Manifesto Editorial | Revista Iskra n° 1

(Publicado a 13 de março de 2009)

Manifesto Editorial | Revista Iskra

O momento atual é percebido, cada vez mais, como de transição. O mundo se prepara em tensão absoluta de nervos para um novo giro da roda histórica.

Os primeiros episódios daquilo que vários analistas definem como uma catástrofe econômica sem precedentes desde a Grande Depressão, e que tem golpeado duramente nada menos do que o coração do capitalismo mundial, os Estados Unidos, trazem à tona sinais dramáticos da decadência e da anarquia do próprio capitalismo. A bancarrota de algumas das principais instituições financeiras e bancárias em diversos países imperialistas, tendo Wall Street como epicentro, configura-se já neste início da crise como o enterro definitivo do triunfalismo burguês que marcou as últimas décadas, confirmando a vigência da definição clássica de que vivemos em uma época marcada por “crises, guerras e revoluções”.

Isso se soma à crise de hegemonia de um imperialismo à margem do qual se fortalecem novas potências regionais, e que às vésperas das eleições presidenciais se prepara, possivelmente com uma virada simbólica encabeçada por Barack Obama, para ter de reconhecer a nova correlação de forças mundial após o fracasso dos planos neoconservadores. A Europa, após o fiasco da UE, cujos principais países como a França e a Alemanha buscam a todo custo atacar sua própria classe trabalhadora para acabar com o que resta do Estado de bem-estar, já enfrenta grandes quebras bancárias; a Grã-Bretanha segue a passos largos o caminho dos EUA, enquanto na Espanha e na Itália vemos a explosão do mercado imobiliário, o aumento do desemprego e a emergência de forças políticas de ultra-direita. O velho Japão imperialista e a emergente China, com seu frágil mercado interno e seus oitocentos milhões de camponeses famintos, que para muitos otimistas iriam comandar um deslocamento do centro do “sistema mundo” para o sudeste asiático, revelam sua estrita dependência com relação ao mercado norte-americano, e preparam-se como podem para tempos difíceis. Em particular, as ilusões sobre o papel da China como substituto para o papel declinante da potência estadunidense parecem cair por terra muito mais rápido do que se poderia pensar há pouco tempo, na medida em que sua debilidade estratégica se explicita em sintomas como as fortes quedas no mercado imobiliário, o fechamento de grandes empresas de capital chinês e a contração geral do consumo. Toda esta situação anuncia a tendência ao surgimento de novas tensões entre as potências mundiais no próximo período.

Em nosso subcontinente, temos a experiência com os governos “pós-neoliberais”, especialmente na Venezuela, Bolívia, Argentina, que vêm sendo desafiados sobretudo pela direita mais reacionária nos diversos países, porém cujo discurso de mudança se desmascara dia após dia pela convivência pacífica com a propriedade privada, e em alguns casos pela impotência para derrotar a mesma direita racista e pró-ianque que ataca impiedosamente para recuperar as posições políticas, econômicas e simbólicas que tiveram de ceder na etapa anterior, sob a ameaça das massas que se levantavam na região.

Nesse marco geral, se por um lado as condições objetivas internacionais se mostram cada vez mais complicadas para a burguesia imperialista, movendo-se num sentido geral extremamente favorável para o desenvolvimento de convulsões políticas e sociais de magnitude imprevisível; por outro lado as condições subjetivas para uma ação revolucionária de massas nunca estiveram tão atrasadas, talvez desde o próprio surgimento do marxismo: nas consciências operárias segue o impacto da restauração capitalista nos países onde a burguesia havia sido expropriada, e no mundo todo se mantém e reproduz o lixo ideológico que acompanhou a ofensiva neoliberal.

De fato, a subjetividade da classe operária, que está dando seus primeiros passos em uma série de países, não ultrapassa ainda os limites de uma recomposição econômico-sindical, mesmo nos melhores casos como nas incipientes lutas que assistimos em países como a França ou no Leste europeu, enquanto a realidade de fragmentação da classe operária ainda impera por toda parte . Ao mesmo tempo em que se estende hoje pelo mundo com um peso numérico jamais visto, fortalecida em particular pelos novos batalhões de trabalhadores chineses que se incorporaram vertiginosamente às suas fileiras nos últimos anos, essa imensa força potencial dista muito ainda de se efetivar como um sujeito político independente. E, pelas mesmas razões, dista ainda mais do marxismo, o que por sua vez cria um cenário onde este segue sendo vítima dos maiores ataques, seja do exterior, por parte dos ideólogos a serviço da burguesia; seja a partir de dentro, pelos que se reivindicam em alguma medida herdeiros de sua tradição, e que elaboram a cada dia a sua distorção, seu adestramento, sua mutilação, em renovadas ondas revisionistas.

