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A necessária luta contra a universidade que “explora por excelência”: é preciso coordenar as lutas em curso e lutar para unir o que a burguesia separou!

 por André Augusto e Danilo Magrão, militantes da LER-QI

No dia 22 de setembro, a Unicamp de súbito encontrou seu restaurante universitários de portas fechadas. Aqueles trabalhadores que sempre ficavam escondidos atrás das esteiras das bandejas resolveram aparecer a público. A máquina utilizada para limpar diariamente cerca de oito mil bandejas quebrou (mais uma vez dentro de inúmeras), e para que a comunidade acadêmica não tivesse sua alimentação prejudicada os gestores da empresa terceirizada (EB-Alimentos) – com o consentimento da burocracia acadêmica – incumbiram a cerca de 5 trabalhadores a limpeza manual dessas milhares de bandejas. A alternativa primeira e óbvia para esses abjetos gestores do capital foi submeter esses trabalhadores às absurdas condições extenuantes de trabalho para que nada saísse de sua aparente normalidade.

    

Um daqueles trabalhadores, que mais uma vez pagou com seu suor os reflexos do regime de terceirização, resolveu levar a denúncia para o STU (Sindicato dos trabalhadores da Unicamp), e por ter se levantado contra aquele absurdo recebeu a premiação de ser transferido de seu local de trabalho para outro distante. Porém dessa vez, a revolta acumulada não permitiu que esse caso entrasse na lista dos tantos outros que são omitidos pela conveniência da super-exploração. Suas companheiras e companheiros de trabalho, demonstrando solidariedade de classe, resolveram paralisar na hora suas atividades até que essa clara repressão política fosse desfeita.

Dessa pequena faísca uma labareda de denúncias foram trazidas à luz. As palavras dos trabalhadores se multiplicavam expondo os cotidianos assédios e humilhações sofridas. Com mãos marcadas pelo uso de químicos, partes do corpo queimadas pela falta de manutenção do maquinário, cicatrizes psicológicas provenientes dos constantes assédios sofridos da chefia, o alerta pela tragédia anunciada de um teto repleto de mofo e rachaduras, as palavras se multiplicavam sem freios. O combustível delas é intrínseco ao regime de terceirização do trabalho, um dos pilares do projeto de educação elitista defendido e imposto por Reitorias e governantes.

    A terceirização e a precarização do trabalho também são bases constitutivas do projeto de país do Brasil. O avanço dos postos de trabalho, tantas vezes propagandeado pelo PT e seus ideólogos, acontece sob o estigma da super-exploração dos trabalhadores. Sua precarização vai desde salários de fome até o cerceamento de expressar-se política e organizadamente – retrocessos em quase todos os direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora. O projeto de país de Lula e Dilma, com o selo da Copa e das Olimpíadas, está impregnado de precarização por completo. Recentemente, os trabalhadores terceirizados do Maracanã e do Mineirão paralisaram suas atividades para denunciar, entre outas coisas, o descalabro da comida podre que era servida em suas alimentações.

    Ainda dentro desse projeto de pais, no qual se elege a primeira presidenta, que desde a sua campanha eleitoral até seu último discurso na ONU, enaltece o avanço que seu mandato representa para a questão feminina, mas o que a realidade apresenta é o oposto, também, desde as eleições quando usa a questão do aborto como moeda de troca por votos, mantendo-o proibido enquanto milhares morrem ao faze-lo clandestinamente, como pela manutenção de um modelo econômico pautado na precariedade do trabalho e da vida. Esses postos de trabalho terceirizados são em grande maioria composto por mulheres, isso devido à opressão e ao machismo mantidos pela Igreja, Estado e pela moral burguesa, a força de trabalho feminina tem um valor menor dentro do mercado de trabalho, legitimando que estas ocupem os empregos mais precários, sem condições mínimas de segurança, direitos como creches, licença maternidade, e ainda sofrendo constantemente com assédios morais e sexuais. Nesse sentido, a terceirização é também uma forma de violentar as mulheres, física e psicologicamente.

Cabe lembrar que a terceirização não é uma mérito de nossa semi-colônia, mas um fenômeno mundial onde segundo as próprias estatísticas da OIT (Organização Internacional do Trabalho) quase metade da força de trabalho do mundo é terceirizada ou precarizada. Na Alemanha, nos últimos dez anos a oferta trabalhista encheu-se com trabalho terceirizado, e é o que explica os números positivos com os quais o governo Merkel fala de diminuição da taxa de desemprego. Nesse contexto, estoura no país uma greve no que é o maior hospital da Europa, Charite Facility Management, que subcontrata pessoal com contratos individuais e temporários, baixos salários, péssimas condições de trabalho e ameaça de demissão, em que os trabalhadores buscam a contratação direta e coletiva dos funcionários terceirizados que prestam serviço ao hospital. Na Espanha, por exemplo, o Ministério do Trabalho suspendeu uma série de direitos trabalhistas e, com eles, uma medida que colocava limites na sanha empresarial pela contratação de mão-de-obra terceirizada, deixando a nu como a burguesia quer tratar a juventude estruturalmente desempregada, durante a crise econômica mundial.

    Assim que o contexto brasileiro reverbera essas contradições mundiais, em um patamar qualitativo de mais exploração e precarização. As lutas dos setores mais precarizados, o “subsolo da classe operária”, se mostrou o elemento mais explosivo na luta de classes no Brasil durante o primeiro (chamando a atenção para o caso de Jirau e Santo Antonio, com greves selvagens dos trabalhadores) e segundo semestre, combinado às explosões de greves dos metalúrgicos, dos Correios, petroleiros, bancários e professores da rede pública, setores com melhores condições de organização, mas cujo elemento político não tem peso dominante.

Uma dessas lutas que pode ser apontada particularmente, por sua dimensão atingida e repercussão entre trabalhadores, estudantes e intelectuais, foi a greve das terceirizadas da empresa UNIÃO, na USP, no primeiro semestre de 2011, tanto por sua combatividade como pelos triunfos que daí derivaram. Uma verdadeira experiência estratégica na luta de classes lado a lado com os setores mais precarizados que mostraram uma grandiosidade e tenacidade impressionantes.    Após 12 dias em greve, os trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas desta empresa, que presta serviços para a Universidade de São Paulo, conseguiram arrancar o pagamento dos salários do mês de março, mantendo sua greve até a próxima semana para garantir o pagamento de todos os outros direitos. Através da auto-organização para lutar contra o regime de semi-escravidão (com o auxílio do combativo e classista Sindicato dos Trabalhadores da USP, buscando fazer a diferença na luta de classes levantando o programa de unidade das fileiras operárias), o que se iniciou como um conflito salarial, ao elevar-se do patamar sindical ao patamar político, foi capaz de abrir uma importante crise na universidade questionando profundamente o papel que cumpre a terceirização do trabalho.

 Essa tradição forjada na luta contra a terceirização do trabalho demonstrou sua ressonância na luta da semana passada com a empresa BKM que presta serviços de paisagismo e jardinagem na USP: um dia de ocupação dos trabalhadores de uma das salas da reitoria – por conta do atraso salarial – obrigou a burocracia acadêmica a se encarregar do pagamento atrasado dos operários, do qual é cúmplice direta.

O passo estratégico que foi alcançado naqueles dias de luta foi ter aberto de forma profunda a crise da terceirização na universidade, e feito com que a palavra de ordem pela “efetivação dos terceirizados” se colocasse na boca de centenas de estudantes, se fizesse valer com a assinatura de centenas de juristas, advogados e professores, saísse nos jornais e na mídia burguesa, virasse tema de debate e possibilidade de programa real, de reivindicação justa, elementar, democrática.
Encontrar e combater não só os efeitos (a degradação dos direitos trabalhistas) mas a causa desses efeitos – a separação das fileiras operárias, naturalizando a idéia de “políticas diferentes para setores diferentes da classe operária” – possibilita investir contra as atrocidades da terceirização (não pagamento de salários e direitos, assédio moral e péssimas condições de trabalho) tomando pelo pescoço a sua essência: lutar por unir o que está artificialmente separado pela burguesia.

Nesse sentido, achamos que a luta que se iniciou a partir das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados não vem sendo encarada com um programa e uma prática política a altura pela atual gestão do STU, composta pelo Vamos a Luta (coletivo ligado ao PSOL). Em primeiro lugar, vemos um descompasso entre a discussão feita pela chapa nas eleições (há poucas semanas atrás) – que coloca a luta contra a terceirização como um ponto fundamental da chapa – e a prática política concreta da atual gestão em meio ao conflito, uma vez que se baseiam nos programas mínimos (de volta ao trabalhador e conserto da esteira de limpeza), mas não ligam essas questões ao real problema da precarização do trabalho e do regime de super-exploração a que são submetidos os trabalhadores no bandejão, portanto, sem reivindicar o programa da efetivação desses terceirizados sem concurso publico, com todos os salários e direitos dos efetivos. Em segundo lugar, porque a própria lógica de fazer reuniões (“assembléias”) do sindicato com os terceirizados com os chefes e supervisores presentes (expondo os trabalhadores a seus carrascos), e canalizar toda a mobilização na negociação com a reitoria e a prefeitura (o STU se curvou à chantagem da Reitoria de só negociar com a volta ao trabalho, contrariando o desejo dos terceirizados de paralisar o restaurante até o retorno de seu companheiro) sem nenhuma independência de classe, mostra uma estratégia de pressão que joga contra a mobilização e tem como resultado não auxiliar os trabalhadores a se auto-organizarem, com métodos de luta de classe e buscar de maneira independente suas reivindicações, sem semear ilusões nas reitoria e prefeitura e sem apostar nas suas próprias forcas. Em terceiro lugar, porque não fazem assembléia dos efetivos e não buscam uma aliança entre efetivos, terceirizados e a base do movimento estudantil, colocando de pé uma grande campanha de denuncia da “ universidade de excelência” que mantém um regime de super-exploração do trabalho, partindo da paralisação para transformá-la em uma imensa batalha de classe.

Essa situação de degradação das condições de vida e trabalho na universidade a serviço da burguesia mostra que é preciso voltar-se contra os agentes da burguesia que alimentam a engrenagem da exploração capitalista com o suor e sangue da rotatividade e do abuso dos direitos trabalhistas, como o Estado brasileiro, o governo Dilma, e nesse caso, a Reitoria da Unicamp. Atuando politicamente contra a Reitoria privatista da Unicamp, que caminha de mãos dadas com os planos do governo federal com planos como o Inova Brasil, de desenvolvimento de tecnologia para as empresas capitalistas brasileiras; que mantém instaladas bases militares dentro da universidade; que abre sindicâncias arbitrárias contra combatentes; e que abre as portas para que a empresas terceirizadas despojem o patrimônio público, é necessário forjar uma vanguarda de trabalhadores e estudantes que levante bem alto a exigência da efetivação de todos os terceirizados sem a necessidade de concurso público retomando a experiência que tivemos ano passado no IFCH, onde nós da LER-QI impulsionamos junto a outras correntes e lutadores um comitê contra a terceirização, que inclusive culminou em um ato com mais de 200 pessoas, em que estudantes e trabalhadores levantaram suas vozes para questionar esse regime de super-exploração.

 

 

Nesse sentido, as diversas campanhas recentes do movimento estudantil, discutindo maior financiamento (10% do PIB para a educação), precarização da universidade (falta de professores), currículo, permanência estudantil etc., devem vir atreladas ao papel da universidade hoje, no marco de se ela vai estar a serviço de aumentar a exploração dos trabalhadores e aumentar o lucro das empresas, ou se estará a serviço da massa da população trabalhadora, que financia a universidade com seus impostos e que deveria ter as pesquisas voltadas essencialmente para suas necessidades, devendo a própria universidade estar aberta aos filhos dos trabalhadores e juventude que hoje se mata para pagar seus estudos nos grandes monopólios de ensino privado (que devem ser estatizados para proverem educação gratuita aos trabalhadores) ou não vêem nenhum possibilidade de ter acesso as universidade públicas, que mantém o filtro social do vestibular.

