Lançamento da revista Iskra nº2!

(Publicado a 9 de novembro de 2009)

Edison Salles

Pouco mais de um ano nos separa da publicação do primeiro número da revista Iskra. De lá para cá, desenvolveu-se a crise, adquirindo esse caráter perturbador que se explicita atualmente, ao desdobrar seus efeitos de maneira tão diversa nos distintos países. Tiveram lugar novos fenómenos políticos, que apenas pressagiam o que virá nos próximos anos. Aprofundando o projeto de agrupar uma forte intelectualidade revolucionária, capaz de ser um elemento novo no quadro histórico da esquerda brasileira e que, combinando-se com os destacamentos avançados de trabalhadores que se levantam contra a crise, contribua para a construção do partido revolucionário no país. Para os que já conhecem a primeira edição, a segunda trará a grata reafirmação dos núcleos fortes do projeto. A crítica ao pensamento social brasileiro consagrado avança mais um passo importante, da desmistificação do suposto “fundador” Caio Prado Jr. para o debate esclarecedor do sentido e dos profundos limites da “teoria da dependência” ’ esta, de resto, muito mais citada do que conhecida. O projeto expandiu-se e ganhou contribuições de firme vocação crítico-revolucionária, o que permitiu que pudéssemos encarar o tema inescapável do momento ’ sim, a crise capitalista mundial ’ por meio da crítica a dois autores que são duas vertentes do pensamento contemporâneo: François Chesnais e Giovanni Arrighi. E isso com elaborações cuja qualidade se põe à prova pelo fato de que não caem nem no “economês” do primeiro nem no “geopoliticismo” do segundo ’ ao mesmo tempo em que sabem reivindicar, no mesmo movimento crítico, as contribuições efetivas de ambos, mesmo ali onde estas se restrinjam ao colocar de novos problemas. Neste número, por outro lado, dando desenvolvimento mais amplos a algo que não chegava a estar ausente da edição inaugural, dedicamos um espaço maior à crítica do pensamento burguês ’ Max Weber e Joseph Schumpeter, no caso ’ não sem um “empurrãozinho” da questão uspiana e sua chocante atualização da influência do pensamento conservador em estratos significativos dos acadêmicos ’ e, o que é pior, entre os estudantes. Artigos que superam em muito a divisão convencional de “História” ou “Sociologia” oferecem discussões cheias de interesse e de grande atualidade do ponto de vista das respostas à crise do ponto de vista dos explorados: um texto sobre o exemplo da fábrica Zanon na Argentina, recentemente expropriada definitivamente da patronal italiana, e outro sobre as origens do trotskismo no Brasil, como pedra angular da experiência revolucionária que é preciso resgatar em âmbito nacional.