Isso tudo, ao mesmo tempo em que dificulta enormemente a tarefa dos verdadeiros marxistas, confere a ela um sentido de urgência ainda maior.

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E quanto mais, pois estamos no Brasil! País em que a onda antineoliberal de massas, que derrubou presidentes em toda a vizinhança, expressou-se apenas numa alternância eleitoral, e cujo governo de Lula pôde se aproveitar da mudança de cenário econômico internacional após 2004 para esconder sua face mais abertamente antipopular. Vivemos, assim, num dos países latino-americanos mais atrasados do ponto de vista da luta de classes, onde a ideologia de resignação e questionamento, não apenas subjetivo, mas inclusive objetivo, com relação à classe operária ainda tem um peso semelhante ao que possuiu pelo mundo afora ao longo dos anos 90. Nesse cenário, para muitos setores progressistas da intelectualidade, frente à realidade do governo Lula, a referência ideológica-política deslocou-se para os governos pós-neoliberais da América Latina. Um deslocamento que, motivado pelo conservadorismo petista, encontrou em líderes como Hugo Chávez e Evo Morales um contraponto e um novo foco de esperanças, sem questionar a verdadeira natureza de seus governos ou sobre os laços que mantêm com o regime de exploração de suas próprias populações trabalhadoras. É que, para além do poder de atração que ambos exercem internacionalmente num momento de horizontes estreitos como o atual, o ambiente político e intelectual brasileiro se mostra particularmente propício para que tantos se conformem com a miséria do possível.

No entanto, essa enorme defasagem ideológica dos intelectuais, e que tanto influencia os estudantes, choca quando comparada, por exemplo, com o ambiente intelectual que hoje existe em países como a Argentina, onde a onda dos 90 já foi superada –literalmente, atropelada- pela própria realidade das lutas sociais – basta pensar em dezembro de 2001 – e das mobilizações operárias que, mesmo que predominantemente em nível sindical, entraram no cotidiano nacional já desde 2004.

Assim, e apesar dos anacronismos do presente brasileiro (valha a contradição), é impossível fechar totalmente os olhos para os ventos de mudança; ainda mais agora, quando o espectro da crise econômica desfaz as ilusões de uma estabilidade política perene, assentada sobre um crescimento paulatino e sustentado associado a tímidas medidas redistributivas. E tanto mais porque, se por um lado a falta de ações de massas independentes ainda permite que se mantenha em pé o ceticismo típico dos anos 1990, por outro lado a experiência com a direitização lulista abalou profundamente o principal pilar do status quo político e intelectual da esquerda, o PT.

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Não deixa de ser uma novidade interessante do último período o aumento, seja em quantidade, audiência ou variedade, dos eventos e atividades com temas relacionados ao marxismo, ou debatendo visões marxistas sobre os problemas mais diversos, sobretudo nos meios universitários.

De alguma forma, é sintoma de um processo de recuperação e renovação após nossas piores derrotas. Não nos exime, no entanto, de nos esforçarmos para conquistar uma visão lúcida dos grandes limites que ainda devemos enfrentar.

Afinal, olhando mais de perto, esse marxismo com que nos deparamos nas universidades aparece em geral bastante neutralizado, no melhor dos casos produtor de conhecimentos científicos particulares, porém desprovido não apenas das respostas programáticas, estratégicas, táticas ou organizativas exigidas pelo momento histórico, mas inclusive da mais tênue ligação com a classe trabalhadora, necessária para a própria colocação desta ordem de problemas.

E isso, no melhor dos casos, pois com freqüência ainda maior o encontramos – ele, o marxismo – num patamar mais baixo, diluído no caldeirão das idéias dominantes, a elas amalgamado de maneira eclética, e assim não é raro encontrar ali os marxistas perdidos nas discussões mais inesperadas e vazias, muitas vezes reproduzindo conteúdos da ideologia mais retrógrada, sabendo disso ou não.