É necessário que as correntes de esquerda como PSTU (a partir da ANEL) e PSOL (na Oposição de Esquerda da UNE) que, num momento em que o movimento estudantil brasileiro em diversas universidades deu primeiros sinais de luta, e num momento em que diversas greves de trabalhadores – como dos professores, correios, bancários, metalúrgicos, petroleiros etc., estão ocorrendo pelo país, devemos deixar de lado os métodos de aparato (com calendário de luta), que jogam todo o peso de nossa atuação na construção de plebiscitos dos 10% para educação “pelo alto”, mas que não se jogam nessas lutas e nos processos vivos de mobilização. No nosso caso, o conflito que se escancara aos nossos olhos é o das trabalhadoras terceirizadas do bandejão, explicitando o caráter da universidade elitista e reacionária que devemos combater. Nesse sentido, é também preciso que questionemos na Unicamp as atuais gestões do DCE, que historicamente não tem movido nenhuma grande luta contra a terceirização e mobilizações para forjar uma aliança operário-estudantil. O CACH, que historicamente se destacou nos anos anteriores na tradição de se colocar em solidariedade ativa aos trabalhadores, inclusive de outros países (Honduras, Haiti), realizando piquetes em portas de fábricas e organizando fundos de greve, nessa gestão foi engolida pela mediocridade e passividade alarmantes, o que pesa inclusive na consciência dos trabalhadores, que dizem que a vida política no IFCH está praticamente morta. O CACH tem de retomar sua tradição combativa enquanto entidade militante com um programa classista de aliança operário-estudantil e de luta contra a terceirização, sendo sujeito do debate vivo e criativo, militante, o único capaz de sacudir o entorpecimento das mentes da juventude, abrir seus olhos e fazê-los ver o que há a frente! 

Por isso, chamamos a todos os estudantes a construírem conosco comitês de solidariedade a esses trabalhadores, atos, mobilizações, rodas de debate, discussões em sala de aula etc. para colocar no centro da Unicamp esse debate, para colocarmos no centro do debate o problema da terceirização, que super-explora o trabalho, precariza os prédios da universidade e é a porta da privatização da universidade via fundações. Nosso grito deve ser pela incorporação imediata desses trabalhadores sem concurso público e para expulsar da universidade essas empresas que só fazem usurpar o financiamento público. É nessa perspectiva que pretendemos atuar no Congresso dos Estudantes da Unicamp!

 

 

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No pacato zoológico social da pequena-burguesia de Barão Geraldo a realidade questiona: status quo das famílias intelectualizadas ou vila da juventude trabalhadora?

por L. Gonzaga

 

“As vestes poeirentas de nossos dias, cabe a ti, juventude, sacudí-las” Maiakovski

Acostumados a observar a realidade desde seus gabinetes e nunca tocá-la; repousados nos palácios e nunca nos cortiços; distanciados da vida, beirando a morte, as famílias pequeno-burguesas-ultra-intelectualizadas (regadas a Bordeaux e queijo Feta) do Distrito de Barão Geraldo estão estarrecidas com a presença dos construtores de seu próprio status quo, é o que informa, não exatamente com estas palavras, o site Barão em foco (http://www.baraoemfoco.com.br/barao/noticias/2011/agosto/santander.htm).

Devotos fervorosos de que a classe operária só existia nos livros já em desuso e restritos a círculos de dinossauros hoje habitantes de outros planetas, os estratos sociais dos pacatos moradores de Barão Geraldo acordaram com suas casas deslocadas para o lado dos velhos cortiços, despertados mais cedo do sono profundo, viram não máquinas, mas braços humanos a construírem seus sonhos, com traços e germes de pesadelo intenso. (Explico aos pacatos moradores, é que o espanhol Santander já não sabe mais o que fazer com tanta crise em seu país de origem: não sabe o que fazer com o euro, não sabe o que fazer com seus ativos podres, não sabe onde enfiar a dívida exponencial de seu governo e não sabendo também o que fazer com tantos operários sem teto – com a crise habitacional crônica na Espanha – enfiou-os ao lado de tuas casas).

Mas se hoje roubam apenas parcela de teu sono e de tua tranquilidade, amanhã tomarão de assalto tua Universidade e a colocarão a serviço da sociedade, dos trabalhadores, da classe operária. Se hoje habitam o cortiço ao lado, amanhã tomarão de fuzis empunhados a mesa sagrada de teu jantar familiar e nela declamará o poema hoje oculto, tomando de teu vinho; será em tua mesa o lugar preferido das orgias da juventude sedenta dos prazeres por ti tolhidos; discutirá a preparação detida do fim de teus dias e construirão desde teu Quartel General de tranquilidade a construção de uma sociedade sem classes, livre e realmente humana. A ditadura do proletariado virá e ocupará todas as tormentas de tua vida, colocará os negros, as mulheres, os homossexuais e todos os setores oprimidos e explorados da sociedade que tanto cuidou dentro de tua universidade, e repousará em tua cama de rei. Destruirá até mesmo a polícia defensora de tua paz (e acabará de vez com os estupros que te chocam como chocam as diabetes de teu cachorrinho de pelúcia)!

Não duvideis: o ódio que sentes desta gente tão cinzenta é nela multiplicada por mil e quando puderem não titubearão para derrubar-te do trono.

Mas fiquem tranquilos, meus caros pequeno-burgueses de Barão, que o Barão em foco defenderá teus interesses como nunca quando tiverem alcançado a almejada paz eterna ao lado do trono do Santo Senhor Jesus Cristo, e aqui embaixo estiver de vez instaurada a vida!

 

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Boletim ISKRA – Especial

Seminário de Teoria Política do Socialismo – Gramsci na Periferia

 

NOVOS TEMPOS: NOVOS DESAFIOS PARA O MARXISMO REVOLUCIONÁRIO

Por Toni e Santiago – Juventude da LER-QI

Vivemos novos tempos! A ideologia burguesa do fim da história é derrubada nas ruas, com mobilizações massivas que acontecem em todos os cantos do mundo. Da Inglaterra a Síria, do Chile a Grécia, passando por diversos países, a juventude e os trabalhadores mostram nas praças e ruas, em enfrentamentos diretos com os poderes repressivos serviçais do capital, que sonhar com um novo mundo é possível, e que os utópicos e irrealistas são aqueles que pensam ou pensavam que a história tinha acabado.

Esses levantes colocam-se como contraponto ao período histórico que predominava até então, marcado por profundas derrotas da classe trabalhadora, por um retrocesso de suas instituições políticas (partidos, sindicatos e tendências) e na própria consciência de classe e em sua combatividade. Com a derrubada do muro de Berlim, a burguesia anunciava o ruir das perspectivas de amplos setores do proletariado na possibilidade da construção de uma alternativa hegemônica a sociedade capitalista. O período de “restauração burguesa”, dos últimos 30 anos sem revolução, marcado pela restauração capitalista do leste europeu por meio da dissolução da burocracia stalinista em governos burgueses, combinou-se com a ofensiva neoliberal. Estes ataques combinados afetaram o conjunto do proletariado, se expressando numa profunda crise subjetiva e objetiva na classe operária. Os novos levantes desencadeados nesta nova década no Oriente Médio e Europa pela juventude e os trabalhadores anunciam o inicio de uma nova fase de organização e de luta social e política de massas. Estamos diante do “começo do fim” desse período de derrotas e retrocessos.

Os processos revolucionários em curso colocam uma série de novas tarefas para aqueles que lutam e pensam, sentem e se mobilizam a partir da perspectiva do proletariado e da emancipação humana contra todas as formas de preconceito, opressão e exploração. Uma lição já pode e deve ser tirada desses primeiros momentos de mobilizações e enfrentamentos: não é suficiente a combatividade e abnegação dos trabalhadores e da juventude em luta, mas é condição vital pra vitória uma estratégia e um programa correto. O período da chamada restauração burguesa representou um retrocesso subjetivo profundo para o proletariado e seus setores de vanguarda. Desde a derrubada do muro de Berlim os debates estratégicos para a tomada do poder pela classe operária foram deixados totalmente de lado pelos setores organizados da esquerda. É passada a hora de retomar esse debate!

Isso pressupõe um balanço dos processos revolucionários e das correntes que se forjaram ao longo do século XX. Não podemos, a partir de um salto mortal, fazer uma abstrata “volta a Marx” ignorando as principais experiências de luta dos trabalhadores que foram refletidas em discussões estratégicas e programáticas. A teoria só se completará se assumir um caráter vivo, de responder a estes novos desafios postos, superando os meros debates terminológicos, tornando-se uma arma nas mãos da classe revolucionária, campo de batalha onde se medem e se enfrentam as diferentes estratégias e programas.

GRAMSCI: A DISPUTA EM TORNO DE SEU LEGADO

As reflexões de Antonio Gramsci devem ocupar papel central balanço das experiências revolucionárias do século XX. Gramsci foi um dos principais teóricos da III internacional, desde sua atuação no ascenso operário italiano em 1919-1920, mas também na fundação e posterior direção do PCI, até sua teorização dos elementos de entendimento da realidade italiana. Problematicamente, a leitura deformada de sua obra no pós-guerra foi base para o chamado “euro-comunismo” e outras variantes de reformismo e adaptações a democracia burguesa levadas a cabo pelos partidos stalinistas da Itália e do restante da Europa. Defendendo uma estratégia de “guerra de posições” entendida como estratégia de desgaste, estes partidos defendiam que através da conquista de pequenos espaços na estrutura social burguesa consolidar-se-iam, sob qualquer ângulo, passos à frente para a luta pela revolução socialista do proletariado.

Por outro lado, submetido a uma série de contingências, é correto afirmar que Gramsci sustentou posições ambíguas em relação ao stalinismo. Outra assertiva é que sua tentativa de crítica a teoria da Revolução Permanente, desenvolvida por Trotsky, cumpre papel importante para a legitimação, patente entre a intelectualidade ligada a tradição stalinista, das traições e das derrotas organizadas pelos partidos stalinistas em todo mundo no período do pós-guerra. Veja-se o caso do PCB no Brasil.

Mas até onde as concepções do próprio Gramsci não dão efetivamente base para esse tipo de leitura?

Assim, qual deve ser a relação dos revolucionários com a produção teórica de Gramsci? Devemos aceitar acriticamente suas teorias e as contradições que ela engendra. Cabe aos revolucionários sustentar sua estratégia e programa nessas bases, ou antes, partir da critica das contradições, e se apropriar dos elementos centrais que ele irá desenvolver? Aqui tomamos defesa da ultima alternativa.

Um dos principais elementos que Gramsci levanta e debate nos próprios cadernos é o papel da consciência e da vontade, a necessidade de nunca negligenciar o papel da subjetividade, a critica a qualquer concepção mecânica ou economicista da história, pois essa é feita pelos seres humanos reais, por sujeitos, e não por leis abstratas, supra-históricas.  A crítica feroz que ele faz ao “manual” sobre materialismo histórico de Bukharin é um bom exemplo disso.

Ao nos apropriarmos dialeticamente de Gramsci devemos buscar superar dicotomias criadas pelo autor sardo. Muitas destas dicotomias são aprofundadas por seus leitores stalinistas e reformistas. Entendemos que não se pode opor guerra de posição à guerra de movimento, nem se pode opor estas revolução permanente. É necessário compreender cada passo que damos, avançando posições no terreno burguês, como uma operação ligada à estratégia proletária de independência política e programática, para a derrubada do capitalismo e a tomada do poder. Também não se pode opor “ocidente” desenvolvido e “oriente” atrasado, mas deve-se entender as diferenças entre os países como características desiguais e combinadas do desenvolvimento de um capitalismo global, pensando estratégia do ponto de vista internacional e não somente nacional.

GUERRA DE POSIÇÕES X GUERRA DE MOVIMENTO E A TEORIA DA REVOLUÇÃO PERMANENTE DE TROTSKY

Uma das principais teorizações que Gramsci desenvolve no cárcere, diz respeito à relação entre guerra de posições e guerra de movimento, estas são vistas ainda na disjuntiva de diferentes estratégias para a revolução socialista no “Ocidente” e “Oriente”. Gramsci discute a partir dessas categorias, as diferentes formas de dominação da burguesia: uma mais “avançada” (países da Europa Central) onde a burguesia se utilizando do aparato político e ideológico conseguia introduzir na consciência dos trabalhadores uma ilusão muito maior ao Estado burguês e suas instituições e outra mais “atrasada” (Rússia, p.ex) onde pela opressão política e limitada democracia a classe trabalhadora tinha uma ilusão muito menor ao poder burguês e suas diversas instituições de dominação. Em resumo, no “Ocidente”, Gramsci via a dominação sustentada predominantemente sobre o consenso, e no “Oriente” sustentada pela Coerção.

