HOMENAGEM DA REVISTA ISKRA AOS 80 ANOS SEM MAIAKÓVSKY

A canoa do amor se quebrou no cotidiano. Eis um dos versos de um dos últimos poemas de Vladimir Maiakovski (1893-1930), Fragmentos, escrito na miséria e confusão de uma Rússia em declínio – a mesma que, em 1917 havia experienciado a primeira revolução socialista. Nos primeiros anos desta revolução as classes trabalhadoras, através de conselhos operários, os famosos soviets, puderam lutar pela realização histórica do ser humano.

Em 1930, ano da morte de Maiakovski, uma burocracia-dirigente surgida dentro do partido revolucionário bolchevique, tendo a frente Josef Stálin, matava, deportava e censurava milhões de pessoas. Esta casta, designada “stalinista” assassinou todos os revolucionários e revolucionárias que construíram a revolução russa de outubro de 1917 e proibiu os avanços conquistados pela classe trabalhadora russa.

Uma Rússia que mal havia se libertado dos grilhões e já tornava a tatuá-los na pele, de uma amante que dormia frente à imensidão da madrugada. Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano. E cá estamos nós, oitenta anos depois, diante dos estilhaços de papel da canoa.

O suicídio do poeta, ou o seu poema final, foi o atestado de óbito da arte independente russa. Maliévitch, Kandinsky, Eisenstein, Meyerhold, e tantos outros, mutilados, castrados, expulsos. Iêssienen morto em um quarto de hotel escoando seu último verso com a última gota de vida. O mar se vai. “A arte da época stalinista entrará na história como a expressão mais espetacular do profundo declínio da revolução proletária”, escreveu Leon Trotsky.

Maiakovski, o futurista, o bolchevique, o revolucionário permanente, o homem que era todo coração, nos diria: Camarada vida, vamos para diante, galopemos pelo qüinqüênio afora. E galopamos.

O movimento A Plenos Pulmões, em conjunto com a Revista Iskra, homenageiam o grande poeta revolucionário, sua força e ímpeto, sua paixão pela vida, pela arte e pela política, e acima de tudo, seu esforço incansável por construir uma forma de vida superior, limpa de todo o mal, de toda opressão e de toda violência. Saudemos Maiakovski!

 

A SIERGUÉI IESSIÊNIN

Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, –
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho –
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no “Posto” –

ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin.
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? –
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
– É o vinho!
– a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.

Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber –
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no “Inglaterra”;
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.

E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, –
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento –
onde
o som do bronze
ou o grave granito? –
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas –
“Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço”.
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!
Saltaria
– escândalo estridente:
– Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso –
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la –
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
– Verbo –
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

A PLENOS PULMÕES

Primeira Introdução ao Poema

Caros
……….camaradas
………………….futuros!
Revolvendo
…….a merda fóssil
………………….de agora,
……………………………perscrutando
estes dias escuros,
….talvez
…………..perguntareis
………………………….por mim.