O lugar por excelência da proliferação desse gênero de “marxismo” é, como dissemos, a universidade, mas sua influência se estende para as correntes políticas da esquerda, os setores mais intelectualizados do movimento sindical, os movimentos sociais em geral. Pode muito bem ser chamado de “marxismo acadêmico”, desde que com isso se entenda o seu caráter social, e não apenas o seu lugar de origem.

Ora, hoje é preciso enxergar que intitular-se marxista em muitas universidades brasileiras não constitui em si nada de subversivo. Se antes o marxismo entrava nas universidades, em grande medida, pela via do movimento estudantil e da atuação das correntes de esquerda, hoje ele está plenamente “legalizado”, e os ataques pela direita que esse status quo sofre, aqui e ali, não podem de nenhuma maneira servir para calar a crítica a esse mesmo status quo conformista. Na amesquinhada “democracia” em que vivemos, ele é aceito e tem seus próprios nichos, às vezes até mesmo com cátedras, institutos, núcleos de pesquisa, congressos e colóquios, com direito a certificado e inclusão curricular. O que poderia, num contexto radicalmente distinto, refletir um momento de avanço revolucionário das massas, ou de preparação aberta para tal avanço, caracterizando um importante sintoma de crise da hegemonia capitalista, impotente para bloquear o poder de atração do marxismo. É evidente, porém, que não se trata disso, e portanto é necessário reconhecer que essa mesma ocupação inofensiva de espaços tem muito mais o significado de esterilidade ou impotência.

Por outro lado, na esquerda organizada, vemos o abandono da elaboração teórica séria, tanto no sentido da investigação científica da realidade quanto do embate ideológico contra as tendências regressivas existentes no seio da vanguarda e entre as massas. As poucas exceções que se esboçam, no sentido de dedicar energias à produção teórica, em geral recaem no outro pólo, academicista. Estamos falando de homens e mulheres de esquerda, cujo vínculo partidário, quando existe, se tornou demasiado superficial; e que, de maneira correlata, passaram a reproduzir em tudo, ou quase tudo, os maneirismos e o protocolo imposto pelo ambiente acadêmico. Não são, portanto, exceções dignas do nome, e assim esse aspecto da situação pode ser descrito pela pergunta: onde estão as revistas de partido realmente capazes de suscitar debates incontornáveis e candentes?

Verdadeiras exceções são raras na atual situação, de passividade das massas e rotineirismo da esquerda, e tendem a reduzir-se a posições de combate isoladas, ainda por fora de uma cadeia orgânica de pensamento e de uma ação pautada pelas necessidades da luta de classe dos trabalhadores. Neste caso nosso combate será de outro tipo, buscando estender, através deste órgão e de iniciativas de todo tipo, uma ponte para superar tal isolamento, e contribuir para formar um efetivo movimento revolucionário de idéias, capaz por certo de transcender barreiras partidárias, porém orientado em seus melhores esforços para a construção do partido de que tanto necessitamos.

Colocado assim, o quadro parece desolador. Ausência de teoria, ou teoria tornada estéril, ambas constituem a outra face de uma realidade marcada, de um lado, pela adaptação ao rotineirismo sindicalista e movimentista, e de outro, ao possibilismo dos que se conformam com as alternativas encontradas prontas, mesmo quando o exame apenas um pouco mais cuidadoso já bastaria para mostrar sua inadequação.

No entanto, a história não pára nunca, e a própria realidade fornece os elementos, embrionários e contraditórios, aos quais o pensamento transformador deve se ligar, com os quais deve se fundir, inclusive para poder tornar-se efetivamente revolucionário.

É assim que, mais recentemente, vemos agregar-se a este quadro histórico, configurado há quase três décadas pela presença do petismo e a adaptação da esquerda revolucionária à prática meramente sindicalista-propagandista, aquilo que vemos hoje como os primeiros espasmos de uma tendência a superá-lo. Tendência que na classe operária tem se expressado de forma molecular, em lutas, greves, mobilizações de caráter ainda parcial e isolado, como nos bancários em 2004, nos correios em 2007, na USP em mais de uma ocasião, e mais recentemente nas lutas protagonizadas por trabalhadores terceirizados ou precários.