Sob a primeira forma de governo, centrada no Consenso, caberia aos revolucionários a preponderância da guerra de posições para ganhar o terreno até a preparação da tomada do poder. A guerra de movimento seria a forma adequada de estratégia aos países onde a classe operária poderia tomar de assalto mais facilmente o Estado burguês que não seria anteposto por muitas barreiras ideológicas e políticas da “sociedade civil”.

A questão que Gramsci debate de fundo é a dificuldade superior que o movimento comunista internacional enfrentou desde a vitória da Revolução Russa de 1917 e a conformação da III Internacional em 1919, que tinha como perspectiva ser alavanca para a Revolução Socialista no restante dos países europeus e a nível mundial. Sua teorização porém, sofreu de determinadas insuficiências e limites (algumas dadas pelas condições do cárcere) que irão repercutir em uma maior possibilidade de interpretações reformistas.

Como assinala Perry Anderson,

[…] as insuficiências da fórmula de uma “guerra de posição” tinha uma clara relação com as ambigüidades de sua análise do poder de classe burguês. Gramsci igualou “guerra de posição” com “hegemonia civil” […] Do mesmo modo precisamente que seu emprego da hegemonia resultava freqüentemente que a estrutura de poder capitalista no Ocidente tinha como base essencialmente a cultura e o consenso, assim a idéia de uma guerra de posição tendia a implicar que o trabalho revolucionário de um partido marxista era essencialmente a conversão ideológica da classe trabalhadora […] cujo objetivo era ganhar a maioria do proletariado ocidental para a Terceira Internacional[1]

A disjuntiva abrupta entre as diferentes formas de dominação burguesa entre “Ocidente” e “Oriente” levava Gramsci a criar um fosso muito profundo entre a preparação política e ideológica da classe operária (guerra de posição) da preparação para a tomada do poder (guerra de movimento), isto é, o enfrentamento direto com as forças repressivas do Estado burguês, inalienável tanto no “Oriente” quanto no “Ocidente” que tinha forças repressivas na maioria das vezes superiores (caso da Alemanha em relação a própria Rússia Czarista).

A discussão de Gramsci se aproxima muito da teorização que Kautsky elabora na Alemanha em 1910, mais conhecida como “estratégia de desgaste” onde defendia a centralidade da atuação no parlamento em contraposição a ação das greves gerais ou outras formas de luta direta, que deveriam ser relegadas somente a um momento decisivo da tomada do poder onde se daria lugar à “estratégia de derrubada”.  Kautsky ainda se utilizava da mesma disjuntiva “Oriente” e “Ocidente” com conteúdos muito parecidos. Naquele momento não ficava claro ainda que ao assumir a estratégia de desgaste, abandonava-se a estratégia de assalto ao poder (como Kautsky defenderá posteriormente na sua crítica ao bolchevismo) questão que Gramsci, por mais lacunas que abra, nunca abandonou.

O equívoco de Gramsci, com a aproximação contraditória ao reformismo, ao ressaltar a necessidade central da “guerra de posições” no “Ocidente” tentava responder diretamente ao chamado “Terceiro Período” da III Internacional, já dominada pela fração stalinista do PCUS, que defendia naquele momento – como forma de legitimação da derrota da Revolução Chinesa de 1925-27 – que se abrira um período de “ofensiva revolucionária” das massas, igualando a social-democracia ao fascismo (social-fascismo) e colocando na ordem do dia internacionalmente a tomada direta do poder pela classe operária.

Gramsci, nessa discussão, praticamente iguala – erroneamente – a teoria da “ofensiva revolucionária” pregada por Bukharin e Cia, com a teoria da Revolução Permanente de Trotsky. A teoria da Revolução Permanente formulada pelo autor não significa “ofensiva a qualquer custo” ou simplesmente “guerra de movimento”. Trotsky, desde a guerra civil que se abriu com a vitória da Revolução de 1917, combateu de maneira veemente, vários teóricos que começavam a discutir a estratégia da “ofensiva revolucionária” ou da “guerra de movimento” como únicas possíveis para a classe trabalhadora na luta contra a burguesia. Via sim uma combinação dialética entre as duas que deveria ser respeitada no decorrer da luta de classes.

Trotsky e Lênin teorizaram conjuntamente, e disputam dentro do III congresso da internacional, a tática da frente-única operária (reivindicada por Gramsci nos cadernos para combater a linha do “terceiro período”) onde se discutia a necessidade de atuar conjuntamente com a social-democracia para se acelerar as experiências das massas trabalhadoras com o reformismo e se desfazerem de forma mais eficaz as ilusões na democracia burguesa. Se analisarmos ainda o momento em que Gramsci escreve essas linhas no cárcere da década de 1930, Trotsky levantava internacionalmente novamente essa política da frente-única operária para combater o ascenso do fascismo da Europa, preocupação também eminente de Gramsci nessa discussão.

A IMPORTÂNCIA DO DEBATE DE ESTRATÉGIAS HOJE

Se analisarmos o período onde Gramsci e os outros revolucionários da III internacional como Lênin e Trotsky e Rosa Luxemburgo atuam, discutem e teorizam, podemos dizer sem dúvida alguma que eles estavam diante do período mais revolucionário do século XX, onde a Revolução estava colocada na ordem do dia nos principais países da Europa. As sucessivas derrotas e ascensão do fascismo – fruto da adaptação das direções social-democratas e da traição dos partidos stalinistas – na Alemanha, França, Espanha com a Frente-popular, abriram as portas para a Segunda Guerra Mundial e a carnificina imperialista. Vemos a partir desse período algumas mudanças significativas dentro do marxismo e de sua relação com a classe operária.

O “marxismo clássico” de Lênin e Trotsky, que fazia da discussão teórica uma arma direta para a intervenção política na realidade e que se organizava nos partidos operários, deu lugar a uma teoria afugentada nas cátedras universitárias ou quando ainda de uma intelectualidade organizada politicamente, fugia das principais polêmicas políticas do movimento real da classe trabalhadora. Mesmo desenvolvendo contribuições em áreas que o marxismo nunca tinha discutido anteriormente, este marxismo caracterizou-se pelo afastamento gradual da classe trabalhadora e da luta contra o patronato e a burguesia. Predomina nesta forma de “marxismo” um profundo ceticismo em relação a sua capacidade de transformação social pelo proletariado munido de um programa socialista. Os acalorados debates internacionais como os protagonizados no seio da II e III internacionais, deram lugar a uma perspectiva reduzida as fronteiras nacionais de cada país.

Como já discutido no início desse boletim, as derrotas objetivas que sofreu a classe operária nas ultimas décadas com a restauração burguesa na URSS e nos estados operários do leste Europeu (pelas mãos da própria burocracia), e a investida neoliberal com a fragmentação das fileiras da classe trabalhadora, consolidaram-se como forma contínuas de ataques subjetivos e objetivos contra o proletariado. Em meio a estas investidas tentou-se apagar do horizonte das massas a perspectiva de “Revolução”. Estes ataques produziram efeitos em toda esquerda, sobretudo no marxismo, aprofundando os elementos de crise deste marxismo estéreo e afastado dos desafios colocados a classe operária.

O aprofundamento da crise aberta em 2008 traria novamente à tona os cenários clássicos da luta de classes, piquetes, greves, ocupações e derrubadas de governos, revitalizando a caracterização de Lênin, quando da sua análise do imperialismo, como uma etapa de crises, guerras e revoluções. O início deste ano com os eventos do oriente médio e norte da África, e as respostas da classe operária e da juventude aos cortes orçamentários que os governos capitalistas da Europa descarregam sobre seus ombros para solucionar a crise das dívidas soberanas, atestaram que todo o retrocesso e adaptação anterior do marxismo cobra agora seu preço.

Se fizermos um panorama rápido nas posições defendidas pelas principais correntes de esquerda – que reivindicam o marxismo revolucionário – perante estes processos, nos daremos conta de uma verdadeira “deriva estratégica”. O PSTU e sua seção internacional, a LIT-QI embelezam o processo revolucionário no Egito, caracterizando-o como uma “revolução democrática vitoriosa” e esquece que quem ocupa o governo hoje é uma Junta Militar, que mantém o Estado de Emergência (instaurado desde a entrada de Mubarak no início da década de 80) e proíbe as greves operárias. No outro lado, vemos o stalinismo do PCB, seus aliados “bolivarianos” como Chávez e a burocracia castrista em Cuba, defendendo o bombardeio de civis pelo regime ditador de Kadafi, tentando passar essa ainda como posição “anti-imperialista”. Na Europa, acompanhamos os PC`s stalinistas e a burocracia sindical tanto na Grécia, França, Espanha, negociar as sucessivas greves gerais nas costas dos trabalhadores e estudantes mobilizados. Em Portugal vimos novamente a seção portuguesa da LIT-QI (PSTU no Brasil) votar a favor, junto ao Bloco de Esquerda, os pacotes de austeridades naquele país[2].

CONCLUSÃO?

Esta é uma primeira polêmica que levantamos visando discutir o legado de Gramsci, desenvolvemos esse debate a partir de dois conceitos chaves na obra do marxista sardo e sua relação com o legado de Trotsky. A escolha, porém, não é ocasional. Parte primeiramente de termos claro que Gramsci foi um dos principais revolucionários da III internacional e que grande parte dos conceitos discutidos por ele nos seus cadernos estavam diretamente ligados a refletir os grandes problemas colocados para a revolução socialista naquele momento. “Hegemonia”, “Oriente x Ocidente”, “Guerra de posição x Guerra de movimento”. Gramsci mesmo nas condições do cárcere, desde suas polêmicas com Croce a Bukharin é antes de tudo um estrategista da classe operária, que dedicou sua vida e seu intelecto para a emancipação humana por meio da organização dos trabalhadores.  Discutir seu legado e suas “antinomias” tem a nosso ver, a tarefa central de combater todas as apropriações reformistas e stalinistas a sua obra[3].

Combater as correntes e apropriações reformistas e conciliadoras constitui aspecto chave para resgatarmos os fios de continuidade de uma geração que protagonizou um período sem par na história da luta dos trabalhadores. Geração que sintetizou lições essenciais em nível de programa, tática, estratégia e teoria e que temos que resgatar para nos prepararmos para estes novos períodos que se abrem. Recompor o marxismo da sua “crise” passa por retomarmos estes debates estratégicos, não simplesmente como “levantamentos históricos”, mais para debatê-los a luz dos desafios colocados hoje a classe operária, sendo o mais eminente, como responder com uma política independente os cenários abertos com a crise capitalista.

Neste sentindo, fazemos um chamado aos participantes deste seminário, em especial a juventude, que no ultimo período vem sendo não só protagonista dos grandes embates da luta de classes internacional mais também vem redobrando seu interesse na discussão dos grandes debates acerca da superação da sociedade e opressão capitalista, a resgatar o marxismo como ferramenta de transformação, ligado aos interesses estratégicos da classe operária.

Analisando mais profundamente este fenômeno internacional de atuação direta da juventude nos embates políticos, encontramos na história uma dinâmica muito similar. Trotsky, discutindo a mobilização dos estudantes espanhóis quando da queda da ditadura de Primo de Rivera em 1931, dizia:

Quando a burguesia desiste, consciente e obstinadamente, de ver resolvidos os problemas que decorrem da crise da sociedade burguesa, quando o proletariado ainda não está pronto para assumir essa tarefa, são, amiúde, os estudantes que o ocupam o proscênio. Este fenômeno sempre teve, para nós, uma significação enorme e sintomática. Essa atividade revolucionária ou semi-revolucionária significa que a burguesia passa por uma crise profunda.[4]

A perspectiva que defendemos é que os estudantes e os intelectuais coloquem suas forças em forjar uma unidade com a classe trabalhadora para que esta possa responder a altura esta crise. No Brasil, onde vivemos em um período de relativa estabilidade econômico e social, criou-se uma profunda ilusão de ascensão social em amplas massas, produzindo inevitavelmente um sentimento de que é possível dentro do capitalismo um caminho de melhorias graduais. O oásis de tranqüilidade, porém, já começa a dar mostras de que não ficará ileso à crise internacional. Este cenário exige da juventude e da intelectualidade marxista uma nova localização: se colocar ao lado dos trabalhadores. Cabe mais do que nunca resgatar nosso papel histórico de sermos o estopim, a iskra[5] que irá incendiar e ajudá-los a romper com sua letargia.