Ora,
……começará
……………vosso homem de ciência,
afagando os porquês
………….num banho de sabença,
conta-se
…….que outrora
……………….um férvido cantor
a água sem fervura
……………………..combateu com fervor.
Professor,
………jogue fora
……………as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
……………..de mim
………………………de minha era.
Eu – incinerador,
……………eu – sanitarista,
a revolução
……………..me convoca e me alista.
Troco pelo front
………a horticultura airosa
………………………..da poesia –
……………………………….fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim virgem
……………vargem
………………….sombra
………………………..alfombra.
“É assim o jardim de jasmim,
……………….o jardim de jasmim do alfenim.”
Este verte versos feito regador,
………………….aquele os baba,
boca em babador, –
………..bonifrates encapelados,
……………………descabelados vates –
entendê-los,
…………..ao diabo!,
………………………..quem há-de…
Quarentena é inútil contra eles
………………– mandolinam por detrás das paredes:
“Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
…………………….ta-ran-ten-n-n…”
Triste honra,
……………se de tais rosas
……………………..minha estátua se erigisse:
na praça
………..escarra a tuberculose;
putas e rufiões
……………numa ronda de sífilis.
Também a mim
………a propaganda
……………………cansa,
é tão fácil
…….alinhavar
……………..romanças, –
Mas eu
………me dominava
…………………entretanto
e pisava
………..a garganta do meu canto.
Escutai,
…………..camaradas futuros,
………………………………o agitador,
o cáustico caudilho,
………………..o extintor
…………………….dos melífluos enxurros:
por cima
……..dos opúsculos líricos,
………………………….eu vos falo
………..como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
……à Comuna distante,
…………..não como Iessiênin,
………………………….guitarriarcaico.
Mas através
…….dos séculos em arco
…………………sobre os poetas
……………………….e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
……………..não como a seta
…………………………….lírico-amável,
…………..que persegue a caça.
Nem como
……..ao numismata
……………a moeda gasta,
…………………..nem como a luz
………………………….das estrelas decrépitas.
Meu verso
………com labor
………….rompe a mole dos anos,
…………………………….e assoma
…..a olho nu,
……………palpável,
……………………bruto,
…………………..como a nossos dias
chega o aqueduto
…………….levantado
……………………..por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
………….versos como ossos,
………………….se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
………….vós as respeitareis,
……………………como quem vê destroços
….de um arsenal antigo,
……………..mas terrível.
Ao ouvido
……….não diz
…………….blandícias
……………………….minha voz;
lóbulos de donzelas
……..de cachos e bandós
………………..não faço enrubescer
………………………….com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
…….– tropas em parada,
…………….e passo em revista
………………………o front das palavras.
Estrofes estacam
………..chumbo-severas,
…………………prontas para o triunfo
……..ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
……………………..apontando
…………………………..as maiúsculas
………..abertas.
Ei-la,
…..a cavalaria do sarcasmo,
…………….minha arma favorita,
………………………..alerta para a luta.
Rimas em riste,
……sofreando o entusiasmo,
………………………..eriça
…………………………..suas lanças agudas.
E todo
……este exército aguerrido,
…………………..vinte anos de combates,
não batido,
………..eu vos dôo,
………………proletários do planeta,
cada folha
………….até a última letra.
O inimigo
……da colossal
……………classe obreira,
…………………………….é também
meu inimigo
……………..figadal.
Anos
……..de servidão e de miséria
………………………….comandavam
………………………….nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
……..volume após volume,
………………………..janelas
……………………………….de nossa casa
abertas amplamente,
…………..mas ainda sem ler
……………………….saberíamos o rumo!
onde combater,
…………….de que lado,
……………………..em que frente.
Dialética,
………não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
……..ao fragor das batalhas,
……………………………quando,
sob o nosso projétil,
……….debandava o burguês
……………………..que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
………………….– glória –
…………………………se arraste
após os gênios,
……………..merencória.
Morre,
………meu verso,
………………..como um soldado
…………………………………anônimo
na lufada do assalto.

Cuspo
……sobre o bronze pesadíssimo,

……..cuspo
………………sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
………………..entre nós todos, –
…………………………….o comum monumento:
o socialismo,
………….forjado
………………….na refrega
………………………………e no fogo.
Vindouros,
……varejai vossos léxicos:
……………………….do Letes
…………………………brotam letras como lixo –
“tuberculose”,
……..”bloqueio”,
…………..”meretrício”.
Por vós,
……geração de saudáveis, –
…………………..um poeta,
………………….com a língua dos cartazes,
lambeu
……….os escarros da tísis.
A cauda dos anos
………..faz-me agora
………………um monstro,
……………………..fossilcoleante.
Camarada vida,
……….vamos,
………….para diante,
galopemos
…….pelo qüinqüênio afora.
Os versos
……para mim
………….não deram rublos,
……………………….nem mobílias
………………de madeiras caras.
Uma camisa
……lavada e clara,
…………………..e basta, –
…………………….para mim é tudo.
Ao Comitê Central
…………….do futuro
………………….ofuscante,
……………………..sobre a malta
……………….dos vates
velhacos e falsários,
………………….apresento
……………………………em lugar
do registro partidário
……todos
…………os cem tomos
dos meus livros militantes.

O AMOR

Um dia, quem sabe,

ela, que também gostava de bichos,

apareça

numa alameda do zoo,

sorridente,

tal como agora está

no retrato sobre a mesa,.

Ela é tão bela,

que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século

ultrapassará  o exame

de mil nadas,

que dilaceravam o coração.

Então,

de todo amor não terminado

seremos pagos

em enumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,

nem que seja só porque te esperava

como um poeta,

repelindo o absurdo quotidiano!

Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!

Ressuscita-me!

Quero viver até o fim o que me cabe!

Para que o amor não seja mais escravo

de casamentos,

concupiscência,

salários.

Para que, maldizendo os leitos,

saltando dos coxins,

o amor se vá pelo universo inteiro.

Para que o dia,

que o sofrimento degrada,

não vos seja chorado, mendigado.

E que, ao primeiro apelo:

– Camaradas!

Atenta se volte a terra inteira.

Para viver

livre dos nichos das casa.