Entre os estudantes, os novos movimentos e fenômenos de luta como na USP em 2007, na UnB em 2008, em menor escala em diversas universidades e escolas de norte a sul do país, destacando-se pela espontaneidade na luta, às vezes até estabelecendo primeiros laços de aliança com a classe trabalhadora, são expressão do mesmo fenômeno. Porém nenhum desses processos conseguiu, até agora, romper com o círculo vicioso e assentar um novo marco político para a luta de classes no país. E isso porque, paralelamente à falta de uma direção à altura dos atuais desafios, a pura espontaneidade dos movimentos se mantém no quadro de um enorme atraso ideológico.

Expressão típica desse atraso, e bastante marcante do ponto de vista da fisionomia do movimento estudantil que começa a ressurgir, é a combinação de “autonomismo” e “reformismo”, uma considerável potência de luta concentrada em um ponto (a ocupação e greve contra os decretos de Serra, a derrubada de um reitor manifestamente corrupto em Brasília), porém repleta de ilusões democráticas das mais variadas, que fatalmente se materializam como limites concretos para os mesmos processos. Uma limitação ideológica que não apenas se põem como obstáculo para o próprio êxito das reivindicações mais fundamentais afloradas em sua duração, mas que, o que é pior, bloqueia ainda a possibilidade de que, independente de vitórias ou derrotas, desses processos de luta chegue a emergir uma vanguarda revolucionária da juventude capaz de fundir-se com o movimento operário.

Por isso, em nossa crítica a esses fenômenos embrionários e seus impasses, combatendo vigorosamente em seu interior, buscamos contribuir para moldar a partir do material fornecido pela própria realidade em suas contradições, uma nova vanguarda. O que implica, além de oferecer um programa de ação e uma estratégia de combate para as lutas, dialogar fraternalmente com seus protagonistas e explicar, tão pacientemente quanto possível, as verdadeiras causas da degeneração stalinista da revolução russa, resgatando o marxismo contra os preconceitos autonomistas e reformistas. Tarefa da qual faz parte apontar como terminaram, do ponto de vista político, os ícones do autonomismo que se instalou no vácuo deixado pelas derrotas de 1989-1991: o zapatismo do subcomandante Marcos, em sua adaptação a López Obrador e o PRD burguês, no México; ou Toni Negri, apoiando entusiasticamente os governos “progressistas” latino-americanos, a começar por Lula. Não é casual que, assim como vemos nesses casos a combinação entre a negação poética de “todo o poder”, e a adaptação ao poderes realmente existentes; que entre os estudantes se mostre a ambivalência entre uma verborragia “contra todos os partidos” e a ilusão na democracia burguesa com seus conhecidos instrumentos de cooptação.

Sendo assim, temos que reconhecer que o quadro realmente é difícil; porém seria de um ceticismo imperdoável caracterizar tais movimentos apenas pelo que possuem de atrasado, resquício de um passado ainda não superado. O lançamento da revista ISKRA é uma tentativa aberta de dar um passo efetivo na direção da superação dos impasses descritos, polarizados entre academicismo, descaso com a teoria e ativismo cego; um passo que só poderá se efetivar se for também capaz de desmascarar os revisionistas –inimigos internos do marxismo – e de, no calor da luta, elevar o nível ideológico das vanguardas combativas que começam a surgir. E que o farão tanto mais agora, com a mudança de ares instaurada pelo desenvolvimento da crise internacional que, por sua magnitude, não deixará de impor sérias conseqüências na luta de classes à escala mundial.

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Vista de um ponto de vista mais amplo, a situação nacional, de maneira silenciosa, oculta diversos elementos de analogia com aquela situação de meados dos anos 1970, quando a experiência política com o PCB, por um lado, e com a guerrilha, por outro, configurava uma espécie de “crise inicial” a partir da qual iriam demarcar-se várias das correntes de pensamento que mais tarde se tornariam dominantes.

No caso presente, trata-se de um processo, decerto lento e tortuoso, de experiência com o PT de Lula e com a tradição por ele deixada no movimento de massas brasileiro. É claro que o PT hoje, diferente do PCB da época, possui ainda uma enorme influência de massas, e que, ao contrário do PCB que vivia então marginalizado no interior do MDB burguês, hoje o PT encabeça o próprio Estado da burguesia. No entanto, do ponto de vista da relação com as massas, do poder de atração sobre a juventude e a intelectualidade crítica, como pólo aglutinador da esquerda, também o PT de hoje se encontra em decadência, e o cair de suas últimas máscaras socialistas configura, novamente hoje, uma “crise inicial” para o surgimento, pela esquerda e pela direita, dos novos projetos políticos que governarão o futuro.