[1] Anderson, Perry.  Las Antinomias de Antonio Gramsci. Editora Fontamara, Barcelona, 1981.

[2] Para uma discussão mais profunda sobre a polêmica com estas correntes a luz dos processos revolucionários no oriente médio ver:  ISHIBASHI, S. A primavera árabe e a inauguração de novos tempos – Um debate sobre os desafios programáticos e teóricos postos para os revolucionário. Estratégia Internacional n.5 , 201.

[3] Vale lembrar que não só sua teoria foi tomada para legitimar diversas matizes de reformismo, mas também sofreu de falsificação histórica mais direta. As primeiras edições dos cadernos dos cárcere seriam organizadas sob os cuidados de Palmiro Togliati (1893-1964) dirigente do PCI e eminente defensor da política de Stalin na Europa ocidental. Este chegou a incluir varias notas nas obras de Gramsci editadas por ele, tentando criar uma legitimação da política stalinista na teorização de Gramsci. Ver: BIANCHI, A. O laboratório de Gramsci. Alameda, 2008.

[4] TROTSKY, L. La revolución española y la táctica de los comunistas. Pluma, 1976.

[5] “Fagulha” em russo. Nome do jornal organizado por Lênin e outros integrantes do Partido Operário Social Democrata Russo, e que foi decisivo para a conformação teórico-programática do partido bolchevique.

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Não são as “noções econômicas”… é a crise capitalista

por Paula Bach

tradução: Iuri Tonelo

Logo após a classificadora de risco Standard & Poor’s degradar a dívida publica norteamericana e em meio do contínuo deslizamento de todas as bolsas do mundo, os neokeynesianos e prêmios Nobel de economia, Joseph Stiglitz e Paul Krugman, iniciaram uma cruzada sustentando que o problema não está fundamentalmente na economia, senão nas “noções econômicas” e na “extrema direita”. “A explosão de uma bolha conduziu a um estimulo keynesiano massivo que evitou uma recessão muito mais profunda, mas também impôs déficits orçamentários importantes” diz Stiglitz (Clárin, 6/8). “O déficit orçamentário dos Estados Unidos é, antes de tudo, principalmente o resultado da crise econômica que seguiu a crise financeira de 2008”, disse Krugman (The New York Times, 8/8). E apesar disso, a crise é fundamentalmente de “noções econômicas”, como disse Stiglitz ou provocada pela “extrema direita”, como disse Krugman, porque o problema seria que “as noções econômicas equivocadas a ambos lados do Atlântico tem estado reforçando-se entre si” (Stiglitz) ou que os problemas do Estados Unidos “são quase em sua totalidade (…) causados pelo crescimento de uma extrema direita disposta a criar crises repetidas em lugar de ceder um ponto sequer em suas demandas”. O que os, até agora, críticos pela esquerda de Obama querem dizer é que o verdadeiro perigo não vem das tendências estruturais profundas da economia capitalista que provocaram a crise de 2007/9, senão do risco crescente que os Estados centrais (que inicialmente atuaram com medidas relativamente coordenadas de contenção da crise) retirem os estímulos provocando uma situação similar a que se desatou nos EUA em 1937, ante a retirada por parte de Roosevelt das medidas de intervenção estatal.

As omissões de Stiglitz e Krugman

O drama das economias norteamericana e europeia é muito distinto do que aduzem ambos acadêmicos. O problema é que as intervenções estatais mais volumosas da história do capitalismo mundial, permitiram só uma débil recuperação das economias dos países centrais. No caso dos Estados Unidos com mais de 3 bilhões de dólares em resgate que elevou a dívida pública desde 64,4% do PIB aos fins da Segunda Guerra Mundial), apenas se atingiu um nível de crescimento que recupera a queda acumulada desde 2008. Tomando o ano de 2007 como base de 100, aos fins do ano 2009 a economia norteamericana estava em 96,186 pontos, o qual implica uma queda acumulada de 3,8% (em base a dados atualizados do Burô de Análise Econômica dos Estados Unidos). Se se leva em conta que o PIB cresceu durante 2010 aproximadamente 3% e durante os dois trimestres de 2011 ao redor de 0,8%, apenas estaria alcançando a recuperação da queda, enquanto o desemprego reside em torno de 9,2%, isto é, 5 pontos acima que em 2007 e quando os primeiros sintomas da recessão voltam a fazer-se presentes. Deste modo, as “noções econômicas” que – com críticas, claro e sugerindo algumas medidas mais radicais como incremento dos impostos aos ricos – defendem como “mal menor” Stiglitz e Krugman, só conseguiram conter as quebras bancarias e recompor parcialmente a cadeia de crédito. Questão que permitiu ao capital aproveitar as vantagens de uma débil recuperação para realizar lucros que no primeiro trimestre de 2011 resultaram 22% superiores as do último trimestre de 2007 (Catherine Rampell, The Economist, 8/8). Mas muito longe estiveram de recompor uma dinâmica relativamente estável de inversão (acumulação de capital), de crescimento do emprego e do consumo, que voltou a cair pela primeira vez em 2 anos, antes de que a economia terminasse de recuperar o perdido.

O problema não é a dívida, é a recessão

Tem razão Krugman quando assinala que o grande problema dos Estados Unidos não está nos déficits orçamentários e que se a economia marchar pelo caminho correto, a dívida não deveria ser um grande problema. É certo, mas só em condição de “a economia marchar pelo caminho correto”, coisa que não está sucedendo. O problema é que a intervenção estatal e o endividamento não permitiram mais que tirar conjunturalmente a economia da recessão com a qual a dívida estoura, agora sim, como um problema em si mesmo e as “noções econômicas” que defendem ambos economistas (insistimos, como “mal menor”), estão seriamente questionadas em sua efetividade. A possibilidade dos Estados Unidos de endividar-se está associada a seu rol no mundo, questão muito relacionada a fortaleza de sua economia. A máxima classificação e o “risco 0” da dívida norteamericana, se baseiam em ultima instancia na confiança do mundo na segurança que outorga EUA, no que o resto do mundo pensa dos EUA. As dificuldades para recuperar o ritmo de crescimento da economia que se acompanham de um persistente desemprego e decadência da sociedade norteamericana, vão contra essa “segurança”. Este é precisamente o limite dos EUA para tomar credito de forma infinita. Se a economia norteamericana se mostra débil, a confiança se debilita e o endividamento se encarece como indica o rebaixamento da classificação que em perspectiva deixam mais baratos os Bônus do Tesouro, e incrementa os juros que se devem pagar por eles. A situação da economia lhe põe um limite a capacidade de endividamento (por isso não era o mesmo endividar-se para o estado Norteamericano no anos ’30 com uma dívida aproximada a 0 e uma economia poderosa, que o fazer [endividar-se] em 2011). A recessão provocou uma destruição parcial de capitais e os estímulos estatais (de modo a evitar uma queda mais profunda, como assinala Stiglitz) ajudaram ao capital a aproveitar as vantagens dessa desvalorização e de um incremento do desemprego que impulsionou uma queda de salários elevando a taxa de mais-valia. O problema é que nem bem se chega ao status anterior, a sobreacumulação de capitais volta a se expressar no mínimo com a mesma força que inicialmente. Ao não atingir a economia uma dinâmica própria e independente dos incentivos estatais, a grande acumulação de dívida se combina com os sintomas que indicam a possível entrada de uma nova fase recessiva. Questão que por suposto põe em dúvida a capacidade de endividamento do Estado impedindo que os estímulos se reciclem ao menos na magnitude e com a potência que o fizeram na primeira fase. É um ciclo vicioso e tudo faz pensar que o prognóstico para a próxima recaída é mais sombrio que o anterior.

O Tea Party e a xenofobia europeia

O fortalecimento da ala ultradireita do Partido Republicano, Tea Party, não é a causa atual da crise senão a consequência da decadência, do salvamento impune dos bancos e as grandes corporações, da continuidade do desemprego e da extremamente débil recuperação da economia norteamericana. A ala Tea Party, tem seu correlato nas profundas tendências xenófobas que habitam a Europa. O florescimento de ditas tendências é, do mesmo modo, o resultado das políticas de contenção da crise que incrementaram exponencialmente as já avultadas dívidas dos países do sul da zona euro e Irlanda. É o resultado do estouro das dívidas que conduziu aos brutais planos de ajuste nas economias em estado recessivo e com muitos índices de desemprego, ditados pelos credores, Alemanha e França. É o resultado dos centenas de bilhões de euros que Alemanha e França destinaram para salvar a seus próprios bancos. O fortalecimento das “noções econômicas equivocadas” que “a ambos lados do Atlântico tem estado reforçando-se entre si”, são em realidade, o subproduto do fracasso das “idéias econômicas” que agora defendem Krugman e Stiglitz. Em última instancia, são produto da impotência das medidas de intervenção estatal destinadas a salvar o capital da crise que sobreveio como resultado do estouro das contradições acumuladas durante as últimas três décadas de “neoliberalismo”.

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A miséria da produção cultural capitalista e a miséria da crítica cultural centrista: é necessário uma resposta revolucionária!

por Fernando Pardal

Recentemente Camila Lisboa, destacada dirigente da juventude do PSTU, escreveu um artigo homenageando a cantora Amy Winehouse, motivada por sua súbita morte1. Este artigo expressa cabalmente como aquilo que nós da Fração Trotskista – Quarta Internacional (organização internacional da qual a LER-QI é a seção brasileira) denominamos como o “grau zero da estratégia trotskista” encontra seu correlato também nas discussões sobre moral, ideologia e arte; ou seja, que as organizações que se reivindicam herdeiras do trotskismo passaram a abrir mão, no perído do pós II guerra, não apenas das bases teóricas, estratégicas e programáticas da IV Internacional, mas também deixaram de lado o que o marxismo refletiu e elaborou sobre a arte, a cultura e a moral2. Trata-se de um artigo que expressa posicionamentos extremamente conservadores sobre estas questões, que poderia perfeitamente ter sido escrito por um colunista cultural de uma revista burguesa qualquer, – ou, pelo seu tom “descolado” que reivindica a “rebeldia” de Amy, na Folhateen3 – descartando toda a vasta e profícua elaboração da crítica artística e cultural elaborada ao longo de séculos de luta da classe trabalhadora, tomando para si o que há de mais atrasado no senso comum e crendo com isso que está “inventando a roda”.

Vivemos tempos em que começam a cair por terra os principais mitos ideológicos forjados durante o período de trinta anos de restauração burguesa, de que as revoluções seriam coisa do passado, de que tudo o que podíamos fazer era nos acostumarmos ao mundo tal como ele é pois a história teria chegado ao seu fim, e até mesmo absurdos em flagrante oposição à realidade empírica, como de que não existiria mais classe operária. Neste contexto de transformação, certamente assistiremos a grandes reviravoltas também no terreno das artes, da cultura e da moral. Embrionariamente, estes fenômenos começam a se expressar aqui no Brasil, como, por exemplo, nas Marchas da Maconha e Marchas da Liberdade, na organização dos artistas que ocuparam a Funarte e na sua própria produção, que começa a se questionar cada vez mais abertamente sobre seu papel na luta de classes e de que lado deve se posicionar (o próprio movimento se reivindica de “trabalhadores da cultura”4, mostrando nitidamente uma mudança de subjetividade ao marcar seu desejo de identidade com a classe trabalhadora), bem como nos movimentos artísticos que se organizam na periferia das grandes metrópoles e começar a dar voz à expressão da classe trabalhadora, o que, com todas as contradições que apresente (como as tentativas muitas vezes bem sucedidas de assimilação e cooptação por parte da indústria cultural e do estado burguês5, além de uma evidente dificuldade em superar os modelos estéticos hegemônicos impostos pela burguesia), é por si só um fato notável, considerando que todos os meios de expressão artística foram historicamente (durante o capitalismo) de posse exclusiva da burguesia e da pequena burguesia mais abastada.

