Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro, mas a elevação do BOPE como herói nacional continua a mesma

por Vinicius Pena

 

Estreou na última semana, em meio às eleições presidenciais, a esperada seqüência do filme “Tropa de Elite 2”. Com cerca de 1,25 milhão de espectadores em quatro dias, já é o quarto longa de melhor abertura entre todos os filmes já exibidos em telas brasileiras.

O cenário real para a continuidade do Filme

O sucesso do primeiro filme foi acompanhado de debates e polemicas, tendo desde quem o criticasse por promover apologia à violência até quem o considerasse progressista ao retratar a realidade da violência no Rio de Janeiro. Em meio a polemica que prevalece ante o lançamento da continuação, Bráulio Mantovani, roteirista que assinou o roteiro do filme “Cidade de Deus” e os dois filmes da seqüência do “Tropa de Elite” argumenta que entende o filme como Costa-Gavras (aclamado diretor e presidente do júri do Urso de Ouro, no Festival de Berlim que entregou o prêmio ao filme) que percebeu-o como uma denuncia da mesma violência que retrata.

O primeiro filme destoa consideravelmente das justificativas de Costa-Gavras e de Mantovani, já que a retratação da violência só é posta quando retratada a partir do tráfico e somente como justificativa para a necessária violência policial no combate ao táafico. Contra a polícia corrupta, ligada e complacente ao tráfico e por isso incapaz de combatê-lo, o filme nos apresenta sua solução, o BOPE, uma policia honesta e retratada com questionáveis virtudes, entre elas a eficiência. Eficiência esta que o próprio hino do BOPE nos alerta com sua exaltação, de “subir no morro e deixar corpo no chão”. Ainda segundo o filme, se toda a polícia fosse como o BOPE, com sua honestidade (explícita) e sua eficiência expressa nas pratica de tortura, na sua capacidade genocida e assassina, estaríamos livres da violência do tráfico, esse não retratado como um dos subprodutos da miséria social ocasionada pelo capitalismo, mas de forma simplificada, como sendo naturalmente um monte de “vagabundo”. A violência do BOPE é um mal justificável contra a violência do tráfico e deve ser um modelo.

Não à toa o filme fez emergir Capitão Nascimento como herói nacional, contribuindo para legitimar a violência da polícia no dito combate ao trafico frente à opinião publica. Assim como o público aplaudiu e legitimou o BOPE e o Capitão Nascimento nas suas intervenções “assassinamente heróicas” nos morros da ficção do cinema, a população carioca aplaudiu quando o atirador de elite da policia matou um assaltante com um tiro de fuzil na cabeça ao fazer uma mulher de refém a céu aberto na realidade. Certamente o filme contribuiu para que um dos brinquedos de maior sucesso no dia das crianças seja uma miniatura do caveirão acompanhado de um boneco do BOPE!

Enredo novo com a repetição dos velhos ideais

É no contexto de legitimação das UPPs(Unidades de Policia Pacificadoras) que é lançado o “Tropa de Elite 2, o inimigo agora é outro”. A seqüência retrata o Capitão Nascimento dez anos mais velho, agora combatendo as milícias, grupos paramilitares formados por policiais e ex-policiais, bombeiros e políticos regionais. Mantendo a organização não linear da história, que já havia feito bastante sucesso no primeiro, nos é mostrado os acontecimentos que se passaram com os antigos personagens nesse período de tempo. O Capitão Nascimento é elevado de capitão para tenente-coronel do BOPE, transformando esse, segundo sua própria narrativa, “numa verdadeira máquina de guerra”, equipando-o com helicópteros e caveirões, além de ampliar seu efetivo, tudo para promover uma verdadeira carnificina nos morros cariocas, como retrata fielmente a cena de ação de uma ocupação filmado no morro Dona Marta.

A partir da atuação do BOPE frente ao motim de presidiários, (referência direta ao motim em Bangu I no ano de 2002) onde na ficção o agora capitão Matias resolve descumprir a negociação e assassina os presos que iniciaram o motim, Nascimento será promovido a sub-secretário de segurança, graças a repercussão positiva da atuação do BOPE pela opinião publica. A elevação do cargo o possibilitará a continuar a “BOPEficar” a policia, agora numa esfera macro, segundo a própria narrativa, lutando contra o “sistema” (as hierarquias e as relações corruptas dentro da policia já apontadas no primeiro longa). Porém, a atuação do dito herói na eliminação do tráfico, vai gerar a substituição desse pelas milícias, que se desenvolvem na zona norte, principalmente a partir do controle e cobrança dos serviços oferecidos para a comunidade, como transporte, gás, TV a cabo etc, na qual o Nascimento vai combater com os ideais do BOPE não só nas esferas policiais, mas também políticas.