Naquele outro contexto, de meados dos anos 1970, ganhavam nova importância e perspectiva os movimentos críticos iniciados no período anterior aberto com o próprio golpe de 1964, e se iniciavam e ganhavam corpo as iniciativas político-intelectuais mais diversas.

Podemos demarcar naquele momento, por exemplo, o agrupamento no interior do MDB que daria origem ao tucanato na década seguinte. Mais para o final da década de 70, sob o influxo do ascenso operário, surgiria a ala da burocracia pelega que, cavalgando um movimento operário que surgia de maneira a princípio puramente espontânea, viria a se relocalizar com o enganoso nome de “sindicalistas autênticos”. E, mais ligado ao objeto particular de elaboração desta primeira edição da revista ISKRA, por volta daqueles anos iriam se formar os setores da intelectualidade de esquerda que, dentro ou fora do PT, iriam hegemonizar os espaços de elaboração crítica.

O PCB, sobre quem recaía a responsabilidade principal pela derrota 1964, por usar suas posições como direção do movimento operário e popular para canalizar as massas por detrás de João Goulart, e que se mostrava novamente impotente na luta contra a ditadura, marchava à bancarrota. Por sua vez, as experiências de guerrilha, tanto dos pequenos grupos quanto do PCdoB em seu breve giro “esquerdista” no Araguaia, já haviam fracassado e se desmoralizado enquanto estratégia de combate à ditadura. E isso ainda mais porquanto se tratava, à época, de um regime militar que já iniciava seu longo movimento de transição, abrindo brechas democráticas em meio a uma “distensão repressiva” que, como sabemos, terminou anos mais tarde conduzindo de forma bem sucedida à reacomodação da dominação burguesa no país.

Também do ponto de vista internacional, no período de que tratamos, o stalinismo estava já altamente desmoralizado, após os sucessivos massacres na Hungria, na Tchecoslováquia, na Polônia; o regime soviético dava sinais de decadência, havia perdido muito de seu poder de atração, dividido num primeiro momento com as variantes, especialmente a chinesa e a cubana, de “stalinismo nacional”.

No entanto, apesar de que a crise do PCB era então um fato com razões nacionais e internacionais, ou de acordo com o peso hegemônico arrasador que o “Partidão” havia tido como direção histórica do movimento de massas, desde os anos 1930 até à época, as figuras chamadas a compor a matriz das tentativas de superação dessa tradição pecebista em crise, foram em grande medida as figuras da dissidência stalinista. Ou seja, autores cujo passado nos PCs (no chamado “movimento comunista oficial”) avalizasse sua aceitação no status quo dos debates intelectuais na esquerda. É certo que também por aqueles anos apareciam, em doses certamente bastante comedidas, certas análises e conceitos inspirados em Trotsky, como tentativas de aplicar a idéia de “desenvolvimento desigual e combinado”, sob um prisma reformista, à análise econômica nacional. Porém tais intentos se limitaram a aspectos demasiado pontuais de sua obra; a figura maldita de Trotsky era ainda, para a maioria, um tabu. E assim o peso central, os marcos mais claramente definidos foram dados por intelectuais provenientes do próprio universo stalinista.

O preço a pagar por isso foi alto.
Para ficar apenas em um aspecto decisivo: naquele tempo, muito embora a burocracia soviética fosse cada vez mais questionada, quase ninguém via a possibilidade de que daí pudesse advir a implosão do sistema, que teve lugar no final dos anos oitenta. O mundo bipolar parecia uma realidade inquebrantável, e mesmo os primeiros movimentos burocráticos que terminariam conduzindo à restauração foram vistos por muitos com olhar otimista. A previsão de Trotsky sobre a possibilidade de que a restauração capitalista viesse pelas próprias mãos da burocracia havia sido, para todos os fins práticos, simplesmente descartada e esquecida.

Não apenas para o discípulo de Lukács, István Mészáros, mas também para o dirigente de origem trotskista Ernest Mandel, a restauração capitalista parecia impossível; e, então, o arsenal teórico deixado por Trotsky parecia envelhecido, as posições inspiradas por seu combate incansável, anacrônicas. E no entanto foi o monstro soviético que ruiu, e o legado deixado por Trotsky demonstrou mais uma vez seu enorme vigor teórico.