Neste sentido, são importantíssimas as questões neste âmbito suscitadas no artigo de Camila Lisboa, pois os revolucionários devem se colocar a tarefa de discutir não apenas programa e estratégia para a construção do partido revolucionário que possa ser o elemento decisivo para a tomada do poder quando os trabalhadores se coloquem à frente para travar os grandes combates da luta de classes, mas, entendendo também que o papel de um partido revolucionário é ser um embrião da nova sociedade que almejamos forjar, devem abrir espaço para que em seu interior ocorra o questionamento da sexualidade, da moral burguesa, da cultura e da arte, enfim, de todos os aspectos de nossa vida, hoje balizados pelos ditames da apodrecida classe dominante. O partido e sua militância devem fertilizar amplamente o terreno que será cultivado pela classe trabalhadora para forjar uma nova vida quando passemos a romper definitivamente os grilhões que nos aprisionam.

Historicamente foi assim: como exemplos emblemáticos de que nos períodos de revolução se abre o caminho para a renovação da arte podemos citar o russo Vladímir Maiakóvksi e o alemão Bertolt Brecht, ambos comprometidos da cabeça aos pés em fazer uma arte umbilicalmente atrelada ao projeto de revolução social sob a hegemonia da classe trabalhadora.

O artigo de Camila Lisboa, do começo ao fim, está na contramão de lutar por uma nova forma de encarar a arte, a cultura, a sexualidade, as drogas; enfim, a vida. Retoma a prática de seu partido, o PSTU, de separar suas discussões propagandistas sobre o socialismo de sua prática cotidiana, frequentemente adaptada à miséria do possível e aos estreitos horizontes da democracia burguesa. No âmbito da cultura e da moral, demonstram através de uma importante dirigente da juventude (setor que deveria ser a vanguarda destas discussões), como se encontra até o âmago adaptado à miséria da sociedade burguesa. Se a questiona, é apenas na aparência, para assim aceitá-la de maneira supostamente mais “rebelde”, para usar as palavras da autora.

Vejamos então como isso se dá.

Camila inicia discutindo o “lixo cultural” produzido pelo capitalismo sob o rótulo de arte da seguinte forma: “algo produzido às pressas, sem personalidade, sob o ritmo louco do mercado, sem critério de criação, sem expressão real de nenhum sentimento, pensamento ou qualquer coisa. Sob essa lógica, buscam-se padrões estéticos, sem muitas exigências artísticas. 25 a 30 shows por mês, ‘Domingão do Faustão’ e pronto. Fez-se um ‘artista’, ou um ‘fenômeno’”.

Concordarmos prontamente – como qualquer pequeno burguês “rebelde” poderia fazer – que a indústria cultural impõe uma produção estética que segue determinadas fórmulas comerciais estipuladas por um nicho mercadológico e todos os ramos de reprodução de capital criados como suas patas: gravadoras; programas, sites e revistas de “entretenimento”, todos os produtos ligados ao “marketing cultural”, como chaveiros, bonés, camisetas, posteres, calcinhas, e todo e qualquer tipo de porcaria que possa ser vendida em grande quantidade. Alguns dos elementos apontados por Lisboa respondem a esta lógica do produtivismo em moldes pré-estabelecidos e comercialmente testados: a produção às pressas, a grande quantidade de shows, etc, tudo sob a lógica de gerar mais lucro. Contudo, é gritante o vazio dos conceitos utilizados no artigo para caracterizar e criticar a indústria cultural, que podem querer dizer praticamente qualquer coisa. O que significa “algo sem personalidade”, “sem critério de criação”, “sem expressão real de nenhum sentimento, pensamento ou qualquer coisa”(?!?), “padrões estéticos, sem muitas exigências artísticas”? Deste tipo de caracterização da industria cultural pode-se deduzir que, para a crítica do PSTU, qualquer coisa com “personalidade”, “critério de criação” e que “expresse qualquer coisa” é arte.

De fato, a produção da indústria cultural responde a todos os critérios colocados acima. A “personalidade” que se apresenta é aquela criada e imposta pelos nichos de mercado, ou assimilada e pasteurizada a partir de movimentos culturais espontâneos da juventude, pronta a encaixar adolescentes em estereótipos que garantam a formação de um grupo identitário para consumir os produtos a ele dirigidos: emos, góticos, clubbers, patricinhas, punks, nerds, agroboys, gays, pit boys, torcedores de futebol e até onde mais a lógica do lucro possa imaginar. Seu “critério de criação” responde a estes parâmetros, que na verdade são bastante rígidos e conscientes. Gastam-se fortunas com os melhores equipamentos, músicos e produtores muitíssimo bem treinados; imagens, letras e melodias cuidadosamente elaboradas para terem a “personalidade” adequada. O melhor exemplo são as megalomaníacas produções de Hollywood. Será que filmes que gastam milhões de dólares e arrecadam muitas vezes mais em bilheteria são realmente produzidos sem nenhum “critério de criação”? Pode ser que os produtos da indústria cultural não expressem os sentimentos e pensamentos “rebeldes” que Lisboa gostaria, mas certamente há a expressão de muitos sentimentos e pensamentos, que dirá a expressão de “qualquer coisa”! Mas, certamente, a maior expressão de “qualquer coisa” é esta definição da indústria cultural!

Se queremos ter uma crítica minimamente séria, seguindo o método marxista, ou seja, materialista e dialético, não podemos dispensar uma das principais camisas de força ideológicas da burguesia, que cumpre o papel primordial de alienar e pacificar milhões e bilhões de pessoas em todo o mundo, com meia dúzia de frases feitas que não querem dizer absolutamente nada. Precisamos entender profundamente o que torna a indústria cultural tão poderosa para que possamos desmascará-la diante das massas e combatê-la, para que possamos nos apropriar de muitos de seus elementos mais avançados e eficazes para um uso revolucionário. Os melhores marxistas no campo da crítica cultural sempre procederam desta forma, como podemos ver na obra de Walter Benjamin. Este via, para ficarmos apenas em um exemplo, de maneira dialética a possibilidade da reprodução em grande escala de obras de arte (um elemento imprescindível para a formação da indústria cultural moderna), como uma possibilidade de acabar com o “fetiche” criado em torno da obra de arte (aquilo que ele denominou como “aura”)6.

Também a burguesia, que neste aspecto é muito mais perspicaz do que o PSTU, procede de forma semelhante ao assimilar aquilo que pode da produção artística e cultural dos revolucionários para seus próprios fins de dominação de classe. Diversas técnicas muito eficazes que hoje conhecemos através da publicidade capitalista, como o uso apurado da linguagem visual, foram assimiladas a partir das experiências desenvolvidas pela ROSTA7 sob o comando de Maiakóvski na época da guerra civil revolucionária, ou ainda dos construtivistas russos que continuaram estas experiências. Muitas inovações do cinema hoje completamente absorvidas por Hollywood tiveram sua origem nos filmes de Serguei Eisenstein que retratavam a luta da classe trabalhadora russa pela tomada do poder. São apenas alguns entre diversos exemplos que poderíamos citar.

O mesmo se deu com todos os movimentos mais importantes de contracultura ao longo do século XX. A cultura e a arte, por mais contestadores que sejam, mostram-se completamente incapazes de fazer uma transformação radical da sociedade por si próprias (como gostariam e querem fazer crer muitos artistas oprimidos pela camisa de força estreita da industria cultural), e isto torna-se evidente na forma como o capital é capaz de se apropriar, assimilar e esterelizar ideologicamente qualquer movimento de contracultura que se geste em seu interior, tornando-o apenas mais um nicho comercial a ser explorado – em especial para vender bugigangas para os adolescentes “rebeldes”. Foi assim com toda a música criada pelos negros nos EUA – rock, blues, jazz, R&B, soul e Rap –, que foi peça fundamental na resistência cultural do povo negro, e hoje foi transformada em paródias como o Rap “gangsta”, que trás o estereótipo do negro assimilado, com sua ostentação de carrões, penduricalhos de ouro e mansões, além de um machismo gritante que coloca mulheres-objeto desfilando nos clipes no mesmo patamar que seus carrões. Foi assim com o Punk surgido das entranhas da classe operária inglesa e estadounidense, que em suas vertentes mais politizadas produziu verdadeiros hinos de guerra ao capital, como “London Calling”, e hoje foi transformado em nada mais do que “um visual e um som”. Foi assim com o movimento hippie, que se colocava pela liberdade sexual e de uso das drogas, organizando atos massivos contra a guerra do Vietnã e produzindo aquilo que houve de mais revolucionário esteticamente no rock, com figuras do porte de Jimi Hendrix e Janis Joplin, e que depois virou uma caricatura apresentada em musicais da broadway, forneceu uma geração de frustrados workaholics para o yuppismo e chegou à diluição completa com a formação de conceitos de moda como o “hippie-chique”. Esta pasteurização ideológica se deu até mesmo com figuras transformadas em “mártires revolucionários” para que seu potencial questionador fosse obliterado, como nos milhares de produtos que trazem estampada a cara de Che Guevara como se este fosse um ídolo pop adolescente tão “rebelde” quanto o último cantor Emo.

Estes movimentos de assimilação dão apenas uma ideia vaga da intrincada relação da produção artística com a indústria cultural, e faz-se necessário que a entendamos de forma dialética, e não maniqueísta, como se tudo o que produz fosse completamente descartável, ou como se aquilo em que vemos algum valor fosse uma exceção inexplicável. Da maneira como é retratada no texto, Amy parece muito mais com uma grande vítima da indústria cultural, quando na verdade trata-se de uma vítima sim, mas em igual medida uma cúmplice que construiu grande fortuna adaptando-se aos moldes exigidos por sua gravadora (exemplo marcante é seu terceiro CD, que havia sido vetado pela gravadora por ser “muito reggae”, e que agora foi desengavetado pela possibilidade de capitalizar melhor a morte da cantora). Não há quem não tenha apreço por algumas (ou muitas) das produções da indústria cultural, que hoje regula praticamente toda a produção artística à qual temos acesso, e o que explica isso não é meramente uma genialidade tão incrível que o capital não foi capaz de obliterar com a implacável lógica do lucro. Por isso, é uma postura absurda a de descartar toda a produção cultural sob o julgo do capital unanimemente, elegendo “heróis” como Amy como se eles não estivessem completamente implicados na reprodução desta lógica. Uma visão minimamente dialética compreende que a relação contraditória entre artistas e dentores dos meios de produção e circulação cultural deve ser estudada a fundo para que possamos ver o que há de progressivo e o que teremos que superar definitivamente no modo como se produz a arte na sociedade burguesa.

Mas, ao seguirmos a leitura do texto de Camila Lisboa, vai ficando cada vez mais evidente porque esta julga tão simples colocar tudo como “preto no branco”, de uma forma tão antimarxista. Diz ela: “Fazer boa música, produzir arte, compor, escrever, tocar e cantar sob o critério da arte é uma arte e tanto. E foi com isso que Amy Winehouse surpreendeu.” Aqui torna-se evidente como sua cabeça está repleta de “verdades” nada “rebeldes”. O que seria fazer “boa música”? Por este artigo podemos saber que, para Lisboa, Amy seria “boa música”. E o que mais? Para ela, não importa sequer colocar sua visão do que seria isto. O conceito de “boa música”, para a autora, não é historicamente determinado, mas fixo e imutável. É uma verdade tão dogmática quanto os dez mandamentos, e por isso não é necessário explicá-la. Coroa-se isto com a formulação “sob o critério da arte”. Para Lisboa, como para Olavo Bilac, o príncipe dos poetas parnasiano, a arte existe em seu estado puro, talvez no monte Olimpo ou na cabeça de grandes gênios como Amy Winehouse, e ela oferece seus critérios (misteriosos demais para nós mortais, mas certamente de conhecimento da autora, que, no entanto, se recusa a compartilhá-los conosco) para que estes gênios produzam sob seu auspício. Haveria algo mais radicalmente anti-histórico, antimaterialista, antidialético, ou, em outras palavras, antimarxista do que tal visão da arte? Voltaremos a isto mais a frente.

Amy Winehouse pode ter surpreendido Lisboa por ter produzido sob o “critério da arte”, mas certamente o leitor de seu texto se surpreende mais pelo descalabro a seguir, quando a autora afirma que “Amy Winehouse foi rebelde porque fazia arte verdadeira, com entrega. O amor não lhe era um sentimento bonito, como nos contos de fada, mas um sentimento de dor, de massacre, de automutilação. É muito rebelde falar do amor assim. (?!?) Para Amy, o amor é dor porque se humilha e “chora no chão da cozinha”, sem se importar em expressar mais amor do que o correspondido.” Seria este então o misterioso “critério da arte” de Lisboa? Aquilo que ela chama de “arte verdadeira” é a que se faz com “rebeldia” e “entrega”? Supõe-se então que a “arte verdadeira” só pode ser fruto de um arrebatamento, um estado catártico, um transe que acomete os “gênios criadores” que colocam seus sentimentos profundos nas obras. Mais a frente, retomaremos isto para mostrar como a ideologia burguesa de arte está impregnada até a medula de Lisboa.

