólares é visto com receio pelo empresariado argentino que teme uma maior competitividade dos países vizinhos.
O mais provável é que frente aos primeiros efeitos da crise, mais que uma resposta unificada, veremos um “salve-se quem puder”. E que longe de “aprofundar o desenvolvimento social” buscarão descarregar os efeitos da crise sobre os trabalhadores e o povo pobre. Mais que nunca, os explorados devem levantar os punhos para que a crise seja paga pelos capitalistas e o imperialismo.
UNASUL e a “união” (burguesa) latinoamericana
A União de Nações Sul-americanas foi fundada em 2008 como um organismo de “integração” constituído por 12 países da região. A idéia propagandeada por Chavez e outros “progressistas” latinoamericanos de que os países atrasados podem se desenvolver e se tornar independentes do imperialismo pelas mãos de sua própria burguesia “nacional” e “produtiva” tem se demonstrado totalmente falsa e, algumas vezes, até reacionárias. Quando o presidente colombiano Uribe, abertamente pró-imperialista, outorgou 11 bases militares aos EUA fortalecendo sua presença militar na região, estes progressistas não foram capazes de opor nenhuma resistência além de declarações e discursos. Quando aconteceu o golpe de estado em Honduras gritaram e encheram a boca pra falar em ‘democracia’, mas promoveram as negociações e pacto de San José que deu tempo aos golpistas (até os reconheceu como parte do conflito) para logo aceitar as ‘eleições’ apontadas pelo governo de fato.
Outro fiasco é o “Banco do Sul” proposto há anos, mas que até hoje não se concretizou, o que se vê menos possível num horizonte de crise no qual os principais países da região se negam a utilizar parte de suas reservas para salvar outros países.
Além da incapacidade de se opor seriamente ao imperialismo e seus lacaios, os governos que fundaram e dirigem a Unasul, vêm mantendo (e aprofundando) a dependência das economias regionais ao capital transnacional. Longe de qualquer política séria de industrialização e desenvolvimento, as burguesias nacionais e os governos “progressistas” continuam reprimarizando as economias tornando-as cada vez mais dependentes da exportação de matérias-primas, alimentos e commodities (produtos de baixo valor agregado).
Somente a classe trabalhadora e os pobres da cidade e do campo, enfrentando o imperialismo e seus sócios – as burguesias locais – podem dar uma saída progressiva e colocar em pé a
verdadeira união latino-americana, uma federação de repúblicas de trabalhadores e socialistas da América Latina.
[1] A Colômbia, por exemplo, exporta aos EUA 40% de suas exportações. Uma situação inversa se daria no caso do Equador, que tem sua economia dolarizada há anos (o que Correa tem mantido invariável), e que se veria relativamente beneficiado com uma desvalorização do dólar, pois favoreceria suas exportações tornando-as mais “competitivas” frente a seus “sócios” regionais.
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