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Os “indignados” chegaram ao Estado de Israel

por Miguel Raider

“A Praça Rotschild é nossa Praça Tahir e os políticos devem pagar por seus erros”, disse um jovem estudante de Tel Aviv em sintonia com as reivindicações democráticas da Primavera Árabe. O movimento dos “indignados israelenses” cresceu com grande vigor. O aumento dos preços gerou um movimento de protesto social contra a carestia de vida e direito a moradia, cada vez mais inacessível.

Tudo começou há algumas semanas com um boicote a compra de queijo cottage, o queijo de maior consumo israelense cujos preços aumentaram 40%. “O povo quer justiça social”
foi uma das consignas cantadas nas novas manifestações simultâneas de mais de 150.000 pessoas, um evento inédito na história de Israel com epicentro em Tel Aviv, Jerusalém, Haifa, Ashdod e Beersheva.

A legitimidade das reivindicações foi aprovada pelos trabalhadores de 265 municípios, que se solidarizaram parando as oficinas públicas e abandonando a coleta de resíduos. Grupos de pais marcharam exigindo o rebaixamento dos preços e das creches e jardins de infância públicos. Os médicos e os assistentes sociais também se mobilizaram como vem fazendo há semanas por aumento de salários. Ainda que pequena, foi muito significativa a marcha em Nazaré, que contou com a participação conjunta de manifestantes judeus e árabes. Até os colonos ortodoxos dos territórios palestinos reconheceram a justeza das demandas, mas advertiram sua oposição a propósito do caráter de “esquerda” do movimento. Enquanto uma comissão de indignados se reuniu com o presidente Shimón Peres, a Histadrut (central de trabalhadores sionista) se viu forçada a apoiar as demandas e advertir sobre as possíveis medidas de força.

Os indignados instalaram acampamentos no central Boulevard Rotschild de Tel Aviv, no Parque da Independência de Jerusalém e nas cidades de Ramle, Beit Shemesh, Beersheva e
Kfar Saba. A “revolução das tendas”, como chama o jornalismo, baseia-se num movimento social em que convergem estudantes universitários, jovens profissionais da classe média e uma incipiente intervenção de trabalhadores, embora apoiado por 80% da população, como diz o diário Haaretz.

Os estudantes denunciam que o aluguel de um quarto aumentou 1600 shekels, pouco mais de 465 dólares, subindo 533% em três anos, acompanhando os preços exorbitantes das
propriedades, desencadeados pela especulação imobiliária. O cansaço da classe média responde ao peso oneroso dos impostos (água, combustíveis, carros, etc), com que o tesouro israelense financia o parasitismo dos judeus religiosos ortodoxos e as colônias e assentamentos na Cisjordânia, uma necessidade intrínseca ao expansionismo sionista. Entretanto, o Ministério da Habitação e Construção está se preparando para construir um complexo de edifícios nas colônias de Betar Illit e Karnei Shomron e as classes médias e os assalariados
são privados do direito a moradia.

Unidade entre trabalhadores árabes e judeus

Os indignados denunciam a política neoliberal do governo direitista de Benjamín Netanyahu baseada nas privatizações, desregulamentação do mercado de trabalho e concentração da riqueza em apenas 20 famílias que monopolizam 50% do mercado de valores. Embora o desemprego seja baixo (5,7%), o abismo social entre as classes mais ricas e as classes mais pobres aumentou com baixos salários e concessões infinitas para os grandes empresários.

A crise já implicou na demissão de Haim Shani, segundo chefe do Ministério das Finanças, a partir das diferenças expressas com Netanyahu e seu superior, o ministro de Finanças, Yubal Steinitz. A diferença apressou a aprovação das contas entre o gabinete de ministros e o tesouro israelense que se opõe aos grandes subsídios passados às grandes construtoras. Com pouco tato Netanyahu qualificou de “incapazes” os funcionários dessa área, situação que incendiou a ira dos indignados que exigem o direito à habitação.

Shas, um dos três partidos que compõe a aliança com o governo, ameaçou retirar-se do poder executivo pressionado pela sua base composta por judeus mizrahis (orientais), que são o setor mais pobre e compõe a metade da população de Israel.

Benny Gantz, chefe da Força de Defesa de Israel, questionou a possibilidade de cortar o orçamento de defesa, como uma ameaça a hegemonia militar o Estado judeu no Oriente Médio. Enquanto, Netanyahu se viu obrigado a postergar sua visita a Polônia com a finalidade de persuadir o governo para que se oponha ao reconhecimento de um Estado palestino antes da sessão de setembro da Assembleia da ONU defendida pela Autoridade Palestina, um cenário que Netanyahu, Obama e o establishment americano preferem omitir para evitar a exposição de suas posições reacionárias.

Netanyahu apóia a política contra-revolucionária das burguesias árabes que, tal como demonstra o regime sírio de Bashar Al Assad, esmaga as mobilizações de massas e suas demandas democráticas com centenas de mortos. Não casualmente Benjamin Ben Eliezer, ex-ministro do Trabalho, Indústria e Comércio, ofereceu asilo político a Hosni Mubarak, o ditador egípcio
responsável por mais de 800 assassinatos.

Com a crise econômica internacional como pano de fundo, o aumento dos preços e a pauperização de amplos setores da população israelense estabelece as bases materiais para uma potencial unidade entre os trabalhadores árabes e judeus. Unidade subversiva que atenta contra as bases sociais do Estado sionista, fundado sobre a opressão nacional do povo palestino a partir de um exército de ocupação e uma política de colonização permanente. Só rompendo com o sionismo, os trabalhadores e os estudantes judeus podem avançar neste sentido, junto ao povo palestino e as massas árabes para tornar concretas todas as suas demandas enfrentando as políticas reacionárias do estado de Israel, as burguesias árabes e o imperialismo norte-americano.

 

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