Companhia do Feijão coloca em cena as tragédias e as farsas da política brasileira

por Pardal, estudante de letras da USP

Na peça Pálido Colosso a história política recente do Brasil, desde o golpe militar até os dias de hoje, é retraçada pela Companhia do Feijão a partir da primeira memória de infância de um de seus membros. As cenas, curtas e certeiras, mostram o ufanismo e a perseguição política invadindo infâncias, e, imiscuída às memórias dos atores/autores, enveredam por distintas formas de apresentar as sucessivas tragédias da vida política brasileira e seus reflexos.

A ironia e um humor cáustico são instrumentos valiosos da companhia para desmascarar a farsa da democracia burguesa, convidando os espectadores a acompanhar a sucessão de presidentes que encarnam sempre as promessas não cumpridas pela burguesia de democracia e uma vida melhor para o povo brasileiro. Às caricaturas dos presidentes, em retratos de seus momentos mais autênticos – como o de FHC assumindo sua roupagem neoliberal e dizendo para que se esqueça o que ele escreveu – , se somam passagens que ilustram a trágica vida dos brasileiros sob o peso de seus “representantes”. Há bonecos de ventríloquo denunciando as torturas e censuras do regime militar, bem como as cooptações de sindicatos e dirigentes políticos realizadas pelo governo Lula; uma menina que brinca de contos de fadas, esperando eternamente o sapo que se tornará um príncipe encantado (presidente) para salvá-la; um cômico retrato de uma pequena-burguesia pós-moderna, desesperadamente agarrando-se a religiões, misticismos e redes sociais de Internet para preencher sua falta de perspectiva diante da vida; hippies com promessas de amor livre e sociedades alternativas que desvanecem no ar. De cada risada que se arranca do público, uma mistificação, promessa ou presidente se esvazia de sua empáfia e mostra-se nua em seu ridículo. O fio condutor está na ideologia que a burguesia vende e constantemente renova para a classe trabalhadora e as massas, da figura de um líder carismático e eleito pelo voto direto que mudará tudo no país, acabando com a miséria e a desigualdade (para ver a atualidade desta ideologia basta ver as propagandas do TSE que nos empurram goela abaixo a idéia de que nosso voto mudará o rumo do Brasil). Assim, o potencial revolucionário da classe operária mostra-se na peça apenas pelo seu reverso, em fura-greves que se vendem aos patrões.

Pálido Colosso encerra um ciclo de investigação da Companhia do Feijão: “Por que a esquerda se endireita. Um estudo da alma brasileira contemporânea”, em que o grupo se propõe a investigar o processo de formação da identidade brasileira, e que na presente peça procura partir da conformação do Brasil como nação moderna e, através da memória dos atores e de estudos de peças teatrais, jornais, obras literárias, ensaios e obras musicais, procura aprofundar a investigação sobre os últimos 40 anos de nossa história. O nome deste ciclo – reflexo da crise profunda que se abate sobre a esquerda brasileira, que por décadas apostou no projeto democrático-popular petista e hoje assiste pasma ao governo Lula como timoneiro das políticas da burguesia no país – expressa, nas palavras da própria companhia, um Brasil que “Nunca igualitário ou justo, nosso é o sistema que vitima mesmo as melhores intenções, nosso o país que ainda – e sempre? – quase é.” Diante desta perspectiva, carregada de ceticismo, não é de se admirar que não encontremos na peça uma resposta para a pergunta que o grupo coloca como balizadora de sua investigação. No fim da peça, o grupo nos deixa com os escombros dessa história e a seguinte fala: “Não se surpreenda com o que viu aqui. Afinal, não é essa a sua história?”

Esta atitude de questionamento e de colocar o teatro como um arsenal de recursos pronto a atacar os valores da sociedade burguesa e a sua ideologia, sem no entanto ver uma luz no fim do túnel, é um elemento recorrente nos grupos independentes que hoje se reúnem – em geral sustentando-se milagrosamente com os parcos recursos que conseguem do governo – e colocam de pé suas peças por fora do circuito teatral dos atores globais e teatros luxuosos, de musicais importados da Broadway fartamente patrocinados por grandes empresas através da Lei Rouanet, com a finalidade de gerar lucros e distrair seus endinheirados espectadores. Não é à toa que esta camada de artistas, sensíveis tanto à realidade nacional como à própria condição inevitavelmente marginalizada de sua arte dentro de uma sociedade regida pelo lucro, se coloca em uma postura tão crítica frente ao cenário político atual. E, se não nos trazem perspectivas de mudança, podemos procurar a resposta para isto nas palavras do Engenho Teatral, outro grupo que ergue barricadas culturais e que hoje apresenta suas peças na periferia de São Paulo: “Não cabe a um grupo de teatro inventar respostas que os homens ainda não apontam em suas ações políticas. Cabe enfrentar a realidade, tirar suas máscaras, véus, cortinas de fumaça, mentiras ideológicas travestidas de razão, ciência, técnica, seriedade, pragmatismo, responsabilidade e tantas outras farsas fabricadas para enganar e manter as coisas sob o controle de quem está por cima. Botar o dedo nas feridas.”

Concordando ou não com a opinião do Engenho Teatral sobre a função do teatro, podemos dizer que estes grupos cumprem um papel vital, resgatando o que há de fundamental no espírito revolucionário do teatro épico de Bertolt Brecht, dramaturgo alemão que refletiu e militou para colocar seu teatro na arena da luta de classes. Nas palavras de Walter Benjamin [1] : “O teatro épico parte da tentativa de alterar fundamentalmente essas relações [entre palco e público, texto e representação, diretor e atores]. Para seu público, o palco não se apresenta sob a forma de ’tábuas que significam o mundo’ (ou seja, como um espaço mágico), e sim como uma sala de exposição, disposta num ângulo favorável. Para seu palco, o público não é mais um agregado de cobaias hipnotizadas, e sim uma assembléia de pessoas interessadas, cujas exigências ele precisa satisfazer. Para seu texto, a representação não significa mais uma interpretação virtuosística, e sim um controle rigoroso. Para sua representação, o texto não é mais fundamento, e sim o roteiro de trabalho, no qual se registram as formulações necessárias.”

Ou seja, é um teatro que quer colocar o seu público a repensar e agir sobre o mundo; que quer desalienar e romper as mistificações dos teatros burgueses e das novelas de televisão. Fazer isto com as relações políticas, sociais e econômicas do Brasil de hoje é uma tarefa essencial para os artistas de esquerda, e é também um grande mérito de Pálido Colosso e de grupos como a Companhia do Feijão e o Engenho Teatral.

[1] Walter Benjamin. “O que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht” em “Walter Benjamin. Obras escolhidas”. Editora Brasiliense, 1996.

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