Censurando a opressão?

Por Thaygo Villela[i]

            Um fato pontual ocorrido recentemente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas tem sido alvo de vivas e acaloradas discussões. Trata-se de uma atividade cultural impulsionada pela ANEL que aconteceu  no dia 28 de abril, com a presença da banda Los Cones. Em determinado momento da apresentação, os músicos tentaram executar uma de suas mais famosas músicas, sendo impedidos de o fazerem por ativistas da ANEL, justamente em função do conteúdo machista e homofóbico desta mesma música.

            A canção intitulada Priscilly é um exemplo sintomático da opressão que subordina as mulheres e os homossexuais, traduzida e reivindicada musicalmente. Utilizando-se de um espaço de socialização rotineiro ao Instituto, a banda incendeia o público a partir do ritmo agitado que narra a surpresa de um homem ao procurar uma prostituta e descobrir que se tratava de um travesti. Naturalizando, em primeiro lugar, a prostituição, expressão aguda da opressão e mercantilização do corpo das mulheres, a música passa para a afirmação contundente da masculinidade do narrador (“Eu sou um homem!”, segundo a letra) e para a depreciação feita em tons supostamente “engraçados” da figura do homossexual e do transsexual. Poder-se-ia apontar para uma severidade extremada neste juízo, caso o comentado não fosse explícito na própria letra. Poder-se-ia, ainda, apontar para uma crítica implícita nesta música feita em tons irônicos, que não perceberíamos de imediato. A articulação imanente entre forma e conteúdo, entretanto, não nos guarda esta armadilha, na medida em que a música é produzida com base em uma canção tradicional agitativa, e não carregada de acordes que poderiam sugerir esta crítica implícita. A banda não ironiza ou se mantém crítica perante o narrador da música (o que poderia, e de fato configura, um recurso constante em diversas músicas), mas o sustenta de maneira nefasta.

            Repudiamos, em primeiro lugar, esta e qualquer outra forma de expressão artística que vise a naturalizar as mazelas sociais sustentadas pela exploração de classe. Não pensamos, para além disso, de que deveríamos ser “mais leves” e flexíveis no juízo atribuído, por se tratar “apenas de uma música”, como pode ser afirmado categoricamente, na medida em que respeitamos por demais e reivindicamos a importância da arte para a vida social. Àqueles que possam atribuir esta severidade em nosso juízo, dizemos que não partilham conosco de nosso respeito e interesse pelas formas artísticas, expressão mais elevada da criatividade humana. O desinteresse pela arte, lembramos, é também uma das manifestações perversas de nossa época, tal qual a ausência de críticas que façam jus a sua relevância social.

            A dita “censura” empreendida pelos ativistas, como berram os defensores da banda, e sob a qual hoje se promovem mediocremente os membros da mesma, expressa o combate dos companheiros presentes no ocorrido a esta manifestação reacionária, e reivindicamos amplamente o seu espírito. Dado o contexto mundial e particularmente nacional de assassinato massivo de homossexuais e mulheres (como acompanhamos, ano passado com o assassinato da travesti Camille, por exemplo, ou então os outros tantos atos de violência contra homossexuais na Av. Paulista), dentre tantas expressões de machismo e homofobia que nos traz este crescimento da ultra-direita, não devemos ficar neutros frente ao ocorrido, defendendo a liberdade artística sem uma discussão aprofundada.

            O mais ligeiro olhar sob a história da cultura no século XX permite-nos apontar uma disparidade significativa entre o que se considera como seu “Renascimento Cultural”, expresso pelas vanguardas do início do século, e o final do mesmo, que nos lega até esta primeira década do século XXI sua miséria artística. Se neste primeiro momento o que se verificou foi uma efervescência de debates estéticos e políticos que, com seus variados matizes ideológicos, procuraram resolver também no campo artístico os problemas práticos da vida em seu amplo sentido (fossem eles problemas sensíveis, intelectuais ou sociais), o que hoje se revela a este olhar é a ausência qualitativa e quantitativa desta produção.

            Pode-se pensar que a partir da formação, consolidação e expansão da chamada indústria cultural e de seu largo potencial hegemônico, inédito na história mundial, os ramos majoritários de produção artística ficaram subordinados à lógica mercantil – o que implica na produção e reprodução de concepções de mundo vinculadas a esta indústria e, por conseqüência, às indústrias a ela vinculadas (como a indústria elétrica ou cibernética, por exemplo) e às classes dominantes que asseguram as relações de trabalho exploratórias, inerentes ao modo de produção capitalista da vida. Aliado a este processo, que aparece ideologicamente como contraposição às nefastas imposições estéticas empreendidas pelo nazi-fascismo e pelo stalinismo, as derrotas sofridas no campo revolucionário (que geraram, por conseqüência, o mesmo nazi-fascismo e o mesmo stalinismo) até meados do século XX cumpriram também o papel de facilitar a incorporação de alguns dos recursos destas vanguardas pela própria indústria cultural, bem como soterrar o ideário mais avançado presente nas mesmas.