Por ora, vamos a sua colocação sobre às relações de sexualidade, quando explica generosamente ao seu leitor que “é muito rebelde” falar do amor como humilhação, massacre, automutilação. Se a visão do amor de contos de fadas do “foram felizes para sempre” expressa uma deturpação ideológica que procura vender a família e o casamento como instituições sagradas e dignas de louvor, colocando em um pedestal de adoração aquilo que é uma forma de escravidão e opressão, a visão de amor como humilhação, por sua vez, não tem absolutamente nada de progressivo, e é na verdade uma complementaridade necessária àquela primeira visão, imprescindível para manter as mulheres submissas, como reféns de sua opressão, aceitando-a não apenas por uma imposição externa, mas por terem internalizado a ideologia brutal que a justifica como parte de seu próprio modo de sentir e pensar.

É verdadeiramente escandaloso que uma mulher, militante de um partido operário que discute a opressão das mulheres sob o capitalismo e a necessidade de sua auto-organização, reivindique que é “rebelde” falar do amor como massacre, dor e automutilação. Milhões, se não bilhões, de mulheres são vítimas desta visão tão “rebelde” de amor. Casos de femícidio, tratados pela mídia e pela justiça burguesa como “crimes passionais” são frequentemente justificados por tal visão “rebelde” de amor8. Não se coloca a realidade concreta: que o homem vê sua companheira como uma posse e que, ao perder sua propriedade, resolve assassiná-la, por sentir-se detentor de todo a sua subjetividade e de seu corpo. Trata-se a questão sob o prisma deste “amor” tão “rebelde”, como um grande sentimento de “dor” causado pelo abandono, às vezes elevando-se um assassinato seguido de suicídio ao status de uma verdadeira “declaração de amor”, algo belo, como “Romeu e Julieta”: “Se não posso viver com você, não mais viverei!” (E nem você, com mais ninguém, e nem sozinha). É uma expressão acabada da ideologia burguesa sobre as relações amorosas.

Por outro lado, as mulheres sofrem uma pressão social colossal para colocarem seus relacionamentos amorosos no centro de suas vidas, como a maior prioridade e como determinante de sua própria personalidade, subjetividade e aspirações de vida. Em muitos casais formalmente “emancipados” à primeira vista, com relacionamentos abertos (sem monogamia) e sem os aspectos centrais dos moldes tradicionais de família (compartilhar uma casa, com a mulher cumprindo o papel de reprodutora da força de trabalho e educadora das crianças e o homem como provedor), podemos encontrar ainda esta subjetividade nas mulheres como uma das marcas mais persistentes e difíceis de superar da opressão que se abate sobre elas no âmbito dos relacionamentos – principalmente porque as coloca diretamente como agentes de sua própria opressão ao reproduzirem estes sentimentos, o que coloca o combate à opressão como um combate à sua própria subjetividade. Enxergar o amor como sofrimento é parte intrínseca disto. É parte de que a mulher coloque sua relação amorosa não como parte de sua liberdade, como reivindicam os revolucionários, mas como parte de sua escravidão. Faz com que coloque todos os projetos de sua vida subordinados, em última instância, a este “amor rebelde” sem o qual não se pode viver, sem o qual é preferível se automutilar, sofrer, “chorar no chão da cozinha”. De que para mantê-lo a mulher deve se sujeitar a agressões, humilhações e tudo mais que seu companheiro imponha. É o apagamento completo da mulher como sujeito de sua própria vida, de submissão afetiva, psíquica e moral a seu companheiro. É isso que acontecia, inclusive com a própria Amy Winehouse, que era vítima de agressões físicas por parte do seu marido. A “rebeldia” reivindicada por Lisboa é, na verdade, puro reacionarismo.

É exatamente disto que fala Wilhelm Reich ao discutir o problema da sexualidade entre os revolucionários já nos anos trinta: “Além disso, as coisas apresentam ainda muitas dificuldades porque as moças são muito mais dependentes sexualmente dos rapazes do que eles delas, por causa da educação sexual que elas recebem, mesmo nas famílias proletárias. E uma relação amorosa significa em geral para a moça proletária muito mais do que para o rapaz, não só corporalmente, mas também psiquicamente.9 Se Amy apenas expressava isto como sua subjetividade nas letras de suas músicas, sem no entanto reivindicar como um exemplo a ser seguido, mostra-nos apenas como esta ferida é profunda em nossa sociedade e como deve ser tarefa central dos revolucionários combatê-la a ferro e fogo. Já Lisboa, ao invés de combater este atrasadíssimo aspecto da nossa sociedade, glorifica-o, diz que “é muito rebelde”. É o grau zero da moral revolucionária!

A próxima preocupação de Lisboa será a de dar uma espécie de verniz acadêmico às abobrinhas que faz desfilar diante do leitor, e para isso invoca a identificação de Amy Winehouse com os poetas ultraromânticos do século XIX. Se é verdade que não há nada de esclarecedor nesta relação para explicar o que há de valoroso na produção musical de Amy, como parece querer crer a autora, há no entanto uma boa dose de explicação para a origem das concepções nada revolucionárias de arte e amor da própria Camila Lisboa.

O Romantismo foi um dos movimentos artísticos e culturais de maior influência na modernidade, justamente porque está intimamente relacionado ao ascenso da burguesia como classe politicamente hegemônica. É o Romantismo, de fato, que apresenta – ainda que de maneira conflituosa e contraditória – uma grande parte das concepções ideológicas da burguesia. Foi fundamental, por exemplo, para consolidar o conceito de “nacionalidade” no imaginário da classe trabalhadora, um conceito fundamental para apaziguar as contradições de classe, procurando estabelecer uma relação de identidade entre a burguesia e o proletariado que se colocasse acima dos interesses contraditórios entre trabalhadores e capital10. No Brasil, foi uma espécie de precursor do mito da democracia racial, apresentando de forma idílica e idealizada a relação entre índíos e brancos (e em alguns casos, negros também, ainda que as classes dominantes fossem tão reacionárias que o mais comum fosse ignorar simplesmente sua existência para não “sujar” sua produção artística com este tema tão pouco “nobre”), como na reacionária obra de José de Alencar. O papel essencial que cumpriu a literatura como cimento ideológico e apaziguador das contradições sociais inerentes ao capitalismo é sintetizado por Terry Eagleton na seguinte frase: “If the masses are not thrown a few novels, they may react by throwing up a few barricades.” (Se não forem atirados às massas alguns romances, elas podem reagir erguendo algumas barricadas).

Muitos dos preconceitos ideológicos burgueses de que Lisboa se vale para reivindicar a produção de Amy Winehouse foram forjados nesta época, como o de que a “arte verdadeira” seria aquela que expressa a “subjetividade singular” do autor (definidos como a “personalidade” e o “sentimento” no início de seu texto), que é feita com “paixão” e “entrega”. Esta concepção surge justamente do papel absolutamente marginal que ocupam os artistas na sociedade burguesa, que progressivamente passa a mercantilizar todas as relações entre os seres humanos. Se antes a arte possuia seus mecenas e nobres que a patrocinavam e valorizavam, garantindo para ela um status social elevado, a partir da dominação burguesa ela passa a ser uma mera mercadoria, como qualquer outra. Aliás, pior do que outras, do ponto de vista da burguesia, porque não possui uma função pragmática. O artista passa a enfrentar a realidade de que ele é obrigado a vender sua força de trabalho como qualquer outro, ou adequar sua arte ao pragmatismo burguês para poder vendê-la (os primórdios da indústria cultural), e que nesta sociedade a arte não passa de “perfumaria”.

Para se refugiarem desta realidade e tentarem valorizar através de um escapismo idealista seu próprio papel, começa a surgir entre os artistas a concepção comumente conhecida como “arte pela arte”, que reivindica uma autonomia da arte em relação às coisas materiais e mundanas. Como se o artista fosse uma categoria especial de ser humano, um gênio que expressa sua individualidade e sua subjetividade através da sua obra, em contraposição à reificação de todas as relações. Passam a se valorizar, na arte, atributos que anteriormente não tinham a menor importância, como a originalidade e a expressão “autêntica” dos sentimentos. O amor passa a cumprir um papel destacado porque, como a própria arte, foi visto pelos românticos como um valor maior, acima das coisas materiais e da visão mundana da burguesia, algo que estaria acima da mera mercantilização, que significaria a antítese dos valores que procuravam rejeitar na na sociedade do capital.

Se é verdade que há algo de progressista no sentido de rejeição da mercantilização imposta pela burguesia a todas as relações, e até mesmo de revolucionário, no mesmo sentido em que a própria burguesia o era em contraposição ao Antigo Regime, há um conservadorismo profundo na ideia de que a resposta para a miséria “espiritual” da reificação das relações é se isolar das coisas materiais e, assim, da luta da classe trabalhadora contra o capital. Claro que dentro da imensa produção artística romântica houve aqueles que, vendo a miséria da sociedade capitalista, tomaram uma postura mais progressista e procuraram retratar os explorados. É o caso de Victor Hugo, por exemplo. No Brasil, poderíamos citar Castro Alves, que colocou sua arte a serviço da luta pela abolição. Contudo, a chamada segunda geração romântica, os adeptos do ultra-romantismo, reivindicados de maneira acrítica por Camila Lisboa, foram justamente aqueles que mais se isolaram dentro de sua subjetividade, que mais pregaram o valor da “arte pela arte”, que mais procuraram se colocar como gênios criadores distantes do mundo.

Aqui no Brasil o núcleo duro dos poetas ultra-românticos foram os filhos da classe dominante concentrados na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, tendo seu maior expoente na figura de Álvares de Azevedo. Apresentam o amor da maneira “rebelde” que reivindica Lisboa, como sofrimento, idealização. Utilizavam-no como mais um refúgio idílico de sua subjetividade e de seu gênio criador em oposição à mesquinhez do mundo real. É uma fuga das coisas “mundanas”: a escravidão, por exemplo, passou longe de suas obras. O que importava, acima de tudo, era o coito amoroso do gênio criador.11

A influência do Romantismo e sua relação umbilical com o ascenso do capitalismo são aspectos tão marcantes, que até hoje – mesmo com tantas superações e questionamentos de seus valores – a sua moral se expressa em relevantes manifestações da sociedade burguesa atual, da qual a subjetividade de Camila Lisboa é apenas mais um triste exemplo. As novelas, o ideal do “amor romântico” (seja em sua versão “felizes para sempre” ou em sua versão “humilhação e sofrimento”, duas faces da mesma moeda), a ideia de que existe uma abstração como a “arte verdadeira” ou o “amor verdadeiro” são algumas das formas de sua manifestação.

Lisboa diz em seu texto, ao finalizar a comparação da cantora com os poetas românticos, como que para colocar uma cereja no bolo da suposta genialidade artística de Amy Winehouse: “Mas Amy era de hoje.” Só podemos supor o que a autora quis dizer com isso, mas parece que em sua visão Amy seria ainda mais genial por expressar ainda hoje uma subjetividade forjada há séculos atrás. Qualquer um pode perceber o contrário, que é extremamente conservador manter hoje as concepções artísticas dos artistas do século XIX. Contudo, não coloquemos sobre Amy Winehouse o ônus das comparações esdrúxulas de Camila Lisboa, já que para além de uma subjetividade em relação ao amor bastante difundida em nossa sociedade, ela muito pouco tem de semelhante com os poetas daquela época. Para Camila Lisboa sim, poderíamos dizer: em sua época e seu contexto, da burguesia em ascensão, os poetas ultraromânticos puderam apresentar algo de progressivo ao rejeitar a mercantilização das relações afetivas e da arte. “Mas Camila é de hoje”. E hoje, na época do capitalismo em franca decadência, não há mais nada de progressivo em ter uma subjetividade assim, muito menos em reivindicá-la como algo “rebelde”.

