Entrevista sobre a Exposição de cartazes de Maiakóvski na Casa de Cultura e Política Hermínio Sacchetta

Reproduzimos no Iskra a entrevista de Thyago Villela, militante da LER-QI e coordenador da Casa de Cultura e Política Hermínio Sacchetta de Campinas, à revista de cultura antropofágica “Terceira Dentição”, sobre a recente Exposição de cartazes de Rojkóv e do poeta revolucinário russo Vladmir Maiakóvski. Pode-se ler a entrevista também no endereço eletrônico da revista antropofágica, www.pratoantropofagico.blogspot.com.  

 

 

1- Como surgiu a idéia da Exposição dos cartazes? Qual seria a relevância estética e política de Vladimir Maiakóvski hoje?
 
Thyago: “Esta coleção de cartazes que hoje exibimos na Casa Hermínio Sacchetta já foi exposta em outras localidades, como a Casa Socialista do Rio Pequeno, em São Paulo, e o Diretório Acadêmico de Franca. Antes de sua primeira mostra, que aconteceu nesta casa de São Paulo em 2006, os cartazes eram inéditos no Brasil. Foi empreendida, neste sentido, uma investigação para que pudessem ser traduzidos e para que o público, além de passar por esta experiência estética proporcionada por Rojkóv, também pudesse tomar contato com o conteúdo do poema de Maiakovski. Pela relevância artística deste trabalho e seu difícil acesso resolvemos expô-lo em nossa casa, trazê-lo à juventude e aos trabalhadores de Campinas, que contam com raros espaços de exibição e produção para a cultura e para a arte.
            Quanto ao Maiakovski: o poeta segue sendo um exemplo de combate na frente das artes e da política, encarnando a estreita identidade entre a arte experimental e a revolução social, idéia cara a diversos artistas e alguns movimentos artísticos do começo até meados do século XX. Um dos elementos centrais de sua relevância atual reside justamente nisto: na articulação que teceu entre o campo da política e o da arte, da qual extraiu um norte emancipatório que acabou por lhe moldar a postura enquanto artista e enquanto revolucionário. Seus esforços em ritmar a poesia com o tempo da indústria, trazer para a arte o momento histórico contemporâneo e desnudá-la de suas reminiscências místicas (ainda presente nos simbolistas russos, por exemplo), bem como travar uma luta incessante pela revolução comunista e pela conseqüente universalização da cultura, reivindicando a apropriação do que de melhor já foi produzido artisticamente e a busca constante pelo novo: eis a importância histórica de Maiakóvski.
           
Cabe ressaltar que esta importância se assevera nos dias atuais, quando de maneira geral os artistas têm se afastado da prática política, tratando-a de forma desdenhosa e por vezes desprezando-a; e quando a esquerda se posta de modo ainda conservador perante as inovações artísticas, mostrando-se ainda inapta a compreendê-las de forma profunda.
 
2- Recentemente foi anunciada na China uma exposição de pinturas envolvendo trabalhos de artistas norte-coreanos cuja a orientção ainda é o Realismo socialista. Falar em Maiakóvski é para o ponto de vista das Esquerdas, um contraponto a este tipo de iniciativa?
 
Thyago: “O realismo socialista, enquanto imposição de uma estética estatal pelo governo soviético, foi um dos fenômenos político-artísticos mais nefastos da história do século XX. Leon Trotsky escreveu: “A arte da época stalinista entrará na história como a expressão mais evidente do profundo declínio da revolução proletária em escala mundial”; e este fenômeno se expressa não apenas na perseguição e expulsão dos artistas de vanguarda russos, como Meyerhold, Maliévitch, Kandinsky e muitos outros, mas na apropriação pelo Estado do que de mais reacionário era produzido na Rússia em termos estéticos, como o movimento artístico chamado Ambulante, com o retorno à pintura figurativa e um posterior culto à figura de Stálin como pai da nação.
            Colocamo-nos absolutamente contra a imposição de uma estética estatal ou partidária no que tange aos rumos da arte, e reivindicamos acima de tudo a livre experimentação estética e o auto-desenvolvimento dos movimentos artísticos. Neste sentido, falar em Maiakovski é escancarar a premência de uma arte que procure revolucionar a maneira de sentir e entender o mundo, de subverter as relações sociais postas e de alinhar-se aos movimentos emancipatórios de nosso tempo, de modo a cumprir de maneira conseqüente este ideário libertário. Enquanto a esquerda não compreender o papel que o campo artístico pode ter nesta transformação radical da vida, corre o risco de seguir instrumentalizando a arte, e consequentemente empobrecendo seus desenvolvimentos – torna ndo o que deveria ser a construção de uma revolução permanente uma “revolução de preguiçosos”, tal qual qualificou Antonin Artaud em crítica ao Partido Comunista Francês, em 1926.
3- Como a LER-QI se posiciona frente ao debate a cerca da necessidade da Arte revolucionária? Quais seriam as referências artísticas destaorganização? Vocês encontram alguma atualidade no Manifesto por uma arte revolucionária independente redigido por André Breton e Leon Trotski em 1938 no México?
 