Humanização do capitão Nascimento

Na continuação, Padilha aprofunda a ênfase da história aos dramas pessoais de Nascimento, principalmente referente à família, com a intenção de buscar legitimá-lo ainda mais por via dos seus dramas e da sua humanização. O próprio diretor declara que “o cinema brasileiro é um cinema marxista. E o personagem desse cinema é o pobre, o excluído. Fomos mostrar que a polícia também tem família, também é humano, sofre, paga contas.”

A humanização do Nascimento em nenhum momento visa desfazer os ideais do Capitão do BOPE, pelo contrário, esses são o tempo todo exaltados pelo personagem. Quando Matias assassina os presidiários que lideravam o motim e Bangu I, Nascimento o repreende afirmando que ele “fez cagada”, não por ter rasgado os direitos humanos, mas por ter dado assunto para a mídia atacá-los.

Seria o filme Progressista?

Outra novidade da seqüência é a introdução de novos personagens, com destaque para o militante de direitos humanos Diogo Fraga, interpretado por Irandhir Santos, personagem inspirado no deputado estadual do PSOL, Marcelo Freixo. Fraga se casou com a ex-esposa de Nascimento, e acaba criando o enteado com uma visão crítica do pai, agravando o drama pessoal de Nascimento. Mesmo sendo debochado pelo dito herói em diversos momentos da narrativa, inclusive de interesseiro na defesa da causa para ganhar voto, Fraga acaba ajudando Nascimento já que preside a CPI das milícias.

Assim como a maior humanização do herói tenta dar legitimidade ao perfil BOPE, a introdução de um personagem de direitos humanos e referencialmente de esquerda também cumpre a mesma função, num claro intuito de amenizar a imagem mais agressiva, inclusive a acusação de fascismo por alguns, buscando transmitir uma visão mais palatável para o público, apesar de manter a exaltação dos ideais do BOPE do primeiro filme.

É importante frisar que o segundo longa tem o mérito de complexificar o caráter das denúncias, elevando-as para o patamar político do Estado, mostrando a relação existente entre polícia, políticos e figurões nacionais. O caráter dessas denúncias têm levado a grande maioria do público e das críticas a definirem o filme como progressista.

Vale insistir que se a seqüência do “Tropa de Elite” humaniza seu personagem principal, e coloca novos personagens com um teor mais crítico relacionado aos direitos humanos e a esquerda, não o faz desconstruindo as concepções do BOPE como solução legitimada, pelo contrário, essas concepções que permeiam o filme são reafirmadas o tempo todo.

Se antes o BOPE e seus “ideais e métodos” eram a solução para a polícia e para o combate à violência no RJ, agora o dito herói percebe que a polícia está subordinada a esfera política do Estado, numa rede complexa de corrupção, que inviabiliza a solução policial e exige a atuação também na esfera política, na qual o filme nos apresenta como solução novamente o BOPE, agora não diretamente com a instituição, mas no perfil e virtudes de seu personagem principal, Capitão Nascimento, que é a incorporação em pessoa dos ideais dessa policia especial.

Da denuncia à necessidade de reforma combinada da policia e da política em busca da sua ética e da sua honestidade, juntam-se tanto a ala mais reacionária como Nascimento, até a ala democrática reivindicativa do socialismo e dos direitos humanos, como Fraga. Por mais que essa combinação aparente estranheza, é resultado não só fictício do programa de reforma ética das instituições burguesas excluída de qualquer análise da sociedade dividida em classes e de suas complexas contradições e resultados, como a miséria capitalista. Se o filme unifica Fraga e Nascimento na luta pelos valores éticos, na separação entre humanização e “BOPEficação” é Nascimentos que se ergue como solução.

Em uma conjuntura em que o projeto político de segurança pública resulta em uma ofensiva policial crescente sobre as favelas, seja com o BOPE seja com a militarização das UPPs, Tropa de Elite ajuda a legitimar a ação da policia e do governo na intensificação dos “preparativos” para a Copa do mundo e para as Olimpíadas que estão por vir.

A classe trabalhadora: personagem que o filme ignora

A esmagadora maioria das favelas cariocas é composta por trabalhadores que compõem a força de trabalho formal e informal dos serviços mais precários, vivendo constantemente entre a violência policial e a do trafico. Esse sim um verdadeiro drama que não teve nenhum espaço em ambos os filmes da seqüência, em que se opta por realçar o jargão de que “favela é lugar de bandido”.

Ao ignorar a classe trabalhadora, o filme também acaba excluindo a possibilidade da sua atuação como sujeito. A utopia que está colocada pelo filme é que cabe a própria polícia, sua ala mais “honesta” e assassina, ou a um político ético, reformar a polícia e conseqüentemente a política. A problemática está nas alas corruptas, mas ignora que a corrupção é inerente ao sistema capitalista e as suas instituições, como a policia e o estado que servem de instrumentos de dominação aos interesses da classe burguesa, e que exatamente por isso não pode ser reformados. Mas infelizmente para o diretor José Padilha, com os dois filmes da seqüência, “falamos tudo o que tinha para falar sobre o assunto”, e não veremos uma próxima continuação, mas em certo sentido, ainda bem!

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