Mas essa mostra incontestável de superioridade teórica de Trotsky ainda hoje não foi acompanhada por um efetivo descobrimento de sua obra por parte da intelectualidade brasileira.

E por isso hoje, após a implosão da URSS e a desintegração de seu sistema satélite, sem que a China pudesse de nenhum modo exercer a mesma influência à escala mundial, ao contrário dos que pensam que essa implosão signifique simplesmente um novo “marco zero”, capaz de esvaziar o sentido das polêmicas teóricas e políticas originadas em sua esfera de existência (e é preciso frisar que até mesmo um Pierre Broué incorreu neste grave erro); ao contrário dos que preconizam, de maneira unilateral, uma mera “volta ao pensamento original de Marx”, como se o mesmo pudesse ser assepticamente “recuperado” e “aplicado” à realidade atual do novo século; ao contrário dos que pretendem dar um verdadeiro salto mortal por sobre toda a experiência histórica de nove décadas, ou mais; ao contrário de todos os que reproduzem semelhantes esquemas de pensamento -e são muitos!- em nosso caso trata-se do inverso. Recuperar o fio das velhas polêmicas e deixar que a histórica pronuncie seu veredicto implacável, extraindo sempre as conclusões necessárias, retirando os entulhos ideológicos que se acumulam à margem do desenvolvimento histórico, mesmo quando, como hoje, esse mesmo desenvolvimento já lhes suprimiu o substrato material.

De outro modo, como seria possível explicar os becos sem saída e as incongruências que encontramos hoje? Como explicar, por exemplo, que tantos estudiosos de Marx sigam atados à tese da Comintern de Stalin-Bukharin sobre os “países não maduros”, eliminando assim, até mesmo enquanto possibilidade teórica, a perspectiva da revolução socialista no Brasil do século passado, e perdendo assim o único fio condutor a partir do qual se pode fazer um balanço coerente das capitulações e traições das direções históricas que a classe operária brasileira já teve? E como explicar que, frente à experiência da revolução russa de 1917 até a restauração capitalista, tantos extraiam simplesmente a “conclusão” de que ou a revolução se inicia pelos países avançados, ou então nada pode ser feito?

Perguntas como essas estão no caminho da superação dos impasses atuais.

Nesse contexto, e para assim completar o quadro em que se insere a iniciativa desta revista marxista impulsionada por jovens militantes revolucionários convencidos da necessidade de recriar uma nova tradição na esquerda brasileira, temos que nos referir ao balanço da esquerda marxista organizada, em primeiro plano das correntes trotskistas, que poderiam ter sido alternativa a todo o panorama descrito aqui, mas não o foram.

Balanço que deve ser feito à luz do fato de que, no mesmo momento de transição de meados dos anos 1970 a que já nos referimos, surgiam ou ganhavam corpo no Brasil novas agrupações trotskistas, inspiradas pelos principais remanescentes vivos da crise da IV Internacional – isto é, pelo belga Ernest Mandel, o francês Pierre Lambert e o argentino Nahuel Moreno. Agrupações, portanto, cuja origem era em todos os casos diversa daquela que havia sido, desgraçadamente desde os anos 1950, a única tendência a se reivindicar trotskista no país: o posadismo (por referência a J. Posadas), uma refração latino-americana da mesma corrente internacional que provocou, por erros que aqui não podemos explicitar, nada menos do que a implosão da IV Internacional em 1952-1953: o pablismo, de Michel Pablo.

Porém daquele movimento trotskista – novamente, ligado a correntes internacionais de tradição, porém novo em sua inserção na realidade brasileira –, que teve em suas mãos a melhor, talvez a única, oportunidade até hoje de se ligar ao movimento de massas num momento de ascenso (pois pela primeira vez o stalinismo não lhe era um obstáculo fatal), deve-se dizer que desperdiçou a sua chance. De conjunto, e apesar de suas diferenças, aquelas diversas novas tendências, que em seus primeiros anos já se defrontaram com o desafio de responder ao enorme ascenso operário que se iniciou em 1978, e corretamente participaram da fundação do PT como forma de aproximar-se dos operários classistas que despertavam em massa para a política, terminaram se adaptando à estratégia de sua direção reformista, diluindo-se na prática no PT ao longo de toda a década de 1980, e foram incapazes, mesmo os que romperam, de travar contra ele um combate intransigente nos anos 1990 – razão pela qual lhes é tão difícil, ainda hoje, transformar sua própria prática, moldada historicamente no curso dessa experiência. Adaptaram-se, primeiro, ao pacto de transição, e mais tarde, sob o regime democrático, à rotina das disputas eleitorais e do ativismo sindical e estudantil mais estreito.