Thyago: “Não apenas encontramos atualidade no Manifesto da FIARI, como reivindicamos suas conclusões. Em primeiro lugar, este texto é composto de duas dimensões centrais: a defesa de uma arte independente, em contraposição ao realismo-socialista, que na época já se firmava como arte oficial do regime soviético; e a posição pessoal de Trotsky e Breton acerca da necessidade desta arte independente configurar-se enquanto arte revolucionária, o que passa, não apenas pela invenção estética, mas pelo atrelamento da mesma aos movimentos sociais de caráter emancipatório. A LER-QI coloca-se a partir desta perspectiva: defendemos o livre desenvolvimento da arte e dos movimentos artísticos, ao mesmo tempo em que nos posicionamos a favor de uma arte revolucionária independente, que seja capaz de traduzir para o campo estético os movimentos da realidade, bem como construir a vida a partir desta ótica libertária. Novamente Maiakovski: a arte não como um espelho, mas como um martelo.
            Para além deste debate, não posso pontuar referências artísticas gerais de nossa organização, na medida em que não atuamos, e não devemos atuar, de maneira centralizada neste tocante. Talvez possa colocar que uma das referências que temos na elaboração de alguns cartazes seja o construtivismo russo, mas é ainda um debate que se inicia e não tem pretensões políticas de colocar para o conjunto dos militantes uma orientação estética específica. Apenas manifestamos nosso desejo de manter contato com os artistas e com os defensores da cultura para atuarmos conjuntamente neste esforço que é a emancipação humana  –  e neste sentido a Casa Hermínio Sacchetta procura chamar o s trabalhadores da arte e deixar-lhes o espaço aberto para que possam se apresentar e discutir estas questões.
 
4- Em sua obra LITERATURA E REVOLUÇÃO (1923), Leon Trotski fez críticas severas aos futuristas russos e às vanguardas de um modo geral (apesar de dar um voto de confiança aos mesmos). Na mesma conjuntura histórica Lênin teria dito que prefere a leitura de Shakespeare a Maiakóvski. Em sua opinião, haveria um conservadorismo estético entre os dirigentes comunistas?
           
Thyago: “De certa maneira, pode-se pensar em um conservadorismo estético por parte de Lênin e Trotsky, no sentido de que as tarefas da revolução impossibilitaram uma formação mais apurada acerca das vanguardas artísticas que surgiam no início do século. Ambos se formaram neste campo por meio dos escritores realistas e românticos, centralmente, como Leon Tolstoi, e tiveram dificuldades em compreender o desenvolvimento destas correntes artísticas mais recentes. Lênin mesmo confessou à Lunatcharsky suas dificuldades neste âmbito, e Trotsky manteve muitas polêmicas com André Breton sobre escritores como Marquês de Sade e Émile Zola. É interessante, por exemplo, acompanhar o desenvolvimento do pensamento de Trotsky após este contato com os surrealistas.
           