Há muito mais o que refutar no artigo de Camila, mas não podemos aqui nos dar esta tarefa, pois parece que cada linha apresenta uma nova tarefa neste sentido. Em relação à questão das drogas, colocações como “Amy Winehouse expressava rebeldia em suas letras não porque se recusasse a ir para reabilitação” e principalmente “Não sabemos precisamente o nível de vício da cantora e acreditamos que o vício em drogas poderia, eventualmente, atrapalhar seu desenvolvimento artístico.” – que, aparte os eufemismos (“eventualmente”, “poderia”), caberia perfeitamente na boca de um âncora de jornal burguês com sua moral reacionária antidrogas, como Boris Casoy ou Datena – expressam um conservadorismo tão grande quanto em relação à questão sexual; dificilmente se poderia dizer que vieram de uma militante do mesmo partido de Henrique Carneiro, que além de ter uma vasta produção acadêmica sobre o assunto, apresenta uma posição verdadeiramente revolucionária sobre a questão, defendendo a descriminalização de todas as drogas, o monopólio estatal de sua produção, controle e distribuição, a educação a respeito do consumo de drogas, etc. Sobre esta questão, que não desenvolveremos, recomendamos o excelente artigo de Bernardo Andrade12 para uma posição diametralmente oposta ao moralismo pequeno burguês de Camila Lisboa.

Não poderíamos concluir este texto, contudo, sem esboçar uma perspectiva que se contraponha à colcha de retalhos de preconceito e senso comum pequeno burguês que teceu Camila Lisboa. A questão de fundo – no que se refere à arte – está na maneira profundamente antimarxista como ela encara a arte, ou seja, como esta figura no texto como algo dado, imutável, a-histórico. Quando tenta explicar o que entende por arte, a coisa fica muito pior, pois expressa um amontoado de características que parecem tiradas de uma apostila de banca de jornal, e que, como demonstramos, nada mais são do que um arremedo do que a ideologia forjada pela sociedade burguesa nos brindou ao longo de séculos. Marx e Engles já apontavam, em seus esparsos escritos sobre arte e literatura, como estas são mais uma das superestruturas que representam um reflexo, em última instância, das relações de produção da sociedade. Portanto, a própria definição do que é arte é algo absolutamente histórico, determinado pelas formas de produção e sua relação dialética com a política, a cultura, etc. e que corresponde inexoravelmente aos interesses da classe dominante, pois, como já foi dito no Manifesto Comunista: “as ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante”.

Assim, anteriormente convinha à classe dominante manter o conceito de “arte” restrito às produções de uma elite intelectual que pudesse consolidar um corpo ideológico que desse respaldo à sua dominação, colocando de fora do campo da arte tudo aquilo que não atendesse a este critério e mantendo uma fachada de critérios estéticos para dar um ar meritocrático a esta diferenciação – e aí entra o fundamental papel dos críticos de arte, dos próprios artistas e o papel político importante do conceito de “arte pela arte”, que procura ocultar os inevitáveis laços da arte com a política em qualquer época e contexto e desmerecer as produções artísticas que explicitem estas relações como “panfletárias”. Com a consolidação da indústria cultural, contudo, há um cenário novo, em que se cria um mercado de massas para o consumo da produção cultural, outrora reservada apenas para uma restrita elite, com uma possibilidade muito restrita de geração de lucro. Isto trás a necessidade de um novo conceito de arte para a classe dominante, e assim encontramos todo tipo de produção cultural que atende aos parâmetros desta nova indústria, padronizada para um consumo de massas, sendo definida também como arte. Chega-se ao extremo de rotular apresentadores de programas de auditório, como Hebe Camargo ou Silvio Santos, como “artistas”, nas definições da revista Caras e afins. Monta-se o espetáculo da vida alheia, em que não mais se consomem apenas os produtos da indústria, como a própria vida glamourosa e perdulária dos novos “artistas”. Se o capitalismo não pode lhe fornecer uma vida minimamente interessante, com algum significado e possibilidade de realização, então ele pode lhe fornecer uma vida fantástica e inventada, ela própria um produto da indústria cultural pronta a ser consumida.

Esta nova concepção de arte, de maneira apenas aparentemente paradoxal, convive lado a lado com a antiga, elitista, que não é de forma alguma deixada de lado, pois ainda cumpre um papel fundamental. A academia, junto a um reduto da burguesia e pequena burguesia “ilustrada”, ainda legitimam e consomem o conceito de arte mais próximo ao cunhado pelos românticos, da arte como algo muito mais “sofisticado”, que, como apresentou Camila Lisboa, apresente “personalidade”, “sentimento”. Fecham-se em uma torre de marfim e comemoram entre si sua erudição tirando sarro de grandes ícones do mercado literário, como Paulo Coelho, para esconder atrás de uma fachada de arrogância, como os românticos faziam, sua própria situação de marginalidade. A convivência dos dois critérios de arte é evidenciada no artigo da dirigente do PSTU quando ela sente a necessidade de apontar a produção de Amy Winehouse como “arte verdadeira” (ou seja, há a necessidade de diferenciação de uma “arte falsa”, que é a produção estereotipada para consumo da classe trabalhadora e das massas).

A partir da convivência destes dois critérios do que seria a arte, ambos legitimados pela burguesia a partir de diferentes instituições e para diferentes públicos, mas ambos cumprindo papéis importantes para esta classe, há muitos que consideram que a postura progressista que devemos adotar é justamente a de um conservadorismo, de nos apegarmos à definição elitista de arte e de tentar fazer girar a roda da história para trás no que concerne ao conceito de arte. Ainda que de maneira caricata, é isso o que Camila Lisboa procura fazer. Levando esta concepção às suas últimas consequências, se acreditaria que a superação da degradação do conceito de arte imposta pela própria burguesia seria a de voltarmos a fazer uma arte “sofisticada”. Esta concepção de arte visa também deslegitimar qualquer produção cultural que surja das próprias massas e dos trabalhadores, como o hip hop, o graffite, o cordel. No máximo se aceitam, numa visão populista, como “manifestações da cultura popular”, e não como “arte verdadeira”. Não pode ser este papel reacionário que cumpram os revolucionários, com um apoio envergonhado e confuso a esta retrógrada concepção de arte. Precisamos ter uma visão marxista, radical, de questionar até o fim e não nos adaptarmos ao conceito de arte que nos quer impor a burguesia, seja em sua variante “popular e de massas”, seja em sua variante “acadêmica e erudita”.

É neste ponto fundamental que avançaram teóricos marxistas que se debruçaram especificamente sobre a questão da arte – e particularmente a literatura – como Raymond Willians e Terry Eagleton. A tarefa que nos cabe hoje, no campo da arte, é primordialmente não capitular à definição burguesa de arte, o que não significa rejeitar unilateralmente toda a produção da indústria cultural, mas sim questionar o que isto quer dizer. Não é à toa que há tantas discussões acadêmicas que chegam à metafísica para procurar a definição do que é arte, dando voltas em torno de si mesma. Como disse Trotsky, em outro contexto, “para sua guerra de palavras a pequena burguesia procura a quarta dimensão”. Não podemos cair nesta armadilha.

Acima de tudo, precisamos construir um partido revolucionário que possa dar ao proletariado a direção necessária para que este tome o poder e, a partir daí, cumpra a tarefa imprescindível no campo da cultura, que é a única capaz de fazer a humanidade dar um verdadeiro salto no terreno da educação, da arte, da ciência, e que foi apontada por Trotsky e André Bretón no Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente: “A arte verdadeira, a que não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores do homem e da humanidade de hoje, tem que ser revolucionária, tem que aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a criação intelectual das cadeias que a bloqueiam e permitir a toda a humanidade elevar-se a alturas que só os gênios isolados atingiram no passado.13 Ou seja, nossa tarefa essencial é lutar para que todos possam ter acesso e produzir “arte”, para que esta deixe de ser uma tarefa especial, para eleitos e privilegiados, e, enfim, se torne obsoleto o próprio conceito de arte. Se não cabe ao partido ditar regras fixas para a arte, mas sim permitir a liberdade total no terreno da criação, será tarefa primordial da ditadura do proletariado iniciar um processo de transição para que possamos colocar por terra a antiga e insuperada divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho braçal com esta perspectiva.

 

 

2 O processo de deriva estratégica que assolou os jovens quadros dirigentes da IV Internacional após a morte de Trotsky e também com as enormes dificuldades apresentadas pelos contraditórios resultados da II Guerra Mundial (este processo inclui Nahuel Moreno, teórico reivindicado pela LIT-QI, corrente internacional do PSTU) é explicado em maiores detalhes no artigo “En los límites de la ‘restauración burguesa’”, disponível em http://bit.ly/f62Whx e a ser publicado em português em breve na revista Estratégia Internacional Brasil 5.

3 A Folhateen é um caderno semanal do jornal Folha de S. Paulo dedicado espeficiamente ao público adolescente. É um exemplo contundente de como a burguesia procura pasteurizar a juventude e assimilar sua característica de ser frequentemente linha de frente nas mobilizações para criar uma paródia disso em mais um “grupinho identitário” a ser transformado em um nicho de mercado ou uma imagem de jovens “rebeldes” a ser reproduzida sem nenhum conteúdo político perigoso para a burguesia. Seria mera coincidência que este caderno e outro denominado Fovest (dedicado ao vestibular) já tenham colocado em suas páginas entrevistas e matérias sobre mais de um dirigente de juventude do PSTU, como Gabriel Casoni (então diretor do DCE da USP) ou Clara Saraiva? http://bit.ly/oDqYcD E por que a juventude do PSTU se presta a ser matéria prima para matérias que procuram desmoralizar o movimento estudantil, como a que diz “Líderes estudantis atrasam a formatura em nome da militância”? http://bit.ly/oepOLe Provavelmente porque consideram que assim, nas páginas da Folhateen, poderão “dialogar” melhor com a juventude.

4 Site do Movimento de Trabalhadores da Cultura: http://www.culturaja.com/

5 Exemplo marcante foi a contratação de Ferréz, um dos mais conhecidos escritores da literatura marginal, como roteirista do seriado protofascista “9mm” da Fox, propriedade do reacionário Rupert Murdoch. http://bit.ly/pOgkHR

6 “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, disponível em http://bit.ly/mZk8Xu

7 Российское телеграфное агентство (Agência Telegráfica Russa), dirigida por poetas e artistas plásticos, de 1919 a 1921 foi responsável pelas famosas vitrines satíricas, que tinham o objetivo de fazer propaganda revolucionária e agitação contra os brancos entre as massas. Combinavam frases curtas com imagens.

8 Não por coincidência, enquanto este artigo era escrito surgiu nos noticiários mais um caso destes, uma triste rotina em nossa sociedade: http://bit.ly/npZUtw. Junto ao corpo do assassino, que se suicidou, foi encontrada uma carta ressaltando o “amor” que sentia pela vítima. Sem dúvida, era para ele um sentimento de dor e automutilação, tão grande que o levou a assassinar a ex-companheira e cometer suicídio. Será isto um ato de “rebeldia” ou mais uma expressão do profundo machismo de nossa sociedade?

9 Citado do livro organizado por Gilson Dantas com excertos de “O combate sexual da juventude”, de Wilhelm Reich. Centelha Cultura, Brasília, 2011. p. 41.

10 Para uma discussão mais profunda sobre o importante papel ideológico que a literatura cumpriu frente à decadência da religião e o ascenso da burguesia, ver “Introdução à crítica literária”, de Terry Eagleton.

11 Ainda que estes próprios poetas, em seus melhores momentos, expressassem em suas obras a situação contraditória de sua própria condição de artista. Para um exemplo disto, ver “A representação do dinheiro na ironia de Álvares de Azevedo” http://bit.ly/nEAgrD

12 “Amy Winehouse, a indústria cultural e a questão das drogas” http://bit.ly/qy1T3t

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Os “indignados” chegaram ao Estado de Israel

por Miguel Raider

“A Praça Rotschild é nossa Praça Tahir e os políticos devem pagar por seus erros”, disse um jovem estudante de Tel Aviv em sintonia com as reivindicações democráticas da Primavera Árabe. O movimento dos “indignados israelenses” cresceu com grande vigor. O aumento dos preços gerou um movimento de protesto social contra a carestia de vida e direito a moradia, cada vez mais inacessível.

Tudo começou há algumas semanas com um boicote a compra de queijo cottage, o queijo de maior consumo israelense cujos preços aumentaram 40%. “O povo quer justiça social”
foi uma das consignas cantadas nas novas manifestações simultâneas de mais de 150.000 pessoas, um evento inédito na história de Israel com epicentro em Tel Aviv, Jerusalém, Haifa, Ashdod e Beersheva.