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Mas o verdadeiro assunto aqui não poderia ser outro: a continuidade do conflito na USP. Afinal, a nossa é uma revista teórica com inconfundível vocação política. E como tal, desejamos dar respostas no sentido de ampliar o movimento pela democratização radical da universidade, particularmente construindo uma verdadeira vanguarda estudantil que, rompendo com o autismo dos grupos que hoje gozam maior visibilidade e ligando-se aos interesses da massa dos estudantes, coloque-se como oposição combativa e inteligente ao reformismo “o-petismo-não-quer-morrer” do PSOL ’ partido que controla as mais importantes entidades estudantis, a começar do CEUPES (Ciências Sociais). Assim, cada aspecto da vida universitária nesta que é a vitrine e a referência para todo o país ’ cada aspecto que mereça revolucionado ’ cada um faz vibrar os nervos ansiosos desta equipe em que nenhuma caneta desconhece ou subestima a necessidade de fazer-se também espada. A mesmice dos vários candidatos a “portadores da excelência” ’ tanto quanto a hipócrita homenagem que prestam ao movimento do primeiro semestre, ao falarem em uníssono sobre a necessidade de “democratizar a USP” … A desfaçatez com que as perseguições permanecem e se ampliam apesar das resistências e das consciências que não se dobram… Cada aspecto dessa vida universitária ’ e olhem que nem falamos das humilhações diárias de nossos companheiros “terceirizados-apartheidizados” na faxina, na vigilância, etc ’ cada um deles faz vibrar um nervo político destes novos intelectuais revolucionários decididos a fundir-se num amplo movimento de classe em busca do novo. Desse ponto de vista, o franco declínio ideológico do capitalismo de nossos tempos não deixou de dar também seus bons frutos. O consagrado sociólogo Chico de Oliveira, que por “republicanismo” (alguém ainda se lembra de suas palavras?) rompeu em 2003 com o “Partido dos Trabalhadores” , pós-se agora em defesa do programa mais avançado que a USP viu nos últimos anos ’ por meio de uma “anticandidatura a reitor” com um programa encabeçado pelos trabalhadores da USP e seu Sindicato, e que passa por questões tão fundamentais como o fim do atual Conselho Universitário (C.O.) e a democratização radical da estrutura de poder uspiana; o fim do filtro social do vestibular e o acesso direto para todos a um ensino superior de qualidade; a efetivação de todos os trabalhadores terceirizados com salários, direitos e condições de trabalho dignas. Enquanto isso, alguns “anões políticos” travestidos de esquerdistas fazem sua obra ao sabotar a unidade em torno a tal programa ’ gente que não se incomoda em tentar emporcalhar aquilo que no campo da esquerda surgiu de mais novo, de mais firme e digno de respeito revolucionário (a atuação do SINTUSP na greve do primeiro semestre); e que o faz sem qualquer espécie de princípio, e com tanto mais facilidade quanto se trata de gente socialmente acomodada e preocupada unicamente com os desdobramentos puros de sua própria “rebeldia” isolada ’ se possível num “Território Livre” ’ pouco importa se cercado de miséria por todos os lados. (E aqui a nota triste é que sejam acompanhados ’ não sem críticas ’ por certo número de estudantes combativos que ainda não aprenderam a separar o joio do trigo no mercado de idéias revolucionárias, e que se deixam atrair pelo conhecido brado ’ aliás: tão conhecido! tão inofensivo! ’ de “novo pelo novo” . É o reflexo imaturo, no campo da esquerda, da acomodação social que a direita velhaca expressa em seus jantares sociais como louvou à USP como “Suíça brasileira” . O “Território Livre” ’ subversão enlatada para consumo imediato? Já o PSTU, que não esqueçamos, é nada menos do que a atual gestão do DCE-livre da USP ’ ou será apenas a administração de um “DCE-vazio” ? ’ o PSTU, dizíamos, parece querer celebrar sua própria capacidade de desperdiçar oportunidades políticas. Afinal, não foram eles brindados com a possibilidade de realizar um Encontro nacional com milhares de estudantes no momento mesmo em que a crise uspiana estava no seu auge, fato que significaria diretamente, entre outras coisas, a certeza de repercussão verdadeiramente nacional para a iniciativa, além de um novo impulso para que o movimento na USP se aproximasse de seus objetivos de amplo alcance? O PSTU, enfim, enquanto gestão do DCE, teve o mérito de participar da articulação da citada anticandidatura de Chico de Oliveira ’ quem, com seus limites, constituiu um grande nome para uma política justa e, afinal de contas, revolucionária ’, porém o mesmo PSTU, concluamos de uma vez, logrou a proeza de desaproveitar essa grande oportunidade de fazer, verdadeiramente, política de esquerda na USP. Enquanto isso, o PSOL, duplamente amesquinhado por sua política ’ uma vez, sonora, ao aceitar jogar as “regras do jogo” após as bombas que caíram no dia 9 de junho a serviço de mostrar a quem quisessem ver quão estreito e desagradável é esse jogo ’ outra vez, surda, quando se colou à insossa figura de um Chico Miraglia 100% dentro do regime universitário, enquanto Chico de Oliveira oferecia uma perspectiva tão amplamente mais generosa para os de dentro e os de fora da USP. ’ Enquanto isso, esse mesmo PSOL dupla, triplamente amesquinhado, cumpridor à risca das normas tucanas para o jogo de poder uspiano, póde ditar por sua vez as suas próprias regras do jogo institucional-estudantil para o DCE… do PSTU! Aliás, um jogo institucional jogado à saciedade na USP desde as velhas épocas petistas, numa época em que os jovens burocratas usavam uma enganadora estrela no peito enquanto faziam sua política de arrivistas pelas costas da maioria estudantil.

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“Mas o que a revista Iskra tem a ver com tudo isso” ?, podem perguntar os mais desconfiados de nossos leitores. Ora, tem simplesmente tudo a ver! Pois nós fazemos teoria (com enorme esforço e resultados, apesar de tudo, modestos) justamente para que nossa prática ’ e um dia, mais cedo do que tarde, não apenas a nossa, assim esperamos ’ supere o lodaçal aqui descrito, e se erga até onde for necessária a essa realidade que tanto nos fatiga… Pois nós fazemos teoria com esta perspectiva; e porque como jovens ’ e como tal sabemos não só com a cabeça mas com as veias e com o corpo inteiro ’ que apenas inspirando e mobilizando a nossos pares é que poderemos novamente nos fundir num movimento coletivo capaz de abrir de fato novas perspectivas.

PS: uma última nota, em homenagem ao mais novo integrante de nosso pequeno time de autores, alguém cuja incorporação nos enche de orgulho e que nos ameaça, a cada gesto, com ser o espírito mais jovem embarcado nesta empreitada ’ apesar, ou talvez por causa, de seus mais de quarenta anos de experiência no movimento trotskista: seja bem vindo, camarada Gilson Dantas!

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