            Se, então, a idéia de que a arte deveria invadir a vida, como positivação da mesma, como atrelamento da vida à paixão, ao Sonho, ao delírio como força revolucionária, não mais existe (e diz-se isto de modo geral, como se tais idéias fossem anacrônicas), o que hoje temos é a perversão desta mesma idéia: a arte expressando a vida medíocre que levamos, a arte negativa que reproduz as concepções de mundo provenientes da derrota. Não se quer remeter, contudo, a uma idealização destas vanguardas do início do século, no sentido de que elas incorporavam todo um novo ideário sem contradições, etc, ou ainda de que a maior parte da produção artística fosse de boa qualidade, e atualmente não é. Queremos, entretanto, apontar as linhas gerais de um processo de decadência ideológica, fundado em bases materiais, desta produção artística. [1]

            Na medida em que se acentua o esgotamento desta perspectiva emancipatória entre os artistas (que se confunde, dentre outros elementos, com o avanço das teorias pós-modernas e de “fim da história”), a padronização das formas estéticas promovida pela indústria cultural não deixa ileso o campo do conteúdo. Assim, se o que vemos atualmente é a hegemonia do cinema hollywoodiano (com suas histórias de começo-meio-fim) e as canções musicais (com seu refrão-ponte-refrão), também notamos, articulada a esta estrutura repetida inúmeras vezes (porque vende), é a padronização dos conteúdos, como as lamentações sobre o amor monogâmico, as esperanças na família e no amor, ou a própria lógica de subversão estreita admitida pela mesma indústria cultural (porque vende). Não mais o amor-louco dos surrealistas, por exemplo, mas o amor encaixotado das mil comédias românticas produzidas anualmente. O mesmo se dá no campo musical, literário, plástico, etc.

            De modo que, não somente um retrocesso na sensibilidade (já que subordinada a estas formas enlatadas não-criativas), mas também um retrocesso na subjetividade de maneira geral se desenrola sobre nossa época. Os artistas em sua grande maioria, órfãos de uma perspectiva libertária, de pontos de negatividade que sejam capazes de combater a ideologia imperante, mantém como lógica de criação o status quo e boa parte das perversidades presentes no mesmo, tais como a perpetuação da opressão às mulheres, aos homossexuais e aos negros. É neste patamar que se encontra e se deve realizar a discussão sobre o ocorrido no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

            Posto isto, e bem entendido este ponto, gostaríamos de manifestar algumas diferenças em relação às medidas tomadas quando a banda estava prestes a tocar a mencionada música, e foi impedida de fazê-lo. Entendemos que os campos da cultura e da arte possuem uma temporalidade diversa do campo político, e não podem ser resolvidos com os mesmos métodos, simplesmente, através de uma articulação que pode configurar uma imposição do político ao artístico. Em primeiro lugar, e centralmente,   manifestamos nosso desacordo com  a escolha da banda. Um espaço político-cultural promovido pela ANEL deve partir de outra lógica no que toca às manifestações culturais que promove, tendo o cuidado e preocupação contínuos com o caráter de tais manifestações. Em segundo lugar, nosso desacordo com o pacto prévio estabelecido com a banda, de que não poderiam tocar a música mencionada – o que equivale a separar as músicas “aceitáveis” da mesma e aquelas na qual a banda expressa suas concepções opressivas; e em terceiro lugar, nosso desacordo com o impedimento da execução da música, quando a banda iria executá-la. Os dois últimos casos, apesar do espírito combativo ao machismo e à homofobia manifestado que reivindicamos, configuram um erro metodológico no trato dos problemas culturais, que imprimem uma articulação do político em relação ao artístico que pode ter conseqüências danosas.

            Defendemos a livre manifestação das expressões artísticas no Instituto, e pensamos que a discussão sobre o caráter das atividades culturais que queremos promover deve passar, em primeiro plano, pela discussão do tipo de vida cultural que gostaríamos de fomentar, e não pelo cerceamento impositivo da expressão dos grupos que estiverem dispostos a se apresentar. A premissa exposta não supõe a conivência com concepções de mundo machistas, racistas ou homofóbicas, mas pelo contrário, a crítica incessante destas manifestações. O combate cultural que devemos travar deve ser ofensivo ao passo em que propositivo, marcado pela abertura do espaço a concepções de mundo emancipatórias, e não as mesmas reprodutoras da ideologia opressiva e repressiva dominante.

            Neste sentido, devemos superar de conjunto a falta de acúmulo do movimento estudantil neste debate e avançarmos na construção de espaços em que não se incentive ou propagandeie, mas que se combata, a opressão em todos os seus aspectos perversos. “Transformar o mundo e mudar a vida”, conforme escreveu André Breton.


[1] Não se quer dizer, também, que não existem atualmente bons artistas e/ou artistas críticos. O que se nota, entretanto, é a dificuldade em se romper com a elitização a que a arte de vanguarda está atualmente destinada, bem como uma relativa dificuldade de articulação entre os próprios artistas.


[i] – Este texto, escrito por Thyago Villela, foi distribuido no IFCH como “declaração da LER-QI-Campinas sobre os ocorridos na festa da ANEL (28/04)”, em função de uma discussão que se abriu a partir desta festa em que uma banda supostamente teria sido impedida de tocar uma música (em função do conteúdo reacionário desta). A questão abriu todo um debate sobre “censura”, relação entre política e arte, em que Thyago desenvolve os elementos desta discussão, delimitando bem o campo da arte e da política, e que ajudam a compreender melhor essa questão, sem perder o foco central da luta contra as opressões (nota da equipe Iskra).

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