A legitimidade das reivindicações foi aprovada pelos trabalhadores de 265 municípios, que se solidarizaram parando as oficinas públicas e abandonando a coleta de resíduos. Grupos de pais marcharam exigindo o rebaixamento dos preços e das creches e jardins de infância públicos. Os médicos e os assistentes sociais também se mobilizaram como vem fazendo há semanas por aumento de salários. Ainda que pequena, foi muito significativa a marcha em Nazaré, que contou com a participação conjunta de manifestantes judeus e árabes. Até os colonos ortodoxos dos territórios palestinos reconheceram a justeza das demandas, mas advertiram sua oposição a propósito do caráter de “esquerda” do movimento. Enquanto uma comissão de indignados se reuniu com o presidente Shimón Peres, a Histadrut (central de trabalhadores sionista) se viu forçada a apoiar as demandas e advertir sobre as possíveis medidas de força.

Os indignados instalaram acampamentos no central Boulevard Rotschild de Tel Aviv, no Parque da Independência de Jerusalém e nas cidades de Ramle, Beit Shemesh, Beersheva e
Kfar Saba. A “revolução das tendas”, como chama o jornalismo, baseia-se num movimento social em que convergem estudantes universitários, jovens profissionais da classe média e uma incipiente intervenção de trabalhadores, embora apoiado por 80% da população, como diz o diário Haaretz.

Os estudantes denunciam que o aluguel de um quarto aumentou 1600 shekels, pouco mais de 465 dólares, subindo 533% em três anos, acompanhando os preços exorbitantes das
propriedades, desencadeados pela especulação imobiliária. O cansaço da classe média responde ao peso oneroso dos impostos (água, combustíveis, carros, etc), com que o tesouro israelense financia o parasitismo dos judeus religiosos ortodoxos e as colônias e assentamentos na Cisjordânia, uma necessidade intrínseca ao expansionismo sionista. Entretanto, o Ministério da Habitação e Construção está se preparando para construir um complexo de edifícios nas colônias de Betar Illit e Karnei Shomron e as classes médias e os assalariados
são privados do direito a moradia.

Unidade entre trabalhadores árabes e judeus

Os indignados denunciam a política neoliberal do governo direitista de Benjamín Netanyahu baseada nas privatizações, desregulamentação do mercado de trabalho e concentração da riqueza em apenas 20 famílias que monopolizam 50% do mercado de valores. Embora o desemprego seja baixo (5,7%), o abismo social entre as classes mais ricas e as classes mais pobres aumentou com baixos salários e concessões infinitas para os grandes empresários.

A crise já implicou na demissão de Haim Shani, segundo chefe do Ministério das Finanças, a partir das diferenças expressas com Netanyahu e seu superior, o ministro de Finanças, Yubal Steinitz. A diferença apressou a aprovação das contas entre o gabinete de ministros e o tesouro israelense que se opõe aos grandes subsídios passados às grandes construtoras. Com pouco tato Netanyahu qualificou de “incapazes” os funcionários dessa área, situação que incendiou a ira dos indignados que exigem o direito à habitação.

Shas, um dos três partidos que compõe a aliança com o governo, ameaçou retirar-se do poder executivo pressionado pela sua base composta por judeus mizrahis (orientais), que são o setor mais pobre e compõe a metade da população de Israel.

Benny Gantz, chefe da Força de Defesa de Israel, questionou a possibilidade de cortar o orçamento de defesa, como uma ameaça a hegemonia militar o Estado judeu no Oriente Médio. Enquanto, Netanyahu se viu obrigado a postergar sua visita a Polônia com a finalidade de persuadir o governo para que se oponha ao reconhecimento de um Estado palestino antes da sessão de setembro da Assembleia da ONU defendida pela Autoridade Palestina, um cenário que Netanyahu, Obama e o establishment americano preferem omitir para evitar a exposição de suas posições reacionárias.

Netanyahu apóia a política contra-revolucionária das burguesias árabes que, tal como demonstra o regime sírio de Bashar Al Assad, esmaga as mobilizações de massas e suas demandas democráticas com centenas de mortos. Não casualmente Benjamin Ben Eliezer, ex-ministro do Trabalho, Indústria e Comércio, ofereceu asilo político a Hosni Mubarak, o ditador egípcio
responsável por mais de 800 assassinatos.

Com a crise econômica internacional como pano de fundo, o aumento dos preços e a pauperização de amplos setores da população israelense estabelece as bases materiais para uma potencial unidade entre os trabalhadores árabes e judeus. Unidade subversiva que atenta contra as bases sociais do Estado sionista, fundado sobre a opressão nacional do povo palestino a partir de um exército de ocupação e uma política de colonização permanente. Só rompendo com o sionismo, os trabalhadores e os estudantes judeus podem avançar neste sentido, junto ao povo palestino e as massas árabes para tornar concretas todas as suas demandas enfrentando as políticas reacionárias do estado de Israel, as burguesias árabes e o imperialismo norte-americano.

 

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A crise internacional e a “união” sul-americana

por Diego Dalai

A cúpula da Unasul de 28/07 em Lima, convocada à princípio para discutir a “desigualdade social” na América Latina e dar apoio ao novo presidente Ollanta Humala, deu um brusco giro diante da possibilidade de default nos EUA. A reunião de presidentes se transformou numa discussão sobre as conseqüências que uma crise semelhante teria sobre a região e que medidas tomar como proteção.

Surpreendentemente, quem mudou o eixo da reunião foi o colombiano Juan Manuel Santos, um dos principais aliados dos EUA no Cone Sul, alertando que “o dólar pode continuar desvalorizando-se e nossas reservas, por fim, perdendo cada vez mais valor e, ao mesmo tempo, nossa economia perdendo capacidade de gerar emprego. (…) Temos que fazer algo juntos e pensar medidas entre todos para nos defendermos.” O restante dos mandatários seguiu no mesmo sentido. O equatoriano Rafael Correa até o convidou sarcasticamente a ingressar na ALBA. A presidenta brasileira Dilma Rousseff se queixou de que “não é justo que o país que gerencia o padrão monetário do resto do mundo o faça de qualquer maneira, porque afeta a todos”.
O caráter que tomou a reunião e os discursos alarmistas refutam a visão de que a região é imune à crise dos países centrais (ou de que existe uma certa ‘separação’, como afirmavam alguns analistas) e mostram que o nível de crescimento regional, em média de 5% com picos de 9% como na Argentina, pode ser gravemente afetado pela crise nos EUA e Europa.
A exposição frente a crise mundial
Ainda que a região até agora não tenha sido golpeada de forma direta pela crise e, ao contrário, tenha se beneficiado de alguns de seus efeitos (como o aumento de preços dos alimentos e das commodities, o que de todas as maneiras provoca forte inflação), está gravemente exposta aos vaivéns das finanças e da economia mundiais.
Um eventual default norte-americano, assim como o aprofundamento da crise na Europa, golpearia fortemente a América Latina. Em primeiro lugar, porque esta região é de conjunto um dos maiores credores norte-americanos (portador de títulos da dívida dos EUA), depois de China e Japão, por isso seria muito afetada se caísse a qualificação dos títulos. Em segundo lugar, porque os países latinoamericanos têm juntos 700 bilhões de suas reservas em dólares, que perderiam grande parte de seu valor com a desvalorização da moeda norte-americana.
Particularmente o Brasil, a maior economia regional que em caso de crise poderia arrastar todos os seus vizinhos, tem mais de 200 bilhões de suas reservas em títulos da dívida norteamericana. A Argentina, a segunda maior economia regional, tem cerca de 50 bilhões de dólares em sua reserva.
Debilidades do crescimento latinoamericano
Outro dos grandes temores é que uma desvalorização maior do dólar provoque a queda da balança comercial da maioria dos países (numa região onde os EUA continua sendo o principal sócio comercial): o que provavelmente traria uma invasão de mercadorias estrangeiras que liquidaria as já pouco competitivas indústrias locais[1], e as exportações seriam muito menos rentáveis.
Além disso, o default dos EUA ou o aprofundamento da crise na Europa poderiam provocar a saída de capitais especulativos de alguns ativos financeiros, como por exemplo os alimentos ou commodities, reduzindo seus preços internacionais, debilitando enormemente a base da maioria das economias latinoamericanas, como o agronegócio na Argentina ou o cobre no Chile.
Entre os discursos de unidade e os interesses capitalistas
Diante deste complicado cenário, todos disseram que a chave é unir esforços para fortalecer a região e evitar um colapso, apostando no fortalecimento da Unasul. Sem dúvida a realidade mostra a fragilidade dos esquemas de crescimento em que se baseiam hoje os países da região. A dependência do capital especulativos, dos preços das matérias-primas e o ritmo de desvalorização do dólar, geram também contradições e fricções no interior do bloco.
Ainda na cúpula da Unasul, votaram a realização de novas reuniões para os próximos dias para discutir medidas concretas de “blindagem” frente a um possível agravamento das condições econômicas internacionais. Assim como em crises anteriores, verão que são absolutamente impotentes para alcançar um consenso que possa favorecer a todos. Pelo contrário, cada país defende seus próprios interesses em base a acordos e laços que os unem aos países imperialistas. Assim mostra o próprio discurso de Cristina contra os capitais especulativos que são uma das bases do crescimento brasileiro, país que mantém altas taxas de juros para atrair estes capitais. Mesmo assim, o recente anúncio de Dilma Rousseff de outorgar subsídios do Estado aos empresários brasileiros de 16 bilhões de dólares é visto com receio pelo empresariado argentino que teme uma maior competitividade dos países vizinhos.
O mais provável é que frente aos primeiros efeitos da crise, mais que uma resposta unificada, veremos um “salve-se quem puder”. E que longe de “aprofundar o desenvolvimento social” buscarão descarregar os efeitos da crise sobre os trabalhadores e o povo pobre. Mais que nunca, os explorados devem levantar os punhos para que a crise seja paga pelos capitalistas e o imperialismo.
UNASUL e a “união” (burguesa) latinoamericana
A União de Nações Sul-americanas foi fundada em 2008 como um organismo de “integração” constituído por 12 países da região. A idéia propagandeada por Chavez e outros “progressistas” latinoamericanos de que os países atrasados podem se desenvolver e se tornar independentes do imperialismo pelas mãos de sua própria burguesia “nacional” e “produtiva” tem se demonstrado totalmente falsa e, algumas vezes, até reacionárias. Quando o presidente colombiano Uribe, abertamente pró-imperialista, outorgou 11 bases militares aos EUA fortalecendo sua presença militar na região, estes progressistas não foram capazes de opor nenhuma resistência além de declarações e discursos. Quando aconteceu o golpe de estado em Honduras gritaram e encheram a boca pra falar em ‘democracia’, mas promoveram as negociações e pacto de San José que deu tempo aos golpistas (até os reconheceu como parte do conflito) para logo aceitar as ‘eleições’ apontadas pelo governo de fato.
Outro fiasco é o “Banco do Sul” proposto há anos, mas que até hoje não se concretizou, o que se vê menos possível num horizonte de crise no qual os principais países da região se negam a utilizar parte de suas reservas para salvar outros países.
Além da incapacidade de se opor seriamente ao imperialismo e seus lacaios, os governos que fundaram e dirigem a Unasul, vêm mantendo (e aprofundando) a dependência das economias regionais ao capital transnacional. Longe de qualquer política séria de industrialização e desenvolvimento, as burguesias nacionais e os governos “progressistas” continuam reprimarizando as economias tornando-as cada vez mais dependentes da exportação de matérias-primas, alimentos e commodities (produtos de baixo valor agregado).
Somente a classe trabalhadora e os pobres da cidade e do campo, enfrentando o imperialismo e seus sócios – as burguesias locais – podem dar uma saída progressiva e colocar em pé a
verdadeira união latino-americana, uma federação de repúblicas de trabalhadores e socialistas da América Latina.
[1] A Colômbia, por exemplo, exporta aos EUA 40% de suas exportações. Uma situação inversa se daria no caso do Equador, que tem sua economia dolarizada há anos (o que Correa tem mantido invariável), e que se veria relativamente beneficiado com uma desvalorização do dólar, pois favoreceria suas exportações tornando-as mais “competitivas” frente a seus “sócios” regionais.
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