De qualquer maneira, existem contribuições notáveis de ambos para o debate. Grande parte das críticas de Trotsky aos futuristas dirige-se ao atrelamento de uma ala do movimento ao pensamento formalista russo, que preconizava uma arte descolada da totalidade social, que se retro-alimentasse de suas discussões meramente formais. Lênin, por outra via, empreendeu uma série de importantes críticas aos críticos literários da revista Nasha Nariá, apontando para a relevância de Tolstoi a partir de sua incompletude, ou seja, das brechas que o escritor manifestava ao pregar uma religião universal e o pacifismo como método de resistência, bem como o reflexo em suas obras do pensamento mujique; ao contrário dos críticos burgueses que afirmavam a completude do pensamento de Tolstoi. Esta série de artigos, inclusive, representa um grande giro na crítica de arte russa, na medida em que colocava uma articulação entre o campo da arte e da política de maneira muito sofisticada. A maior parte das criticas endereçadas a estes dois dirigentes tende a fazer vista grossa para estas contribuições.
Ainda que apresentem falhas e vulgarizações em alguns textos ou comentários, como a pergunta mesmo coloca, foi inegável o combate sistemático que ambos travaram contra as idéias de cultura e arte proletárias, elaboradas por Bogdanóv e que resultariam, em 1934, no estabelecimento do realismo-socialista como arte oficial do regime. Colocaram a premência de uma arte que se desenvolvesse de forma não-atrelada ou subordinada às instituições estatais, bem como a favor da universalização da alta cultura e da elevação do nível cultural do proletariado. Mantiveram, por toda a vida, uma grande clareza estratégica sobre o papel da arte na revolução, e não atuaram de maneira alguma enquanto censores dos movimentos artísticos, como posteriormente Stálin o fari a. Se talvez fossem conservadores ao não entenderem esta arte que surgia, colocaram-se de forma abertamente revolucionária no que tange ao incentivo deste desenvolvimento e experimentação.

 

5- A arte gráfica verificada nos cartazes de Maiakóvski ainda responde a necessidade de agitação no plano cultural?
           
Thyago: “Esta é uma difícil pergunta. Talvez ainda responda, mas apenas na medida em que afronta o conservadorismo estético da esquerda como um todo. Estou certo de que o próprio Maiakovski, se ainda estivesse vivo, responderia que não. Dado o movimento incessante da história e da articulação e luta das classes, a arte deve fazer o esforço auto-reflexivo de procurar expressar de maneira mais adequada o momento histórico pela qual passa, e a prática da agitação também requer sensibilidade por parte dos políticos e artistas no sentido de como traduzir e ativar o ímpeto dos setores explorados e oprimidos da sociedade. Nestes marcos, o futurismo e o construtivismo devem ser superados. Cabe aos artistas e revolucionários a apropriação desta experiência estética e a elaboração de uma nova, que responda às necessidades históricas colocadas. 
6- Haveria a necessidade de algum tipo de ” digestão ” da obra e das idéias de Maiakóvski no Brasil?. Na sua opinião como Maiakóvski deve ser incorporado em nossa realidade sócio-cultural?
 
Thyago: “Haveria, antes de tudo, a necessidade da fome, para que então possa haver digestão. O que se observa amplamente são o desconhecimento e afastamento da arte de vanguarda do conjunto dos artistas, da juventude e dos trabalhadores. Não se trata, portanto, de tentar criar uma cultura em laboratório, como tantas vezes ironizou Trotsky, e neste sentido qualquer aposta minha estaria fadada a ser um mero impressionismo. Trata-se, centralmente, de fazer chegar a público estas obras, e nossa exposição dos cartazes de Rojkóv e Maiakovski compõem este projeto militante que deveria ser levado a cabo por um setor mais amplo da esquerda, inclusive. A digestão seria a síntese desta experiência de envolvimento com a estética futurista, que por ainda ser capaz de traduzir muito a dinâmica da vida contemporânea, também apresenta uma rica possibilidade de incorporação para a arte de nosso tempo.
           
O meu ponto é que, se forem criadas condições para a compreensão destas obras, bem como um esforço sensível por parte do público, as mesmas tendem a mostrarem-se solo fértil para pensar a arte nacional e suas possibilidades. Por isso colocamos a centralidade de que a classe trabalhadora tome em suas mãos os rumos da cultura, e criticamos severamente a marginalização à qual as artes e os artistas tem sofrido no modo de produção capitalista, seja pela falta de fomento, pelo atrelamento do capital privado com a produção artística ou pela mercantilização da arte. Reiteramos a consigna levantada por André Breton e Trotsky: “A independência da arte para a revolução, a revolução para a completa independência da arte.”
            Reforçamos nosso chamado aos artistas e defensores da cultura e das artes a se incorporarem neste projeto e construírem conosco a Casa de Cultura e Política Hermínio Sacchetta!
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