Para que

doravante

a família

seja

o pai,

pelo menos o Universo;

a mãe,

pelo menos a Terra.

GAROTO

Fui agraciado com o amor sem limites.

Mas, quando garoto,

a gente preocupada trabalhava

e eu escapava

para as margens do rio Rion

e vagava sem fazer nada.

Aborrecia-se minha mãe:

“Garoto danado!”

Meu pai me ameaçava com o cinturão.

Mas eu, com três rublos falsos,

jogava com os soldados sob os muros.

Sem o peso da camisa,

sem o peso das botas,

de costas ou de barriga no chão,

torrava-me ao sol de Kutaís

até sentir pontadas no coração.

O sol assombrava:

“Daquele tamaninho

e com um tal coração!

Vai partir-lhe a espinha!

Como, será que cabem

nesse tico de gente

o rio,

o coração,

eu

e cem quilômetros de montanhas?”

ADOLESCENTE

A juventude de mil ocupações.

Estudamos gramática até ficar zonzos.

A mim

me expulsaram do quinto ano

e fui entupir os cárceres de Moscou.

Em nosso pequeno mundo caseiro

brotam pelos divãs

poetas de melenas fartas.

Que esperar desses líricos bichanos?

Eu, no entanto,

aprendi a amar no cárcere.

Que vale comparado com isto

a tristeza dos bosques de Boulogne?

Que valem comparados com isto

suspirosante a paisagem do mar?

Eu, pois,

me enamorei da janelinha da cela 103

da “oficina de pompas fúnebres”.

Há gente que vê o sol todos os dias

e se enche de presunção.

“Não valem muito esses raiozinhos”

dizem.

Eu, então,

por um raiozinho de sol amarelo

dançando em minha parede

teria dado todo um mundo

MINHA UNIVERSIDADE

Conheceis o francês

sabeis dividir,

multiplicar,

declinar com perfeição.

Pois, declinai!

Mas sabeis por acaso

cantar em dueto com os edifícios?

Entendeis por acaso

a linguagem dos bondes?

O pintainho humano

mal abandona a casca

atraca-se aos livros

e as resmas de cadernos.

Eu aprendi o alfabeto nos letreiros

folheando páginas de estanho e ferro.

Os professores tomam a terra

e a descarnam

e a descascam

para afinal ensinar:”Toda ela não passa dum globinho!”

Eu com os costados aprendi geografia.

Os historiadores levantam

a angustiante questão:

– Era ou não roxa a barba de Barba Roxa?

Que me importa!

Não costumo remexer o pó dessas velharias!

Mas das ruas de Moscou

conheço todas as histórias.

Uma vez instruídos,

há os que se propõem a agradar às damas,

fazendo soar no crânio suas poucas idéias,

como pobres moedas numa caixa de pau.

Eu, somente com os edifícios, conversava.

Somente os canos de água me respondiam.

Os tetos como orelhas espichando

suas lucarnas atentas

aguardavam as palavras

que eu lhes deitaria.

Depois

noite a dentro

uns com os outros

palravam

girando suas línguas de cata-vento.

ADULTOS

Os adultos fazem negócios.

Têm rublos nos bolsos.

Quer amor? Pois não!

Ei-lo por cem rublos!

E eu, sem casa e sem teto,

com as mãos metidas nos bolsos rasgados,

vagava assombrado.

À noite

vestis os melhores trajes

e ides descansar sobre viúvas ou casadas.

A mim

Moscou me sufocava de abraços

com seus infinitos anéis de praças.

Nos corações, nos relógios

bate o pêndulo dos amantes.

Como se exaltam as duplas no leito do amor!

Eu, que sou a Praça da Paixão, *

surpreendo o pulsar selvagem

do coração das capitais.

Desabotoado, o coração quase de fora,

abria-me ao sol e aos jatos de água.

Entrai com vossas paixões!

Galgai-me com vossos amores!

Doravante não sou mais dono de meu coração!

Nos demais – eu sei,

qualquer um o sabe –

O coração tem domicílio

no peito.

Comigo

a anatomia ficou louca.

Sou todo coração –

em todas as partes palpita.

Oh! Quantas são as primaveras

em vinte anos acesas nesta fornalha!

Uma tal carga

acumulada

torna-se simplesmente insuportável.

Insuportável

não para o verso

de veras.

DEDUÇÃO

Não acabarão com o amor,

nem as rusgas,

nem a distância.

Está provado,

pensado,

verificado.

Aqui levanto solene

minha estrofe de mil dedos

e faço o juramento:

Amo

firme,

fiel

e verdadeiramente

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