Sem compreender esse processo histórico, como explicar que, até hoje, tantos revolucionários no movimento sindical continuem ainda atados ao corporativismo das categoriais operárias mais organizadas, e ao rotineirismo de suas distintas “datas-base”, sem sequer uma luta política aberta contra essa legislação trabalhista reacionária, promulgada por Getúlio Vargas e mantida até hoje com poucas alterações? E que tantos militantes, sinceramente revolucionários, inclusive hoje após a experiência com Lula, possam seguir acreditando que valha a pena levar água ao moinho da colaboração de classes – sob a égide de Heloísa Helena e demais chefes reformistas do PSOL – em nome de “aproximar-se das massas”, ou de “ganhar projeção eleitoral”?

Nosso combate teórico-político visa também pôr em xeque esse tipo de prática, tão arraigado ainda em nossa esquerda, e abrir caminho para a construção militante de uma nova práxis.

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Dissemos acima que o momento atual é preparatório, que da crise atual irão surgir os sujeitos políticos do porvir.

É evidente que a teoria não poderá nunca substituir a prática, que nenhuma ferramenta teórica poderá cumprir as tarefas que somente um novo ascenso da luta de classes poderá colocar e resolver. O capitalismo, em seu movimento contraditório gerador de inevitáveis crises, como a que já lança uma grande sombra sobre o futuro próximo, trabalha a seu modo para a plena explicitação das contradições de classe em uma nova efervescência social realmente criadora. Porém a estratégia, o programa, os recursos ideológicos, não podem ser improvisados de uma hora para outra, no calor dos próprios acontecimentos. A preparação destes fatores subjetivos, que a história já provou serem os determinantes nos momentos decisivos de nossa época, envolve uma enorme tarefa crítica e criativa.

A corrente da qual fazemos parte já publicou, como parte de nosso aporte para a superação da tradição petista, contribuições para o balanço político do ascenso operário que irrompeu em 1978 e foi desviado a partir de 1980 para a via morta da “transição negociada”; e, cavando um pouco mais fundo, uma reflexão aprofundada sobre o processo que conduziu à derrota de 1964. Tais contribuições, apresentadas nos números dois e três da revista Estratégia Internacional – Brasil, e no primeiro número dos cadernos de mesmo nome, pretendem ajudar a abrir um debate real capaz de romper barreiras conservadoras estabelecidas na esquerda e fomentar uma nova efervescência teórico-ideológica, em meio à qual possam brotar e temperar-se as melhores armas para os futuros combates decisivos da luta de classes.

A elaboração teórica de outra natureza contida aqui está em estreita ligação com esse outro plano de reflexão, e deve ser assim entendida. Ao passo que discutimos com idéias que influenciam o senso comum, queremos abrir aqui uma discussão particular com o amplo espectro à esquerda do PT, a partir de uma posição de estrita independência política e ideológica da classe operária.

É tempo de forjar uma nova tradição, uma intelectualidade efetivamente revolucionária a serviço da causa da emancipação dos trabalhadores e da construção da sua ferramenta, o partido marxista revolucionário, em escala nacional e internacional.

Este número inaugural da revista ISKRA faz parte desse projeto bem mais amplo, do qual a editora que nos inspirou o nome, e num plano internacional o CEIP “León Trotsky” e todas as ferramentas teóricas da Fração Trotskista – Quarta Internacional (FT-QI), constituem outras faces já visíveis.

No Brasil, construindo a Liga Estratégia Revolucionária, chamamos a juventude e os intelectuais revolucionários a se agruparem em torno desse projeto estratégico. Que, no curso da luta de classe revolucionária do proletariado, irá se encontrar com outras vertentes da corrente histórica para construir o verdadeiro partido revolucionário mundial, hoje agrupado em torno da bandeira da IV Internacional.

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